As primeiras sessões de gravação do U2 | U2 Brasil
1 de março de 2018 · Notícias
As primeiras sessões de gravação do U2
VickyPostado por Vicky

O U2 lançou Songs of Experience um pouco antes do Natal como parte complementar do seu trabalho de 2014, Songs of InnocenceSongs of Innocence foi inspirado pelas memórias da sua juventude na Dublin dos anos 70, com Bono o descrevendo como “o álbum mais pessoal que nós já escrevemos”.

Songs of Innocence tocou as memórias que estavam guardadas com uma visão de 40 anos passados. As chances de que o U2 lancem músicas que realmente foram gravadas na década de 1970 são remotas – músicas estas que também exploraram os mesmos temas – mas na época que eles eram crus e repletos de dor. Uma coleção de primitivas demos do U2 – todas elas gravadas antes do seu lançamento oficial em setembro de 1979 – foi em grande parte delegada aos cofres. Para a decepção de muitos ávidos fãs, os antigos mercenários do mercado de bootlegs nunca conseguiram colocar suas mãos sujas em mais do que algumas delas.

Embora não sejam pedras preciosas que estão guardadas nos cofres, as fitas fornecem, pelo menos, alguma ideia de como o som do U2 evoluiu.

A primeira sessão de gravação demo do U2 foi parte de um prêmio como vencedores de um concurso de talentos realizado em Limerick em março de 1978. Enquanto alguns trechos destas gravações foram transmitidos durante entrevistas de rádios com a banda, a sessão permaneceu praticamente fora do alcance dos bootlegers; e mesmo os mais ávidos sites do U2 declaram ignorância sobre o que foi gravado. Depois de quatro décadas, a Village irá agora finalmente – e com exclusividade – revisitar as primeiras gravações feitas pelo U2.

Um dos juízes no concurso de talentos de Limerick era Jackie Hayden (foto ao lado) da CBS Irlanda, que acabou por se tornar uma figura central no sucesso inicial do U2. O baixista da banda, Adam Clayton, sentiu que Hayden “teve um pouco de coragem, ele queria assinar com bandas irlandesas. O resto das gravadoras não estavam interessadas, mas ele ofereceu o melhor que pôde. Ele realmente falou com a CBS para que pagassem pela nossa primeira fita demo”.

A sessão foi realizada em abril de 1978, nos estúdios Keystone em Dublin. De acordo com Adam, “essa era a nossa primeira vez em um estúdio e eu acho que também era a primeira dele como produtor. Ele nos disse para nos posicionarmos como se fosse para um show ao vivo e tocar o set. Tudo foi feito em dois canais. Ele pensou que era uma boa maneira para fazermos uma demo. Então ele pegou as fitas e partiu para Londres para tentar convencer alguém a assinar conosco, mas eles riram. As fitas eram horríveis. Nós são sabíamos disso na época, já que não tínhamos nada para comparar com aquilo.” Hayden não discorda: “Afinal”, ele disse, “foi a primeira gravação da banda, eles estavam extremamente nervosos e ninguém esperava milagres”.

HANG UP

A primeira música nas sessões da CBS foi chamada de Hang Up. Como a maioria das composições originais, as letras evocavam as angústias adolescentes. Nela, Bono suplica ao telefone para uma futura ex-namorada para não desligar / o tempo é uma cura / o tempo pode ser encontrado (hang up / time is a cure / time can be found). 

TÍTULO DESCONHECIDO (possivelmente SHE’S MY GIRL)

A próxima faixa também é sobre os anseios da adolescência, mas é muito mais interessante como uma dica acerca de como o som do U2 evoluiu. O guitarrista do U2, The Edge, é quem nos explica sobre ela, “Adam é um tipo de pessoa muito ostentadora, você sabe, muito extravagante, quando ele começou a tocar baixo, ele não estava interessado em se aprofundar no aspecto extremo do som, ele queria estar bem ali nas faixas médias… Para dar ao grupo qualquer tipo de clareza, portanto, eu tinha que me manter longe da parte inferior do violão, o máximo que pudesse. Então, eu tendia a trabalhar em torno dos sons que eram tocados. Essa faixa apresenta as primeiras incursões de Adam no seu estilo dos early days. Ela também possui um solo de Edge no exclusivo estilo de rock de garagem/pub daquele tempo. 

STREET MISSIONS

Uma outra versão dessa música apareceu eventualmente em alguns bootlegs . Essa versão não é tão trabalhada quanto a versão posterior e a contribuição de Edge é muito mais tímida aqui. 

