1978/1980 - Staring at the Sun | U2 Brasil

 

1978/1980 – Staring at the Sun

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Páginas 80 a 89

Adam: Eu tinha um colete de lã em dois tons, laranja e preto, com cores muito New Wave, que a minha namorada, Donna, tinha tricotado para mim. E é claro que o Larry ainda tinha suas calças boca-de-sino.

Edge: Eu tocava uma guitarra Explorer, que eu tinha comprado em Nova York durante uma curta viajem de fim-de-semana. Eu tinha uma listinha das guitarras que eu queria experimentar – Les Paul, Rickenbacker – mas aí eu vi a Explorer na vitrine da primeira loja de guitarras que passei na frente e “Wow!”. Toquei ela por alguns instantes e realmente adorei. Foi o seu formato em zig-zag que me fez decidir, mas o som e a sensação eram o máximo. Todos tocavam o mesmo tipo de guitarra e então eu pensei, nosso som é diferente, vamos parecer diferentes.

Larry: As apresentações no The Dandelion Market Car Park começavam em maio. Uma apresentação todo sábado à tarde, por seis semanas, quinze pence cada, para todas as idades. As pessoas costumam falar dessas apresentações como sendo legendárias. Elas eram. O The Dandelion foi onde nós demos o nosso primeiro grande passo.

Edge: Era quase um cenário apocalíptico, um estacionamento de carros no porão de um distrito de Dublin do século dezoito, você realmente se sentia como se estivesse nas entranhas de algum buraco. O palco tinha que ser montado todo final de semana e nós trazíamos a PA e as luzes. O som não era tão ruim para o local.

Larry: Havia um pano atrás do palco com o logo do U2. As pessoas começaram a olhar para nós, a banda começou a usar roupas que refletiam a nossa época, e a nossa platéia também. E eles eram a nossa

Adam: Era nossa política nos livrarmos das manchetes e criar as nossas próprias estradas e construir nossos próprios prédios com a nossa platéia. Essas apresentações na hora do almoço eram fantásticas. Os ingressos eram muito baratos e sempre havia muita gente na cidade aos sábados à tarde com nada para fazer, e eles vinham em semanas sucessivas.

Larry: A primeira apresentação foi um pouco escassa. A segunda um pouco atarefada. A terceira foi legal – a quarta foi incrível. Nós estávamos crescendo como uma força musical. Sentíamos como se estivéssemos refinando o que fazíamos musicalmente. Esse foi o começo do Bono escalando e correndo ao redor do palco como um animal enjaulado.

Bono: Nós começamos a empregar lições das aulas de arte performática, mas sob uma visão pop e tudo começou a mudar. Você podia sentir a energia, você sabia que alguma coisa estava acontecendo. Era o nosso momento Besouro-na-Caverna.

Adam: Teve um show que o Edge não foi. Ele estava muito doente e antes que nós arrumássemos tudo, eles o levaram ao Hospital Mercy, logo depois da esquina. O médico deu uma olhada nele e disse: “Você está com meningite”.

Edge: Eu disse: “Eu posso tomar alguns remédios para aliviar a dor e voltar depois do show?”. O médico disse: “Se você sair desse prédio eu não serei responsável por sua vida.”. Então eu disse: “Qual dessas é a minha cama?”.

Adam: O público já estava lá àquele ponto, então o show deveria continuar.

Bono: Eu toquei guitarra, o que geralmente não é uma boa idéia.

Larry: Nós tocamos uma música do Lou Reed, “Sweet Jane”, diversas vezes. Eu não conseguia me lembrar da parte da bateria, mas toquei assim mesmo, como eu já tinha feito várias vezes antes com músicas que eu não sabia.

