1980/1981 - Into The Heart | U2 Brasil

 

1980/1981 – Into The Heart

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Páginas 97 a 110

Adam: Havia em certo nível de entusiasmo, o Steve parecia ser o homem certo. Não sabíamos se tínhamos o que era preciso para fazer um álbum, que mais tarde foi gravado no Windmill Studios. Acho que nenhum de nós queria ir para Londres. Isso teria sido precipitado. Ainda éramos muito novos, vivíamos com os nossos pais e não tínhamos muito dinheiro. Quando assinamos o nosso contrato com a gravadora, estávamos tirando cerca de 25 libras (cerca de 31 euros) cada um por semana. Não dava para muitas viagens de táxi, tínhamos que continuar andando de ônibus. O Windmill Lane Studios era o melhor estúdio de Dublin e os donos eram conhecidos do Paul, por isso, ele nos conseguiu um bom contrato.

Bono: O Steve tinha vindo direto de uma sessão com o Peter Gabriel, por isso, estava em uma fase experimental quando veio trabalhar com a gente. Foi bastante divertido gravar o álbum, porque experimentamos de tudo. Viramos uma bicicleta ao contrário e usamos as rodas para percussão e tocamos nelas com garfos. Partimos garrafas para efeitos sonoros, tocamos xilofone. Foi uma aproximação criativa daquilo que é gravar o disco de uma banda de rock. O mérito é todo do Steve. O Adam e o Steve ficavam acordados fazendo experiências e depois as colocavam em prática com a gente no dia seguinte. As faixas das músicas estavam fantásticas – gravamos a bateria no fundo da escadaria e espalhamos microfones pelos quatro andares até o teto. Enquanto eles faziam a parte da bateria, eu me deitava no sofá. Gostava de ficar ali ouvindo. Por mim, teria feito o álbum só com bateria.

Edge: O Steve sabia como nos fazer dar o nosso melhor. Não havia aborrecimentos e as sessões eram sempre bastante positivas. Penso que foi especialmente bom para o Adam e para o Larry termos trabalhado com alguém que conseguia perceber que nós não éramos músicos incríveis. Fazíamos o que sabíamos.

Larry: O Steve foi como o Dr. Feelgood, um estímulo para as tropas. No entanto, acho que nunca pensou que eu estivesse à altura, por isso, nunca me aproximei tanto dele como os outros. O Steve estava acostumado a trabalhar com bateristas excelentes, músicos profissionais. Eu tinha 18 anos quando gravamos Boy e não tinha muita confiança na minha forma de tocar. O meu desempenho era dificultado pela minha inexperiência e pela minha incapacidade de descontração. Eu tinha boas idéias, só não era capaz de tocar como os outros faziam. Eu estava sempre muito concentrado e consciencioso, mas não sabia se era boa idéia usar coisas como um metrônomo. A idéia de gravar a parte da bateria nas escadas foi do Steve. No início foi estranho. Estávamos acostumados fazer as gravações todos juntos, e sem mais nem menos, estou eu sozinho nas escadarias. E depois vieram os overdubs. Eu perguntei: “Mas que raio é isso?” E o Steve pacientemente explicava: “É quando toca por cima de uma coisa já gravada.” Eu não fazia idéia de como é que aquelas coisas funcionavam, estava em outro mundo. Mas o Steve era um excelente produtor, tinha os seus truques e sabia como usá-los. O som estrondoso da bateria foi obra dele.

Edge: Não tínhamos muito tempo, por isso, gravamos o mais depressa possível todas as músicas que tínhamos composto. Ainda tínhamos algumas horas para fazer overdubs em todas as músicas e depois avançávamos para outra coisa. O Bono estava terminando algumas letras enquanto arrumávamos as guitarras e o instrumento de percussão. Passou tudo muito rápido, pois teve mesmo que ser assim.

Bono: Eu acho que eu realmente não gostava de escrever letras. Eu não escutava canções pelas letras delas, particularmente. Eu estava interessado em idéias e eu não pude me concentrar nos detalhes. Isso era sempre aborrecedor para as pessoas, porque elas sempre diziam: ‘Por que a letra mudou de ontem? E por que você não pode gravar isto? Porque você quer mudar isto novamente!’. Ser conceitualmente tão bom e tão pobre em termos de finalização, eu nunca irei entender.

Edge: Quando nós estávamos trabalhando, vendo como o álbum estava caminhando, ocasionalmente nós perguntávamos ao Bono como as letras estavam indo e ele dizia: “Sem problemas, basicamente eu as terminei, você sabe.”. Mas era o minuto final, como de costume com o Bono – só resolve as coisas quando tem certeza de que está pronto, então demorava demais para começarmos a gravação. Mas aquele foi um período quando muitas das letras estavam fugindo completamente do sentido, letras que eram tão pretensiosas com pouca experiência real para transmitir. Então eu não teria interesse, ao menos que elas soassem bem, que estivessem boas. Bono obviamente queria que elas estivessem boa ainda mais que ele cantava essas músicas inacabadas há um bom tempo, ele sentava e lia para clarear o que ele estava tentando transmitir. Algumas delas foram aprovadas, outras não. Mas foi o começo, eu acho, do compositor que ele é agora. Foi a primeira incursão dele. Eu acho que as letras escritas influenciaram na escolha do título, Boy. Foi escolha do Bono, sem oferecer uma explicação. Boy tinha força e pureza.

