1978/1980 - Staring at the Sun | U2 Brasil

 

1978/1980 – Staring at the Sun

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Páginas 71 a 79

Bono: Eu havia passado por algo parecido. Nós nos tornamos amigos próximos naquele momento, e aquele a quem havia sido um baterista meio precoce que trazia problemas para cada solução que você podia oferecer, se tornou um de meus melhores amigos. E o que eu entendi sobre o Larry foi o motivo no qual ele agonizava sobre tudo, sobre cada comprometimento, incluindo o comprometimento com a banda. É porque ele leva esses assuntos – verbal, emocional, entre outros – muito seriamente na vida. Ele não é um bagunceiro, ele leva sua palavra muito a sério. É uma força maravilhosa estar em uma sala com alguém que não pode mentir. Isso lhe dá muito poder. Então, para se manter nessa posição, ele se move muito lentamente em qualquer direção, mas raramente muda de opinião. Quando ele ganha espaço, ele permanece no mesmo.

Paul: Larry é a roda barulhenta do U2 que necessita sempre de serviço e óleo antes de ser rodada. Ele é a voz do lúgubre, sempre questionando nossa sabedoria acerca do que estamos planejando. Ele nem sempre que estar certo, mas o está com freqüência suficientemente certo para fazê-lo valer o esforço.

Bono: De certo modo, essa é uma voz na qual eu estou familiarizado, através do meu próprio pai. Larry é o Sr. O-que-pode-dar-errado – mas as coisas podem e dão errado. Assim sendo, Larry é o freio da banda, e quando o foguete está na trajetória errada, você fica muito feliz em tê-lo por perto.

Adam: Os Greedy Bastards tocaram no salão Stardust e nós abrimos para eles. Aquilo realmente fora rock’n’roll. Tinha o cheiro de rock’n’roll, a aparência de rock’n’roll. Tinha postura e movimento. Os Bastards eram membros do Thin Lizzy e do Sex Pistols. Phil Lynot estava em seu melhor momento naquela época. De alguma forma, apesar de ser um cara melódico e hard rock, ele era capaz de se encaixar no punk. Podia-se notar que ele estava curtindo aquilo. Foi uma época empolgante. Eles chegaram à cidade na noite anterior e fizeram uma jam no Baggot Inn ou no McGonagles, e Steve Jones, o guitarrista do Pistols, tocou com a Explorer do Edge. Edge disse: “Se esse cara estragar a guitarra, eu não posso me apresentar amanhã!” Então ele estava meio que de olho no Steve Jones o tempo todo, esperando que ele não fosse derrubar a guitarra.

Larry: Havia muita ação nos bastidores. Aquilo parecia glamuroso para nós, e fomos bem melhor tratados do que havíamos sido com os Stranglers. Porém, todos eles pareciam estar se divertindo muito mais. Sexo, drogas e rock’n’roll, eu suponho.

Adam: Eu não sabia que estávamos sobrando. Eu acho que só estávamos escovando as casacas daquelas pessoas, que realmente não queriam estar junto com um bando de garotos. Eu acho que eles queriam usar drogas e correr atrás das garotas. Mas foi interessante para nós estar no meio daquela atmosfera, porém, de uma forma “voyerística”, vendo coisas como equipamentos e suas caixas protetoras, roadies e sistemas de iluminação. Era tudo o que você aspirava ter no futuro.