CONCENTRATION CAMP

Essa música cresceu para se tornar um dos destaques do set ao vivo do U2 em 1979 quando eles estavam próximos de conseguir o seu contrato de gravação. Ela contém um solo, cortesia de The Edge e é impulsionado por um baixo forte, mas o que se distingue é a entrega vocal rápida de Bono, que é bastante diferente de qualquer outra coisa que eles gravaram durante a sessão. O tema é evasivo. Contudo, a referência aos “dias na escola” sugere que Bono estava sendo levado pela sua ira contra o sistema educacional. Durante uma entrevista em 1979 ele revelou que quando era aluno, ele reagiu contra as demandas excessivas de “inteligência na escola – tudo o que parecia que você não estava lá e estava sendo empurrado para você e eu tive uma reação pesada contra isso.” Ao contrário, como afirma nessa faixa, ele queria viver sua vida essa noite. (live his life tonight). 

TÍTULO DESCONHECIDO

A quarta música é uma mistura lenta com ecos vagos de Shadows and Tall Trees que iria aparecer no seu álbum de estreia Boy em 1980. O tema também é dominado pela descrição da vida nas ruas da cidade de Dublin.

INSIDE OUT

Esta composição esquecida, escrita em 1978, captura a continua evolução e inovação do U2. Isso balança nas cordas do baixo de Adam Clayton. Enquanto isso, Bono canta sobre o sentimento de que ele está de dentro para fora no mundo moderno. Os bootlegers conseguiram capturá-la das fitas de uma entrevista de rádio feita com Bono que a disponibilizou durante a transmissão.

BORN IN THE BACK IN THE STREETS

O U2 quase tropeça até o final desta página com Bono dando desculpas: Não importa se nós fizermos uma bagunça disso, não é? (Doesn’t matter if we make a mess of it, does it?). Eles não voltaram a ela, então pode ser que esta versão incompleta pode ser tudo o que resta deste arranjo. Além das referências a se ter nascido nas ruas de trás, as letras não fazem muito sentido.

Bono admite que em 1979: “eu nunca escrevia letras até o último minuto porque eu estava constantemente escrevendo enquanto trabalhávamos as músicas. Elas eram construídas subconscientemente porque eu acho que posso escrever exatamente o que eu quero subconscientemente, melhor do que qualquer coisa que faça parado, sentando e tentando. Quando a música estiver completa – e a ideia é certa – então eu organizo as letras.”

A performance é incômoda, destacando o problema causado pelo procedimento de escrita caótico da banda, que não envolvia o baterista Larry Mullen Jr. até a formatação final de uma nova música. Como Mullen explicou uma vez: “Adam, Dave e Bono costumavam escrever as músicas e dizer: ‘Larry você chega às quatro e vamos gravar a bateria para isso…’ Eu aparecia para colocar a bateria, e eu não estava vendo como as canções eram feitas. Um dos desenvolvimentos cruciais no futuro seria o seu envolvimento mais próximo no processo.

NIGHT FRIGHT

Essa é a última composição original das sessões da CBS. Musicalmente ela é semelhante a Born in The Back in The Streets. Nela, Bono canta sobre a noite esperando por mim (waiting for me), sobre sentir-se livre (feeling free) e não ir para casa (coming home). Quando eles chegaram ao final da peça, Bono comentou com Hayden que a banda “poderia executar números curtos, mas não conseguiam encontrar um ponto”. Eles não se incomodaram com isso, o que foi uma pena.

NEON HEART

Depois de alguns minutos de conversa capturados na fita durante a gravação, o U2 toca a sua versão de Neon Heart do Boomtown Rats, uma música que era tocada durante as apresentações ao vivo realizada pela banda naquele momento. De acordo com Bono, “a razão principal pela escolha de Neon Heart não era porque o os Rats fossem uma influência para a banda, mas sim porque ela era fácil de ser tocada. É uma música inacreditavelmente fácil de ser feita.”

2-4-6-8 MOTORWAY

Essa música de The Tom Robinson Band era uma outra faixa que fazia parte do repertório do U2 desde os seus primeiros dias juntos. Durante essa performance fugaz, Bono quase explodiu em gargalhadas, provavelmente devido ao nervosismo.

As sessões de Keystone/Devlin Sessions: “Essa coleção era leve, cheia de espinhas e real”

O U2 entrou novamente nos estúdios em 01 de novembro de 1978, desta vez tendo Barry Devlin, vocalista e baixista do legendário Horslips, como co-produtor.

THE FOOL

Uma das músicas que eles gravaram foi chamada de The Fool. Liricamente ela é desajustada. Como Bono declarou a Hot Press: “eu também gosto do som das palavras – como em The Fool – (onde) alguma das letras não fazem sentido mas eles estão lá pelo som das palavras. Como em “Live in an ocean a world of glad ice” (Viva em um oceano de gelo alegre)… Essa frase apareceu por causa da sua cor real.”