Bono: Eu e o Guggi, quando garotos, fizemos uma promessa de que nunca iríamos crescer. Não queríamos ser como os adultos, o que é algo bastante comum na infância. Mas nós estávamos falando sério e, de certa forma, conseguimos cumprir a promessa. Muitas vezes conseguimos ser muito fortes para fazer coisas que nunca imaginávamos ser capazes. Na época, eu devia pensar que podíamos perder algumas coisas das nossas qualidades e o primeiro álbum era uma forma de reivindicar o poder dessa ingenuidade. Sabia exatamente como deveria ser a capa, a cara de uma criança num fundo branco, como fotografia antes de estar completamente revelada, o que é uma excelente metáfora. Achei que este era um assunto que nunca tinha sido explorado por ninguém ligado ao rock – o fim da angústia de adolescente, o caráter elusivo de se ser um homem, a sexualidade, a espiritualidade, a amizade. Esse álbum teve enorme aceitação por parte do público homossexual. Na época, não me dei conta, mas agora olho para trás e vejo que está repleto de erotismo homossexual: In the shadows, boy meets man…. (na sombra o rapaz encontra o homem). Tentei apenas uma aproximação temática e uma visão do momento do nosso desenvolvimento, voltando à metáfora da fotografia. É o U2 em desenvolvimento.

Edge: Quando surgiu ‘I Will Follow’, reconheci que tínhamos produzido algo especial.

Bono: ‘I Will Follow’ surgiu após uma discussão na sala de ensaios. Lembro de tentar reproduzir o que tinha ouvido na minha cabeça. Peguei a guitarra do Edge e comecei a tocar. O som estava, literalmente, surgindo de um estado de fúria, o som de um prego sendo cravado no lóbulo frontal. É uma música sobre o amor incondicional, como o que uma mãe sente por um filho. Se me abandonar, irei atrás de você. Faço o que fizer, não pode se separar do meu amor. Dando eco as Sagradas Escrituras: “Nem o tempo, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus”. É algo incrível, mas provoca uma sensação de arrepio. Canto do ponto de vista materno. Eu sei que é maluquice, mas já o fiz muitas vezes. Faço-o muitas vezes. Mas, se nos abstivermos disso por um momento, e pensarmos que é uma música sobre a minha mãe, então passa ser uma nota de suicídio – ‘If you leave me, I’m coming after you’ ( se você me deixar, estou indo depois de você). Fico espantado ao lembrar disso. O que é que andamos tomando? Nada!

Muitas das músicas faziam parte do repertório que íamos criando ao longo dos anos e são tocadas de forma bastante segura. A seqüência que mais gosto é de An Cat Dubh, o gato preto para Into the Heart. É espantoso. A violência do som da guitarra do Edge, a imagem de tentação, um gato dormindo junto com um pássaro morto nos subúrbios de Dublin, depois brinca com ele, como eles fazem: o gato segue o pássaro, mata-o e depois o abandona. Conseguimos de certo modo perceber o lado sexual da situação, o desejo e a inocência, e a forma de isso mexer conosco. E o harmonioso som lírico da guitarra, o Edge quebra todas as regras do punk rock tocando um tema de guitarra, quase um solo, que durou uma eternidade. É fantástico. E, depois, a cômica megalomania de ‘The Ocean’. I felt the world could go far If they listened to what I said (Eu senti que o mundo podia se distanciar, se eles ouvissem o que eu disse). O futuro está traçado nesse álbum. Tem composições muito bonitas, mais musicalmente do que propriamente em relação ao aspecto lírico. Está cheio de melodias semelhantes e tristes. Acho que é um dos melhores primeiros álbuns de todos os tempos.

Larry: O albúm Boy foi gravado em um mês. Foi o único álbum a ser gravado tão depressa.

Bono: Eu adorava apresentar no norte da Inglaterra. Adorava estar em Manchester, Liverpool, Newcastle, na Escócia. As pessoas começavam a nos seguir para todo o lado. Tínhamos um repertório um pouco curto, por isso, repetíamos algumas músicas. Começávamos e terminávamos os shows com 11 O’Clock Tick Tock e I Will Follow. Eu não costumava falar muito. Só comecei a falar mais, porque eles estavam sempre afinando os intrumentos, agora já temos alguém para afinar por nós.

Edge: Fiquei viciado no Space Invaders. Parávamos em um posto de serviços na estrada para comer alguma coisa, ficávamos dez minutos comendo um sanduíche e, depois, passávamos o resto do tempo jogando o Space Invaders. Éramos crianças e tínhamos sofrido a severidade do fim do conforto das casas no Reino Unido. Nos instalamos em um lugar em Leeds no meio da noite e, com os olhos meios turvos, reparei que o jardim estava todo florido, em pleno inverno. Achei que era bem estranho, mas só pela manhã reparei que eram plantas artificiais.

Paul: Não estávamos propriamente abonados, mas tínhamos algum dinheiro e estávamos trabalhando com uma equipe de estrada profissional.Pelo menos, podíamos tomar decisões sobre se deveríamos ou não comprar uma guitarra. Tínhamos uma boa relação com o pessoal da Island. O Rob Partridge e o Neil Storey, os acessores de imprensa, costumavam ir em vários shows nossos, e nos ajudaram desde cedo a conseguir apoio por parte de jornais de música de Londres. Decidimos tentar conquistar Londres apresentando durante quatro segundas-feiras seguidas, por isso, foi fácil arranjar lugar.