Bono: Então nós começamos a fazer o The Jingle Bells. Nós tivemos essa grande idéia, deixe nós decidirmos quando será o Natal, e vamos fazer no meio de julho, no McGonagles com decoração e árvore de Natal. Era uma forma de estar numa banda pop e continuar sendo surreal. É um longo caminho até a Zoo Tv, mas a inspiração é a mesma: Tudo que você sabe está errado.

Adam: Essa era uma coisa bem estranha a se fazer, eu devo confessar. Mas nós estávamos cientes que tínhamos que inventar alguma coisa para sermos lembrados. E com as nossas fontes tão limitadas, nós sempre tentávamos pensar além do caixa e maximizar o que era possível.

Edge: Nós tínhamos uma tela montada ao lado do palco, pelo qual o Bono e minha irmã Gill desapareceram durante uma música chamada “Boy/Girl” e suas silhuetas eram projetadas na tela, com eles tirando um a roupa do outro.

Bono: Ela era uma figura maravilhosa. E ela parecia maravilhosa atrás da tela assim como na frente. Essa era uma boa idéia.

Adam: Bono tinha sua rotina do cigarro, da qual lhe eram extraídas consideráveis milhas. Teve sua importância durante vários anos, eu acho. Na verdade, era mais uma rotina do isqueiro, onde ele ascendia repetidamente o mesmo para tentar ascender um cigarro que ele pegava da platéia. Aquilo era para compensar o fato de que não podíamos custear aqueles refletores de luz negra – Essa era a versão irlandesa dos refletores.

*foto da página 82

Bono: Eu não fumava naquela época. Mas costumava acender um cigarro, e era como fumar depois de fazer sexo, no final de um momento ofegante após uma canção. Eu sempre procurava por um globo giratório de luz, e nunca conseguia um. Então, quando as luzes se apagavam, eu começava a brincar com um isqueiro como se ele fosse um revolver. Eu era como Jesse James. Podia fazer o isqueiro reluzir como seis estampidos de uma arma, uma atitude um tanto teatral. Foi nessa época que eu descobri que de quinze músicas tocadas, as pessoas se lembravam de apenas alguns momentos, dois poderiam ser musicais, mas três eram dramáticos. O drama estava funcionando conosco. Era uma forma de chamar a atenção do público para a música. Ou se as músicas não fossem boas, o drama distraia o público, e elas se tornavam apenas trilhas sonoras para a atuação no palco. Você pode se tornar um mestre na arte da distração.

Foi nesse verão que tudo começou a acontecer. Foi quando a Hot Press começou a nos apoiar. E a filosofia do editor Niall Stokes e dos jornalistas da Hot Press começou a parecer mais verdadeira para nós do que, por exemplo, a da NME. Quando nós olhamos para isto agora, percebemos que um tipo de revolução cultural Maoísta estava acontecendo na Inglaterra. Por um lado isso era bom, por outro ruim. Modismos. Ao passo que a Hot Press se sentia expressiva, havia política de verdade envolvida nisso. Também havia um sentimento de que a música era parte da maioridade da Irlanda. Eu não posso subestimar a importância da Hot Press, do Bill Graham, do Niall Stokes e do Liam Mackey. Eles vinham nos ver várias vezes. Tinham boas impressões da banda – ela era importante. Algo iria acontecer ali.

Adam: Quando nós deixamos de ser pequenos competidores e alcançamos algum sucesso, pudemos sentir que as pessoas se aproximavam. Entre RTE, Hot Press e a rádio pirata havia muito apoio. Dave Fanning era importante, ele era o DJ roqueiro líder na estação pirata Radio Dublin e estava sempre a procura de bandas irlandesas para tocar. Ele fazia entrevistas e shows de divulgação. Até mesmo as empresas de equipamentos ficaram mais atenciosas, porque você precisa de favores e bons negócios se quiser que as coisas sejam feitas. Gravadoras vinham nos ver, mas era desesperador porque sempre acontecia algum problema.

