1976/1978 - Another TIME, another PLACE | U2 Brasil

 

1976/1978 – Another TIME, another PLACE

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Páginas 31 a 35

Bono: Lembro de tentar fazer uns números ao estilo rock e não ser capaz de cantar, a minha voz não soava muito bem. O Adam era um grande admirador do Peter Frampton e tocou a musica “I want you, show me the way”. E a minha voz, fossem quais fossem os acordes, conseguia cantá-la, conseguia cantá-la muito bem até. Por isso, foi estranho descobrir que afinal tinha voz, num determinado contexto. Mas, por causa de tudo o que se estava passando comigo, transformei esta musica pop numa oração. Foi assim que a cantei. Não a cantei para uma garota. Quer dizer, ao olhar para trás penso: “Como é que aquilo aconteceu?” Começava a utilizar a música para exprimir o que realmente sentia, mas servindo-me de uma qualquer musica pop velha. Mas, é claro, não existem musicas pop velhas. São músicas espantosas. A mais simples musica pop pode tornar-se uma obra-prima se for sentida.

Conheci o Peter Frampton em 2003, num acontecimento sobre a Aids, numa clinica para doentes de HIV nos arredores de Chicago. Havia muitas pessoas de comunidades e ambientes diferentes e estava ali aquele tipo trabalhando com elas, um homem absolutamente simples. Não estou falando de uma celebridade que aparece em um lugar qualquer, mas de alguém que arregaça as mangas e põe as mãos na massa. Há quem diga que o Peter Frampton desapareceu da face da terra. Mas, afinal, não desapareceu. Vive na face da terra com uma finalidade muito concreta, a de trabalhar com pessoas que perderam toda a esperança. Foi lindo. E disse-lhe que tinha descoberto a minha voz em uma música dele.

Edge: Acho que os Bay City Rollers foram uma sugestão do Larry.

Larry: Vivíamos brincando. Fazíamos aquilo para passar um bom bocado.

Bono: Achávamos tudo realmente muito divertido. Durante os ensaios tivemos a idéia de dar uma mijada por ali mesmo, pois as garotas costumavam passar enquanto nós ensaiávamos e encostavam a cara na porta. Fazíamos aquilo só para fazê-las rir. Elas começavam a gritar, pois aquilo era uma loucura naquele tempo.

Adam: A atuação foi durante o dia, não havia luzes. Tocávamos em cima de umas mesas colocadas no ginásio. Éramos só nós quatro. O Dick estava em aulas.

Larry: Havia muito entusiasmo e muitos nervos misturados. Eu estava muito consciente. Tinha medo que fôssemos um fracasso. Como é que iria suportar piadinhas dos meus colegas?

Bono: Subimos no palco. Eu estava tocando guitarra e quando ouvi aquele acorde em ré comecei a levitar. Quando ouvi aquele som daquele acorde a ecoar por entre as paredes, senti que tinha ganhado o meu passaporte de liberdade. A audiência delirou! Não interessa o que estávamos tocando, isso não é importante. Eu estava cantando, era uma sensação de libertação. Foi um concerto muito especial.

Edge: O que me surpreendeu foi estar ali tocando “Show me the way” que era na verdade uma melodia muito simples e, de repente, ter acontecido qualquer coisa, sobretudo na cabeça do Bono como artista. Toda aquela excitação de estar em palco e a reação das pessoas que estavam nos vendo.

Houve ali qualquer coisa que realmente funcionou, pois, mesmo a banda sendo um zero a esquerda, quando começamos a tocar, o nosso espírito soltou-se de uma forma muito visceral e primitiva. Se o vírus da atuação é contagioso, não há dúvidas que o pegamos naquele dia.

Bono: Foi um verdadeiro sentimento de libertação. Foi como mergulhar no mar e descobrir que sabe nadar.

Larry: Lembro de ter olhado para o publico e de ver o pessoal levantando e batendo palmas. Até alguns professores ficaram lá. Tive uma sensação de alivio. E depois ao tocar Bye Bye Baby, pensei: “É capaz de estarmos estragando tudo”.

Adam: A atuação acabou num instante, o que pode ter estado relacionado com o medo e nervosismo de estar em palco. Mas foi um delírio, uma enorme injeção de adrenalina. Durante aqueles dez minutos se abriu todo um mundo novo cheio de possibilidades. Senti uma enorme sensação de poder, por estar em frente a um público e perceber que se estabeleceu uma ligação, como se algo tivesse disparado, uma energia. Na altura, me pareceu que tinha havido uma revolta – e é capaz de ter havido mesmo.