Bono: As segundas à noite no Marquee Club eram o máximo. Aquele era o chão que o The Who tinha pisado antes de nós. Estávamos finalmente conquistando um público. Nos apresentamos em quatro segundas-ferias à noite: na primeira noite, o lugar estava meio cheio, na segunda noite, estava cheio, na terceira, o público fazia fila no quarteirão, e na quarta a rua estava congestionada. Nos saímos muito bem.

Paul: Foi uma forma de conquistar o público, mas de uma maneira visível, para que as pessoas percebessem que faziam parte de algo que estava crescendo. Foi a mesma coisa que fizemos no Dandelion, porque achei óbvio que se alguém aparecesse em um show onde estão 50 pessoas e uma semana depois aparecesse em um que só tivessem 25, essa pessoa iria ficar desiludida. E, certamente, nunca mais voltaria. O público gosta de se sentir apoiado quando faz determinada escolha em relação a uma banda, quer ter a comprovação de outras pessoas. Existe uma mentalidade que é essencial na conquista de partidos. As pessoas começam perceber que esta acontecendo alguma coisa. E nós dávamos algo apresentando ao vivo e não apenas tendo discos que eram um sucesso.

Edge: Fomos para a Europa pela primeira vez durante essa turnê. Fizemos uma apresentação no Milkway, Amsterdam em outubro de 1980. Foi um show fabuloso. Foi uma sensação ótima descobrir que a barreira da língua, afinal, não era barreira nenhuma e percebemos que a música fazia tudo aquilo que nós imaginávamos que faria. Ultrapassava fronteiras e estabelecia uma ligação de uma forma que transcendia qualquer diferença cultural ou lingüística. Houve alguns lugares que a loucura foi total pela banda nas primeiras vezes. Com exceção da Irlanda e Reino Unido, a Holanda foi o primeiro país onde tivemos um sucesso inacreditável.

Paul: A idéia de fazer uma turnê preliminar na América surgiu mesmo antes do álbum ter saído, só para todos irem pensando na América e viver isso antes de ter qualquer pressão. Durante a gravação de Boy fui à Nova York pela primeira vez para encontrar com Frank Barsalona. O maior e mais importante agente na América nos anos 70. Foi uma aventura um tanto esperançosa da minha parte. No entanto, meu pai morreu repentinamente, no dia após a minha chegada. Por isso, tive que dar meia volta e voltar à Dublin sem completar a minha missão. A perda de um pai é sem duvida algo comovedor e que transforma com completo a vida de uma pessoa. Todos da banda estiveram presentes no funeral e eu fiquei muito agradecido pelo apoio deles. O Bono e o Larry já tinham passado por uma situação de perda idêntica. A mortalidade parece ser um dos elementos que sustenta o U2 e talvez tenha ajudado a cimentar a relação entre todos. Algumas semanas depois, quando voltei para Nova York, o Frank Barsalona não teve outra opção senão me encontrar, devido às circunstâncias trágicas que cancelaram o nosso último encontro. Na verdade, nos tornamos bons amigos e a relação profissional com ele e com a Bárbara Skydel, o seu braço direito, foi a base da erupção do U2 na América como banda ao vivo. O mesmo se aplica ao nosso agente, Ian Flooks, no resto do mundo.

Adam: O Frank Barsalona era um caso exemplar. Nos contava histórias sobre os Beatles, The Who e o Led Zeppelin, pois já tinha sido agente deles. Nós achávamos que ele era o grande conhecedor da América.

Paul: Nos anos 60, ele tinha sido agente dos Beatles na GAC (General Artists Corporation) e mais tarde, formou a sua própria agência, a Premier Talent. Foi o agente da invasão britânica e lançou todas as grandes bandas de rock. Estabeleceu uma rede de promotores por toda a América: Bill Graham em São Francisco, Don Law em Boston, Barry Fey em Denver, Michael Cohl em Toronto, Arnie Granat e Jerry Michaelson em Chicago. Essa rede de promotores teria que arrumar shows para as bandas do Frank. O Frank ligava e dizia: “Tenho uma nova banda chamada U2. Quero que você Don, arrume um show para eles no Paradise” – que era um lugar pequeno, um clube em Boston – e os promotores acompanhavam a banda à medida que ela ia alcançando diferentes níveis de capacidade. E foi exatamente isso que fizemos desde 1980 até a turnê Zoo Tv, nos anos 90. E tudo começou com uma pequena turnê pelo nordeste em uma van.

Bono: O Paul enchia nossas cabeças com a América. Ele já tinha percebido que as bandas de rock, no seu sentido comum – Os Beatles, os Stones e The Who já tinham passado de moda na Europa, mas continuavam sendo adoradas na América. Nós não criamos singles virados para o pop e o Paul acreditava que haveria maior probabilidade de passarem a nossa música na rádio da universidade nos Estados Unidos do que na rádio 1 do Reino Unido. Daí enviou algumas cópias do nosso álbum para estações de rádio universitárias americanas e eles gostaram do trabalho. Foi graças a isso que nos apresentamos na América.

