1978/1980 - Staring at the Sun | U2 Brasil

 

1978/1980 – Staring at the Sun

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Páginas 55 a 60

Larry: O Paul causava boa impressão devido ao seu sotaque requintado e a boa aparência. Tinha óculos escuros, embora devessem ser lentes bifocais coloridas. Lembro de ele ter ficado bastante impressionado com a presença do Bono no palco. Suponho que também deve ter achado que o resto da banda era aproveitável, pois veio à tona a possibilidade de ser nosso agente.

Bono: O Paul tinha e tem um ar bastante confiante. Um dos seus dons é falar. Uma idéia que pareça impossível de se realizar se torna possível, bastando ele falar nela. Ele nos disse:

“É mesmo assim.
Componham algumas músicas,
toquem elas ao vivo e depois, é só gravá-las.”

“E depois compramos um furgão?”
Acho que isso foi uma afirmação.

Ele disse: dá disso. Primeiro tem que ir a uma gravadora, editar o primeiro álbum e, depois, fazer uma turnê.”

“E depois compramos o furgão?”

O que nós queríamos era ter um furgão para ganharmos dinheiro. Numa noite, fomos para Kerry, para tocar em um bar onde podíamos dormir no andar de cima, poupando assim o dinheiro do alojamento. O dono do bar era muito generoso: “Sanduíches, chá, café, o que vocês quiserem. Não tenham vergonha.” Por isso, é obvio que comemos todos os sanduíches que apareceram na frente e bebemos até não poder mais. Nessa noite, depois do concerto assistido por apenas 70 pessoas, ele nos pagou 100 libras pela atuação (cerca de 127 euros), menos os sanduíches e o alojamento. Ficamos com 30 libras…mas o furgão custou 40 libras. Achávamos que se comprássemos um furgão ganharíamos muito dinheiro. Se o nosso agente pudesse, de alguma maneira, subsidiar o furgão…e ele tinha ar de quem tinha possibilidades, por causa de seu sotaque. Mas a deixa dele era: “Vocês têm tudo. Só precisam melhorar. Mas já tem o que é preciso.”

Larry: Eu era cauteloso em relação ao Paul. Já na nossa fase ouvia historias de agentes e gravadoras que exploravam as bandas. Foi uma decisão tanto quanto estranha, vinda de um homem que era notoriamente perspicaz e inteligente. Mas o que é que eu percebia disso? Eu era apenas um garoto metido.

Edge: Acho que o Paul não estava preparado para ser agente de outra banda. A experiência com os Spud não tinha sido propriamente um triunfo. Entretanto, esteve envolvido na promoção de diversas bandas na Suécia. Algumas até recusaram lhe pagar a comissão, pois ele estava em Dublin e elas na Suécia sem intenções de regressar, Por isso “Que se lixe!” Ele se sentiu ofendido. De qualquer forma nos dávamos todos muito bem, mas ele não se pronunciava se estava interessado em ser nosso agente ou não.

Adan: A conclusão que chegou após o nosso primeiro encontro foi: “Vocês estão se safando muito bem. Tem dado concertos, estão melhorando e isso é claro. Estão nas noticias.” E nós dissemos: “Não! Isso não basta. Queremos dar mais concertos. Queremos fazer uma demo, queremos gravar um disco.” Mas ele achava que ainda não estávamos preparados. Agora entendo, mas, na época, parecia uma espécie de rejeição. Além disso, queríamos um agente para resolver alguns de nossos problemas, como por exemplo: a falta de dinheiro, a aquisição de instrumentos de confiança e um furgão para deslocações durante os concertos. Durante algum tempo ficou tudo na mesma.

Paul: Tinha quase certeza de que essa era a banda que eu procurava, mas passamos semanas, talvez até meses, estudando, tendo reuniões só para confirmar se éramos todos inteligentes, empenhados, e se tínhamos o mesmo objetivo. Confirmado. Eles tinham um bom grupo de fãs que os seguiam para todos os lados para apoiá-los. Eram habilidosos, ambiciosos e perspicazes.