Larry: Depois disso, acho que nos tornamos uma banda, conseguimos finalmente tocar um público sem nos desgraçarmos completamente. Foi como se minha identidade tivesse mudado. Já não era o cara loiro que andava pelos corredores, era agora o cara da banda.

Bono: Tudo mudou para mim, pois agora já sabia o que queria fazer para o resto da vida. Estava ali o que procurava. E aconteceu tudo tão depressa. De repente, tem-se uma razão de ser. Senti um alivio enorme e achei que não fazia diferença se tomasse pau nos exames. Eu andava com pessoas muito inteligentes, por isso não contava tomar pau. Os meus amigos iam todos para a universidade. Eu ainda precisava me esforçar um bocado para chegar lá, mas, no fundo sabia que nunca o faria. Era isto que eu ia seguir. Tudo se tornou mais simples, já via as coisas com clareza.

Larry: Se perguntassem ao Bono, ao Edge e ao Adam como é que eles se sentiram, eles teriam respondido que aquele momento mudou a forma como encaravam o futuro. A música e a banda eram tudo para eles. Eu não pensava assim. Era um rapaz envergonhado de 14 anos, que ainda não se tinha debruçado sobre diversas coisas, quanto mais sobre a banda e o futuro. Só sabia é que aquilo era muito mais divertido do que tocar sozinho no quarto.

Adam: Naquela altura, o Bono era, sem dúvida, o mais misterioso. Eu e o Edge íamos e vínhamos juntos dos ensaios, por isso, começávamos a nos conhecer melhor e passar mais tempo juntos. A mãe e o pai do Larry deixavam a bateria na escola, nos encontrávamos com eles e dávamos dois dedos de conversa. O Larry era um pouquinho mais novo, mas era o baterista, por isso, montava o seu material e sabíamos que podíamos contar com ele. Quanto ao Bono nunca se sabia quando ele iria aparecer. Algumas vezes vinha de moto ou o Guggi o trazia de carro, outras vezes metia-se em um ônibus se tivesse dinheiro. Fazia sempre uma entrada grandiosa. Às vezes tinha guitarra outras vezes não. Acho que naquela altura todos nos arranjávamos com o que tínhamos.

O Edge tinha um combo (amplificador com alto falantes) feito em casa e eu comprei uma cabeça de amplificador Marshall onde podíamos ligar tudo. Compramos um microfone para o Bono poder cantar. Íamos avançando aos poucos. Mas em relação ao Bono, sempre soube que ele tinha outra vida lá fora. Tinha uma vida acadêmica, onde fazia obviamente parte de um núcleo de muitas pessoas e depois tinha outra vida em Cedarwood com o Gavin e o Guggi, que estiveram ligados aos Lypton Village e aos Virgin Prunes. Não sei, realmente, até que ponto o Bono tinha uma forma abrangente de ver as coisas, mas não há duvida de que tinha energia.

Edge: O Bono era uma grande personalidade, mas sabia que ele gostava de arriscar, por isso, de certo modo, me impressionava. No entanto, por outro lado, sabia que nem sempre podíamos contar com ele. Mas não havia problema. Quando percebi com quem estávamos lidando, deixei de me preocupar. Achei que todos estávamos arriscando, em maior ou menor grau.

Larry: Fui sempre o bebê e era tratado como tal. Eles estavam sempre de olho em mim. Não era muito mais novo do que eles, mas, no que diz respeito a conhecer bem a vida e ser experiente, eu era bastante ingênuo. Andava uns anos atrás e continuava e me esforçar academicamente. Mas conseguia marcar um ritmo e isso já era uma ajuda. Para mim era um pouco estranho conviver com pessoas mais velhas e mais avançadas do que eu. Todas as pessoas conheciam o Bono. Ele era muito popular e ativo na escola. Também conheciam o Adam por razões diferentes: bebia café nas aulas, vestia-se de forma invulgar e, regra geral, era um pouco excêntrico. O Edge era um dos crânios, destinado a ir para a universidade. No início me sentia intimidado, mas estava cheio de vontade de aprender.

