1960/1975 - Stories for Boys | U2 Brasil

 

1960/1975 – Stories for Boys

U2_by_u2_cover

Páginas 14 a 20 – BONO

Você não se torna um rock star ao menos que você tenha algo faltando em algum lugar, isso é óbvio para mim. Se você tivesse boas condições mentais ou fosse uma pessoa mais completa, você poderia se sentir normal sem 70.000 pessoas por noite gritando seu amor por você.

Blaise Pascal denominava esse sentimento de buraco do formato de Deus (God-shaped hole da letra de Mofo). Todo mundo tem um, mas os de algumas pessoas são maiores e mais sombrios que os de outras. É um sentimento de abandono, um deslocamento no espaço e no tempo.

Algumas vezes isso sucede a perda de alguém que amamos. No meu caso, eu era como o personagem daquela velha canção de blues “Sometimes I feel like a motherless child” (às vezes me sinto como uma criança sem mãe). Tantos anos depois, o meu buraco ainda consegue abrir. Eu acho que não é possível enchê-lo completamente nessa vida. Você pode tentar enchê-lo com músicas, família, fé; vivendo uma vida completa, mas quando as coisas estão silenciosas, você ainda consegue ouvir o sibilo do que está faltando.

Eu não tenho muitas memórias antigas da minha vida. Eu conversei sobre isso com meu irmão porque ele também não tem muitas lembranças. A única explicação que podemos dar para isso é que quando minha mãe morreu meu pai não falava nada sobre ela, nunca. Então, como resultado dela ter sido apagada da memória, simplesmente por não querer se lembrar dela, acho que muitas outras coisas foram apagadas também. É uma sina de cantores, perder a mãe. Aconteceu com Johnny Lydon. John Lennon. Parece ser o coração do rock, assim como perder o pai é para o hip hop.

Meu avô Hewson, pelo lado do meu pai, era um comediante. Ele se apresentava no Dame que ficava no Saint Francis Xavier Hall, no centro de Dublin. Eu não o conheci. Alguns dizem que ele morreu de tuberculose, mas é difícil ser definitivo, havia um estigma terrível naquela época. As pessoas tinham o costume de colocar pesos nos sapatos para disfarçar o fato de que estavam enfraquecendo. É uma história bem irlandesa. A Irlanda era como a África naquela época, era um país de terceiro mundo. Havia uma epidemia de tuberculose, então os trabalhadores, se o peso deles diminuía, colocavam chumbo nas botas para conseguir passar na pesagem. Meu pai me contou essa história. Seja lá qual for a verdade, meu avô era um homem infeliz. Na única foto que tenho dele, ele parece muito perturbado, e eu imagino que é assim que uma pessoa se sentiria se estivesse morrendo de tuberculose. Mas, estranhamente, ele continuou se apresentando. Eu acho interessante que esse homem se apresentava no Dame vestido de mulher, mas era tão calmo, até melancólico como pessoa. Eu acho que a peculiaridade de rir muito e depois morder a própria língua é algo recorrente na família.

Os Hewson são uma raça interessante, muito inteligentes, rápidos com palavras cruzadas, um pouco ansiosos no sentido de sempre estarem muito cientes do que está acontecendo ao redor. Apenas meu pai dirigia um carro. Eu não sei o que isso diz sobre a família, mas eu sei que existem algumas pessoas que desejam que eu não dirija. Mas existe melancolia em nós que eu acho que vem do meu avô. Meu pai, Bob Hewson, não deixava que isso transparecesse quando estava em público, mas eu acho que, se ele estivesse sozinho, ele sentia. Você pode sentir o gosto amargo-doce, o sentimento feliz-triste nas músicas do U2.

Minha avó, Rankin, pelo lado da minha mãe, era muito sorridente, o que disfarçava o fato de que por baixo do vestido, ela tinha uma vareta com a qual ela educava, eu acho, 8 crianças. O uso de contraceptivos era proibido na Irlanda e as pessoas tentavam consegui-los do Reino Unido. Ela costumava brincar dizendo que os pacotes eram interceptados no correio e – tarde demais! – nascia outra criança, outra boca para alimentar. Era uma família bem unida. Eles moravam numa área pobre de Dublin, no número 10 da Rua Cowper. A casa da minha avó era sempre muito empolgante, sempre cheia de atividade. Eles cantavam músicas e minha avó tocava piano. Um lugar brilhante, brilhante, nota 10 (acho que foi um trocadilho com o número da casa). Nós chamávamos meu avô de “piada” Rankin. Ele lutou nas trincheiras na Primeira Guerra Mundial e o gás o deixou tossindo pelo resto da vida. Minha mãe, Iris, era a mais velha da família e era bem pequena, uma flor delicada, mas ela assumiu a responsabilidade de cuidar das crianças mais novas. A sua irmã mais próxima e melhor amiga era a Ruth, a historiadora da família. E tinha meu tio Jack, eu o amava. Em qualquer lugar que você fosse, Jack conhecia todo mundo; era impossível ir a um lugar em que ele não encontrasse alguém que ele conhecia. As pessoas sempre vinham dar um aperto de mão. Eu pensava que aquilo era meio tipo Deus. Ele é uma pessoa muito pra cima, muito generosa e foi delirante poder estar perto dele. Jack era um vendedor viajante, assim como muitos dos meus tios, e eles vieram de uma longa linhagem de vendedores viajantes. E de fato eu sou um vendedor viajante. Eu vendo as músicas do U2, porta a porta, cidade por cidade, e eu estimulo idéias como cancelamento de dívidas ou comércio justo e eu penso que devo ter tido essas idéias com os Rankins – o que, por sinal, é geralmente um nome judeu. Todos eles tinham aparência de judeus também. Eu ouvi dizer que os Rankins eram judeus quando estavam na Escócia, depois eles vieram para a Irlanda e não eram mais judeus, e eu acho que isso acontecia muito. Não sei se isso é verdade, mas eu gostaria que fosse.