Bono: Lembro do meu aniversário de 18 anos. Fomos todos ao McGonagles, onde já era de costume eu ir com o Guggi, o Gavin e os Village. No tempo dos meus pais, aquilo era um salão cristão de dança. Agora era palco de concertos punk-rock. Íamos vestidos com roupas escandalosas que encontrávamos no guarda-roupa das nossas mães. Ou dos nossos irmãos mais velhos, e íamos para a MacGonagles. Nunca tínhamos dinheiro para uma viagem de táxi até em casa, por isso, íamos a pé por quase todo o caminho e só no ultimo lugar possível é que pegávamos um táxi. Assim, ficava mais barato. Lembro que estava deitado na rua O’Connel, depois de ter bebido alguns copos, não muitos. Estar bêbado era considerado algo ridículo. Era só para fracassados, coisa que ninguém quer ser. Como eu digo: “What you mock will surely overtake you” (o que você zomba ira certamente te dominar). Lembro de estar deitado olhando para o céu e de me sentir bem por fazer parte de uma banda. Por estar onde estava, por estar vestido como um péssimo figurante do Star Trek. Enquanto estava olhando para cima, surgiu um cara na minha frente, a cara de um policial. Ele disse: “Importa de se levantar? Não pode dormir aqui no meio. Está na rua O’Connel!” Quando chegamos em casa ficamos acordados conversando. Fomos para minha cozinha e falamos sem parar, sempre sobre música, até o nascer do sol. Foi na manhã seguinte do meu aniversário que escrevi ‘Out of Control’!

Monday morning eighteen years dawning. I said how long?/ It was one dull morning, I woke the world with bawling. They were so glad. I was so sad. Há uma música de aniversário para você: não querer nascer. É engraçada, é juvenil, eu sei, mas é uma idéia interessante para uma música. E percebemos que não temos direito de dar a nossa opinião nos dois momentos mais importantes da nossa vida: quando nascemos e quando abandonamos o planeta. ‘I was oh the feeling it was out of control’

Edge: O Bono apareceu com a idéia para a ‘Out of Control’ e nós deixamos aquilo andar. No inicio, éramos tão péssimos músicos que só compúnhamos aquilo que sabíamos tocar e é por isso que não passavam de refrões simples, idéias simples, acordes simples e o Bono andava sempre procurando melodias nos nossos ensaios instrumentais. ‘Shadows And Tall Trees’ surgiu em uma dessas procuras. Eu e o Bono costumávamos apresentar algo que tivéssemos preparado anteriormente, mas, no final, as músicas só eram aproveitadas se as soubéssemos tocar.

Não digo que tinha canções fantásticas que não chegavam ver a luz do dia, mas, se o ensaio não corresse bem, a música não ia a lado nenhum. Era nessa base que as nossas idéias eram testadas. Como nessa época ouvíamos muita música, as nossas composições eram influenciadas por: Patti Smith, The Jam, Clash, Siouxsie and the Banshees, Bowie, Magazine, Buzzcocks. Tudo o que nos rodeava foi tirado do caldeirão e, entretanto, as músicas surgiam. Só estávamos tentando descobrir uma forma de fazer corretamente. Houve muitas falsas partidas, muitos julgamentos e erros pelo meio. Às vezes, criávamos coisas inovadoras, mas longe de serem perfeitas. Foi algo muito difícil e excêntrico, eclético e esquizofrênico, mas o mais importante é que tinha força e muita vitalidade. Dedicamos muita energia e entusiasmo.

Foi a partir de ‘Out of Control’ que as criações das canções se tornaram mais entusiasmantes. O processo era o mesmo, mas elaborado. Normalmente, fazíamos uma jam e os riffs acabavam surgindo naturalmente e nós começamos a construir idéias em torno desses riffs. Durante os ensaios, havia muita discussões com o Larry. “Alterou a parte da bateria. Não era assim que costumávamos tocar!” – decidimos, então, optar por um sistema que gravasse os ensaios e depois as melhores partes ficariam gravadas, para servir de orientação, independentemente de ser uma parte da bateria, de guitarra ou de melodia vocal. Essa se tornou uma característica marcante nos nossos primeiros ensaios, trabalhávamos as músicas a partir de um gravador de cassetes. Era difícil ouvir o Bono, por isso, as letras não eram uma grande prioridade. O Bono nunca falava sobre as letras. Mesmo que a música já estivesse quase pronta, nunca sabíamos se ele tinha a letra. As letras estavam meio escritas, só para dar sentido a uma ou outra frase que lá estivesse. Depois, havia partes inteiras que eram só “palha”, como nós as chamávamos. Se eu escrevesse uma letra, o que às vezes isso acontecia, tinha de o convencer a cantá-la, o que era difícil. Compus uma música intitulada “Cartoon World”, mas o Bono colaborou na letra. Jack and Jill went up the hill/ They dropped some acid and they popped some pills! Certeza que essa parte foi ele quem escreveu.