Edge: Eu achava o máximo pertencer a uma banda, Na verdade não havia nenhuma outra razão para tocarmos juntos, pois não havia indícios de qualquer talento individual notório. Éramos a pior banda do mundo, tocando versões de outros. Nos ensaios acabávamos sempre por interromper as músicas, porque alguém estava tocando mal. Nunca conseguíamos levar nada até o fim.

Adam: Chegamos à conclusão de que não conseguíamos melhorar ensaiando apenas uma hora por semana e começamos a ensaiar também aos sábados. Foi uma grande mudança, porque todos tínhamos que abdicar de algum tempo livre para ir a escola ao sábado. Demos um passo em frente para outro nível. Entretanto atuamos em uma discoteca em St Fintain, numa escola em Sutton, no norte de Dublin. Iam atuar lá algumas bandas. Foi durante as férias da páscoa de 1977 e os meus pais iam para fora, por isso, ensaiávamos em minha casa.

Bono: Adam vivia no que eu considerava um palácio, em Malahide. Eu achava que era o bangalô mais bonito que já tinha visto e estava sempre impecável. A mãe dele era muito atraente, lembro de vê-la depois de sair do chuveiro, passando por nós embrulhada em uma toalha. Era bronzeada, loira e eu pensei: “Uau! É a tua mãe?”. Foi um daqueles momentos. Entretanto, eles foram passar uns dias fora e nós fomos todos para lá.

Larry: O Adam tinha um estilo original. Inventava sempre cenas muito doidas.Conseguia tocar em contratempo dentro do ritmo durante muito tempo. Era extraordinário. É isso que faz dele o grande baixista que é. Não é nenhum virtuoso, mas é um músico bastante inovador. E isso se deve a sua incapacidade, que é não ser capaz de tocar de forma perfeita dentro do ritmo. Eu também não sou um virtuoso, a minha afinação graças a Deus é boa. Se não fosse estaríamos metidos em uma grande encrenca.O Adam juntou-se à banda porque tinha um grande casaco afegão, um óculos cheio de estilo, um baixo, e uma cabeleira enorme e encaracolada. Se ele sabia tocar? Não me interessava. Tinha um aspecto legal.Era isso que importava.

Edge: Havia uma discrepância evidente entre aquilo que podemos chamar de aptidão musical entre os membros, mas não tinha importância, porque éramos todos uma grande porcaria. Num dos ensaios o Bono quase desesperado, pediu a sua amiga Maeve O’ Regan para nos ouvir e tentar perceber qual era o nosso problema. Ela assistiu ao ensaio e resumiu assim o problema: “O Larry é muito bom, o David toca bem, mas o Adam não sabe o que esta fazendo, não tem nenhuma noção dos tempos ou de afinação”. Nós próprios não tínhamos conhecimentos suficientes para nos apercebermos daquilo, mas ela topou logo tudo. Em condições normais, isso teria sido uma granada para as maiorias dos grupos, mas não para nós. O que faltava ao Adam em termos de talento natural, era compensado por sua vontade e dedicação. Nunca pensamos na hipótese de procurar um baixista melhor, pois éramos uma banda. Uma banda de aventureiros, mas uma banda.

Adam: Eu era afortunadamente ignorante e não fazia idéia de como sabia pouco. Abençoada ignorância! Acho que esse estado de graça se manteve até o nosso primeiro disco, talvez mesmo até o segundo. Depois disso, a falta de habilidade e de técnica começou a fazer falta. Naquela altura levava aquilo na brincadeira, tudo me parecia fácil e eu era o máximo. É formidável ler que, em bandas seminais como os Beatles ou os Stones, os membros do grupo eram músicos moldados antes de formarem a banda e serem compositores. Eles sabiam mesmo o que estavam fazendo, a nossa situação era completamente diferente. Durante os ensaios, nunca conseguíamos tocar uma música até o fim, por isso, quando começávamos a tocar em público, não sabíamos como é que ela devia terminar. Acho que o Larry era provavelmente o mais disciplinado, mas ainda assim muito louco. Tinha, pelo menos, uma noção de início, meio e fim. Talvez o Edge também, mas acho que se concentrava de tal maneira nos sons e não se concentrava devidamente na estrutura da música. O Bono nunca sabia as letras. Tínhamos problemas de afinação. Todos nós dávamos o nosso melhor, mas de uma forma indisciplinada e imatura.