Minha mãe e meu pai moravam bem perto um do outro. Minha mãe era Protestante e meu pai Católico e o caso de amor deles era praticamente ilícito na época. A Irlanda estava acabando de nascer como país e tudo estava muito agitado. O país estava praticamente em guerra civil com as diferenças de religião, com uma base Católica forte comandando essa nova nação enquanto o Protestantismo era visto como a fé dos antigos mestres, a religião dos invasores. Mas meus pais encararam a situação e se casaram.

Eu nasci em 10 de Maio de 1960, Eu acho que escrevi uma música sobre isso “Uma manhã sem graça acordou o mundo com gritos, eles estavam tão felizes, eu estava tão triste”(“One dull morning woke the world with bawling, they were so glad, I was so sad”). Não é uma grande rima, mas enfim, isso foi Out of control, o primeiro single do U2. Eu realmente cheguei no mundo chorando e aparentemente eu chorei por 3 anos, sem parar. Eu tenho uma vaga lembrança de estar no hospital, com 3 anos, fazendo exames para descobrir o que havia de errado com a criança que só gritava. Foi uma coisa estranha, eles pareciam pensar que talvez tivesse algo a ver com meu coração. Eu tenho alguma lembrança disso, e de uma enfermeira ruiva que eu acho que gostava, mesmo naquela época. Meu coração ainda bate de uma forma própria e exclusiva. Recentemente eu tive que re-diagnosticar meu batimento cardíaco incomum e o médico me disse: “Você é muito saudável, mas você tem o que é conhecido por um coração excêntrico”. Eu disse: “Eu poderia ter dito isso a você!” Eu tive que ir ao melhor especialista que o dinheiro pode pagar para que ele me dissesse algo que todo mundo que me conhece já descobriu há muito tempo.

O choro parou no primeiro dia que fui para a escola. Eu me lembro desse dia. Um garoto se aproximou do meu novo melhor amigo, James Mahon, e mordeu a orelha dele, e eu peguei a cabeça do garoto e a bati em uma grade de ferro. É horrível, mas esse é o tipo de coisa que eu me lembro. Os pequenos pedaços que eu consigo juntar do passado são, quando não violentos, agressivos. Eu nunca gostei de machucar outras pessoas, mas talvez essa fosse uma desculpa para meu comportamento tão ruim.

Eu me lembro de ter tirado uma foto com meu irmão Norman (que é 8 anos mais velho que eu) e não ter gostado. Eu devia ter uns 3 anos. Nós tínhamos 2 leopardos de porcelana que ficavam em cima da lareira, e no final da sessão de fotos só sobrou um leopardo. E eu fui castigado por isso!

Eu era uma criança sardenta que tinha dificuldade de parar quieta desde o início, um bagunceiro cheio de vida e travessura, devia ser um pouco de excesso de testosterona. Eu devo admitir isso pelo primeiro apelido que ganhei da família: o Anticristo. Não era completamente errado. Eu nunca conheci outras crianças que tivessem o apelido de Anticristo! Eu chegava perto das minhas tias e ficava falando que ia destruir as casas delas. Mas, olhando para trás agora, acho que eu era só um pouco elétrico, um pouco esperto, um pouco experimental, só isso. Mas eu ainda sou um pouco assim, até hoje em dia. Quando eu contei a meu pai que Ali, minha esposa, estava grávida pela primeira vez, ele teve uma crise de risos. As lágrimas transbordavam em seus olhos, mas não era de forma alguma uma demonstração de emoção, eram lágrimas de tanto rir. Ele simplesmente olhou para mim e ao invés de me dar os parabéns, me disse a seguinte palavra: “Vingança!”

Eu queria me lembrar mais da minha mãe. Eu me esqueço da sua aparência. Eu tenho apenas algumas vagas memórias. Meu pai costumava fazer coisas, ele era bom em fazer as coisas por conta própria e ele construía armários e esse tipo de coisa. Eu me lembro que ele estava no quarto no andar de cima e estava usando uma furadeira elétrica e de repente ouvimos um grito, um som louco. Minha mãe e eu corremos para a escada e olhamos para cima. Meu pai estava furando um pedaço de madeira enquanto o segurava entre as pernas e a furadeira escapou da madeira e foi direto nas suas partes íntimas. Ele estava em pé, com um olhar de “Eu me castrei!”, e eu lembro da minha mãe literalmente chorando de rir. Obviamente não sabíamos se ele tinha se castrado ou não, mas mesmo minha mãe sabendo que podia ter sido um acidente sério não conseguia parar de rir. Ela tinha um senso de humor muito negro.

Eu tenho algumas lembranças dela rindo desse jeito. Me lembro dela me perseguindo com uma bengala de madeira depois de eu ter feito algo errado. Eu estava correndo para longe dela, apavorado, mas quando eu olhei, ela estava morrendo de rir. Ela não conseguia levar a disciplina assim tão a sério. Essa é uma boa imagem para se guardar.