Bono: Phil era uma grande estrela. Ele carregava consigo certa postura e elegância na qual eu nunca tinha visto antes. Mas havia entre eles olhares que indicavam saber de algo que eu não entendia o que era, e isso me incomodava. Alguém estava no camarim, e um dos Greedy Bastards saiu do palco, passou direto pela porta, vomitou no local, e em seguida voltou imediatamente para o palco. Havia um clima entre eles que era bem distante do nosso. Era como se as duas bandas não poderiam ter estado mais longe do que estavam. Phil estava no momento final do Thin Lizzy e a ponto de deslizar colina abaixo em direção ao abismo. O mesmo aconteceu com o Sex Pistols. Eles haviam terminado e tudo ficou ruim. E lá estávamos, apenas uma promessa e tentando encontrar uma saída. Foi um momento estranho. Mas nós realmente não sabíamos o quão obscuro poderia ser para rapazes em uma banda de rock. Eles começaram a brincar com fogo, e de repente a situação se reverteu e agora o fogo estava brincando com eles. Estavam simplesmente sendo consumidos e derrotados pelas chamas de tudo o que é ruim acerca de sexo, drogas e rock’n’roll. De fato, Phil se tornou meu vizinho próximo em Howth alguns anos depois, e eu não sabia o que fazer, porque ele ainda mantinha a mesma aparência. E ele era tão amável comigo e gentil a respeito de nossa banda. Ele dizia: “Você quer vir para jantar?” E eu não ia porque não sabia o que fazer. Hoje eu gostaria de ter reconsiderado porque ele era ótimo. Liricamente, o Heavy Metal é um dos formatos mais sem cabeça que existem, com os cantores mais fracos mediante o spectrum do pop, mas ainda assim havia um cara com certa perspicácia lírica e uma voz que era tão elegante e líquida. Mas nós achávamos que os Greedy Bastards não eram legais – isso era algo estranho.

Adam: Houve um tempo em que eu pensava que estar em uma banda significava sexo, drogas e rock and roll. Foi um desejo, originalmente. Mas, uma vez que eu me achei naquela situação, eu não estava tão ávido por isso. Não tinha tanta certeza se queria ser o parceiro daquela pessoa ou usar aquelas drogas, então havia conforto no fato que as outras três pessoas na banda eram sãs naquele nível. Isso tirou a pressão de mim, porque eu realmente acho que não estava confortável com aquele tipo de situação.

Larry: Eu era um garoto de altar; tive uma tradicional educação católica. Parei de ir à igreja depois que tudo aquilo aconteceu, e não me vi de volta. Bono, por outro lado, tinha uma fé muito forte e, pela primeira vez, ele conversou sobre isso abertamente comigo depois que minha mãe morreu.

Bono: Eu tinha conhecido algumas pessoas que fizeram despertar aquele algo que sempre esteve adormecido em mim, e acho que no Edge e no Larry e em algumas pessoas que conhecíamos. Conhecemos essas pessoas através de um grupo chamado Shalom. Eles são uma comunidade, do tipo que nunca tínhamos visto antes. Estavam nas ruas, vivendo como cristãos do primeiro século. Acreditavam em milagres como casos diários, e viviam a vida na fé. Eram fascinantes. Havia um toque de loucura Pentecostal neles, o que significava que eu nunca estava completamente confortável, mas certamente valia a pena olhar mais de perto. Havia um homem que liderava o grupo, que veio de uma missão na China ainda criança. Ele era realmente um orador fervoroso, extraordinariamente talentoso, com uma erudita compreensão profunda da natureza das Escrituras a que eu ainda me agarro firmemente. Eu era atraído por aquilo – aquilo que quase justificava a loucura dos outros porque havia um pouco daquilo, também. Mas sempre há. Eles justificariam dizendo que quando o Espírito Santo descia sobre os apóstolos, eles começavam a falar em vários idiomas, e as pessoas pensavam que eles estavam bêbados, ou loucos.

Edge: Originalmente nossa busca era algo completamente independente. Nós a chamávamos de Monday Night Group (Grupo da Noite de Segunda) porque nos encontrávamos nas noites de segunda-feira, inicialmente na casa de Guggi e eventualmente numa sala da Mount Temple. Não havia hierarquia de qualquer tipo, nem regras ou regulamentos. Aberto a todos que viessem, nenhuma doutrina, apenas um grupo de crianças interessadas em assuntos espirituais, tentando decifrar grandes questões. Então, como o grupo atingiu um certo tamanho, aproximadamente quarenta ou cinqüenta pessoas, membros daquele grupo maduro, Shalom, envolveram-se. Era algo bom passar o tempo lendo as Escrituras e descobrir mais sobre todo esse sistema de crença, o Cristianismo, e o que realmente significa. Mais tarde descobrimos que o movimento Rasta tinha uma fascinação similar pelas Escrituras, e eles se sentavam fumando maconha e discutindo referências da Bíblia em sessões que eles chamavam de ‘reasoning’ (raciocinar, pensar de forma lógica). Nós fazíamos o mesmo, mas sem fumar. Esses encontros nas noites de segunda nos deram um tipo de sistema de suporte que alimentou as relações ainda em desenvolvimento dentro da banda. Nós estávamos atravessando muita coisa juntos, e havia muitos laços de amizade e respeito entre nós. Nós tínhamos um pequeno espaço para ensaio na rodovia Malahide. Era uma casa de veraneio condenada, que nós conseguimos por cinco libras a semana, ou algo parecido. Eu não sei porque eles perdiam tempo alugando aquilo pra gente. Era um verdadeiro lixo, mas era perfeito para o que nós precisávamos.