Paul: Eu achava evidente que o U2 tinha munição e equipamento para ser uma grande banda. Certamente eu não tinha nenhuma dúvida sobre isso. Mas era muito desanimador que isso não estivesse claro para o pessoal da A & R. Jackie Hayden e David Duke da CBS na Irlanda estavam interessados, mas não tinham orçamento suficiente para financiar um contrato discográfico. Então, um agente da A & R chamado Chas De Whalley, da CBS de Londres, melhorou nossa situação. Ele apareceu com algum dinheiro para o demo e produziu algumas faixas.

Adam: Chas era muito bom. Ele era relativamente jovem e eu não sei se ele tinha muita experiência com produção, mas estava entusiasmado, queria contratar a banda. Eu acho que envolvê-lo foi uma jogada muito esperta do Paul porque isso significava que ele deveria ser leal a nós e nos ajudar a conseguir o contrato discográfico.

Bono: Eu não me lembro dessas sessões terem sido grandiosas. Nós estávamos crucificados pelo constrangimento, era difícil manter o ritmo e o vocalista parecia sofrer uma crise de identidade. Mas as músicas que nós gravamos eram fortes o bastante para superar nossa fraqueza.

Larry: ‘Out Of Control’ tem algumas imperfeições no tempo. Em uma parte da música a intenção era que houvesse uma pausa de um compasso de duração. E por uma razão qualquer ela passou a ter três pausas e meia em um compasso, o que é um pouco estranho. A sessão de gravação foi mais ou menos assim: ‘O Larry não está tocando a mesma parte / o ritmo está diferente / está acelerando e desacelerando.’ Muito depois me contaram que um executivo da gravadora CBS disse que a banda era ótima, mas que o baterista era horrível e devia ser demitido. Como ele estava certo.

Edge: Não foi uma gravação fantástica e nós não ficamos terrivelmente impressionados com a mixagem original do Chas. Nós gravamos em Keystone, mas acabamos remixando em Windmill com Robbie Mc Grath que tinha sido engenheiro de som dos Horslips. Não sei se isso ajudou.

Adam: A CBS do Reino Unido aprovou o disco.

Edge: A CBS vinha se arrastando por muito tempo. De fato eles sugeriram que se nós excluíssemos o Larry, eles nos dariam o contrato discográfico. Nós dissemos a eles que esquecessem isso. A idéia partiu de Muff Windwood da A & R ou Duff Windbag como passamos a chamá–lo depois de ouvirmos aquela sugestão.

Paul: Eu sugeri que as faixas fossem lançadas como um single somente na Irlanda, e em troca, a CBS teria o direito de lançar os álbuns do U2 no país mesmo que nós fossemos contratados por outra gravadora. Por esta razão os discos do U2 foram lançados pela CBS Ireland por alguns anos, o que na verdade era embaraçoso para a CBS, porque lembrava que eles tinham perdido uma grande chance. A CBS Ireland lançou um EP de três faixas com as músicas da demo: ‘Out Of Control’, ‘Stories For Boys’ e ‘Boy/ Girl’. Fizemos uma competição no programa de Dave Fanning para escolhermos o lado A e eu acredito que cada pessoa que telefonou votou em ‘Out Of Control’. Então, em setembro, o EP ‘U2 3’ foi lançado em sete polegadas com uma capa esquisita e em uma edição limitada de doze polegadas.

Edge: Foi uma emoção assombrosa, ter o meu primeiro álbum e ouvi-lo tocar na rádio. Eu também estava frustrado – sabia que a gente podia fazer melhor. Mas pelo menos era alguma coisa.

Larry: Pat Kenny tinha um programa de rádio matinal na RTE e houve um debate sobre a nova geração da música irlandesa. Bono foi ao programa. Eu estava trabalhando na companhia de exploração de petróleo. Escapuli para uma sala vazia e sintonizei o rádio para ouvir o programa. E então aconteceu pela primeira vez. Eles tocaram trinta segundos de ‘Out Of Control’. O som era espantoso.