Meu pai era um homem muito severo, mas todo seu rigor era desperdiçado comigo. Ele era um bom pai de todas as maneiras que você pode razoavelmente esperar, mas a gente se desentendia muito. Eu tenho certeza que era minha culpa na maioria das vezes, mas na natureza sempre tem um alce mais jovem no rebanho que vai desafiar o macho principal na disputa pela supremacia e talvez era isso que acontecia. Talvez ele me visse como um desafiante da posição dele. Eu não me lembro disso dessa forma, mas como já disse, eu não me lembro de muita coisa. Mas eu sei que a gente não se dava muito bem. Eu tenho uma lembrança de uma briga em especial na qual ele me trancou num cômodo. Eu levantei as venezianas, abri a janela e sentei no parapeito com os pés para fora, conversando com meus amigos que estavam no final da rua. Eu tinha 10 anos. Estava dizendo a eles o quão imbecil meu pai era e de repente eles ficaram quietos. Meu pai estava em pé bem atrás de mim me ouvindo falar mal dele, milhões de insultos e descrições cruéis e agora ele estava sabendo de tudo. Pensando bem agora, ele tinha que agüentar muita coisa de mim.

Bob trabalhava no correio como fiscal. Ele estava sempre de mau humor no Natal porque ele tinha que trabalhar muitas horas extras; ele acordava às 6 da manhã e não voltava para casa antes das 9 da noite. Era um mundo invisível para mim. Tentar conversar com meu pai era como tentar falar com uma parede de tijolos. A primeira vez que ele realmente conversou comigo foi na noite em que se aposentou dos correios, quando eu fui para a festa de despedida. Eu costumava ouvir todos os nomes, Genry não sei o que, Gary alguma coisa, mas eu nunca soube quem eles eram e eu não sabia exatamente o que meu pai fazia. Mas nessa festa em 1985 eu conheci todas essas pessoas e elas eram incríveis. Foi num Pub no centro da cidade, e tinha um cara tocando violino, e todos estavam cantando músicas. Um homem que tinha pintado um bigode igual ao do Hitler me apresentou a sua filha e eu perguntei: “Quem é você?” E ela disse: “A filha do Hitler”. Era como um filme de Fellini, muito surreal, o típico senso de humor de Dublin. Depois da festa, meu pai me mostrou o lugar onde trabalhou, onde eu nunca tinha ido antes, e me apontou a cadeira na qual ele costumava se sentar. Uma nova pessoa já tinha se mudado para a cadeira dele. E naquela noite, eu consegui conversar com meu pai pela primeira vez. Nós tomamos um copo de whisky, e ele começou a me contar algumas coisas sobre como era crescer, se tornar mais velho. Eu fiz uma anotação mental para não me esquecer dessa conversa tão facilmente.

A nossa casa ficava na 10 Cedarwood Road. Era uma casa normal, de classe média, tinha três quartos e uma garagem e eu dormia no quarto de arrumações, que era minúsculo. Na parte de trás da casa, havia campos e árvores. Era fantástico. Podíamos sair de casa, trepar em árvores e ficar lá durante o dia inteiro. Desaparecíamos para o meio da floresta. Quer dizer, não era bem uma floresta, mas havia imensas árvores, por isso, para mim era uma floresta. Lembro-me de ter medo, pois havia umas gangues que costumavam vaguear pelo meio dos “campos” e quando nos apanhavam, o que acontecia várias vezes, davam-nos uma carga de porrada ou então ameaçavam enforcar-nos e aterrorizavam-nos. Era um lugar muito interessante. Excitante, mas um bocado perigoso. Entretanto, deitaram as árvores abaixo e construíram as chamadas sete torres, os andares Ballymun.

Não sei porque razão são chamados andares, pois são o primeiro projeto de construção em altura do país. Quando já todas as pessoas na Europa tinham chegado à conclusão de que não gostam de viver umas em cima das outras, decidiram fazer a experiência na Irlanda. Começaram a construção e, no início, parecia algo mesmo moderno, ver os edifícios a crescer. Era incrível! Meu Deus, um projeto de construção em altura! Uau! E com elevadores! Mas fizeram com que as pessoas saíssem do centro da cidade e fossem viver ali, separando assim as comunidades. Gerou-se muita agitação e insatisfação. Nessas torres habitavam gangues muito perigosas, por isso, embora vivêssemos numa rua muito pacata, tínhamos um bairro violento de cada lado. O Finglas de um lado, a ocidente, e o Ballymun do outro. Era como estar no meio de índios e cowboys, no meio de um estardalhaço constante entre bootboys e skinheads. Uma pessoa andava a vaguear pela rua e, de repente, aparecia uma gangue e perguntava: “De que bairro você é?”. E nós pensávamos: “Oh, merda! Esta gangue é do bairro Finglas ou do Ballymun?”

Se déssemos a resposta errada, haveria morte. Por isso, eu e o meu amigo Guggi tivemos de nos tornar peritos em violência. As lutas de rua eram o pão nosso de cada dia. Lembro-me de, numa dessas lutas, ter pegado uma lata de lixo e de ter pensado: “Isto é de loucos. Vou mesmo acertar em alguém com isto?” Nesse momento, estava um rapaz em cima de mim pronto para me esmagar a cabeça com uma barra de ferro. Usei a tampa da lata de lixo para me proteger. Teria sido morte certa, se não tivesse a tampa. Não é a mesma violência de que se fala hoje. Não havia armas. Só havia paus, garrafas, navalhas…e, agora que penso nisso, alguns martelos e serras.