Bono: O Edge conseguiu sua primeira unidade de distorção (eco unit), e isso mudou tudo. Nós estávamos procurando por coisas diferentes e nós não conseguiríamos obtê-las apenas com acordes poderosos. Então eu falei para o Edge, “Você já ouviu o começo de Animals do Pink Floyd? Você tem que conseguir uma dessas unidades de distorção. O The Cure está tocando com uma, mas eu acho que a gente pode extrair muito mais disso.”. E ele comprou uma, chamada Memory Man. Se você conhece a precisão com que ele toca, esse é um efeito que ele irá dominar, assim como Jimi Hendrix fez em Wah Wah. Era um punk rock com uma sinfonia – de repente você está no espaço e não em um subúrbio.

Edge: O Memory Man realmente era uma unidade com tecnologia análoga muito atrasada. Ele não tinha nenhum tipo de leitor digital, então você não podia informar quais eram as suas melodias, o que era uma desvantagem, porque nós percebemos bem rapidamente que as distorções que eu estava usando é que determinavam o tempo da música. Então eu tive que cobrir o Memory Man, colocando pequenas marcas com inscrições chinesas no pedal, representando diferentes músicas. Eu tinha que estar certo ou então a música sairia do tempo. Mas naqueles dias só havia um tempo: muito rápido!

Larry: Como eu e o Edge conseguíamos nos manter no tempo da música está além de mim. Na realidade eu não sei se nós estávamos no tempo certo. Nós estávamos em todos os lugares. Isso é chamado de fazer música por acidente.

Edge: O Adam é a outra razão pelo qual a minha maneira de tocar guitarra se desenvolveu desse jeito. Ele era um baixista tão não-ortodoxo e, Larry e eu, na tentativa de fazer tudo funcionar, desenvolvemos um estilo mútuo de acomodar a pegada do Adam. De alguma forma, o Larry e eu éramos como a sessão rítmica e a maneira extremamente forte do Adam de tocar baixo era como o fio condutor, e isso estava muito além da vanguarda.

Bono: O Adam estava trazendo muita segurança ao processo, e ele estava começando a produzir sons incríveis com seu baixo, mesmo achando que ele era um baixista muito excêntrico. Ele poderia tocar coisas realmente complicadas de uma maneira tão simples e então ser incapaz de entrar no tempo, e você seria simplesmente deixado para trás coçando a cabeça.

Larry: O trabalho de um baixista em uma banda é basicamente com o baterista na sala de controle (engine room), a outra parte da sessão rítmica. Mas o Adam adotou uma posição muito mais musical. Ele sempre achava um jeito de fazer o instrumento trabalhar para ele.

Edge: Nossa construção de acordes era interessante. Nós não gostávamos de acordes maiores porque estes soavam muito alegres e os acordes menores soavam muito tristes, então nós preferimos voltar a utilizar os fundamentos absolutos, com intervalos de quinta (fifths) e notas de base, nada de enfeites. A terceira nota se tornou nossa inimiga. A terceira é a nota que dá a sensualidade do acorde de uma forma maior ou menor e se você deixar de usar a terceira nota, o tom fica ambíguo e muito mais propenso a diferentes melodias. Eu apareci com alguns acordes que não tinham terceira; basicamente você toca a nota natural com uma quinta e uma oitava, talvez com alguns intervalos no meio. Isso funcionou muito bem porque manteve os acordes completamente abertos. E quando fomos gravar, tal ambigüidade me proporcionou a habilidade de tocar com overdubs (gravação adicionada a algo já gravado). Podia-se realmente mudar muito o estilo porque não estávamos escrevendo os acordes da maneira tradicional.