Edge: Os irlandeses estão na orla da Europa e há uma ligação sentimental muito forte com a América por ter servido de abrigo às inúmeras ondas de imigração saídas da Irlanda. Era como a terra prometida. Por isso, indo lá era uma forma de explorar esse lugar mítico. Mas é também a cultura dominante da comunicação social mundial, com todos os programas de televisão, filmes e música, e a minha primeira impressão foi de que é tudo exatamente como vemos na televisão. Cheguei a suspeitar que a América dos programas e filmes era uma espécie de exagero. Mas, ao andar pelas ruas, é como se estivéssemos andando por entre inúmeros programas de televisão. Está tudo lá. Fiquei fascinado com os diferentes sotaques, com a arquitetura e até mesmo com coisas banais como o café.

Bono: Escrevi uma música sobre isso: ‘Angel Of Harlem’. Aterrissamos no aeroporto JFK e foram nos buscar de limusine. Nunca tínhamos entrado em uma e com o ruído ainda do punk rock presente nos nossos ouvidos, sentíamos uma espécie de satisfação comprometida ao chegar. E íamos sempre com um sorriso nos lábios, por achar tudo aquilo tão divertido. Atravessamos a ponte Triborough e observamos o perfil de Manhattan. O motorista da limusine era negro e tinha sintonizado a WBLS, uma estação de negros. Estava tocando uma música do Billie Holiday. E ali estava ela, a cidade das luzes ofuscantes e corações de néon. No céu passavam propagandas de bandas como nós, tal como em Londres no ano anterior. E estava nevando. Paramos na porta do Gramercy Park Hotel e entramos todos.

Edge: Saímos da limusine e fomos para a entrada. Eu olhei pela janela e vi as duas guitarras, nos estojos, ali no lugar onde tínhamos deixado, e vi dois caras atravessando a rua prestes a pegarem elas. Saí correndo e cheguei lá primeiro. Mas estivemos muito perto de ter nosso nome ridicularizado: “Grupo de garotos de Dublin chegam a Nova York e suas guitarras são roubadas.” Teria sido deprimente.

Bono: Não consegui me fartar de Nova York. Não queria entrar no hotel, porque ia deixar de ver a cidade, por isso, caminhei até a esquina e continuei olhando ao meu redor. O meu casaco preto de imitação de pele estava ficando branco de tanta neve, entretanto, parou um carro ao meu lado e o homem que estava dentro se ofereceu para fazer sexo comigo. Fui correndo para o hotel e contei para os outros o que tinha acontecido. Eles olharam para mim como quem diz: “estava esperando o que? Anda por aí com um casaco de pele, seu boiola!” Nova York, não consigo esquecê-la. Sempre que vou lá, respiro bem fundo. Ninguém fala com um volume normal. Os taxistas, as pessoas nos restaurantes, todos falam 20 por cento mais alto do que o restante das pessoas do mundo. Têm uma energia incomparável.

Larry: Nunca tinha me sentido tão desorientado por estar em um lugar diferente. Estava completamente desnorteado. Quer dizer, ir para Londres foi estranho, mas Nova York foi diferente, me senti dominado. Eram muitas coisas para absorver ao mesmo tempo. Gostaria de ter me divertido mais quando estive lá pela primeira vez.

Adam: Eu já tinha estado em Nova York com a minha família. Andei no ferry-boat de Staten Island e aprendi tudo o que há para se aprender sobre chocolate quente com chantili, panquecas e essas coisas que experimentamos quando vamos pela primeira vez – a televisão americana, a eletricidade estática dos tapetes – sentia que já conhecia a América.

Bono: Michael Deeny, que tinha sido agente do Horslips e que ensinou ao Paul tudo o que ele sabia, encontrou com a gente em Nova York e tentou nos colocar em um bar onde Basquiat e todos os grandes artistas americanos da época costumavam ir com todos os grandes músicos. Acho que chamava Mud Club. O Michael era um caótico do norte da Irlanda. Tinha se formado em Oxford, tinha um sotaque distinto e era gago. Estava vestido com um bonito casco de casimira e estava batendo na porta de um edifício em Nova York – o bar era no segundo andar – e dizia: “Já tratei de…de tudo. Não se…preocupem, vão poder entrar.” Claro que ninguém nos deixou entrar. Devem ter olhado para nós pela fechadura. Não éramos suficientemente maneiros. E o Michael disse: “Houve um mal….mal….entendido. Fiquem aqui, v….venho já.” E foi embora. Ficamos lá fora na porta durante 20 minutos, sem saber aonde ele tinha ido. Até que ouvimos barulho de alguém caindo pelas escadas lá dentro. Uma porta enorme se abriu e o Michael Deeny, todo despenteado e sangrando pelo nariz, estava tentando afastar os seguranças e gritando: “Já lhes mostrei como é!” Ele tinha subido pelas escadas de incêndio, pela parte de trás do edifício, entrou pela cozinha e ia descer atrás dos seguranças para tentar nos colocar lá dentro.

Esse foi o homem que se acorrentou ao pneu de um ônibus da equipe de rugby da África do sul durante o apartheid. E claro, todos aqueles jogadores sul-africanos brancos lhe deram uma lição quando o ônibus começou a descer até Piccadilly aos solavancos – era mesmo uma pessoa extraordinária. Acho que o fato do Paul ser muito otimista e ter uma força descarada de lidar com o pessoal ligado ao rock ‘n’ roll deve muito ao Michael. Do gênero: “Importa de não falar comigo durante o solo do Edge, faz favor?” Esse tipo de coisa. Boas maneiras, mas mais perigosos do que um tiro na cabeça.