Bono: Tentava encontrar o nosso som com situações e rimas infantis. Tínhamos uma música chamada ‘Concentration let’s go.’ E pronto. A ‘Cartton World’ foi igual. Estávamos tentando descobrir a nossa linguagem. O trabalho era basicamente gratificante – julgo que já nessa altura sabíamos que tínhamos que criar uma nova espécie de moda, baseado no que estava fora de moda.

Adam: Fizemos a nossa primeira demo nos Keystone Studios. O Jackie Hayden, da CBS Ireland, estava supervisionando tudo, embora ache que ele é o primeiro a ter admitido que não é produtor. Foi horrível, pois ninguém nos entendia. Aparecemos lá e não fazíamos idéia do que estávamos fazendo. Mas nos colocarem em um estúdio de gravação, onde estávamos afastados uns dos outros e onde não podíamos nos comunicar, a gravação ia ficar péssima e não íamos tocar nada. Foi um inferno.

Bono: Nunca tinha estado em um estúdio de gravações. Desci até o porão e, sentada na recepção estava uma moça mais bonita do mundo, com uma voz linda. Pensei: “Uau! Será que em todos os estúdios de gravação há pessoas como ela?” Chamava-se Mariella Frostrup (veio se tornar uma famosa apresentadora de televisão). Lembro do meu entusiasmo ao ver os equipamentos. Era tudo sério. Pensos que estávamos todos irritadíssimos e não correu muito bem. O som na minha cabeça não era o mesmo que se ouvia nas colunas. Era um som muito leve. Nós estávamos habituados ao som dos ensaios. O volume da bateria, dos pratos, do baixo e da guitarra disfarça muitos problemas.

Edge: Não fazíamos a mínima idéia do que estávamos fazendo. Confundi por completo o som da guitarra. O volume da minha guitarra estava tão baixo que quando ouvimos a gravação, parecia uma guitarra de brinquedo. Não imaginávamos que, num estúdio o som pudesse ser tão alto.

Bono: Entretanto apareceu o pai do Larry e o tirou dali, porque ele só tinha 15 anos.

Larry: Eu tinha provas no dia seguinte, por isso, só pudemos gravar durante algumas horas. Entretanto, apareceu meu pai e disse: “Tenho de levar você para casa. Ele tem aula amanhã.” E lá fui eu.

Adam: Tínhamos que fazer esse trabalho durante a noite, porque ficava mais barato. Mas o Larry teve que ir embora às onze horas. Perdemos o ritmo por completo. Ainda só tínhamos terminado as pistas de guia. O Jakie queria que gravássemos todas as músicas, mas acho que só conseguimos terminar a gravação de uma, chamada ‘Inside Out’. Foi uma sensação fantástica ouvir a nossa música, mas foi, ao mesmo tempo, uma espécie de choque perceber que o som não era assim tão bom. Não tinha nada a ver com as músicas que ouvíamos na rádio.

Bono: Eu tinha um problema na voz. Era grande fã dos Siouxsie and the Banshees, o que não constituía um problema. É, aliás, umas das melhores coisas que possa acontecer a alguém, exceto se adotarmos o sotaque dela. Eu era mímico e por conseqüência, tinha que ter muito cuidado com o que ouvia, pois a minha voz podia mudar. Muitos cantores são na verdade excelentes mímicos. Por exemplo, o David Bowie e o Mick Jagger. Aparentemente, o John Lennon também era. E até faz sentido, é uma coisa de ouvido, é a capacidade de imitar alguém falando, e ficar com sotaque. É como desenhar – para isso, é preciso ter olho e na música é preciso ter ouvido. Por isso, as gravações eram ridículas. Eu tinha um sotaque britânico: ‘Oh dear, oh dear, oh dear.’