Edge: Em Saint Fintan, já tínhamos um repertório um pouco mais vasto. Mas, lembrei-me, num momento de pânico uns vinte minutos antes do início do espetáculo, que nunca tínhamos conseguido tocar nenhuma música até o fim, por isso, não havia final. Nunca levamos nada até o fim. Lembro de estar sentado nuns degraus tentando convencer o Larry e o Adam a terminar algumas músicas.

Bono: Não éramos lá muito bons. E acho que continuamos sem o ser durante bastante tempo.

Edge: O Bono levou duas moças, a Orla Dunne e a Stella McCormick. Deve ter achado que isso ia avivar um pouco o nosso som.

Adam: O Bono decidiu que a banda precisava de um coro sexy.

Bono: Eu achava que a banda precisava de sexo! Acho que foi isso. Elas eram da minha turma na Mount Temple, cantavam no coro e eram as duas um pouco hippies. Era muito sensual, ambas cantavam e a Orla ainda tocava flauta. Na banda, cada um escolhia o seu próprio material. O Adam escolheu os Eagles, o Edge optou por Rory Gallagher e a minha escolha foi a pior de todas. Eu fui responsável por ‘Nights In White Satin’ dos Moody Blues. Achei que ia ficar fantástico com o coro sexy das garotas e com a flauta, mas foi um desastre. Era muito complicado para nós, tinha mais de quatro acordes.

Edge: A Orla e a Stella vieram falar comigo antes do espetáculo e me perguntaram: “David, não quer cantar? O Bono não sabe cantar muito bem”. E eu fiz a única coisa que podia, menti. Disse: “Eu acho que ele canta lindamente, não acham que ele canta bem? Estão completamente enganadas, ele é um grande cantor”. Eu sabia que elas tinham razão, mas eu jamais iria subir no palco para cantar. Elas insistiram: “Ele está sempre gritando e as pessoas nem conseguem perceber a letra”. E eu retorqui: “Que tolice! Eu adoro ouvi-lo cantar”. Depois inventei que tinha que ir trocar as cordas e fugi dali. O Bono, no início, usava apenas o volume e a energia como uma espécie de tática de choque para captar a atenção das pessoas. Não foi propriamente sutil, mas valia pelo empenho dele. Claro que devia ter ajudado se tivéssemos um PA (sistema de som) adequado, em vez de a voz dele ser amplificada através de um amplificador de guitarra.

Adam: Havia outro grupo chamado Rat Salad atuando. Eram assustadores.

Larry: Houve uma discussão sobre quem iria atuar primeiro e quem fecharia o espetáculo. Acabamos por sermos nós os primeiros.

Edge: Embora talvez fôssemos incrivelmente inaptos, para mim já era suficiente aquele entusiasmo de tocar em público. Só pensava: “Isso é mesmo legal. As garotas falam todas comigo e eu adoro fazer isso”. Íamos ser a banda de abertura de outro grupo, mas, mesmo nessa altura, embora soubesse que eles sabiam tocar, não achava que despertassem qualquer interesse. Havia ainda muito mais para desvendar. A música devia ser muito mais do que um rock intimista.

Larry: Fomos terríveis, as pessoas assobiaram e os Rat Salad riram na nossa cara. Foi horrível.

Bono: Compus minha primeira música enquanto ensaiávamos na casa do Adam. Foi interessante, porque aconteceu muito rápido. Não me lembro onde arranjei a guitarra nem de quem ela era, mas lembro-me de ter conseguido tocar acordes menores e alterar entre eles. Inventei um acorde, não é assim tão difícil.

Adam: Acho que o primeiro acorde era uma sétima em si maior, seguida por um lá maior. E ele só usava esses dois acordes, que vieram a tornar-se a música. Eram mágicos. Tinham modo e tom.

Bono: Arranjei logo um titulo: What’s going on? Pareceu original.

Adam: Naquele tempo, ainda não tínhamos ouvido falar do Marvin Gaye, por isso, não sabíamos que aquele título já tinha sido usado. Mas achávamos o máximo.

Larry: Pensei que chamava ‘Wednesday Afternoon’, porque ensaiávamos as quartas-feiras à tarde. Nos sentíamos muito frustrados por tentar fazer versões de outros artistas. Num dos ensaios, o Bono começou dedilhar qualquer coisa. Passado um tempo, já começava a soar como uma música.