Larry: A nossa primeira atuação na América foi no centro de Nova York em um lugar chamado Ritz. Infelizmente, a apresentação não foi particularmente boa. Estávamos todos muito nervosos e não estávamos com a vibração certa. O Bono ficava sempre muito ansioso antes de um grande show e essa ansiedade era contagiosa.

Edge: Demos alguns shows na costa leste. Fazíamos o de sempre: de um lado para o outro nas auto-estradas da América, numa van pequena com duas filas de bancos e o motor traseiro, pernoitando nos hotéis mais baratos que encontrássemos. O engenheiro de som ia dirigindo, o das luzes ia sentado ao lado dele e os membros da banda iam atrás. Era simples.

Adam: Nós podíamos apenas dirigir e dirigir e digirir. Era no meio do inverno, não havia muita coisa acontecendo, mas nós ainda éramos jovens o suficiente para ficar horas e horas sentados no banco de um carro ou de uma van, olhando para fora da janela, parando em paradas de caminhões e se divertindo experimentando botas de cowboys. Tudo era construindo em grande escala, era como se nós estivéssemos dirigindo em um filme. Eu gosto dos americanos desde o começo. Eles podiam ser barulhentos e ousados, mas eram essencialmente pessoas muito amigáveis. Uma coisa que me marcou é que no momento em que você falava que era músico, as pessoas ficavam muito interessadas em você, o que certamente não era o caso na Ingleterra ou na Europa. Você é mais aceito na América.

Edge: O nosso show em Boston foi uma verdadeira surpresa para todos, pois fizemos a abertura de uma banda chamada Barroga Bandit num clube pequeno abarrotado de gente e reparamos que estávamos tendo uma reação bastante positiva por parte do público. Tocamos ‘I Will Follow’ três vezes, pois abrimos e fechamos o show com ela e ainda repetimos a pedidos da platéia. Saímos do palco e nos sentimos incríveis devido ao entusiasmo do público. Depois, fomos ver um pouco da apresentação da outra banda, mas não havia mais ninguém, todo mundo tinha ido embora. Foi aí que percebemos que as pessoas tinham ido lá somente para nos ver. Descobrimos que uma das estações de rádio local passava as músicas do nosso álbum e como resultado disso, já éramos uma banda conhecida em Boston. Foi outro momento de verdadeiro encorajamento.

Larry: Havia um cara chamado Carter Allen de uma estação de rádio rock de Boston, a WBCN e desde o início, ele apoiava o U2. Por isso, quando fomos a Boston, foi como uma espécie de retorno à casa. Foi muito importante para nós. Pode-se dizer que conquistamos Boston.

Bono: Todas as noites tinham que ser as melhores. Se não fossem, tinha que haver um motivo e nós tínhamos de descobrir qual era. Em palco, éramos tudo, menos descontraídos. Era tudo bastante arrebatado, por vezes com o público e por vezes entre nós. Uma vez, fizemos uma apresentação num clube pequeno em New Haven e resolvi atirar o Kit do Larry para o público.

Larry: Foi uma daquelas apresentações em que as coisas não estavam correndo muito bem. O Bono estava preparado para começar a música, mas eu estava tendo problemas com a bateria. Existem dois espigões na frente do kit que servem para prendê-lo no chão, mas, como a bateria estava em cima de um tapete, durante o show começou a escorregar. Quando o Edge começou a tocar 11 O’Clock Tick Tock’, eu estava tentando arrastar a bateria para perto de mim. E ainda nem sequer tinha as baquetas na mão.

Bono: Marquei o tempo para dar início a música e o Larry não começou a tocar. Marquei novamente e nada. Olhei para trás e aos meus olhos psicóticos, parecia que ele estava se escondendo atrás da bateria. Tirei a bateria da frente para que o público o visse e a atirei para a platéia. Foi uma confusão total no palco – acho que o Edge tentou me acertar.

Larry: Ele começou correr atrás de mim em volta da bateria, queria me matar com o suporte do microfone. Eu fui correndo a todo gás para o camarim. O Edge se enfiou na confusão e ainda levou um tapa ao tentar me proteger.

Edge: Eu estava pendurado nas costas do Bono tentando impedi-lo de acertar o Larry e ele acabou acertando em mim. Então, eu acabei em uma briga com o Bono.

Bono: O Edge me acertou em cheio. Foi uma verdadeira briga com todos os membros da banda. Eles me batendo e eu batendo neles. Foi uma autentica pantomima, Laurel e Hardy. Mas o Edge sabe brigar. Aprendi uma lição nesse dia: Nunca devemos nos meter com um cara que ganha à vida através da coordenação visual-manual.

Larry: Eu sempre tive consciência do perigo. De certa forma, até fiquei surpreso por não ter acontecido mais cedo. Com toda a tensão e agitação crescente que sentia, ele achava que eu não estava tocando só para provocar. Mas eu expliquei o que aconteceu, e ele disse: “Ah, tudo bem.” O Bono conseguia ser imprevisível. Naquele tempo, estava sempre preparado para o estouro. Era um caçador e não tinha medo de nada. Nunca nos esquecíamos disso. Independentemente de quanto chateados pudéssemos estar com ele, a única forma de resolver a situação era fugindo.