O tolo (The Fool) ao qual o título se refere era um dos alter-egos de Bono quando estava no palco, um que quebrava “todas as regras… Apenas um tolo, bobo da rua” (all the rules… Just a fool, street jester). Isso aparentemente foi inspirado pelas leituras de Shakespeare em sala de aula.

O personagem, The Fool, foi descartado quando o U2 iniciou a sua trajetória de gravações e agora encontra-se praticamente esquecido. Porém, cinco anos depois de tê-la gravado, Bono foi encurralado durante uma entrevista de rádio nos Estados Unidos: “Eu gostaria de tocar algo bem incomum. Você se importa se eu tocar uma faixa chamada The Fool?”, questionou o DJ a ele. “Não consigo nem dizer se me importo porque não consigo me lembrar da música”, Bono respondeu. De qualquer modo, ele logo se lembrou que foi a primeira música que a banda compôs de “maneira improvisada”. Ele acrescentou “Nós tínhamos 16 anos quando fizemos isso. Na realidade, talvez até mesmo 15. Larry tinha 15, eu 16, ela foi meio produzida por Barry Devlin. Larry quebrou a sua perna. Ou bem, ele realmente atropelou a pé uma moto! Ele estava no estúdio. Tinha 15 anos e nós estávamos tentando fazer uma demo e eu me lembro do pai dele, Larry Mullen Sênior, era como se estivesse batendo a porta do estúdio, dizendo: ‘Eu quero meu filho de volta. Eu quero que ele seja um baterista de jazz.’ Isso é um U2 muito jovem.”

Após tocar a música, o entrevistador comentou que aquela música revelava um U2 muito jovem, um U2 muito frenético ali. “Então vocês tem raízes de garagem?”Bono assentiu com a cabeça, “Ah sim, nós somos a banda original de garagem da terra da garagem (we’re the original garage band from garage land). Se nós pudemos fazer isso, qualquer um pode”.

Não que isso realmente interesse, mas Bono estava enganado sobre ter 16 anos quando gravaram a música. Ele nasceu em maio de 1960, então tinha 18 anos quando a versão de Keystone foi gravada.

SHADOWS AND TALL TREES

Ela também foi gravada e posteriormente transformada na versão gravada para Boy em 1980.

STREET MISSIONS

Essa foi uma das músicas gravadas durante as sessões CBS/Hayden. Com uma influência punk claramente permeando a faixa, especialmente no seu início, onde a interação entre Larry Mullen e The Edge evoca memórias do primeiro álbum do Sex Pistols.

Dave Fanning era fã desta faixa. Depois de uma apresentação do U2 no Dark Space festival para a Hot Press ele escreveu que “Street Missions era ótima. ”

Fanning falou sobre a sessão que “tinha aquele ar efervescente pré-1980, um borbulhante rock-pop aerodinâmico, essa coleção era leve, cheia de espinhas e real.

Quase lá, as gravações de 1979 no Eamon Andrew Studio

FALSE PROPHET

A próxima incursão do U2 aos estúdios aconteceu no Eamon Andrew Studios, em Dublin, em fevereiro de 1979, onde gravaram uma composição original chamada False Prophet. A letra era uma mistura de referências bíblicas contendo até mesmo uma referência bizarra ao “menino do século 20” (20th century boy), uma frase indubitavelmente emprestada da gravação do mesmo nome do falecido Marc Bolan, uma das estrelas do glam rock dos anos 70. Bolan que cantou e tocou com o T-Rex foi um dos primeiros ídolos de Bono. Ele mesmo afirmou: “Eu sempre disse que há apenas um homem que me fascinava quando eu era um pré-adolescente, e esse era Mark Bolan”.

TWILIGHT

Essa música retornou como um B-side do segundo single do U2, Another Day, que foi lançada um ano depois. Essa versão foi gravada por cerca de 15 minutos sem um produtor. O resultado foi cru, mas dava uma boa ideia do que estava por vir. É um exemplo perfeito da interação entre a base animada de Clayton e o estilo blues “ice-picky” de The Edge.

JOHNNY SWALLOW

Essa é uma versão inicial da gravação ambiente que apareceu no B-side do single Fire de 1981. Era totalmente diferente de tudo o que eles haviam lançado até aquela época, era uma sinalização do apetite por experimentação que se tornaria evidente muito tempo depois. Liricamente há referências sobre “sentir um fogo” (feeling fire), como no single Fire , indubitavelmente teve a sua inspiração na Bíblia.