Eu acho que nós recolocamos a virtuosidade e o talento para composição com um ótimo senso de dinâmica, sendo capazes de criar várias texturas diferentes, de uma maneira muito simples. Este era um de nossos segredos: muitas de nossas músicas apresentavam pausas e sessões na época em que o cenário musical estava mudando completamente. E a harmonia foi uma das maneiras na qual fizemos isso. Era um tipo de som que as pessoas não exploravam muito. O The Police utilizou isso um pouco, mas outras pouquíssimas bandas também o fizeram.

A harmonia cria um som para os capitadores da guitarra elétrica somente com a vibração da corda. A corda move para frente e para trás e se você tocar no ponto exato do meio da corda, você consegue fazê-la vibrar em duas partes; uma vibração agradável que te concede a nota na oitava exata. Há outras áreas em que se você a toca em determinado ponto você conseguirá talvez um quarto ou um terço da vibração da corda, então você tem subdivisões da corda toda e isso lhe permite o intervalo correspondente. Se conseguir um quarto da corda, no entanto, são duas oitavas acima. Um terço da corda provavelmente seria uma quinta. Se tratando de como isso soaria, há diferentes características harmônicas, não exatamente como uma nota regular, porque se toca a corda para conseguir esse efeito de vibração, e assim, o som fica mais sutil.

Ao vivo, nossas idéias realmente mantêm-se em foco. Muitas das pausas foram improvisadas ao vivo e após ter-se utilizado de certa idéia algumas vezes, a mesma entra no repertório para tal música e ali fica anotada. Nós tocávamos a música e de repente o Bono acenava com a mão esquerda, o que significava: “Vamos para outra direção”. Então nós nos centrávamos e mudávamos de direção. Nós éramos muito bons em tocar sem um script e as pausas de harmonia foram uma das coisas nas quais nos tornamos particularmente adeptos.

Larry: Bono odiava a idéia de que as músicas e a setlist fossem seguidas tão à risca. Ele queria que fosse tal qual o jazz, sendo capaz de mudar a cena, parar e tentar algo em um tempo diferente, e depois voltar para onde se havia parado. Claro que nós não fazíamos idéia do que ele queria. Então lá estava a famosa mão esquerda acenando, dando-lhe direções em que ponto parar ou diminuir o ritmo. Por questões de saúde e segurança, eu tive que aprender essa nova linguagem de sinais e imaginar o que ele estava querendo. Eu aprendi muito rápido. Até hoje ele faz isso.

Adam: A improvisação requer certo conhecimento musical. Eu acho que havia muitas moscas ao redor dos nossos traseiros e fazendo muito barulho. Havia o leve, o médio e o alto, e nós nos movíamos entre esses três tons, mas eu não acho que tínhamos conhecimento o suficiente para ir além. Era mais sobre como cada um de nós aprendíamos a fazer o que fazíamos. Era mais uma prática em público do que uma improvisação.

Paul: Nós estávamos tentando criar um status para a banda na Irlanda e ao mesmo tempo atrair interesse das gravadoras em Londres. Pessoas como Charlie Eyre da A&R, Chris Briggs e Tom Nolan da EMI, Chas de Walley e Muff Winwood da CBS e Tarquin Gotch da Arista vinham ocasionalmente assistir a uma apresentação do U2 e nós ficávamos muito empolgados, achando que eles nos ofereceriam um contrato, mas isso nunca acontecia. Houve assim um longo período entre arrumar apresentações e receber respostas desanimadoras dos agentes da A&R.

Larry: Nós éramos um sucesso e um fracasso. Nós poderíamos fazer três excelentes apresentações seguidas e depois duas péssimas, e as gravadoras sempre iriam assistir as péssimas. Nós éramos inconsistentes. Houve uma apresentação no Baggot Inn quando alguns caras da gravadora do Reino Unido vieram nos assistir. Eles ouviram duas músicas e logo saíram para assistir aos The Specials em um programa de TV qualquer. Nós chegamos a pensar que seríamos contratados naquele momento e naquela apresentação. Na mesma noite Bono, nosso amigo Pod e eu caminhamos até o ponto de ônibus totalmente decepcionados.