Bono: Tal como tento explicar às pessoas, ninguém retira mais das músicas do que o próprio cantor. Tento sempre dar o meu melhor.

Paul: Fizemos as primeiras apresentações na Alemanha, que na época era um país dividido, com Berlim isolado da parte ocidental. Para chegar a Berlim, era preciso atravessar o corredor, que era uma espécie de estrada vedada até a Alemanha oriental. Na noite seguinte íamos nos apresentar em Munique, por isso, fizemos a viagem durante a noite e fomos até a fronteira. Quando chegamos lá, eram só cães, armas, holofotes e gritos. Os membros da banda estavam em sacos de dormir na parte de trás e os guardas alemães pensaram que estávamos tentando ajudar pessoas a sair do país. Foi uma discussão horrível.

Bono: Os nossos sacos de dormir estavam molhados por causa da condensação. Como estava muito frio lá fora, a van estava úmido por dentro. Estávamos todos dormindo. Havia muito barulho e gritos: “Abra a porta da van! Abra a porta!” O Paul estava tentando explicar em inglês o que estava acontecendo e eles continuavam apontando as armas. “O que estão contrabandeando? Abra a van!” Depois de abrirem a porta, viram os membros de uma banda de rock dormindo. Os oficiais nos obrigaram a sair, coisa que não nos agradou. Lembro de ter olhado para eles e reparar que tinham a mesma idade que nós, mas tinham um cabelo mais curto – está tudo na música ‘Stranger In a Stranger Land’. É uma música sobre a nossa própria alienação. Éramos uma banda de rock, mas não vivíamos como uma banda de rock. Éramos como peixes fora d’água.

Paul: Essa foi a turnê mais simples. Pouco depois, nos mudamos para um ônibus escolar ridículo. Não tinha beliches, só tinha mesas de piquenique. Às vezes eu ficava no meu carro. Tinha um Lancia que só dava problemas.

Edge: O Lancia do Paul era de uma série especial característica por estar sempre dando problemas, e pifou na Periphérique que circunda Paris, numa explosão de vapor. O Paul tirou a tampa do radiador antes de ferver, o que provocou uma explosão de seis metros de altura. O Paul ficou nervoso e começou a dar pontapés no carro. Depois abriu a tampa da gasolina. De repente, reparamos que ele estava pegando um isqueiro e tivemos que ir nós quatro agarrá-lo, pois ele ia mesmo tentar por fogo no carro naquele momento. Tivemos que tiraá-lo dali e fomos tomar um café. Ele era membro da Associação do Automóvel, por isso, eles apareceram e rebocaram o carro até o ferryboat.

Adam: Voltamos para a América por três meses, março, abril e maio de 1980. O Paul passou bastante tempo com o Frank Barsalona e o Chris Blackwell, para saber o que era necessário fazer entre as gravadoras, agentes e promotores, de forma a obter o maior impacto possível por todo o país. Na América, cada cidade possui um mercado diferente e vasto. É como estar em países diferentes. A rádio, a comunicação social, televisão e a imprensa, tudo isso é diferente. Existe um processo muito diferente daquele que é usado para conseguirmos que passem as nossas músicas nas rádios. É preciso ir lá e criar uma boa impressão para conseguir parcerias. É por isso, que a forma tradicional e eficaz de avançar na América é fazendo turnês. Demora apenas três ou quatro meses para percorrer todo o país. É só dirigir, dirigir, dirigir… Acho que a partir de determinado tempo na nossa vida já não é possível fazê-lo. Mas nós estávamos com 20 e poucos anos e estávamos preparados para ficar sentados em uma van durante horas seguidas, olhando pela janela. A nossa distração era nas paradas, andar na farra e comprar botas de cowboy – na época era simples assim. Na turnê Boy, alugamos um ônibus adequado e fizemos shows em clubes bastante decentes.

Edge: A diferença entre a nossa afirmação e a de muitas bandas do Reino Unido, era que nós estávamos mesmo determinados a conquistar a América numa frente comercial e isso implicava com que o Paul fizesse os contratos necessários. Tínhamos de nos apressar para conseguir o dinheiro da gravadora para podermos avançar.

Paul: A Warner Brothers Records era uma famosa organização californiana naquele tempo, que defendia os interesses do artista, e era através dela que os discos do U2 estavam sendo lançados na América. Havia lá um jovem gestor chamado Tim Devine, que foi o primeiro que apoiou de uma forma significativa e não poupou esforços para lançar o U2 na América. Bob Regehr era o diretor da Artist Development. Era um velho cowboy de Wyoming ou de outro lugar, mas o que todos sabem é que conseguiu um contrato no Prince com a Warners. Era através dele que se conseguia dinheiro para financiar as turnês. Acabei conhecendo ele e disse que queria pôr a banda na estrada durante três meses, queria percorrer a América e ir a todos os lados duas vezes.

Nas cidades mais importantes, fazíamos apresentações e depois de percorrermos os outros lugares, voltávamos lá para mais uma apresentação. E ele disse: “O acordo com a Island Records é só no próximo ano, há milhões de dólares de prejuízo, e você quer 150 mil dólares. Como é que vou arranjar? Como pode me pedir tanto dinheiro?” E eu disse: “Não sabia para quem mais pedir.” E ele nos deu o dinheiro. Outros aliados importantes na Warners eram George Gerrity, na propaganda de rádio; Carol Scott, do departamento de desenvolvimento do artista; e Donna Russo, da imprensa. O Mo Ostin era como um presidente de uma espécie de universidade de música. Costumávamos pensar na Warner Brothers como sendo a nossa Harvard. O Mo foi sempre generoso com a gente e nos ofereceu o empurrão inicial, da qual outras gravadoras acabaram nos beneficiando.

