1978/1980 - Staring at the Sun | U2 Brasil

 

1978/1980 – Staring at the Sun

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Páginas 62 a 70

Bono: O Paul não transmitia calor humano. Trabalhava na indústria cinematográfica e estava sempre levando na cabeça por parte da Kathy, pois ficava muito tempo pensando na sua banda revelação. Ela era uma mulher séria e começou a ficar preocupada com o Paul, por ele perder cada vez mais tempo com o projeto. O que mais me surpreendeu no Paul foi ele ter dito: “Não quero ser amigo de vocês. Quero ser seu agente.” Não havia espaço para amizade. Muito interessante. E, por isso, os Village deixaram de gostar dele, porque se ele não queria ser nosso amigo, também não queria certamente ser amigo deles. Passou a ser inimigo público número um. Ele não queria uma relação tipo: “estamos nisso juntos”. Seria como se nosso médico ou nosso contador fosse amigo íntimo. Era uma relação meramente profissional, na qual éramos os clientes dele. Acho que era assim que ele nos via.

Adam: Uma das primeiras coisas que Paul fez por nós foi um pouco controverso. Nós fomos tocar em um show no McGonagles com a banda do Steve Averill – The Modern Heirs, e outra banda de Dublin, chamada Revolver, e nós seríamos os primeiros a tocar, mas ele fez o Modern Heirs ir primeiro. Eu acho que o argumento dele era que tinha alguém chegando para nos ver. Havia uma vibração meio estranha no ar, e eu sabia que o Steve estava um pouco apavorado com isso. Paul era capaz de fazer coisas como essa, na qual você não se sentia muito confortável, mas você gostava do fato de ter alguém defendendo sua posição. Isso pode ter sido o início de nossa ascenção.

Bono: Meu pai conheceu o Paul. Paul falava com um sussurro baixo, da sua ascendência britânica, e isso significa que meu pai imediatamente não confiou nele. Ele tinha dito “Cuidado com aquele camarada”. Com certeza, meu pai não confiava em ninguém. Você sabe, qualquer pessoa batendo na sua porta após meia-noite era um assassino, toda garota era uma fã alucinada. Todo amigo era um psicopata. Toda pessoa do mundo da música era inescrupuloso e ladrão. Agora, como ele sabia tudo isso?

Edge: Ter o Paul a bordo não mudou muito as coisas no começo. Ele apenas nos disse para continuar escrevendo músicas e fazendo shows. Havia uma cena underground se desenvolvendo na cidade de Dublin, com bandas como o Revolver, The Vipers, The Atrix, DC Nien, The Blades, The New Versions e Berlin. Era sempre uma confusão conseguir alguma coisa e o Adam é que fazia a maior parte do barulho. Isso era um pouco frustrante. Eu me lembro de ir ao McGonagles com o Adam para falar com o Terry O´Neil, que dirigia o clube, sobre tocar como banda de suporte da segunda entrada de shows, apenas para descobrir que nós estávamos sendo rebaixados para o final da lista, depois de uma nova banda feminina chamada The Boy Scoutz. Quando nós ficamos sabendo que aquele era a primeira apresentação ao vivo delas, o Terry disse, “Não importa se elas são uma bosta, porque só o que as pessoas querem é ver meninas em uma banda punk”. Então veio o verão com algumas apresentações de suporte no McGonagles e no Project e em alguns bares pela cidade. A nossa equipe de estrada nessa época era o ´Tiger Hunter´, também conhecido por Lep Murphy, um dos melhores amigos do meu irmão. Antes do Tiger, nós tínhamos a ajuda do Stephen Milburn, vizinho do Adam.

Larry: Por causa do meu trabalho, não era possível que eu participasse de todas as apresentações durante a semana. Eu conhecia um cara chamado Eugene, que tocava bateria em uma banda de rock ao norte de Dublin, chamada Stryder. Ele era um grande cara e me cobria nos shows que eu não podia ir.