Adam: Nós éramos rejeitados por todas as gravadoras por no mínimo duas vezes. Nós não podíamos entender porque essas pessoas não percebiam que nós éramos uma contratação importante para eles. Era sempre uma decepção, simplesmente porque significava que tínhamos que esperar mais um pouco para provar-nos a nós mesmos. A nós parecia que o cenário estava se movendo rápido, e nós não queríamos ser deixados para trás, então nós tivemos que voltar e continuar a ensaiar, e a escrever mais canções. Nós fizemos algumas demos em um pequeno estúdio chamado The Eamon Andrews Studio. Dave Freely era o engenheiro do lugar. Foi muito barato porque eram somente quatro faixas. Nós tivemos mais tempo para ensaiar os números a fim de apresentá-los ao vivo. Aquela fora mais uma sessão bem sucedida.

Bono: Esses demos foram bem criativas. Foi quando o som do U2 começou a se desenvolver, com músicas como “Alone In The Night”, “Another Time, Another Place”.

Larry: Alguns dos outros estúdios que nós estivemos, pelo menos pareciam mais profissionais. Era uma sala pequena, com uma mesa realmente pequena. O engenheiro, que era um cara legal, perguntou: “Com quem vocês querem que o som se pareça?”. Ele tinha uma coleção de gravações que nós poderíamos escolher. Nós respondemos: “Não queremos parecer com nenhum deles”. E quando nós acabamos de gravar, não parecíamos nem com nós mesmos.

Edge: O Paul estava distribuindo as nossas primeiras demos com sucessos mixados. Eu acho que ele sentia naquele tempo que nós não estávamos preparados, mas o Bono estava absolutamente certo que com a segunda seqüência de demos, que nós queríamos, iríamos conseguir o nosso contrato mais cedo do que nunca.

Bono: O Paul não aparecia com a tal van, e eu estava começando a ficar cansado com isso. “Oh Yeah. Todas essas grandes idéias. Mas onde está a merda da van? Onde estão os shows? O Adam é que consegue as apresentações. O que você está fazendo? Você que deveria ser o empresário.” Apesar dos protestos do Paul que a demo não era boa o suficiente para ir pra Londres, eu não podia esperar. Porque eu estava correndo contra o tempo. Meu velho já estava me lembrando que o meu ano em casa já estava quase acabando. O calor tinha chegado. Eu não podia suportar não conseguir um contrato de gravação, e então fui à Londres e provoquei interesse. O Paul dizia: “Espere. Melhore. Nós iremos fazer isso de uma maneira mais programada.” E eu dizia: “Nós não podemos esperar. E se nós queremos fazer direito na Irlanda, nós devemos fazer direito na Inglaterra. E então eles irão nos escutar na Irlanda.” Esse era o plano que eu tinha em mente.

Eu fui pra Londres com a Ali. Isso era uma grande coisa na minha cabeça, porque eu estava fazendo uma viagem com essa linda garota e eu deveria estar no comando, mas eu não sabia o que eu estava fazendo ou onde estava. Eu nunca tinha ido à Londres antes. Nós não éramos casados, mas íamos dormir no mesmo quarto e concordamos que também íamos dormir na mesma cama. O pai dela tinha me olhado nos olhos, e você sabe, eu ia viajar por uma semana com a filha dele. Então eu tive que cumprir com a minha promessa, o que foi muito, muito difícil.

Nós fomos visitar o Phil Chevron do The Radiators, a banda que se originou do The Radiators From Space, e que agora estava baseada em Londres. Ele foi de grande ajuda e nos indicou alguns jornalistas do mundo da música que ele achava que eram bons. E eu tinha alguns jornalistas que eu achava que eram promissores. Eu procurei os endereços, consegui o Tube, localizei as revistas NME ou Sound ou Record Mirror, fui até lá, encontrei os jornalistas que nós achamos que eram mais abertos a novas músicas, perguntei por eles na recepção. O que é muito interessante, porque se você recebe um telefonema “Tem alguém aqui na recepção querendo falar com você”, você não pensa: “Mande ele se danar, eu não quero essas pessoas.” Você apenas pensa no assunto, e recebe a mim e a minha namorada. E eu diria: “Escute, nós somos de Dublin, uma banda chamada U2, e nós realmente gostaríamos que você escutasse esse demo.” Eu tinha maneiras perfeitas. E eles dariam uma olhada nesse garoto com olhar de maluco e eu diria:

“Bom, eu volto daqui à uma hora”. Eles diriam: “O que?”.

“Eu volto daqui à uma hora.” “Eu tenho uma droga de coluna pra escrever!”