Nos primeiros anos, 81,82 e 83, fazíamos cerca de três meses de shows na América por ano e isso só passou a ser rentável a partir de 83 ou 84, e foi o Regehr que ofereceu esse dinheiro. Tristemente ele teve câncer e morreu, mas foi o primeiro executivo americano realmente empenhado e que tinha um orçamento adequado. Aprendemos muito com as pessoas da Warner Brothers. Ellen Darst trabalhou para Bob Regehr no escritório da Artist Development e tinha experiência em promoção radiofônica e vendas. Tinha vasto conhecimento nessa área e era muito inteligente. Nessa época, durante a primeira turnê, me pediu trabalho. E eu disse: “Que condições eu tenho para te pagar?” E ela respondeu: “Não, ainda não tem condições para me contratar. Mas, quando tiver, gostaria que me contratassem.” Entretanto, ficou gerenciando os escritórios em Nova York, sendo responsável pela organização das atividades do U2 na América e de outros clientes até 1997.

Bono: Regressamos ao Ritz em Nova York e as coisas começaram a melhorar. Num dos balcões as mesas estavam todas ocupados por pessoas ligadas à indústria da música. Estavam sentados, enquanto os fãs estavam todos pulando. Interrompi o show e os obriguei a levantar. Mais tarde o Paul McGuinness me disse: “Você teve sorte deles fazerem o que você pediu. Senão, a conversa ia ser outra.”

Larry: Tivemos uma relação bastante calorosa na América, mesmo quando os shows não eram excelentes. Senti uma verdadeira generosidade, não só por parte do público, mas também por parte do pessoal da área e de alguns jornalistas. Em todo lugar, éramos recebidos de forma bastante positiva.

Bono: Em Chicago havia mesas em frente ao palco e queríamos que as tirassem. Dissemos: “Nós não fazemos shows com mesas em frente ao palco.” Eles olharam para nós e responderam: “Não, nós não fazemos shows sem mesas em frente ao palco, entenderam?” E nós dissemos: “Entendemos.” Depois, durante o show, avancei por cima das mesas, e pulei de uma para a outra, como se fizessem parte do palco. Foi um momento grandioso.

Larry: O Bono costumava dançar com garotas do público. Nos apresentamos diversas vezes em um lugar chamado J.B Scott, em Albany, New York. Em uma das vezes, ele escolheu uma moça e dançou com ela. No show seguinte, a mesma moça estava lá e resolveu levar a mãe, que insistiu para o Bono colocar um anel de noivado na mão da filha e fizesse dela uma mulher honrada.

Bono: Nos apresentamos em Portland, Oregon. Entraram duas garotas no camarim. Nunca tínhamos conhecido verdadeiras groupies* – só ouvíamos falar delas. Sentíamos um pouco tristes por não termos nenhuma, só para podermos conhecer de perto. Não estávamos interessados em relações sexuais, era tudo pura curiosidade. Estávamos lisonjeados pela atenção delas. Ficamos conversando com elas e queríamos olhar nos olhos e pedir para preencher alguns questionários. Quando elas foram embora, fiquei como um doido procurando uma pasta com as letras que tinha preparado para o segundo álbum, que iria ser gravado assim que voltássemos da turnê. Acho que também estavam 300 dólares junto com as letras, o nosso orgulho foi brutalmente ferido. Rapazes deixam-se enganar por garotas! Isso foi verdade e é uma história que conto há muitos anos. Na verdade, nem tenho certeza de que elas fossem realmente fãs. Eu até posso ter perdido a pasta com as letras, coisas que não seria de se estranhar, e coloquei a culpa nelas. Vinte e cinco anos depois, duas moças honestas (devo deixar bem claro que não eram as mesmas do camarim) me devolveram o conteúdo da pasta em Portland sem sequer pedir recompensa. A dignidade está viva e de boa saúde em Portland. Detesto ter que admitir isso perante os meus tão pacientes colegas da banda, que tiveram que ouvir as minhas queixas por ter perdido o meu tesouro com as letras e me ver usar isso como desculpa por não ter terminado nenhuma das músicas, mas aquele caderno de rascunho tinha um pouco mais do que hieróglifos obscuros.

Edge: O Bono tinha ficado sem a pasta onde tinha inúmeras estrofes e idéias que ia anotando. E pensei: “Isso é ruim!” Pois estávamos começando a trabalhar no álbum seguinte. Mas a verdade seja dita, nós também não tínhamos nenhuma música. Estávamos prestes a arrumar um grande problema, mas na época estava tudo correndo a nosso favor que nem se quer demos a devida importância. Como uma banda que de repente se vê em Nova York, Boston, Chicago e depois na costa ocidental, Los Angeles, São Francisco, isso era muita coisa para digerir. Era tudo um acontecimento surpreendente e uma verdadeira emoção para quatro rapazes de Dublin.