Quando se toca ao vivo o volume abafa muitas falhas. Durante a atuação, a pessoa se perde no tempo, consegue interagir com o público. O Gavin era um enorme fã do Bowie. Eu também. Mas ele conhecia tudo o que era do David Bowie, dos Kraftwerk, de Brecht e Oscar Wilde. E acho que toda a malícia na minha voz vinha dele. Ao contrário de quando cantava ‘Show Me The Way’ no ginásio da escola, aí a voz não tinha malícia, era genuína. Entramos, então, naquela fase de usar o batom da mãe, calçar os sapatos dela, que são muito grandes, ir tropeçando até a cozinha e a família começa a rir. Era mais ou menos isso: experimentar a roupa dos outros. Mas isso é algo que temos que fazer para descobrir o que nos fica bem. Acredito plenamente que o U2 é uma das melhores bandas, e sempre acreditei desde o início, mas seria bom se as nossas gravações pudessem ser prova disso. Demorei bastante tempo até descobrir a minha voz.

Larry: Achei o som fantástico. Em comparação aos nossos ensaios, aqui eles tinham o som saindo das colunas gigantes, acrescentando o efeito do eco. Fiquei completamente maravilhado. Não me recordo de nenhuma dificuldade durante a gravação e não fiquei tão decepcionado como os outros em relação ao resultado. Achei que o som estava bom… infelizmente.

Edge: As aulas terminaram. Demos um concerto no parque do estacionamento da escola. Foi a nossa despedida da Mount Temple. Chegava agora o momento de descobrir que rumo tomar. Os meus pais tinham uma atitude bastante liberal, o que agora posso dizer que funcionou com perfeição. Nos deixavam fazer qualquer coisa, independentemente do que fosse. Às vezes, não era boa idéia, mas na maioria das vezes não tinha problema. Éramos nós que decidíamos quase tudo. Então, fiz um acordo com meus pais. Disse: “Isso da banda está se tornando sério. Não sei até onde vamos conseguir chegar, mas estou gostando muito de trabalhar com essas pessoas e de fazer o que estou fazendo, gostaria de continuar durante um ano para ver no que dá. Se após um ano não acontecer nada e não tivermos um contrato de gravação, então irei para a faculdade.” Não tinha nenhuma intenção de ir para a faculdade, mas sabia que era a única forma de ganhar algum tempo. Eles acabaram concordando e a nossa casa se tornou automaticamente o local de ensaios da banda. Nesse ano, compusemos muitas músicas no barracão no fundo do jardim. Transformamos isso em nosso lugar de ensaios. O teto tinha um buraco que tapamos com sacos de areia e tínhamos um colchão enorme na porta. Lá conseguimos enfiar todos. Se vissem, chorariam de rir. O espaço tinha cerca de três metros quadrados, mas, mesmo assim, deu para colocar o isolamento sonoro e cabermos todos lá dentro com os instrumentos. Era demais, até começar a chover. A areia ficou toda molhada e, com o peso, o teto caiu em cima da gente.

Bono: O meu pai me deu um ano. Disse: “Tudo bem, pode viver aqui em casa durante um ano. Mas se, ao fim de um ano, não tiver dinheiro para pagar suas contas, arruma um trabalho ou sai de casa.” Achei que foi bastante generoso da parte dele. O meu irmão já tinha ido embora, por isso, era só eu e ele. Era o espetáculo do Bono e do Bob, e foi mesmo um espetáculo. Ele tentava continuar sendo o sargento, mas eu não era um bom soldado.

Larry: Saí da escola em 1978. Lá, o primeiro e o segundo ano foram um sacrifício. Por volta de 1977-78, fiz os exames intermediários. Me saí bem, para espanto de todos, e até mesmo para meu espanto. A escola me ofereceu um lugar e a oportunidade de completar meus exames de certificação do secundário. Nessa época, a situação econômica era tão instável que as pessoas que terminavam os estudos com boas médias não conseguiam arrumar emprego. A minha irmã trabalha em uma empresa americana, em Dublin, e eles queriam recrutar um novato para o departamento de compras. A empresa estava ligada a exploração petrolífera ao largo da costa da Irlanda. Acabei trabalhando lá durante um ano no departamento de compras, na expectativa de, eventualmente, me tornar programador de informática na seção de geologia.