Bono: Andávamos todos tentando tocar ‘Brown Sugar’ ou ‘Jumping Jack Flash’. E pensei: “Isto é interessante. È mesmo fácil compor músicas”. E parti do princípio de que todos seriam capazes, mas não era bem assim.

Larry: Foi muito interessante, porque ninguém disse: “Não soa bem como o original.” Não havia original. Foi um marco no desenvolvimento do U2. Depois de compormos a primeira música, passamos o resto do tempo tentando compor músicas melhores e eliminar as versões de outros artistas do nosso repertório.

Adam: Quando escolhemos as músicas e vimos o diverso material, lembro de sentir que aquela música que tentávamos tocar pertencia a outra geração. Não tinha a ver conosco. Éramos músicos muito ignorantes, que estavam no ponto para a energia do Punk quando ele surgiu. Éramos meros entusiastas exuberantes e quem sabe onde esse entusiasmo nos teria levado sem o Punk.

Bono: Naquele tempo, apenas uma centena de pessoas no país gostavam de Punk Rock. Pelo menos era o que eu achava. Na altura a música me aborrecia. Se aquele foi o verão em que Londres ardeu não sei, mas eu estava em brasa. Lembro que só havia ‘High Tide and Green Grass’ dos Roling Stones, uma coletânea dos primeiros sucessos deles. Era disso que eu gostava. E ‘The Idiot’ do Iggy Pop. Mas, já antes disso, gostava de rock n’ roll: Eddie Cochrane, Elvis, Beatles, Beach Boys. Não gostava do rock pesado, procurava algo que fosse realmente diferente. Penso que muitos eram da mesma opinião. E depois me lembro de ouvir os Radiators From Space. Foi a primeira banda punk irlandesa. Tinham um single com a seguinte letra: I’m gonna put my telecaster through the television screen because I don’t like what’s going on. (vou enfiar a minha telecaster pelo monitor da televisão, porque não gosto do que estou vendo). Quando ouvi isso, me despertei. Era igual a versão dos Beach Boys do ‘Johnny B Goode’.Do melhor rock n’ roll de doze compassos, embora adulterados, e eu disse: “Nós somos capazes de tocar isso, somos mesmo. Para além de sermos capazes de tocar, é disso que gosto.” E assim fizemos.

Adam: O Punk nos abriu a porta. Criou uma linguagem, embora não nos fosse muito acessível naquela altura. Estávamos em 1977 e estava dando os primeiros passos na Inglaterra. Acho que aquele single excêntrico foi tudo o que chegamos a ouvir. Um dos meus vizinhos foi o primeiro punk de Malahide e tinha os singles dos Sex Pistols e nós íamos para a casa dele ouvi-los, assim como outros que fossem sendo lançados: Buzzcocks, Dammed, Slaughter and the Dogs, Stranglers e Clash.

Edge: Creio que um momento marcante foi vermos os Jam no Top of the Pops e chegarmos a conclusão que não saber tocar não era um verdadeiro problema. Afinal a musica tinha mais a ver com energia e a tentativa de dizer qualquer coisa e não necessariamente com o conhecimento musical. Por isso, sentíamos encorajados ao ouvir aquelas bandas tocando coisas muito simples, da forma que nós tocávamos, com uma entrega total, dez vezes mais depressa do que deviam e com muito pouca sutileza, era só barulho. Que era o que nós fazíamos em tudo, por isso, servia perfeitamente.

Adam: No verão de 1977, arranjei um trabalho durante as férias escolares, em Londres, no mercado de peixe de Billingsgate.

Edge: A banda parou enquanto o Adam esteve fora. Isto porque, uma vez que ele parecia não se esforçar na escola, os pais disseram que o deixariam de sustentar. Por isso, sugeriram que fosse para Londres e arrumar um emprego, pois iria se tornar um rapaz inútil se não aprendesse a se sustentar. Os pais do Adam não sabiam se a música seria a melhor escolha para ele. Além disso, achavam que os conhecimentos musicais do Adam eram reduzidos e que, para ser bem sucedido era preciso ter talento, ou pelo menos, noções básicas de afinação e ritmo, coisas que constituíam um grande desafio para o Adam. Os pais do Larry o apoiavam muito, pois ele era realmente um baterista promissor. Os meus também me apoiavam, porque deviam achar que eu tinha jeito para aquilo e que era um bom passatempo. O Bono e o pai, isso era outra história, mas o Bono seguia seu caminho.

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