Quando cantamos canções, as pessoas acham que somos como as canções que cantamos. Mas a razão que me leva a gostar tanto de pessoas como Gandhi e Martin Luther King é que eu era exatamente o oposto deles. Eu era o tipo que nunca dava a outra face. Mas nunca gostei de violência. Nunca. Ficava doente só de pensar em sair para a rua e encontrar alguém com quem já tivesse tido uma rixa e que tinha voltado para mais rixas. Recordo-me de, alguns anos mais tarde, falar com o meu velhote sobre a violência dessa época, que teve um papel crucial no meu crescimento, e de ele se sentir ofendido. Protestou: “A nossa rua era muito pacata!” E era, de fato, uma rua muito sossegada. O problema era o que ficava à esquerda e à direita!

O meu pai era um autodidata e uma pessoa muito inteligente. Estudou sozinho Shakspeare e passava a vida ouvindo ópera. Era um excelente tenor e gostava de se pôr em frente às colunas e conduzir a música com as agulhas de tricô da minha mãe. Lembro-me bem do rosto dele, rendia-se por completo à música. Por qualquer motivo, nunca imaginou que a música iria ser algo hereditário, assim como os problemas de costas e o seu mau temperamento. Uns anos mais tarde, perguntei-lhe: “De que coisas você mais se arrepende?” E ele disse: “Não ter tido a oportunidade de ser músico.” E eu disse: “Então por que razão nunca te passou pela cabeça ensinar música aos teus filhos?” Sempre que eu pedia para ter lições, mandava-me logo calar. Não se interessava. Eu teria adorado aprender a tocar piano.

A minha avó tinha um piano e essa é, sem dúvida, uma das minhas primeiras lembranças. Não sei que idade tinha, mas a minha cabeça ficava, certamente, abaixo das teclas. Sentava-me debaixo do piano e ficava ali a ouvir o entoar da música até me perder por completo. Embora não conseguisse ver as teclas, levantava a mão, tocava no teclado e ouvia o som de uma nota. De seguida, tocava outra nota. Fazia como os miúdos, só para fazer barulho – mas não era bem barulho, era música. Já nessa altura, quase que conseguia ouvir as melodias no ar. Começava a distinguir acordes, pois primeiro tocamos uma nota e depois ouvimos uma rima para ela na nossa cabeça. De seguida temos de encontrar essa nota e depois ouvimos outra nota. É estranho ser compositor. É como se cada passo fosse uma questão de fé. Acreditamos que vamos ouvir a nota seguinte, até que a ouvimos e depois se juntam todas, formando uma melodia.

Muito mais tarde, quando tinha uns 15 anos, lembro-me, de ter passado por uma fase de adolescente angustiado. Uma das coisas que realmente me acalmava era tocar piano. Na verdade, eu não sabia tocar, mas costumava por o pé no pedal e carregava nas teclas e a sala alterava a sua forma, pois a nota ganhava uma espécie de nuvem de eco à sua volta. Parecia uma catedral. Lembro-me que as notas gélidas que brotavam do piano me faziam sentir muito melhor. Entreguei-me à música de corpo e alma enquanto a minha cabeça estava a explodir.

Lembro-me de quando venderam o piano da minha avó. Já não havia espaço na casa, pois agora havia mais netos e menos dinheiro. Eu estava sempre perguntando: “Podemos ficar com ele?”. Já na altura sabia que havia música dentro de mim. E a minha mãe disse: “Não, não temos espaço.” Eu disse: “Temos, sim. Podíamos colocá-lo ali.” “Raios! Cai fora daqui!”, respondeu ela. A característica mais marcante da minha mãe é que era muito divertida. Tinha um excelente sentido de humor, o humor negro, e era pouco romântica. Para ela, tocar música não era nada de útil. “Para que você quer tocar isso?” Por isso, não me deixaram ter um piano. É algo que ainda hoje me perturba. Custa-me falar sobre o piano.

É tão estranho, é algo que não consigo entender. É como se a postura do meu pai se resumisse a: Não sonhe. Este era o conselho implícito e, em alguns casos, explicito. Sonhar é ficar desiludido, era esse o assusto habitual. Talvez, como ele tinha desistido dos seus sonhos, não queria que eu enchesse a minha cabeça com os meus. Mas dizer-me, antes de morrer, que o único grande arrependimento da vida dele foi não ter sido músico, leva-nos a pensar que a primeira coisa que ele faria seria garantir que os filhos tivessem essa oportunidade. Mas não – venderam o piano. Venderam a merda do piano. É incrível. Para um pequenino como eu, foi como se alguém me tivesse tirado o oxigênio. Não se consegue respirar.

Foi muito marcante. Creio que as sementes da ambição foram semeadas, paradoxalmente, por esta repressão do espírito. Se estivermos sempre dizendo a alguém para não fazer determinada coisa, mais essa pessoa tem vontade de fazê-la. A megalomania deve ter tido inicio nessa altura. Eu ia ter o meu momento de vingança. Todas as pessoas teriam de me ouvir! Embora ainda não soubesse ao certo o que iria tocar ou dizer, mas o mundo ia ter de me ouvir. O que, claro, era um sinônimo psicológico de “o meu pai vai ter de me ouvir”. Quando chega o momento, há apenas uma pessoa na audiência, por muita que seja a multidão. Pode ser o nosso pai na terra, o nosso pai no céu, uma namorada, um amigo… Pode variar, mas geralmente cantamos para uma pessoa.