Adam: Eu ainda gerenciava a banda, mas precisávamos de alguém com mais autoridade. Como Paul MacGuiness não queria aceitar, estávamos sempre tentando pensar em alguém para assumir o cargo. Há muitas pessoas ligadas a música irlandesa que não devem gostar de lembrar quando menosprezaram o nosso desenvolvimento.

Paul: Houve um período, logo no início do verão, que andávamos rodeando. Olhando para trás, vejo que fizeram de tudo para tentar a dimensão das suas crenças cristãs, pois achavam que, se eu percebesse poria a milhas. E tinham razão. Era algo que não estava explicito e teria sido preocupante.

Edge: Creio que comecei a me tornar espiritualmente consciente quando tinha cerca de 15 anos. Tínhamos uma professora de educação moral e religiosa chamada Sophie Shierley, que foi a primeira cristã renascida que eu conheci. Ela era completamente atormentada pela minha turma por ser ingênua e não ser muito legal, mas eu gostava da matéria. Respeitava tudo o que ela dizia, pois tinha pessoas na família devotas à religião cristã, sobretudo minha avó materna. Quando o Bono começou a falar sobre isso, fiquei imediatamente interessado em saber o que ele tinha descoberto. Me contou que tinha um cara que ia na casa do Guggi, onde morava com seus dois irmãos em Glasnevin, situada do outro lado do cemitério. “Willows” era o nome da casa. O Shane O’Brien ia muitas vezes lá e ficávamos conversando uns 6 ou 7 sentados em volta da mesa bebendo café, falando do que é ser cristão, lendo a Bíblia e orando por uma inspiração divina ou uma pista. Esse foi o nosso primeiro encontro. Sei que o Bono tinha falado com o Adam sobre as suas crenças, mas o Adam não acreditava nada naquilo. Era contra qualquer organização religiosa e tudo o que fosse espiritual. Achava que tudo aquilo era perigoso e uma verdadeira afronta. Um dia, veio falar comigo e disse: “O que esta fazendo? Só esta fazendo isso por causa do Bono. Isso não é coisa sua.” O Adam deve ter pensado que o Bono, devido a sua forte personalidade, estava convertendo o grupo em um grupo cristão e ficou aterrorizado com a idéia. Isso o perturbava, pois ele não entendia.

Adam: Não creio que tenham feito muitas alusões a Deus ou tenham mencionado o Seu nome. Mas reparei que quando essas pessoas apareciam nos shows, estavam todas um pouco diferentes. Não eram músicos. A forma como essas pessoas se afirmavam não me parecia genuína. É o que eu acho. Pareciam que pertenciam a um culto e que eram pessoas fechadas.

Paul: Eles costumavam ir ao meu apartamento na Waterloo Road, onde falávamos sobre como poderíamos conquistar o mundo. Na época não percebi, mas eu tinha um frasco grande cheio de moedas onde guardava todos os trocos que tinha no bolso, e era esse dinheiro que financiava a banda. Era com esse dinheiro que pagávamos o transporte e outras coisas.

Bono: É triste. Nós pensávamos que o Paul tinha muito dinheiro, simplesmente pela forma como falava – e porque trabalhava na indústria cinematográfica. Costumávamos ir à casa dele e marcávamos as reuniões para mais perto possível da hora do almoço, para comer alguma coisa. Ele tinha um frasco com trocados. Acho que nunca roubamos dinheiro desse frasco. Isto é, talvez tenhamos tirado dinheiro emprestado sem ter a intenção de devolver. Mas certeza que contamos isso a ele. Acho que tinha nos falado: “Se precisarem de dinheiro, tem ai algum trocado.”

Adam: O Paul tinha muitas características, mas o que mais se destacava na época era a sua franqueza. Via a vida preto no branco e as coisas eram honestas ou não eram. Estava do lado do artista e contra o negócio. Não sei por que ele era assim. Talvez porque tinha estado ligado ao teatro e via os atores como pessoas que precisavam de apoio. Ou talvez tivesse ficado assim mais tarde quando esteve ligado ao cinema. Seja como for, ele era assim. E elogiava de uma forma prática nossas qualidades e o modo como apresentávamos os espetáculos. Sempre foi muito generoso com a gente e sou muito grato a ele por essa bondade. Nós nunca tínhamos dinheiro e ele estava sempre oferecendo as refeições, ou café e, se fossemos a um bar, pagava as bebidas.

*Páginas 57 e 61 – Foto