Larry: A costa oriental tem um quê de europeu. Há uma ligação irlandesa, o tempo não é muito diferente do tempo em casa, por isso, é bastante fácil uma pessoa se adaptar. A costa ocidental parecia um mundo à parte. Era extremamente quente e as pessoas que conhecemos ligadas a indústria da música pareciam diferentes. Todos andavam bronzeados e provavelmente pouco saudáveis. Falam muito de piscinas e garotas.

Bono: Lembro de uma grande tempestade na Flórida e de ter pensado: “Aqui tudo tem uma dimensão maior. O céu é maior, o tempo é mais selvagem.” Tiramos alguns dias de férias e fomos para a praia. E ficamos lá sem bronzeado e sem prancha de surf.

Larry: Comecei a reparar que havia cada vez mais moças bonitas por perto. Drogas sendo consumidas em público, linhas de cocaína nos espelhos dos nossos camarins. Eu nunca tinha experimentado drogas e, ver pelas pessoas que me ofereciam, era algo que se passava bem sem experimentar. Quanto às garotas, não parecia certo que nosso pessoal tirasse vantagem das fãs do U2. De fato, muitas delas eram groupies e não necessariamente fãs do U2 de maneira nenhuma. O objetivo de sair com elas era tirar vantagem disso. De qualquer forma, sentia que eram as nossas groupies e aqueles selvagens não deviam se meter com elas. Como banda, tínhamos uma política que nos permitia despedir qualquer membro da equipe que oferecesse “passes” em troca de favores sexuais. Uma regra talvez pouco rígida, mas a vida do U2 é assim.

Adam: Não acho, de forma alguma, que tenham sido momentos insensatos e loucos. É obvio que havia uma certa fadiga de estar sempre dormindo num ônibus, e estar sempre viajando, dando shows e lidando com a imprensa em todos os lugares. Acordávamos cedo e estávamos sempre em movimento. Algumas vezes ficávamos até altas horas da noite e convivíamos com pessoas que pensávamos serem groupies, provavelmente fumando uma erva qualquer e bebendo vinho. De vez em quando, íamos para umas festas esquisitas. Eu costumava andar muito com o Paul. Ele arranjava sempre alguma coisa para fazer depois dos shows. Creio que nessa época os membros da banda começaram a ter reuniões para preces em comum no ônibus ou nos camarins. Eu e o Paul costumávamos ir à frente, geralmente com as músicas nas alturas, com pessoal usando drogas e bebendo umas cervejas. O Bono, Edge, Larry e o Pod, que tinha sido baterista do Virgin Prunes, mas que agora fazia parte da nossa equipe de estrada, ficavam na parte de trás do ônibus. Não sei ao certo o que eles faziam lá, pois não costumava ir lá atrás muitas vezes.

Edge: Adam provavelmente sentia um pouco como se os outros três tivessem perdido isto. De repente, de estar em uma banda de rock, ele está com um grupo de rapazes que têm religião e estão levando Bíblias nas suas bagagens e ocasionalmente se reúnem para rezar. Deve ter sido na verdade muito aflitivo para ele. Paul provavelmente estava um pouco confuso também. Mas não havia tensão, só um pouco de decepção. Não é certamente o que você teria esperado quando você pensava em uma banda de rock durante aquele tempo. Nós éramos, eu suponho, únicos.

Larry: As reuniões para rezar eram um porto seguro, servia para nos aproximar durante os altos e baixos da turnê. Sem contar com o Adam, esse estava sempre se divertindo em um lugar qualquer. Havia muitas coisas que não achávamos certo fazer. Olhando para trás, acho que foi uma posição extrema e fez com que eu interpretasse mal algumas situações. Estávamos aprendendo a nos distanciar, estávamos treinando para sermos separatistas.

Adam: Houve certa controvérsia com a capa do álbum na América. Eu nem sequer sabia o significado da palavra “pedófilo”. Deve ter sido a primeira vez que ouvi. E também não entendia o conceito de erotismo homossexual. Explicaram-me então que havia pessoas que gostavam de fazer sexo com crianças e a imagem do Peter Rowan (irmão do Guggi) na capa do álbum podia ser interpretada como tendo um caráter sexual. Obviamente, colocada as coisas daquela forma, se tornou um ponto de vista aceitável. Pegamos então, uma fotografia abstrata de nós quatro e ampliamos em uma copiadora.

Larry: Em São Francisco, havia um jornalista ativista homossexual, que trabalhava para uma revista chamada Mother Goose, e ele era um grande fã do U2. Acho que foi ele que mencionou que muitas pessoas da comunidade homossexual acreditavam que o garoto na capa do álbum tinha uma conotação homossexual e, além disso, pensavam que o garoto era eu. Por isso, quando fomos para São Francisco, houve uma certa polêmica em torno de mim, o que me irritou profundamente. Foi complicado me sentir à vontade com aquele tipo de atenção. A minha primeira reação foi ficar puto da vida. Eu estava sendo descrito como um ícone homossexual. “Mas o que é isso?” Até que acordei e pensei: “Mas isso é fantástico. Sinto-me lisonjeado.”

*O termo groupie quem inventou foram Keith Richards e Bill Wyman, lá nos anos 60 pra designar as menininhas que faziam de tudo pra chegar perto (bem perto mesmo, do jeito que você está imaginando) de seus ídolos. Elas não queriam saber muito da música dos caras, queriam mesmo é eles.

*Páginas 97, 98, 103, 104, 106, 107 e 108 – Fotos