1976/1978 - Another TIME, another PLACE | U2 Brasil

 

1976/1978 – Another TIME, another PLACE

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Páginas 29 e 30
ADAM

No Verão antes de ir para a Mout Temple, passei algum tempo no Paquistão com um colega de escola e descobri o haxixe, o Bob Marley e andei por aí. Também deve ter havido alguns momentos de bebedeira.

Estava na casa do meu grande amigo Gordon Petherbridge, filho do embaixador americano no Paquistão e Afeganistão, e ele tinha deixado de estudar por razões semelhantes às minhas e estava na escola internacional no Paquistão.

Quando saí do Columba’s College desonrado, em vez de passar o verão em casa cheio de pena de mim, ele convidou-me para ir ao Paquistão. Fiquei lá cerca de um mês e, entretanto, ficamos uma semana em Cabul, pois fazia parte do percurso hippy. Houve, portanto, toda uma educação que passou pela compra de casacos afegãos, de roupa de algodão finíssimo e por tomar chá com os habitantes. Fumava-se muito haxixe, o que me ligou à música que costumava a ouvir e me ajudou a perceber quem eu era. Quando cheguei à Mount Temple, o espírito de rebeldia invadia-me e devo ter pensado que o ataque era a melhor forma de defesa: se eu entrasse com firmeza talvez ninguém se metesse comigo.

Com o meu passado e as minhas experiências, uma escola secundária no Norte de Dublin não era lugar onde me sentisse confortável. Cheguei no meio do ano e, por isso, precisava de me agarrar a tudo quanto pudesse. Tinha o meu casaco afegão, óculos de sol espelhados e andava sempre com um frasco de café. Achava as aulas bastante aborrecidas e puxar do almoço ou beber um café na sala era uma forma de protesto. Era uma forma de não estar presente. Havia poucas probabilidades de, subitamente, começar a interessar-me pelas aulas, por isso, foi muito difícil assentar. Aproximei-me dos fumantes, que se tornaram a minha comunidade: comecei a fumar cigarros e haxixe.

Duas ou três semanas depois de iniciar o primeiro período, ouvi dizer que o Larry Mullen tinha posto um aviso dizendo que queria formar uma banda. A minha única qualificação consistia no fato de eu ter um baixo, mas já foi o suficiente para ser convidado para o primeiro encontro na cozinha do Larry.

Bono: Foi o meu amigo Reggie Manuel, o “Bad Dog”, que me convenceu a ir àquela primeira reunião. Ele acreditou em mim de uma forma que me parece incompreensível. Quando todos diziam que eu devia ser vendedor ambulante, ele dizia: “Não. Você deve fazer outra coisa e esta pode ser a sua oportunidade.” E eu disse que não faria aquilo, que não poderia de maneira alguma andar com aquela gente, porque eles não eram legais. E nunca teria ido, pois me encontrava numa fase de auto-consciência na minha adolescência. Tinha perdido toda a confiança em mim mesmo. Mas o Bad Dog disse: “acho mesmo que você devia ir. Eu te levo lá” E assim fez. Apareci na casa do Larry, em Artane, sentado atrás na moto do Reggie. Acho que nem sequer levei a guitarra, porque não conseguia transportá-la na moto. Mas isso não queria dizer, de forma alguma, que eu iria cantar. Naquela altura, eu gostava era de guitarras. Devo ter achado que desenrascava com facilidade, que podia usar a guitarra de outro qualquer. Tinha de me armar em grande estilo e tentar causar boa impressão. Tinha ensaiado um pouco do solo ‘Abraxas’, do Santana. Pelo menos, pensava que seria capaz de o tocar até que o Edge o tocou e me soou bem diferente.

Edge: Um dos professores de música disse-me que um jovem queria formar uma banda. E eu pensei: “Boa, pode ser legal. Se vai começar outra banda de garagem, talvez seja melhor tocar com eles do que tentar começar a minha própria banda”. Resolvi aparecer com o meu irmão e estava lá o Adam e depois chegou o Paul com mais alguns. Nessa altura, já o meu irmão tinha saído da escola e fazíamos música juntos. Éramos uma espécie de duo. Levamos a guitarra amarela Flying V que o meuirmão tinha construído no barracão do jardim. Era um aparelho muito primitivo e simples, mas fazia barulho e isso é que era importante.

Adam: Lembro-me de ter conhecido o David e o **** com a guitarra amarela deles. Foi interessante. Nenhum deles queria dividir a guitarra, pareciam combinados. Para mim, foi um bocado assustador. Eu tinha vivido muito isolado até aos 16 anos. Não estava habituado a andar de ônibus, por isso, ir a casa de alguém assim foi algo de extraordinário. Lembro-me que os pais do Larry e a irmã, a Cecília, estavam lá e que ele tinha a bateria montada na cozinha. Não percebi se era o Larry ou os pais dele que nos estavam avaliando.