Bono: Eu nunca gostei do jeito como ela soa. Eu gostava de tocá-la, mas ela meio que estragou quando eu pus no toca-discos. Mas nesse ponto meu pai soube que todo o negócio da banda era sério. Então estava tudo bem.

Adam: Era emocionante ouvir sua própria música no rádio. Mas nós ainda não tínhamos um contrato, isso nos assustava. Sabíamos que o single nos sustentaria por três ou quatro meses, mas, e depois?

Edge: Eu tinha me comprometido em ir para a faculdade caso o nosso contrato não saísse depois de um ano, e agora meu tempo tinha acabado. Eu tive que fazer a ligação. Me matriculei no Kevin Street Technical College e me inscrevi no curso de Ciências Naturais. Fiz tudo isso por obrigação. Eu tinha tanta certeza de que conseguiríamos o contrato discográfico que não comprei nenhum livro, pedia emprestado para outras pessoas quando precisava ler. Não queria gastar nenhum dinheiro dos meus pais com coisas que eu não iria usar. Todos os meus cadernos eram cheios de canções, idéias para letras de música, set lists, logotipos para a banda. MacGuinness costumava rir quando eu mostrava algo em que estava trabalhando, porque ficava tudo em um livro supostamente dedicado à ciência. Havia duas linhas de química, e o resto era U2.

Adam: Nós estávamos em um impasse e conscientes de que para manter a nossa fama na Irlanda, teríamos que subir mais um degrau na nossa carreira. A idéia era fazer uma turnê por clubes na Inglaterra, que seria financiada através de um contrato autoral. Bryan Morisson era o editor, ele foi nos ver ensaiar no barracão do jardim da casa do Edge. Nós nos amontoamos naquele espaço apertado e tentamos tocar alguma coisa para que ele ouvisse. Ele não comentou muito sobre a música, mas como os pais do Edge não estavam, ele reclamou da sujeira na casa e sugeriu que lavássemos a louça.

Paul: Bryan Morrison era um editor independente. Houve um tempo em que ele foi empresário do Pink Floyd. Ele estava na ativa por vários anos, na verdade ainda está. Ele foi avisado sobre o U2 pelo seu caça-talentos Mark Dean. Ele nos ofereceu um contrato autoral, mas não tinha muito dinheiro. Eu acho que o valor era de três mil libras, mas nós estávamos tão desesperados que aceitamos em princípio. Iríamos usar o dinheiro para financiar os shows em Londres, que estavam sendo marcados por um agente chamado Ian Wilson. Então, dois dias antes de partirmos, Bryan Morrison telefonou e disse, “Eu estive pensando sobre o contrato e mudei de idéia. Vou pagar a vocês um adiantamento de mil e quinhentas libras.”

Edge: Nós íamos vender os nossos direitos autorais por uma mixaria pelos próximos vinte anos ou algo parecido. Era um negócio muito ruim e no último minuto, sabendo que nós tínhamos a turnê agendada, ele conseguiu piorar. Então basicamente nós dissemos a ele que fosse estufar o traseiro.

Adam: Nós reunimos a banda e decidimos nos aproximar de nossos pais e pedir que eles nos financiassem. Minha relação com os meus pais estava tão conturbada que eu não podia pedir dinheiro para eles. Eles insistiam “arranje um emprego”. Foi então que os pais do Edge, o pai do Larry Mullen e o Bob Hewson contribuíram com quinhentas libras cada um.

Bono: Quinhentas libras era muito dinheiro naquela época. Foi então que, no meu caso, o Grande Lobo Mau virou a Pequena Chapeuzinho Vermelho e chegou com maçãs polidas. Meu pai me ajudou. Tenho certeza que foi depois de me fazer ouvir muitos insultos, mas ele me ajudou.

Larry: O pedido foi recebido com uma mistura de espanto e descrença. Mas, bem ao seu estilo, meu velho colaborou com o dinheiro.

