Bono concede entrevista à Rolling Stone | U2 Brasil
24 de setembro de 2017 · Bono · Songs of Experience
Bono concede entrevista à Rolling Stone
Postado por VictorRuyz
bonors20172

Pouco antes de The Edge usar o telefone para falar com a Rolling Stone sobre o próximo álbum do U2 – “Songs of Experience” -, a “dança com a mortalidade” de Bono – que transformou o sentido lírico de suas composições -, e seus pensamentos sobre a próxima turnê de arena da banda, enviamos diversas perguntas via e-mail para Bono. Era um dia de folga entre os shows e ele não queria forçar sua voz. Abaixo estão as mensagens trocadas:

Vocês começaram este álbum há três anos quando o mundo era um lugar muito diferente. Como o caos do Brexit, Trump e tudo mais moldaram o curso eventual do álbum? Poderia ter sido um álbum muito diferente se essas coisas não tivessem acontecido?

Sobre a última parte da questão, é difícil quantificar, mas, eu diria que a temperatura emocional subiu cerca de 25%.

Vocês passaram os últimos meses tocando “The Joshua Tree” em turnê enquanto também colocavam os toques finais no novo álbum. A turnê teve um impacto sobre como vocês pensaram “Songs of Experience”? Como?

Na verdade, há algumas razões pelas quais atrasamos o lançamento de “Songs of Experience”. Uma pessoal, uma política. O mundo a nossa volta quase tornou-se irreconhecível, aproximamo-nos de perder a União Europeia, sendo que ela ajudou a manter a paz na nossa região durante quase 70 anos. A globalização substituída pela localização é algo compreensível, mas o retorno de pontos de vista rígidos não é para ser tolerado. Se Marie la Pen tivesse sido eleita presidente da França, toda a ideia de uma União Europeia teria sido vulnerável.

Há o mesmo tipo de descontentamento nos Estados Unidos com a ascensão de um novo tipo de eleitorado, as pessoas tanto de esquerda quanto de direita que perderam a fé no processo político, o corpo político, em instituições políticas. Estes sentimentos são facilmente manipulados e executados pelos gostos de Donald Trump. Em um mundo onde as pessoas são intimidadas o tempo todo por suas circunstâncias, às vezes elas recorrem a um intimidador delas mesmas. Muitas pessoas ao meu redor, tanto conservadoras como liberais, sentem que este é um daqueles momentos decisivos em sua vida e na história de seu país. Após a eleição, algumas pessoas da esquerda estavam quase sofrendo, eu diria, e quando eu tentei entender isso, eu percebi que havia um tipo de luto, um luto pela inocência que estava perdida.

Pela primeira vez em muitos anos, talvez em toda nossa vida, o arco moral do universo, como o Dr. King costumava chamá-lo, não estava se inclinando na direção da justiça, igualdade e justiça para todos. A base do debate político, o jingoísmo, o fervor característico do palavreado de Trump, nos lembrou que estávamos sonhando se pensarmos que a evolução se aplicava à consciência. A democracia é um desafio na história e requer muito foco e concentração para mantê-la intacta.

“The Blackout” se inicia falando sobre esta vida, sobre um apocalipse mais particular, alguns eventos na minha vida que mais me fizeram lembrar da minha mortalidade, mas depois segue para a distopia política para qual estamos indo agora. “O dinossauro questiona por que ele ainda anda pela Terra. Um meteoro promete que não vai causar uma colisão”, teria sido uma linha engraçada sobre uma estrela do rock envelhecida. É um pouco menos engraçado se estamos falando de democracia e velhas certezas – como a verdade. O segundo verso “Estátuas caem e a democracia está no chão, Jack. Tínhamos tudo, e o que tínhamos não está voltando, Zach. Uma boca grande diz ao povo que eles não querem ser livres de graça. Será o apagão um evento de extinção que veremos?” Vai direto ao grande quadro do que está em jogo no mundo agora. 

Há uma música chamada “Get Out Of Your Own Way”, onde eu tentei usar alguma ironia para refletir a raiva nas ruas: “Fight back, don’t take it lying down you’ve got to bite back. The face of liberty is starting to crack, she had a plan until she got a smack in the mouth and it all went south like freedom. The slaves are looking for someone to lead ‘em, the master’s looking for someone to need him. The promised land is there for those who need it most and Lincoln’s ghost says get out of your own way.” [Lute, não seja atingido deitado, você tem que revidar. A face da Liberdade está começando a rachar, ela tinha um plano até que ela levou um tapa na boca e tudo foi para o sul como independência. Os escravos estão procurando alguém para liderá-los, o mestre está procurando alguém para precisar dele. A terra prometida está lá para aqueles que mais precisam e o fantasma de Lincoln diz para sair do seu próprio caminho.]

Muitos dos seus álbuns foram feitos tanto com um produtor único quanto com o time Brian Eno e Daniel Lanois. Por que vocês trabalharam com tantos produtores diferentes em um único álbum?

Desde “The Joshua Tree”, eu acredito que não fizemos um álbum com menos de 4 produtores. Embora Flood não seja creditado como produtor em “The Joshua Tree”, sua participação foi extraordinária. “Achtung Baby”, ele foi creditado como produtor com Eno, Lanois e Steve Lillywhite. 4 produtores parecem ser o caminho para nós, um para cada membro da banda. À propósito, foi uma piada. Acho atualmente que tem 5 nesse.

Quando conversamos há alguns meses, você foi crítico da produção em “Songs of Innocence”, alegando falta de “coerência”, “deveria ter sido mais cru” e que algumas canções soam melhor ao vivo. O que você fez dessa vez para ter certeza que isso não aconteceria novamente?