Eu era promíscuo nas minhas ambições, namoricava todo o tipo de coisas. Um dia, acordei e decidi que queria ser jogador de xadrez. Li um livro sobre xadrez e fiquei fascinado. Com 12 anos, juntei-me a um clube de xadrez para adultos, estudei os grandes mestres, joguei xadrez de olhos vendados com o meu colega Joseph Marks. No ano seguinte, pensei: “Não. Vou ser pintor.” Faltava às aulas para ir ver os quadros de Louis Le Brocquy na galeria municipal. Andava ao sabor da maré. E ainda mantenho o gosto por vaguear. Os adultos chamam isso de curiosidade intelectual. A determinada altura, achei que queria estar num palco. Sabia que tinha esse talento dentro de mim. O meu amigo Reggie Manuel estava sempre me dizendo que eu devia ser ator e me lembro de ter procurado uma escola de representação dramática, por isso, devia estar mesmo decidido a ir em frente com a idéia. Mas não encontrei nenhuma, por isso, talvez não estivesse assim tão empenhado.

Quando era novo andei numa escola chamada Inkwell. Era uma pequena escola na igreja Protestante que ficava de costas para o rio Tolka. O diretor da escola era um homem muito simpático. Costumávamos jogar futebol nos intervalos e, se estivesse bom tempo, lançávamos a bola para o rio e tínhamos de avançar as grades para tentar apanhá-la na corrente. O diretor também vinha conosco. Agora que penso nisso, acho que para ele era uma alegria poder ausentar-se da escola durante uma hora. Íamos atrás da bola até o Jardim Botânico no Griffith Park, um lugar fantástico. Costumávamos ir para lá depois das aulas para passar o tempo. Era um lugar lindo, um verdadeiro oásis. Levávamos lá as garotas para passear.

Nos casamentos mistos, as crianças deviam ser educadas segundo a religião católica. Os protestantes totalizavam apenas cerca de 10 por cento da população naquele tempo e isso era uma maldição para eles. A minha mãe decidiu nos educar na igreja Protestante e o meu pai concordou. Aos domingos, ele deixava-nos num lugar de oração, numa pequena igreja irlandesa, e depois ia sozinho assistir à missa. Depois, quando nós saíamos, ele estava lá fora à nossa espera. Foi uma atitude tolerante da parte do meu pai, mas eu estava sempre discutindo com ele. Sempre. Éramos demasiado parecidos. Ele era politicamente comedido. Analisava e escolhia de entre as ofertas de direita e esquerda. Um homem de terceira via, mesmo antes de esse termo ter sido inventado, e muito antes de eu ter de o viver. A nossa casa era ambidestra, política e religiosamente.

Hoje em dia, levo os meus filhos à missa, à igreja, levo-os onde sinta que haja vida. Mas, naquela altura, havia uma reparação muito grande entre diversas religiões, por isso, creio que foi muito importante e o meu pai mostrou um enorme respeito pelo Protestantismo da minha mãe. Mas eu não sentia nada em relação a Deus e à igreja, não me diziam nada. O pai do meu amigo Guggi (pronuncia-se Googi) era um verdadeiro pregador e, quando eu ia com o Guggi à igreja dele, costumava ouvir sermões possantes e lembro-me que ficava bastante surpreendido com tudo. Pensava: “Uau, isto é um bocado diferente daquilo a que estou habituado.” Na igreja Protestante, eram todos muito simpáticos e era impossível não gostar deles, mas se não se tiver cuidado pode ser morte por delicadeza. Eu tinha a sensação de que era algo muito direcionado para a comunidade. Venerávamos Deus, mas acho que não sabíamos o que era Deus. Geralmente, o serviço não era muito animado, embora em Finglas tivéssemos a sorte de ter um reverendo jovem chamado Sydney Laing, que era muito ativo e divertido.

Fiquei amigo do Guggi quando eu era ainda Paul Hewson e ele Derek Rowan. Ele disse que não gostava muito de mim, mas que gostava de brincar no balanço que tínhamos no jardim de trás. O Derek tinha quatro anos e eu tinha três. Acho que, em vários aspectos, ele continua a ter quatro e eu continuo a ter três. Ele era e é uma pessoa fantástica. Veio de uma família enorme. Acho que eram uns doze. Se interessavam por motores e carros e tinham uma coleção de bicicletas e motos espalhada por todo o lado. De tudo o que o Guggi tinha, costumava me dar metade. Quando tinha uma libra, me dava meia libra. Ele me ensinou uma lição que guardo e tento passar aos meus filhos. O dom de partilhar é algo de extraordinário, pois ele podia não ter muito, mas mesmo assim partilhava tudo o que tinha. E quando eu estava sem grana e numa banda de Rock’n’roll, o Guggi, o meu amigo Gavin e a Ali, pessoas como eles me sustentaram durante anos. É um tipo de amizade que se leva muito a sério.