Eles também gravaram Another Time, Another Place, que acabou por aparecer em Boy, The Magic Carpet (também chamada de Life On A Distant Planet, que por sua vez surgiu como parte de bootlegs da apresentação realizada no National Stadium em 1980) e Alone in the Light, um snippet que pode ser encontrado no Youtube.

Houve mais algumas gravações para a CBS posteriormente neste ano que acabaram por se tornar a primeira gravação oficialmente lançada pela banda, U23. Uma das faixas que se mantem na obscuridade foi The Dream is Over. Todas as outras faixas gravadas foram eventualmente lançadas de uma forma ou outra.

As sessões de Dave Fanning: mais algumas pedras brutas preservadas

No ano passado, Ian Wilson, que gravou as sessões de Dave Fanning para RTÉ, mergulhou em seus cofres e encontrou algumas gravações demos que nunca chegaram a ser lançadas oficialmente, nem mesmo como B-sides. Elas incluíam Jack In The Box Trevor.

Larry Mullen, o ingrediente mágico do U2

Larry Mullen descreveu seu estilo de bateria como “incompreensível”. “Eu também tive um palco, quando um cara tentou me explicar os toques e sons do jazz”, ele explicou. “Esse professor estava realmente influenciado por  Steven Gadd (lendário baterista, um dos mais influentes, nascido nos Estados Unidos; além do seu trabalho solo, já tocou com nomes como James Taylo, Eric Clapton e Joe Cocker, dentre outros), ele era seu ídolo. Eu acho Steve Gadd um grande baterista, mas esse professor podia tocar os discos de Gadd e apenas me dizer para tocar daquele modo. Eu também estava ensaiando com o U2 naquela época, então eu acabei por desistir dele. Eu não podia simplesmente sentar ali e imitar alguém.” Mesmo assim, o gosto pelo jazz acabou por ter ampliado a sua gama e levou a que acabasse por preencher alguma das viradas de bateria ao invés das previsíveis batidas de rock, o que auxiliou o U2 enquanto se esforçavam para criar o que tornaria seu som distintivo.

A adaptabilidade de Mullen, sua inventividade e seu senso geral de timing foram cruciais para o desenvolvimento do som do U2. A combinação criou o espaço para a dinâmica entre Clayton e The Edge, para florescer em vez de sufocá-lo.

O lendário produtor Brian Eno descreveu os instintos de Larry como “assombroso”. Eno, que produziu muitos dos melhores álbuns do U2, descreveu como Mullen uma vez insistiu no estúdio que o clique de rastreamento da banda estava usando era uma fração de uma batida da banda. Depois que ele saiu do estúdio, Eno descobriu que estava atrasado por cerca de seis milissegundos.

Há semelhanças intrigantes entre Mullen e Charles Watts dos Rolling Stones. Watts não apenas usufrui de um raro talento para timing mas também tem que dançar sob o dominador estilo de um dos guitarristas da sua banda, Keith Richards, o responsável por ditar o ritmo da guitarra dos Stones desde 1962. Quando Bill Wyman, o baixista original dos Stones, foi perguntado sobre como descreveria as características do som da banda ele respondeu que era “provavelmente uma questão de personalidade”. Ele descreveu como Richard “era um guitarrista muito confiante e teimoso”. Novamente, timing era tudo. “Toda banda de rock and roll segue o guitarrista, certo?”, Wyman respondeu retoricamente. “Se o baterista desacelera, a banda desacelera com ele ou acelera quando ele o faz. É assim que as coisas funcionam – exceto para a nossa banda. A nossa não segue o baterista; nosso baterista segue a guitarra rítmica, que é o Keith. Imediatamente você tem algo como um centésimo de segundo de atraso entre a guitarra e a adorável bateria de Charlie… Então com Charlie seguindo Keith, você tem aquele minuto de atraso. Adicionando o fato que eu tenho a tendência de me antecipar porque eu conheço o tipo de coisa que Keith vai fazer. Então isso me faz dividir aquele segundo a frente com Keith. Quando você realmente ouve isso, parece apenas um pulso…”

Claro que a fórmula do U2 não é a mesma dos Stones, mas a adaptabilidade e as habilidades inatas dos seus cavalheiríssimos bateristas para lidarem com o tempo podem muito bem ser o “incompreensível” ingrediente por trás do seu sucesso duradouro. É inacreditável pensar agora que nos primeiros dias do U2, alguns dos chefões da CBS falharam em reconhecer a promessa do estilo em Larry, e chegaram até a sugerir que ele fosse substituído. O resto do U2 sabia o que era melhor e não ouviu nada disso.

Fonte: Village Magazine


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