Bono: O Larry foi incrível, pois sabia tocar bateria muito bem e o som era fantástico. Quer dizer, tocar bateria na cozinha é como cantar no chuveiro. A bateria mal cabia na cozinha. Nem sei como é que coubemos todos lá. Achei que o Edge tinha uma cabeça extraordinária – parecia um índio Apache. Já o tinha ouvido tocar, pois ele era da turma da Ali. Já sabia que ele tocava muito bem. A única coisa que me soava melhor do que a moto do Reggie Manuel era um power chord de uma guitarra elétrica. Quando o Edge abriu o regulador, fez imenso barulho. O Adam estava lá e foi tudo fantástico. Não sei se tocava bem, mas tinha estilo.

Adam: Não tocamos muito, estivemos mais conversando. Acho que o Bono nem sequer levou a guitarra, mas isso não o impediu de assumir a liderança.

Larry: Durante cerca de dez minutos, foi a banda de Larry Mullen, para proteger meu ego. Além disso, estávamos na minha cozinha. Depois, apareceu o Bono e estragou tudo. Basicamente destruiu a minha oportunidade de ser líder.

Bono: O Larry parecia muito novo, mas provocava muito entusiasmo. Já nessa altura, no meio dos ensaios, havia gritos e garotas tentando trepar no muro do jardim. Lembro-me de ele fazer uma coisa curiosa – vou apontar a mangueira contra elas! O que, aliás continua fazendo. Era do tipo: “Vão embora! Temos coisas importantes para fazer.”

Edge: Não tivemos um começo lá muito promissor. Conversamos muito, éramos um grupo de pessoas tocando músicas que mal conhecíamos para tentar impressionar-nos mutuamente, na tentativa de perceber se tínhamos gostos musicais semelhantes. Era tudo muito primitivo, mas acho que conseguimos encontrar alguns pontos comuns. Todos gostavam do T. Rex e do Bowie. Eu devo ter tocado um tanto mal a música do Rory Gallagher e o Larry não ficou lá muito impressionado. Houve também quem tocasse a música dos Eagles, pois era um grande sucesso naquela altura.

Bono: O Edge gostava dos Taste, o grupo de Rory Gallagher. Naquela altura, eu costumava ouvir os Beach Boys e algumas músicas de Rock’n’Roll. Isso eu conseguia tocar, eram coisas simples de 12 compassos. O Larry gostava dos Eagles, tal como a irmã.

Edge: Lembro-me de ter pensado que gostava de todos ali, que era o mais importante. Achava que eram todos legais.

Larry: Eu não os conhecia nem eles me conheciam. Nunca me tinha passado pela cabeça enfiar quatro ou cinco estranhos num espaço para tocar música. Agora, tudo parecia possível. Quando terminamos o ensaio, agendamos logo um segundo ensaio.

Adam: A estratégia era encontrar uma sala para ensaiar na escola. Acho que era uma forma de nos tornarmos conhecidos na escola, de fazer com que todos soubessem que tocávamos numa banda.

Larry: Mr. McKenzie, o nosso professor de música na Mount Temples, deixava-nos ensaiar na sala dele às quartas-feiras, à tarde. Donald Moxham, um dos professores de História e bom amigo nosso, contribuía para que a escola nos apoiasse.

Adam: Às quartas-feiras só tínhamos aulas de manhã na Mount Temple, por isso, podíamos ensaiar na parte da tarde. Acho que todos tinham um pouco que fazer e, assim, foi mais fácil nos organizarmos. Os primeiros ensaios foram uma pêra doce. Havia muito entusiasmo. Havia instrumentos com remendos. Costumávamos pedir guitarras emprestadas e até as roubávamos. O Peter Martin foi posto de lado quase desde o início. Tinha uma guitarra e um amplificador, mas não sabia tocar e pertencia a um grupo etário diferente, assim, como o Ivan McCormick. Mas o Ivan ainda ficou conosco algumas semanas.

Edge: Eu e o Larry sabíamos tocar umas coisas, tal como o Ivan, mas o Adam não tocava nada, apenas fingia que tocava. No entanto, como tinha um baixo, não tínhamos dúvidas que iria ser o nosso baixista. O Bono nem sequer tinha guitarra, mas achava-se o guitarrista principal.

Larry: Foi óbvio desde o início que o Bono ia ser o cantor, não porque tivesse uma voz excelente, mas sim porque não tinha guitarra, amplificador nem transporte. Que mais é que podia ser? Ele achava que era um guitarrista, mas, sem ter um equipamento necessário, isso era impossível. Conseguia dedilhar umas coisas, mas não era guitarrista e podemos afirmar que continua a não ser.

Bono: Eu sabia uns acordes, sabia tocar algumas músicas. Não sei quando surgiu a idéia de querer cantar. Toda a vida gostei de cantar, mas não me lembro de ter falado nisso.