Bono: O Larry arranjou seu primeiro substituto, um garoto de alguma banda de metal. Mas aí um segundo baterista foi trazido sem que ele soubesse – Eu acho que o Larry estava decidindo se ia ou não ficar na banda. E isso ia sendo protelado. O Larry não ia para as sessões de fotos, e então o Guggi o substituía. Ele não era tão parecido, mas por causa dos cabelos loiros, Guggi podia ficar atrás e fingir ser o baterista. Só que o Larry sofreu um acidente, ele estava trabalhando como entregador e ele atropelou seus próprios dedos do pé enquanto dirigia uma motocicleta. Ninguém consegue imaginar como ele conseguiu isso, mas isso significava que não conseguiria participar das apresentações, e nós então achamos um cara chamado Eric Biggs. Ele usava uma jaqueta de couro, ele era meio misterioso, o tipo do cara boa-pinta e fácil de conviver. Nós realmente conversamos com ele sobre ser o baterista do U2. A questão era: o Larry podia ser levado a sério ou não? Esse cara, o Eric, era sério. Nós éramos sérios… Larry é muito sério! Mas não sobre ter certeza que queria estar na banda. Eu acho que havia um certo blefe – qualquer outra besteira sua e nós traríamos o outro cara.

Larry: Eu estava comprometido com a banda tudo que eu podia naquele momento. Eu fiz um trato com os meus pais, eu trabalharia um ano e teria algum suporte caso as coisas não dessem certo na minha carreira musical. Também, eles não tinham condições de me sustentar, então eu não tinha escolha. Bono fazia trabalhos pra conseguir um trocado, pintor e decorador, ele trabalhou numa loja de calçados por um tempo. Era apenas ele, seu pai e seu irmão, e eu acho que havia uma certa tolerância com seu estilo de vida por causa do seu caráter. O Edge e o Adam tinham mais condições. Eu não estou dizendo que eles sempre podiam contar com seus pais, mas eles sabiam que não iriam acabar nas ruas. Havia muita pressão sobre mim para que eu pelo menos tentasse ganhar alguma experiência fazendo alguma outra coisa. Eu não tenho muita certeza se a banda entendeu, mas eu estava preso com o acordo que tinha feito com meus pais.

Adam: O Larry estava se afastando de nós. Tocar nos shows não parecia muito importante para ele, e o restante de nós estava tentando ensaiar, nós estávamos tentando escrever. Então nós tínhamos outro baterista, e ele fazia um bom trabalho como substituto. Mas ultimamente, eu acho, ele não era um Beatle. Eu estava sob pressão dos meus pais para conseguir um emprego. Eu consegui protelar isso apenas por um tempo. Finalmente decidi procurar um trabalho onde eu achava que poderia usar uma van. Eu entregava produtos chineses para um pequeno varejista próximo de Malahide, o que envolvia dirigir uma van da Volkswagen por todo o país. Eu achava: “Pelo menos vou poder usar a van à noite para transportar os nossos instrumentos”. Mas isso era ingenuidade da minha parte. Meu patrão não gostou da idéia de usar seu carro com uma banda à noite. Mas até que era interessante dirigir pelas estradas da Irlanda entregando caixas de chás para lojas em Tralee e em Cork. Eu gostava de ficar fora, porque eu poderia escutar o rádio e não ter ninguém me monitorando, mas as horas eram extremamente longas, o dinheiro não era grandes coisas e a van não era tão divertida de se dirigir. E eu eventualmente acabava batendo-a. Tinha sido um longo dia e eu estava voltando para Dublin por volta de 9.30 da noite, tentando voltar para a cidade para um ensaio. Apenas um dos faróis estava funcionando. Eu estava vindo um pouco rápido numa curva e não consegui ver o meio-fio. Então, esse foi o fim da minha carreira como motorista.

Edge: Nós conseguimos fazer o show de abertura para o The Stranglers no The Top Hat Ballroom. Essa era nossa primeira aparição ao lado de uma banda de sucesso e foi um momento um pouco decepcionante perceber que a cultura punk não concedia, para bandas de abertura, um camarim ou mesmo algumas cervejas.