Paul: Eu peguei algum dinheiro emprestado com Seamus Byrne e Tiernan MacBride, dois colegas da filmagem. Nos esforçamos bastante para poder viajar. Algumas semanas depois, Bryan Morrison foi ver a banda. Foi a primeira vez que ele assistiu ao show e eu me lembro de quando ele perguntou, “Eu suponho que tenha sido um engano, não foi? Vocês não irão assinar um contrato comigo agora.” E eu respondi, “Não.”

Adam: Um dia antes de partirmos para Londres, tivemos uma espécie de acidente. Eu estava dirigindo o carro dos meus pais, levando Edge e o equipamento para um ensaio no Stardust, em Artane, e nos envolvemos em uma pequena colisão.

Edge: Foi uma pequena batida que provavelmente aconteceu a quinze milhas por hora. Nós estávamos nos arrastando lentamente pela estrada em um Austin velho, barulhento e com os pneus carecas. De repente, surgiu um caminhão enorme na nossa frente bloqueando as duas pistas. Nós pisamos no freio (e que freio), o carro meio que derrapou e atingiu o caminhão. Nós não tínhamos seguro, estávamos numa pior e a última coisa em que pensei era que estava ferido, mesmo que meu corte na cabeça estivesse sangrando e meu braço não parecesse muito bem.

Eu deixei o Adam lá, agarrei minha guitarra e peguei um ônibus para Stardust. Eu disse aos outros, “Nós batemos, o Adam não vem para o ensaio.” E então, um deles respondeu, “Eu acho que você está sangrando. E por que está segurando a sua mão desse jeito?” De repente eu me dei conta, “Oh droga, eu sofri um acidente. Eu preciso procurar alguma ajuda médica.” Então eu fui ao médico e ele fez uns curativos. Expliquei que nós íamos para Londres no dia seguinte e ele disse, “Eu acho que você vai ficar bem.” Eu acordei em agonia no dia seguinte. Acho que eu torci todos os tendões e músculos da minha mão esquerda.

Adam: Edge estava sofrendo de dor. Ele passou toda a viagem para a Inglaterra com a mão dentro de um balde de gelo. Meus pais também não ficaram satisfeitos quando souberam que estavam sem carro e que eu era o motorista. Oh Deus, meus pobres pais. Mas nós alugamos uma van e eu fiz uma bela fuga. Nós partimos em uma aventura e estávamos confiantes e convencidos de que conseguiríamos o contrato discográfico.

Edge: Durante todo o caminho na balsa eu fiquei em agonia. Quando chegamos em Liverpool paramos no General Hospital. Eles me deram várias cartelas com comprimidos de morfina e me liberaram. Nós tínhamos um dia para nos instalar, e no próximo faríamos um show. Então eu peguei a guitarra e percebi que mesmo sem poder mover o pulso, eu conseguia usar meus dedos. Com um gesso enorme e uma tipóia eu me recostei no apartamento que nós alugamos e tentei imaginar como eu ia tocar as músicas com a mão machucada. Havia algumas coisas que eu não podia fazer, mas para a maioria eu estava OK, então nós fomos em frente com os shows e, para criar um efeito dramático, eu subia no palco usando a tipóia. Eu tirava minha mão da tipóia, colocava cuidadosamente no braço da guitarra e seguia com o show.

Larry: Havia histórias de bandas que iam para Londres e ficavam em quartinhos. Bem ao seu estilo, Paul alugou um apartamento em Collingham Gardens em Kensington. Bono e eu dividimos um quarto, assim como Edge e Adam.

Adam: Nós vivíamos com duas libras por dia. Fazíamos uma vaquinha e íamos para o péssimo restaurante italiano local, uma coisa exótica para nós naquela época.