Havia música por todo o lado, crescendo. A ópera que o meu pai ouvia impregnava a casa. Era heavy metal para os meus ouvidos. Acho piada aquelas canções de ópera indecentes: o rei é infiel à rainha, depois contrai sífilis, matam o crocodilo e fazem sapatos para o rei. Mas, como é cantado em italiano, as pessoas acham que é interessante – em tudo. Eu me interessava por música popular irlandesa, por causa de todas as cantorias na casa da minha avó. O meu irmão tinha um gravador de fitas e tinha um excelente gosto musical. Como resultado, nunca cheguei a ultrapassar a fase da música pop. A maioria dos jovens começa a ouvir Rock’n’Roll durante a adolescência, mas aos 10 anos, eu já ouvia Jimi Hendrix, The Who, Beatles e John Lennon. Lembro-me de ter ouvido a música ‘Imagine’ quando tinha 12 anos e de ter ficado maravilhado. O que eu realmente apreciava era um duo popular chamado Hunky Dory. Adorava esse duo. Só anos mais tarde é que descobri que era o David Bowie e que Hunky Dory era o nome do álbum. O meu irmão tocava guitarra e tinha o livro de canções dos Beatles. Comecei, então, a aprender a tocar guitarra sozinho. O meu irmão me ensinou alguns acordes. Ele costumava tocar ‘Ruby, Don’t Take Your Love to Town’. Continuo fascinado por essa música. ‘If I Had a Hammer’ era outra, uma música gospel de protesto. De diversas formas, tenho escrito essas duas músicas desde então.

Nunca tinha pensado em seguir carreira como cantor, mas lembro-me de cantar hinos e de isso despertar em mim um forte sentimento de me sentir elevado pela música. E cantava-os muito bem até. Mas, quando chegou o momento de ir para a escola secundária, eu devia ter uns 12 anos, a minha mãe me levou para ser entrevistado pelo diretor do liceu St Patrick. Estava relacionado com a St Parick Cathedral que era bastante conhecida pelo seu coro masculino. Eu estava lá sentado e o diretor me disse: “Bem, você sabe, nós temos um coro masculino que é bastante famoso em todo o país e é algo que levamos muito a sério. Você está interessado em fazer parte do coro?” E, antes que eu pudesse abrir a boca, a minha mãe disse logo: “Não, não. Ele não está interessado.” Não foi por mal, não havia más intenções. Apenas não lhe passou pela cabeça que eu pudesse estar interessado e respondeu por mim. E, claro, eu tinha vergonha em admitir que gostaria de fazer parte de um coro. Nem quis dizer nada, com medo que ele me pedisse para cantar qualquer coisa.

Andei um ano nesse liceu, sempre infeliz, e basicamente fui convidado a sair. Fui apanhado atirando fezes de cão na professora de Espanhol. O apelido dela era Biddy (Tagarela) e não nos dávamos lá muito bem. Eu não tinha uma opinião muito boa sobre ela e penso que o sentimento era mútuo. Numa segunda-feira, eu e um grupo de rapazes pulamos as grades para o lado do parque, perto da Catedral. Ela estava lá almoçando. Encontramos fezes secas de cão, começamos a atirar nela e fomos apanhados. Saí então do liceu St Patrick’s e fui para a Mount Temple School. Esta escola tinha um ambiente bastante diferente. Lembro-me de, no meu primeiro dia de aulas, ter ido de bicicleta com o meu amigo Reggie Manuel. Eram cerca de cinco quilômetros e meio, o que já era uma longa viagem para quem tinha 12 anos, mas foi uma verdadeira aventura. No momento em que cheguei, senti-me vivo. O liceu St Patrick era só de rapazes, a Mount Temple era mista. Havia garotas e isso era razão mais do que suficiente para querer ir para lá. Adorava até o fato de estar perto da escola. Era bastante progressiva, coeducacional e não denominacional. Só havia duas escolas públicas assim no país. Era um lugar fantástico e todos nos sentíamos privilegiados por estar lá. Não era uma escola como as outras e eu divertia-me muito. A minha companhia era considerada agradável, as garotas gostavam de mim, os rapazes gostavam de mim, tudo corria bem. Até que deixou de correr. Como diz o Austin Powers: “Perdi o meu charme.”

Em Setembro de 1974, realizou-se o qüinquagésimo aniversário de casamento dos meus avós. Toda a família se reuniu e houve uma festa enorme. Alugaram um espaço num hotel, foi uma comemoração muito importante. O meu avô dançava, “abanava o capacete” ao som de Dicey Reilly e sentia-se o homem mais feliz da face da Terra com a mulher e toda a família à sua volta. A bebida começou a fluir, de tal forma que tiveram de deitá-lo e puseram um balde junto à cama, para o caso de ele não ter tempo de chegar ao banheiro. Já devem ter ouvido a expressão “Esticar o pernil”. Pois bem, Alec Rankin teve um ataque cardíaco durante a noite e morreu. Lembro-me de ter acordado e de a minha mãe não estar por perto.

Perguntei: “Onde é que ela está?” e disseram-me: “Aconteceu qualquer coisa ao teu avô.” Entretanto ela voltou para casa e disse: “O teu avô morreu.” Ele faleceu sem sofrimento, mas ela estava abalada. Estávamos todos um pouco abalados. Depois, foi-se embora. Como era a irmã mais velha, era ela que organizava tudo na família. Lembro-me dela junto ao túmulo, vendo o pai sendo sepultado. Até que se desmoronou. Vejo o meu pai a segurando.