Adam: O Paul foi à um casamento, e então não podia ser nosso empresário e lutar por nós. Nós tínhamos que ter certeza que teríamos uma passagem de som e luzes e um camarim, e que nós seríamos tratados justamente e ser pagos ao fim do show. Mas eu acho que nós não tivemos uma passagem de som, e eles tinham pegado todos os camarins, então nós tivemos que esperar no backstage atrás das caixas de som. Eu sabia que isso era só a raiz do que enfureceria o Bono mais tarde. Então nós subimos no palco e fizemos nosso show, e logo na primeira ou segunda música o Edge quebrou uma corda e nunca mais conseguiu colocar sua guitarra no tom novamente. Eu acho que o Bono sentiu a hostilidade da platéia, que era uma audiência do punk hardcore e não tinha nem um pouco de tolerância com a gente. Quando acabou nossa apresentação, o Bono foi até o camarim do The Stranglers e começou a discutir sobre heróis e como tratar as pessoas.

Bono: Eu tive uma pequena discussão com o Jean-Jacques Burnel (baxista do The Stranglers). Tenho certeza que ele nunca irá lembrar, mas foi um grande momento para mim.

Larry: A grande música do The Stranglers era “No More Heros” e esse era o argumento do Bono com eles: se não existem mais heróis, como vocês podiam tratar uma banda de abertura como merda?

Bono: Os The Stranglers tinham presença – muito masculino, viril. Não eram garotos franzinos, do punk-rock inglês. Eu perguntei ao JJ se ele usaria um adesivo do U2 no seu baixo. E ele disse, “Porque eu deveria? Usem seus próprios adesivos”. Ele não estava agindo de uma maneira punk-rock, e nós decidimos que ele era um idiota e que não entendia o que era o movimento punk-rock. Eles apenas não eram punk-rock, eles eram os inimigos do punk-rock. Então nós nos negamos a assistí-los no palco. Ao invés disso, nós invadimos o camarim durante o show e roubamos o vinho deles. Eu estava cheio de indignação e coragem. Era um tipo de raiva que estava em mim, sempre comprando briga com pessoas que eram muito maior que eu.

Edge: O Bono entrou no camarim e voltou com uma garrafa de vinho sob protestos, e então nós bebemos atrás dos autos-falantes. Mas foi legal vê-los fazer a checagem de som. Eles eram velhos, e isso me surpreendeu. Jet Black, o baterista, estava provavelmente na casa dos trinta, mas poderia facilmente ter uns cinquenta.

Adam: Nós tínhamos uma dívida dupla com o Virgin Prunes no Project. Eu acho que nesse momento o Paul começou a ficar um pouco chateado com o Prunes.

Paul: O Prunes se tornou o nosso show de abertura obrigatório. Nós até mesmo tínhamos pôsters do U2, com “e o Virgin Prunes” impresso no canto inferior. Eu tenho que admitir que eu não era um grande fã – o meu desgosto com algumas coisas que eles faziam não era nenhum segredo.

Edge: As ações do Gavin eram muito extremas, ele estava no Dada e suas performances artísticas estavam muito além da sua época. Sua atitude com o público era muito mais de confronto do que a nossa. Enquanto o Bono apresentava um charme ofensivo, o Gav era apenas ofensivo. Quando o MacGuiness se tornou nosso empresário, isso era a única coisa que ele odiava, que o Prunes era uma coisa fixa e que eles estavam sempre por perto.

Paul: Eu podia assistir o Prunes enquanto o U2 estava no backstage. O Bono dizia, “Eu não consigo entender porque o público está de tão mau humor”. E eu dizia, “Deve ser porque os seus amigos do Virgin Prunes jogaram um monte de resto de porco em cima deles”.