Paul: Ir de A para B e não gastar todo o dinheiro era a prioridade. Mas eu costumava usar uma expressão – “É importante não ter medo do dinheiro” – nem do excesso, nem da falta. Dinheiro era como diesel, servia para nos levar ao próximo ponto.

Bono: Paul MacGuinness nos levou ao Poon’s, que é um restaurante chinês famoso de Chinatown. Tudo isso era novo para a gente. Nós entramos e havia todos aqueles garçons chineses gritando com a gente. Nós sentamos à mesa e tentamos fazer um pedido. E eles ficavam dizendo: “Anda logo, o que vocês querem?” E eu me lembro do Larry respondendo: “Calma aí, nós estamos pagando pela comida aqui. Vocês não gritam com a gente, nós gritamos com vocês.” Paul explicou ao Larry que em restaurantes requintados você deve deixar que eles gritem. Ou paga mais pelos insultos. Larry não aceitou o conceito… na época, ou nunca. Larry é uma figura muito cautelosa. Eu acho que ele não estava seguro longe de casa em uma cidade como Londres. Eu estava maravilhado, meus olhos estavam do tamanho de salsichas, e eu caminhava por Londres com músicas na minha cabeça.

Larry: Nós estávamos em Londres, estávamos buscando ativamente o nosso contrato discográfico, esse era o objetivo. Por isso os shows eram muito importantes. Havia muita discussão sobre o que era e o que não era legal e como nós devíamos nos apresentar no palco. Eu me lembro da frustração do Bono em alguns shows quando não íamos bem. E o Edge ficava interrompendo os acordes da guitarra – em todos os shows os acordes de guitarra eram interrompidos. Nós tínhamos que desenvolver uma sintonia entre o baixo, a bateria e a voz enquanto o Edge ajustava os acordes. Essa sintonia se tornou uma parte importante do nosso cenário.

Adam: Por um lado era emocionante porque estávamos mais próximos do calor de onde as coisas aconteciam. Mas Londres também era um lugar muito assustador para a gente, e continuou a ser por um bom tempo. Parece que muito tempo passou antes de começarmos a fazer bons shows por lá, porque era muito estrangeiro e alienígena para nós.

Larry: Nós estávamos como peixes fora d’água, muito inseguros sobre o que fazíamos. Tínhamos alcançado um certo nível na Irlanda, então isto era como voltar ao zero, tocar para nove ou dez pessoas que não se envolviam com o show. O som dos clubes não era muito bom, nós não conseguíamos ouvir o que estávamos tocando, parecia que tudo tinha se voltado contra a gente. Eu não pude deixar de pensar que talvez tudo fosse um grande erro.

Edge: Alguns shows foram realmente bons, outros foram um tanto bagunçados. Nos apresentamos no Moonlight Club, no The Hope and Anchor, no The Rock Garden, no Dingwalls, no Eletric Ballroom abrindo para os Talking Heads, e vimos várias gravadoras.

Bono: Era durante essa turnê que iam decidir se assinávamos o contrato ou não. Era uma situação de “ou vai ou racha”. Nas melhores noites eles não apareciam e nas más estavam todos lá. No final de semana todas as gravadoras tinham nos rejeitado. Apesar de termos captado o interesse da imprensa, acabamos indo para casa envergonhados, sem o contrato que tínhamos prometido aos nossos pais e aos nossos fãs.

Adam: Íamos passar o Natal em casa, mas em estado de choque. Londres era uma cidade grande e os locais que ouvíamos dizer que eram excelentes para fazer os shows, mais pareciam banheiros que outra coisa… e mesmo assim não conseguimos encher o espaço. Representantes de todas as gravadoras tinham ido nos ver e mesmo assim, não conseguimos arrasar Londres. Estávamos sem dinheiro. Eu tinha duas guitarras e no final dessa semana, tive que vender a minha Rickenbacker para pagar as passagens de volta para casa. A situação era desesperadora, porque tínhamos falhado, não tínhamos um tostão, devíamos dinheiro aos nossos pais e ninguém queria assinar contrato com a gente. Não podíamos estar pior.