Todas as pessoas começaram a falar: “O que aconteceu?” “Ela desmaiou!” “Meu Deus, ela desmaiou! A tua mãe desmaiou!” Estavam todos em estado de choque. Entretanto, voltamos para a casa número 10. Não compreendíamos o que estava acontecendo. Acho que eles não queriam que as crianças percebessem. Lembro-me de meu tio se aproximar da porta e começar a chorar, como uma criança. Foi tão estranho. Eu sabia que tinha acontecido algo terrível.

Ela tinha sofrido uma hemorragia cerebral. Sobreviveu quatro dias, acho eu. Ocorreram situações muito marcantes nesses dias. Bastante marcantes. Eu li a Bíblia e rezei a Deus para não deixar a minha mãe morrer. Eu, o Norman e o meu pai fomos chamados para nos despedirmos dela. E depois desligaram o aparelho que a mantinha viva. É extraordinário. Eles têm uma escolha. Podem manter-nos vivos ou podem deixar-nos morrer. A decisão deve ter sido a de deixá-la morrer. Eles entraram, nós nos despedimos dela e depois desligaram a máquina. Lembro-me que o médico ficou bastante comovido. O padre, o mesmo Sydney Laing, era um homem bonito, elegante e muito atencioso com o meu pai, que não ia à nossa igreja. E foi assim. Eu sentia que a casa estava sobre mim. A minha mãe morreu e, de repente, ficaram apenas três homens vivendo debaixo do mesmo teto. Não passava disso, deixou de ser um lar. Era apenas uma casa, com três homens se matando lentamente, não sabendo como reagir àquele sentimento de perda e descarregando uns nos outros. A situação estava perto do auge.

Eu era apenas um rapaz normal, numa família agora pouco normal, que tinha perdido o interesse por tudo, exceto pelas garotas e pela música. O aproveitamento escolar foi pelo cano. Não tinha vontade de fazer nada. Não fazia idéia que se estava aproximando uma catástrofe, mas houve alguns incidentes que podem ter funcionado como alertas, como ter encostado um professor na parede durante a aula. Este foi um dos mais interessantes. Ele estava sendo um bocado mandão, mas, ao mesmo tempo, atacar um professor não é a atitude de uma pessoa no seu perfeito juízo. Houve outros incidentes que deixaram a direção da escola preocupada. Eu tinha sonhos muito vivos, mesmo quando estava acordado. Achei que estava ficando maluco.

Na Mount Temple compreendiam bem estas explosões comportamentais. Deram-me permissão para sair da escola. Podia entrar e sair sempre que quisesse. A minha mente estava acelerada, não por causa de drogas, mas por causa de toda a pressão relacionada a coisas que estavam para lá do meu alcance. Desde muito cedo, instintivamente acreditei em Deus, mas não sabia se Deus ou mais alguém acreditava em mim. Por que? Como? Onde? As grandes questões começavam a intensificar-se. Eu ia à igreja, mas parecia que as pessoas que lá estavam só cantavam salmos de glória e não havia grande glória presente. Para mim não bastava. A religião não me dizia nada. Contudo, aqui fora, quando olhava à minha volta, via pistas de que Deus devia existir, de que podia estar interessado em nós. E depois perdia a esperança outra vez.

Havia uma senhora muito bonita que ensinava religião, Sophie Shirley, e ela dizia coisas do gênero: “Sim, é um mundo em ruína, mas continua a ser lindo. As impressões digitais de Deus estão em todo o lado se as quisermos ver.” E ali ficava eu, na Dollymount Strand, olhando para o mar, observando as ondas, a vislumbrar uma tempestade no horizonte, e a perguntar-me: “Quem escolheu a cor do céu? Quem é que faz a Terra girar a esta velocidade? Quem inventou a gravidade e quem desenhou o riso de uma mulher? Será tudo apenas ciência? Acidente cósmico ou criação? Será amor ou sobrevivência dos mais bem dotados como conseqüência da seleção natural?”

Estas perguntas enchiam a minha cabeça de adolescente. A morte da minha mãe foi mais uma lenha para a fogueira. As grandes questões atingiam o ponto máximo. Sentia-me sem esperanças. Pensei em suicídio. Pensava muito em tudo. Ainda fico admirado com a quantidade de coisas que cabem na cabeça de uma criança de 14 anos. Mas alguma coisa tinha de ceder e assim foi. A minha mente libertou-se. Literalmente, durante duas semanas me esqueci de tudo. Não me lembrava do que tinha feito.

Estava trabalhando num projeto para a disciplina de História e isso tornou-se muito importante para mim. Era sobre a rua mais antiga de Dublin, a Church Street, e eu tinha de andar pelas igrejas e pelas escolas a entrevistar as pessoas que tinham vivido nessa rua. Depois, não encontrava os meus apontamentos dessas conversas e comecei a pensar se realmente tinha feito as entrevistas ou se não passava tudo de imaginação minha. Foi muito perturbador. Era uma espécie de descarga elétrica, células cerebrais sobrecarregadas. Virei uma série de cadeiras e mesas na sala de aula e tive um ataque de nervos.