Edge: Ninguém queria cantar, pois isso seria nos expor demais e deixava-nos vulneráveis. Eu, pelo menos, nunca me senti à vontade para me chegar à frente e cantar.

Adam: Naquela altura, o Bono ainda não sabia se ia tocar guitarra ou cantar. Tanto quanto me lembro, nem sequer tínhamos microfones. Tínhamos duas guitarras, um baixo, uma bateria e metade de um amplificador que todos usávamos.

Edge: Era preciso estar constantemente afinando os instrumentos, pois não tínhamos muito cuidado com as guitarras, as cordas eram muito velhas e, naquele tempo, não havia afinadores eletrônicos. Por isso, tocávamos durante dois minutos e depois passávamos entre 15 e 45 minutos afinando. O progresso foi lento e durante bastante tempo tentamos, sem grande sucesso, tocar uma música, qualquer uma, do princípio ao fim. Visto agora, era bastante ridículo, mas nós nos achávamos o máximo.

Adam: Era caótico.

Larry: Todos davam sugestões sobre músicas das quais nunca sequer tinha ouvido falar. Eu limitava-me a acompanhá-los a tocar. Lembro-me de um aluno da turma do Bono, um daqueles tipos bonitos com um casaco de sarja, ter aparecido no ensaio e ter ficado nos ouvindo um tempo. Depois, perguntou: “O que estão tocando?” Ele estava, obviamente, tendo dificuldades em perceber. Quando lhe explicamos, ele disse: “Não tem nada a ver! A bateria está totalmente trocada!” Houve um lento reconhecimento de que se vamos tocar uma música, talvez fosse boa idéia aprender a tocá-la primeiro. Nunca conseguimos interiorizar isso.

Edge: Estávamos aprendendo a tocar juntos – não sabíamos de todo o que fazer. Havia alguns lampejos de talento, mas era muito difícil descobri-los no meio de tamanha falta de experiência, coordenação e de tudo o mais.

Larry: A primeira coisa a fazer foi arranjar um nome para a banda. ‘Feedback’. Um nome terrível. Falem com o Edge.

Edge: Era dos únicos termos técnicos que conhecíamos naquela altura. Lembro-me de o Adam ter mencionado como quem não quer a coisa, a palavra ‘gig’ (atuação), o que nos levou a pensar que ele sabia o que estava fazendo e que sabia tocar baixo. O Adam conhecia alguma gíria e já falava com grande confiança de ‘PA’s’ e ‘mesas de mistura’. Até que alguém, provavelmente o Adam, mencionou o termo ‘Feedback’. Acho que acabou por pegar, pois havia muito disso nos nossos primeiros ensaios. Parecia adequado.

Adam: O nome ‘Feedback’ parecia ligado ao rock. Nem sei quem o sugeriu.

Bono: Culpado, meritíssimo.

Edge: Não demorou muito até a banda começar a se unir em torno das pessoas que pareciam mais adequadas juntas. Eram elas, os quatro futuros U2 e o meu irmão . Ele era tão bom guitarrista quanto eu, talvez um pouco mais excêntrico, mas um guitarrista muito completo, à sua maneira. Mas, após algum tempo, começou a notar-se que fazíamos mais sentido como grupo de quatro elementos. O Larry percebeu isso instintivamente, quase desde o início. Veio ter comigo ao corredor e me perguntou: “O Dick faz parte da banda?” E eu respondi-lhe: “Faz. Acho que sim. Mas por quê?” E ele retorquiu: “Não sei. Era só para saber. É que ele não anda na escola e é um pouco estranho, você não acha?”

Adam: No final do trimestre, teria uma mostra de talentos no ginásio da escola e decidimos estrear nessa ocasião. Nos dedicamos então a trabalhar para esse concerto.

Larry: Acho que só tínhamos duas músicas, era esse o nosso repertório. ‘Show Me The Way’ do Peter Frampton e, como piada, ‘Bye Bye Baby’ dos Bay City Rollers.

Edge: Na verdade, sentia-me envergonhado por estar tocando ‘Show Me The Way’. E senti-me tão envergonhado por tocar ‘Bye Bye Baby’, que consegui não pensar nisso até hoje. Mas, para dizer a verdade, acho que eram as únicas músicas que sabíamos tocar até o fim. Por muito que quiséssemos tocar ‘Blister on the Moon’ do Rory Gallagher, ou outra música um pouco mais credível que experimentássemos nos ensaios, isso ia ser impossível. Não éramos capazes. Estas duas músicas eram tão simples que até nós as conseguíamos tocar.

Larry: Lembro-me de ensaiarmos ‘Show Me The Way’. Sempre achei que tinha sido idéia do Bono. A letra tinha tudo a ver com ele.

*Página 28 é uma foto com o título Another Time, Another Place