Edge: O Paul poderia argumentar que nós estávamos literalmente pagando essas pessoas para irritar o público. Nossa lealdade ao Prunes era tanta que nós estávamos felizes em dá-los a oportunidade de tocar. Nós realmente gostávamos do que eles faziam, na realidade eu acho que nós não imaginávamos o quão importante eles eram. Naquela época, você não via nada parecido em Londres ou em Nova York, apenas em Dublin. Olhando retrospectivamente, eles eram inovadores e extraordinários

Bono: O Prunes veio com a idéia de um apelido para o Paul. Ele era o The Goose (“O bobo”).

Edge: Os apelidos não eram necessariamente inventados para que você soasse como um membro de uma banda de rock. Eles eram dados para que nós pudéssemos sacanear as pessoas. Então Bono Vox da O´Connell Street, para dá-lo seu nome completo, foi usado para brincar com o Bono. Já para The Edge, eu acho que eles estavam de alguma forma se divertindo com o formato da minha cabeça. O Adam era a Sra. Burns, porque ele às vezes aparecia vestido como uma velha senhora, e o Larry era conhecido como The Jam Jar. Bill Graham era Burgundy. Existiam alguns apelidos realmente fantásticos, Joycean, Little Biddy One Way Street e Gook Pants Delaney. Mas Sra. Burns e The Jam Jar e The Goose não eram usandos frequentemente, eles eram um pouco pesados. Havia várias formas de insultos mascarados nesses apelidos. Por um tempo Bono era Bon Smelly Arse. Eu fiquei feliz que esse apelido não colou ou as coisas poderiam ter sido diferentes. Eu não sei se a banda teria ido tão longe com um cantor chamado Bon Smelly Arse.

Adam: Os nomes que tendiam a ficar eram aqueles que se relacionavam com a aparência da pessoa. Como o Edge tinha uma cabeça muito grande e angular, o apelido parecia apropriado. E Bono Vox da rua O´Connell simplesmente se adaptou a ele – isso era uma loja de aparelhos auditivos. Não que ele seja difícil de se ouvir…ou que outra pessoa seja difícil de ser escutada por ele! Mas isso simplesmente coube.

Bono: Os ensaios nesse ponto eram apenas uma gritaria de argumentos, cada um mais longo que o outro. Eu era provavelmente o principal responsável por isso – mas veja, eu vim de uma casa onde todos gritavam com todos, então eu achava que isso era um discurso normal. Meu pai e meu irmão assistindo rugby, sentados em frente à televisão e meu pai chacoalhando o pulso e apontando para o árbitro gritando: “Eu vou te matar!”. Meu irmão também. Eles eram barulhentos, e eu acho que eu também era. Eu não sou mais agora. Em nossa casa, eu raramente aumento o tom da minha voz; eu posso esquentar de outras maneiras. Mas, naquela época, eu achava que era dessa forma que se falava com as pessoas. Então havia muito, muito de agressividade, e porque nós não éramos funcionais como uma banda, isso era muito difícil. Como eu não era senhor de nenhum instrumento, eu contava com o Edge, que contava com o Adam e com o Larry, e nenhum de nós éramos bons o suficiente para nos apoiarmos. Você podia escutar a melodia chegando, você estava quase para agarrá-la, ia ser perfeita, e então alguma besteira acontecia. Alguém derrubava alguma coisa de metal, e você queria matá-lo. E no meu caso era: “Eu vou te matar se você fizer isso de novo!”.

Larry: O Bono era – e ainda é – um poço de contradições. Ele tem idéias muito clara na sua cabeça de como a música deve ser, de como ela deve soar e como deve ser sentida, e ele cria expectativas muito grandes. Eu acho que é meio frustrante para ele subir no palco e dar 100 por cento de si e achar que a banda não é capaz de lhe dar todo o suporte que precisa. Ele sente como se estivesse lá fora com a bunda para fora da janela, pulando como um homem possuído. O som não era muito bom no palco, ele não conseguia ouvir a bateria e ele podia deixar isso subir à sua cabeça e achar que era porque alguém não estava dando o máximo de si – por exemplo, eu. Então ele podia ficar frustrado, e essa frustração ir crescendo e ele de repente podia explodir.