“Bom, eu estarei aqui por apenas um ou dois dias.”

Nesse momento um jornalista chamado Dave McCullough da Sounds nos ajudou muito. E um camarada chamado Chris Westwood, do Record Mirror foi extremamente generoso e foi a primeira pessoa a nos colocar na capa de uma revista. Ele tinha gostos muito esotéricos, mas também um ouvido para o pop. Ele era o mais encorajador de todos e disse: “Você devia tentar essa gravadora, você devia tentar aquela gravadora. O cara que assinou com o The Sex Pistols tem seu próprio selo agora, você deveria vê-lo.” Então eu apareci sozinho batendo à sua porta – eles se chamavam Automatic Records. E eu disse:

“Chris Westwood da Record Mirror disse que nós deveríamos procurá-lo”

“Ah, sim, você está com a Record Mirror?”

“Não, eu sou de uma banda.”
“O que você quer dizer com uma banda?”
Eu disse: “Você ouviria a nossa música?
O cara da Record Mirror disse que você iria gostar”
E eu fiz ele escutar na nossa frente.
Ele disse: “Vocês têm um empresário?”
“Sim.” “Por que ele não está aqui?”
“Ele está em casa tentando descobrir como nós iremos conseguir uma van.
Eu sou a festa avançada, mas ele pode ligar para você amanhã.”

Aliás, foi a Ali que pagou por tudo isso. Eu não tinha nenhum dinheiro.

Edge: Nós tocamos alguma coisa no chamado The Dark Space Festival, no Project Arts Center, um evento que acontecia todas as noites com apresentações de artistas performáticos, strippers, comediantes e a maioria das bandas pós-punk locais. Era como se nós fizéssemos parte de uma interessante cena em projeção. Tinha um grande nível de excitação entre aqueles que conheciam o que estava acontecendo em termos musicais, mas na realidade não tinha nada que enchia minha cabeça. Tudo parecia um pouco de segunda-mão, para falar a verdade. Entre as bandas que tocavam por Dublin, eu achava que nós éramos os melhores. Olhando para as bandas que tinham lançado discos na Inglaterra naquela época, eu achava que nós éramos tão bons quanto qualquer um deles. Os The Mekons estavam tocando e eles eram uma banda inglesa que tinham alguma credibilidade com a subcultura. Eu me lembro de ficar perto do Bill Graham assistindo eles e o Bill se virou para mim e disse: “A única coisa notável nessa banda é o senso mais desenvolvido de atitude.”

Eu acho que nós entendemos que escalar o palco era uma atitude em si e para isso funcionar tinha que ter um elemento de auto alerta, mas ao mesmo tempo nosso foco tinha que estar em outro lugar. Isso foi uma coisa que eu notei quando nós conhecemos bandas de Londres, eles eram praticamente definidos por suas atitudes, a imagem que projetavam. Era uma coisa bem externa, enquanto que na Irlanda era muito mais balanceado entre isso e o que você tinha para dizer, o que você defendia em termos de política e ideais. Isso podia ser uma coisa paroquial versus uma coisa da cidade grande. Nós sempre achamos que tínhamos estilo, o que era claramente falso. Eu acho que não entendemos aquela linguagem, mas também achávamos que era um aspecto do rock ´n´ roll que era supervalorizado. Não que nós fossemos contra isso, era um tipo de questão ética, nós estávamos apenas interessados em outras coisas.

Adam: A maioria das bandas de Londres ou de Nova York tinha muita consciência da imagem. Mas eles tendiam a ser mais velhos do que a gente; nós estávamos apenas tentando tocar nossos instrumentos e escrever músicas, e nós não imaginávamos que tínhamos que apresentar uma analogia visual da sua música e de onde ela estava vindo, portanto o interessante conceito fashion daquele período. Eu nunca gostei de sessões de fotos, ou vídeos com essas intenções, acho que são pontos chaves da música comercial. Eu acho que devíamos estar mais envolvidos em reconhecer o dano que isso poderia causar se fosse mal interpretado, porque no nosso começo nós fizemos isso tão errado que levo um tempo para nos recuperarmos.

Edge: O Bono com calças xadrez e camisas pólo e com um mamilo aparecendo. Isso era provavelmente o mais ridículo que poderia chegar.

*Páginas 73, 74. 77, 78 e 79 – Fotos