Bono: Tivemos uma última idéia. O nosso último plano era usar a imprensa irlandesa, que tem por costume ser cúmplice com os irlandeses que causam uma pequena faísca fora do país, transformando essa faísca em um incêndio. Começamos trabalhando o conceito “U2 irrompem no Reino Unido.” Criticas entusiastas, tudo começava acontecer. Fomos capa da Record Mirror no Reino Unido, o que foi muito importante. Fomos capa da Hot Press, na Irlanda. Acabaram os shows para meia dúzia de gatos-pingados. Da forma como as coisas corriam, apareceram 200 pessoas no Half Moon, em Herne Hill, para ver nosso show. Entretanto agendamos a turnê pela Irlanda, que terminou com o nosso último show no Estádio Nacional em Dublin, onde nunca nenhuma outra banda jovem tinha se apresentado. Era um lugar onde só os grandes tocavam, era o “estádio de boxe” de Dublin. As pessoas estavam espantadas. “O U2 é assim tão bom?” “Sim. É mesmo bom.” É verdade!

Adam: Convencemos a CBS Ireland a lançar outro single, que era uma nova demo da música ‘Another Day’, e que nem era das melhores do U2, verdade seja dita. Mas era uma faixa interessante. Foi a melhor gravação das últimas demos, tinha um quê de moderno e revolucionário. Fizemos uma turnê na Irlanda por todos os lugares que pudessem ser palco de excelentes shows. O ponto alto da turnê, que só durou cerca de uma semana, foi no Estádio Nacional. Estiveram presentes 2.500 pessoas, e naquele tempo era um lugar onde se apresentavam todas as grandes bandas estrangeiras. Era um local bastante internacional na época. Conseguir fazer show lá foi considerado bastante corajoso.

Edge: Éramos famosos em Dublin. Aos olhos das pessoas, o fato de termos ido a Londres foi quase tão importante como se tivéssemos assinado um contrato com a gravadora.

Larry: As bilheterias e as pessoas estavam comprando os bilhetes. Havia um entusiasmo enorme em torno daquele show – era como se tivéssemos voltado como heróis vitoriosos. Lembro de chegar ao estádio e de termos testado alguns instrumentos. Havia um sistema de som muito bom, havia luzes e conseguíamos nos ouvir em palco. Depois de todos os problemas enfrentados em Londres, isso era perfeito.

Adam: Foi o melhor show das nossas vidas até aquele momento. Reparamos que sempre que dávamos grandes shows nos sentíamos muito melhor do que quando nos apresentávamos em clubes. Quando sabíamos que íamos apresentar em um lugar maior do que o anterior, nos sentíamos bastante confortáveis com a idéia. É quase como se os lugares pequenos fossem demasiado pequenos.

Larry: Famílias, amigos, amigos de amigos, estavam todos lá. Estava lá meu pai e muita gente da idade dele. Fizemos um show fabuloso. A reação do público foi muito especial.

Bono: Durante esse show apareceu o A&R da Island Records que se dá pelo nome de Capitão. Nick (algumas vezes chamado de Bill) Stewart. Tinha ignorado todos os nossos shows no Reino Unido e agora dizia: “Meu Deus, eles vão se apresentar em um estádio? Ficaram mesmo famosos.” Chega lá e descobre que aquilo não é propriamente um estádio, mas sim um local espaçoso e que as entradas não estavam esgotadas, mas que estava quase casa cheia. Foi um bom show. Era o nosso show de retorno para a casa e as nossas famílias estavam presentes.

Larry: O Nick Stewart foi conversar com a gente depois do show e nos propôs um contrato de gravação. Não podia ter acontecido em melhor momento.

Bono: Bola no cesto. Último minuto de acréscimo.

*Páginas 82, 85 a 87 – Fotos