Bono: Não era que eles não ligassem, ou que eles não estivessem prestando atenção. Estávamos apenas estragando tudo, cometendo erros ordinários. Mas isso era terrível, poderia ter brigas e gritarias no camarim, berros na sala de ensaio. Mas também havia risadas. Porque eu nunca tinha nada para comer. Eu sempre comia o lanche deles. Larry era muito organizado, ele levava as coisas. Ele tinha uma chapa na sala de ensaios, e ele podia tostar seus sanduíches de queijo. Ele saia para fazer xixi e quando voltava e quando voltava o sanduíche já tinha sumido, e ele começou a levar mais. Coisas como essa. Eu estava acostumado a estar numa gangue com o Guggi e o Gavin, mas nós não gritávamos um com o outro. Então, de alguma maneira isso sugeria que a banda era mais parecida com uma família, o que implicava numa série de regras diferentes àquelas da amizade. Mas então nós começamos a ser amigos na banda. Nós começamos a sair mais juntos, e havia alguns bons momentos.

Paul: Eu me lembro de uma discussão feroz uma vez com o Bono que aconteceu na rua O´Connell, na chuva, enquanto ele estava esperando o ônibus. A discussão era provavelmente sobre qual seria o nosso próximo passo, como tocar em algum show. Nós tomávamos as decisões juntos. Eu fazia recomendações na maior parte do tempo e eles geralmente as seguiam, mas com certeza não ficava ordenando-os e havia muitas disputas e desentendimentos. Havía, em algum momento, uma teoria doida de que nós estávamos tão quebrados e deveríamos iniciar uma segunda banda, que se apresentaria sob um nome diferente e tocaria covers, e poderia ganhar alguma coisa para sustentar o U2, que continuaria tocando seu próprio material.

Bono: Essa era uma idéia muito boa. Muito prática.

Paul: Havia um grande número de bandas em Dublin naquela época que ia significativamente melhor financeiramente do que nós. Havia um grupo chamado The Lookalikes e ninguém jamais sabia com quem eles deveriam parecer, mas eles tinham grandes shows fixos em lugares como o Baggot Inn e o Crofton Airport Hotel. Eles estavam claramente fazendo mais dinheiro, e nós não fazíamos nada. Então, veio a sugestão nesse momento, que nós deveríamos conseguir lugares fixos pra tocar e colocar as coisas no lugar no que se referia as nossas bases financeiras.

Bono: Como nós iríamos conseguir uma van? Essa era a questão. Aquele era o ano da van, e nós não tínhamos uma. Os The Lookalikes tinham sua própria van. Eles não apenas tinham sua própria van, eles tinham sua própria PA. Como o meu pai estava para me perguntar sobre dinheiro, havia já algumas semanas que estávamos pensando em aprender músicas de outras pessoas e fazer um setlist 50/50, como nós fazíamos antes, mas fazendo com maior propriedade dessa vez, para que conseguíssemos nossa van.

‘Eles não têm.’ ‘Eles têm.’‘Eles a alugam.’
‘Eles não alugam, eles a possuem.’

‘Eles a alugam.’

‘Eu estou dizendo a você, eles possuem sua própria
Maldita PA e luzes e van.’
‘Como eles fazem isso?’
‘Eles estão conseguindo montes de concertos pelo país’
‘Como?’‘Eles tocam músicas de outras pessoas’.
‘Maldita lotação esgotada! Nós devemos aprender
algumas músicas de outras pessoas?’

Adam: Nós estávamos sempre procurando por apresentações que de fato pagassem alguma coisa. Então nós achamos que poderíamos tentar fazer alguns shows no Crofton Airport Hotel. Isso não funcionou porque as bandas que realmente faziam dinheiro eram aquelas que faziam apenas versões cover. Eu acho que seis pessoas apareceram, e só porque achavam que era outra banda que ia tocar.

Larry: Nós fizemos várias apresentações no Arcadia em Cork. Nós tínhamos a nossa primeira base de fãs naquela maravilhosa cidade. Essa foi a primeira cidade em que lotamos um show.