Não sabia o que fazer. Entretanto, fui visitar o Jack Heaslip. Era um jovem e progressista professor liberal que, naquela altura, ainda não era crente. Mais tarde, tornou-se padre anglicano. Celebrou o meu casamento com a Ali e tem sido uma fonte de inspiração e serenidade para as nossas vidas. Batizou os nossos filhos e continua a ser um bom amigo. Mas, naquela altura, era apenas o professor de Inglês e o conselheiro de orientação. Havia pessoas muito importantes na escola naquele tempo. Donald Moxham, o professor de História, que encarava as vidas que lhe eram confiadas como tendo algum valor e considerava que cabia ao professor incentivá-lo. O Jack também era assim e eu gostava muito dele – mais do que isso, eu confiava nele, por isso, resolvi entrar. Falei, seguramente, durante horas e horas. Parecia que me tinham dado corda. Falei, falei, falei…

E ele pensou: “É capaz deste moleque estar com um esgotamento. Alguma coisa está acontecendo com ele.” Entretanto, enviou-me para uma psicóloga que vivia logo ao virar da esquina. Ela era excelente. Ouvia-me. Era ateia e talvez até comunista na altura, por isso, não conseguia compreender alguns dos problemas de caráter religioso pelos quais eu estava passando. Mas começava sempre por falar dos problemas dela. Contava-me tudo sobre o filho. Só mais tarde é que percebi que tudo não passava de uma técnica. Foi muito inteligente em me fazer sair de mim mesmo para me pôr a pensar nela e nas outras pessoas. Após algumas semanas, disse-me: “Acho que você já não precisa voltar aqui. Você está ótimo. Teve uma espécie de trauma.” Não creio que seja algo despropositado para alguém que já passou por tantas situações perturbadoras. Não considero que seja assim tão estranho. Foi dessa forma que isso se manifestou em mim: uma expansão de sentimentos agressivos e ligeiramente violentos e uma série de experiências religiosas que se seguiram. Porque, no meio de todo este desespero, eu chamei por Deus. E descobri que, por vezes, mesmo em silêncio, Deus responde. A resposta pode não ser aquela que queremos ouvir, mas acabamos sempre por obter uma resposta, se formos verdadeiros e estivermos preparados para nos entregar. Eu tinha de seguir estes sentimentos, ou instintos, para ver onde me levariam.

Estávamos em 1976 e eu não era o único na escola a atravessar uma experiência religiosa. Parecia que a escola inteira ia explodir. Foram os primeiros dias do que viria a chamar-se movimento ‘Carismático’ – Católicos e Protestantes na Irlanda adorando a Deus juntos, numa espécie de formato hippy rave, mas sem as batidas por minuto. Na Mount Temple, vários alunos se reuniram para estudar a Bíblia e estávamos todos vivendo experiências muito profundas e transformadoras. Foi muito interessante. No extremo Sul, chamam-lhe Renascimento. As pessoas ligadas à religião podem dizer que estas coisas acontecem em ciclos. Na história, lemos sobre o renascer de John Wesley, que fundou o Metodismo. É como se alguma coisa tivesse irrompido e durante alguns anos se espalhasse pelo país, como uma chama, e as pessoas vivessem profundas experiências religiosas. Depois, desaparece durante 50 ou 60 anos. Acho que era isso que estava acontecendo em 1976, pois a situação se passou com várias pessoas. Bob Dylan estava num extremo do espectro em L.A. e uma pequena escola em Clontarf, Dublin, estava no outro. Muitas pessoas que, na altura, tinham 16 anos contaram-me experiências semelhantes. Devem ter-se afastado disso na época, mas está no trabalho delas. Falava-se disso na época e ainda se fala. O mais louco de todos foi Michael Hutchence. Uma noite, estávamos sentados na praia, completamente “jogados”, e eu estava tentando explicar-lhe a origem de todas estas coisas. Ele virou-se para mim e disse: “Sabe, nesse ano, eu e o Andrew (o seu sócio compositor) tivemos experiências similares.” Eu pensei: “O quê?! Era como o Casanova nos dizendo que era devoto de Cristo.” Mas acredito que há uma espécie de ligação entre as energias perturbadoras da atividade criadora e a nossa vida espiritual. Ou talvez eu tivesse aquelas descargas elétricas porque não conseguia terminar os trabalhos de casa. Tirem a conclusão que quiserem. Foi bastante intenso.

Tinha então fogos de artifício para disparar. Cheguei a um ponto da minha vida em que queria fazer uma percepção espiritual do mundo. Comecei a fazer orações, porque achei mesmo que a minha cabeça ia explodir. Duas coisas aconteceram nas mesmas semanas e ambas salvaram a minha vida. E acabou por ser um ano bastante bom para mim. Um ano mesmo muito bom.

A primeira coisa foi ter tido uma visão do meu futuro. Lembro-me de ter visto uma garota, no seu primeiro dia de aulas, e de achar que ela parecia espanhola, morena com lábios de um vermelho ardente. Mais tarde, num daqueles dias em que a minha cabeça estava a explodir, o Reggie Manuel, o Cocker Spaniel, me levou para casa na sua moto. Olhei para trás e vi a mesma garota serena e misteriosa, tão simples, tão completamente desconhecedora de que era atraente. A fumaça que saía da moto criava a ilusão de que ela estava avançando por entre o nevoeiro. Tinha um ar tão sereno e, para alguém que não é de todo sereno, isso era a coisa mais atrativa do mundo. Assim era a Ali que, após algumas semanas, se tornou minha namorada e, após alguns anos, minha mulher.

Mais tarde, aconteceu outra coisa extraordinária. Juntei-me a uma banda. Depois disso, pouca coisa mudou. Continuo com a Ali e continuo com a banda.