Thomas Friedman em seu livro Thank You For Being Late (Obrigado pelo atraso) conta sobre como máquinas, quando estão em estado de pausa, cessam produtividade, mas os humanos quando estão em estado de pausa iniciam um processo diferente de produtividade. A pausa em nosso álbum nos deu a chance de tocar nossas músicas ao vivo em estúdio, indo para sua essência sem nenhum truque de estúdio para ver o que realmente tínhamos. Foi um grande presente para o álbum embora em alguns caso nós não queríamos tocar com aquele sentimento de ao vivo, nós aprendemos tanto sobre as músicas que nos ajudou com a coesão.

No The Tonight Show você adicionou letras em “Bullet the Blue Sky” que foram ironicamente sobre Trump. É um sinal que vocês vão falar (ainda mais) sobre os perigos que ele coloca ao mundo?

É um início, como eu sempre acreditei em trabalhar através do corredor como um ativista anti-pobreza, mas isso não é uma questão de esquerda ou direita. Há um tirano no comando e o silêncio não é uma opção.

Vocês falaram sobre como querem que o U2 crie diversão nesses tempos insanos. Você pode comentar sobre isso?

Diferente da felicidade, diversão é uma das emoções humanas mais difíceis de se inventar para um artista mas é uma marca dos meus artistas favoritos, seja os Beatles, Prince, Beethoven ou Oasis. É a vida se forçando. E acredito em dizer algumas palavras de gratidão simplesmente por estar vivo. Sem dúvida, enquanto penso nisso, Beethoven tem seu “Ode to Joy”. The Supremes cantando “Stop in the Name of Love” para mim é uma das grande canções antiguerra. Embora penso que é sobre traição amorosa, o auge da melodia, a simplicidade das declarações podem ser Ramones, Coldplay, mas eu não acredito que exista algo mais desafiador do que divertir em tempos difíceis. E a essência do romance é desafiador. É aí que o rock & roll entra, é isso que nos torna útil. Devemos resistir nos rendendo a melancolia penas em momentos especiais. É um longo caminho para dizer para conferir nosso novo single, “You’re the Best Thing About Me”, é tipo um Supremes punk.

Quais são os temas comuns que unem as músicas em “Songs of Experience”?

Eu tento não falar muito de William Blake, porque parece pretensioso citar um gigante literário, mas belisquei a sua ótima ideia para comparar a pessoa que nos tornamos através da experiência à pessoa que partiu na jornada. Se você está falando de inocência, provavelmente já a perdeu, mas acredito no fim da experiência, é possível recuperá-la com sabedoria. Eu não estou dizendo que eu tenho muito disso, mas o que eu tenho, eu queria colar nessas músicas. Eu sei que o U2 entra em cada álbum como se fosse o último, mas ainda mais desta vez eu queria que as pessoas ao meu redor soubessem exatamente como eu sentia. Então, muitas das músicas são uma espécie de carta, cartas para Ali, cartas para meus filhos e filhas, na verdade nossos filhos e filhas.

Tem uma música chamada “The Showman”, que é uma carta ao nosso público, é sobre os performistas e como você não deve confiar muito nele. É sobre mim, haha. Há uma frase engraçada, bem, eu acho engraçado de qualquer jeito, “Eu minto para ganhar a vida, gosto de deixar transparecer, mas você faz isso quando canta junto?”.

É como uma melodia do tipo Fifties Beatles-in-Hamburg. Há uma carta à América chamada “American Soul”, Kendrick Lamar usou um pouco disso para sua canção “XXX” em seu novo álbum. E tem uma música que eu não percebi até muito tarde que eu estava escrevendo para mim mesmo, “The Little Things That Give You Away”. Em todas essas músicas do tipo conselho, você está, naturalmente, pregando o que você precisa ouvir. Nesse sentido, todos estão escritas para o cantor. Uma outra peça em Blake, eu não sei se estou explicando muito aqui, mas as melhores músicas para mim são muitas vezes argumentos com você ou argumentos com alguma outra versão de você. Mesmo cantando nossa música “One”, que foi meio ficção, tive essa luta em andamento. Em “Little Things”, a inocência desafia a experiência: “I saw you on the stairs, you didn’t notice I was there, that’s cause you were busy talking at me, not to me. You were high above the storm, a hurricane being born but this freedom just might cost you your liberty.” [Eu vi você na escada, você não notou que eu estava lá, porque você estava ocupado falando comigo, não para mim. Você estava alto acima da tempestade, sendo um furacão nascido, mas essa independência pode custar-lhe a sua liberdade.]

No final da música, a experiência quebra-se e admite seus medos mais profundos, tendo sido chamado por seu ser mais novo, mais bravo e mais ousado. Essa mesma conversa também abre o álbum com uma música chamada “Love Is All We Have Left”. Minha frase favorita de abertura para um álbum do U2: “Não há nada para impedir que este seja o melhor dia de sempre”. No segundo verso, a inocência adverte a experiência: “Agora você está na outra extremidade do telescópio, sete mil milhões de estrelas em seus olhos, tantas estrelas, muitas formas de ver, hey, não é tempo de não estar vivo”. É um momento de arrepio – no coro que eu fingi ser Frank Sinatra cantando na lua, uma canção de ficção científica “amor, o amor é tudo o que nos resta, um bebê chora na porta da porta, o amor é tudo o que nos resta.”

Fonte: Rolling Stone


Compartilhar notícia