Edge: Em Cork havia um bom panorama musical, Íamos dar um show na universidade, por isso, havia sempre público garantido nos finais de semana. As pessoas iam lá para beber alguma coisa e não faziam a mínima idéia de quem éramos, mas se estabeleceu uma ligação. Quando fomos lá novamente as pessoas estavam lá de propósito para nos ver e o show foi um sucesso. Durante algum tempo, fomos mais famosos em Cork do que em Dublin.

Larry: Foi em Cork que conhecemos o Joe O’ Herlihy. Era o engenheiro de som do Arcádia Ballroom. Era um verdadeiro profissional. Havia muitos microfones. Ele era o melhor na época e, mais tarde, quando arrumamos dinheiro para pagar ele, passou a ser o nosso engenheiro de som. E, quase 30 anos depois, continua sendo.

Edge: Conseguimos convencer o Paul a gravar uma nova demo. Sabíamos que íamos ter que ser melhores do que antes. Tínhamos que nos envolver mais, não podíamos deixar que fossem os técnicos que controlassem o som. Tínhamos que aprender mais sobre o processo de gravação.

Adam: O Paul convenceu o Barry Devlin, do Horslips, produzir o álbum. O Paul não gostava muito da idéia que estarmos ali todos enfiados em um estúdio sem perceber nada do que estava acontecendo. Então pensou: “Se o Barry estiver lá, saberá como é que estas sessões funcionam e o que devemos fazer.” Pensamos que íamos fazer um disco que ia ser um sucesso, mas não foi bem assim. Perdemos muito dinheiro e tempo na gravação.

Larry: Foi bem mais complicado do que achávamos e, mais uma vez, não tínhamos nos preparado suficiente antes de entrar no estúdio. Mas no final ficamos contentes com o resultado.

Edge: Gravamos ‘Street Missions’, ‘The Fool’ e uma música nova com o título ‘Shadows And Tall Trees’, que acabou sendo a única música sobrevivente.

Adam: Nunca pensamos que fosse tão difícil gravar demos.

Paul: Demorou algum tempo até conseguirmos um contrato discográfico. Uma situação que achei frustrante e incompreensível, tendo em conta que eu achava que o U2 era bom, embora aquelas primeiras gravações não tivessem sido muito convincentes. Eu era ingênuo e não reconhecia a falta de conhecimentos. Comecei enviando as gravações, sobretudo para o A&R em Londres e também para a América. Algumas vezes tínhamos resposta, outras não. De vez em quando, aparecia alguém para ouvir a banda, mas sempre acontecia alguma coisa de errado. Começamos muitas vezes com o pé esquerdo – foi um período difícil.

Larry: A morte da minha mãe em um acidente de carro em novembro de 1978 acabou me esclarecendo o que me diz respeito a banda. Não digo que, se ela fosse viva, não tinha me lançado para esse mundo, mas depois que ela morreu este era o único lugar onde eu queria estar.

Edge: Por incrível que pareça, a morte da mãe do Larry nos chocou de tal forma, que acabou nos unindo ainda mais. Os laços de amizade entre nós se fortaleceram e foi a partir disso que as coisas começaram a mudar para melhor. O Larry estava com um pé fora da banda e mais virado para a indústria de petróleo, entretanto, voltou para a banda e esqueceu esse trabalho.

Larry: Depois da morte de minha mãe não conseguia me concentrar em nada. Tudo em mim se desligou. O Bono começou a me ligar para tentar me convencer a sair e pôr de lado os meus problemas. Um dia estávamos sentados na soleira da porta e ele me disse sobre quando perdeu sua mãe aos 14 anos. Eu não fazia idéia. Senti que tinha encontrado alguém que me compreendia. Estabelecemos uma ligação, e passado uns tempos, nos tornamos grandes amigos. Senti então que estava preparado para voltar à banda. Agora era tudo diferente. Eu já não fazia parte de um grupo, agora pertencia a uma banda e a banda veio se tornar minha fuga. Me entreguei de corpo e alma.

*Páginas 63, 66, 67 e 69 – Fotos