1980/1981 - Into The Heart | U2 Brasil

 

1980/1981 – Into The Heart

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Páginas 90 a 96
Adam

Assinamos o contrato de gravação no banheiro das mulheres no Lyceum Ballroom, em Londres. É uma longa história…

Bono: O Capitão media quase 1,90m, tinha um queixo que mais parecia uma peça mal acabada e uma voz muito suave. Disseram-nos que tinha pertencido ao Exército Britânico e aos serviços secretos como agente à paisana na Irlanda do Norte durante os conflitos. Lembro-me de ter pensado: “O Capitão tentando passar por irlandês? Não é possível”.

Edge: O Nick Stewart parece mesmo um oficial importante do Exército Britânico. Quando lhe perguntaram o que é que ele estava fazendo na Irlanda do Norte ele respondeu: “Personificando um irlandês alto. Coisa que é extremamente difícil, pois não há nenhum!” Era um verdadeiro figurão, e acabou por se tornar o A&R da Island Records.

Bono: Eu gostava mesmo do Nick. Era divertido, adorava música e tinha um bom sentido de representação. Sabia que tinha descoberto algo de especial e não estava nada preocupado com o fato de ainda não ter dado a volta ao Chris Blackwell, o dono da Island.

Paul: Fui para Londres para fazer as negociações, o que não foi fácil, pois quando só há uma pessoa nos oferecendo um contrato é difícil discutir. Felizmente, o Nick não era o único que nos dava apoio na Island Records. Rob Partridge, o assessor de imprensa, era amigo do Bill Graham e eles costumavam ter conversas sobre o U2. Ele era também muito chegado ao Chris Blackwell, o dono da Island, e havia outro tipo de imprensa, o Neil Storey, que era doido pelo U2. Na verdade, o mérito pela assinatura do contrato vai para todas estas pessoas, assim como para a Anne Roseberry, da Blue Mountain Music.

Larry: Quando pensamos que o acordo já estava no papo, o Nick mencionou que precisava trazer outras pessoas da gravadora para nos ver. Felizmente, íamos atuar num pequeno festival intitulado A Sense of Ireland, que teve lugar em Londres e que foi promovido pela Câmara do Comércio da Irlanda. Atuamos no Acklam Hall, em Notting Hill, com mais duas bandas, o Berlin e o Virgin Prunes. Não chegou nem perto da apresentação que demos no estádio de Dublin, mas foi o suficiente para conseguirmos o acordo.

Bono: Já estávamos na capa da NME mesmo antes de termos o contrato. Acho que isso até deve ter ajudado.

Edge: O Paul Morley, da NME, tinha ido a Cork para assistir à nossa apresentação no Arcadia. De um dos balcões, alguém deixou cair a cerveja em cima do meu amplificador e ele explodiu. Só se via fumaça saindo. E eu pensei: “Caramba! A NME está aqui presente, o público vai começar a ficar impaciente… É o nosso pior pesadelo.” E o Bono tentou resolver o assunto. Disse: “Muito bem, quero 100 pessoas aqui em cima.” Se colocou em cima de uma coluna e disse: “Vamos jogar o jogo da adulação ao Rock’n’Roll. Quero que me venerem!”. Ficou muito tempo assim. Entretanto, arranjei outro amplificador e recomeçamos o espetáculo. No final, estávamos no camarim e o Paul Morley entrou falando em tom declamatório sobre “o auge metafísico”. Tinha adorado! Gostou do espetáculo pela coragem e audácia que o Bono tinha demonstrado e nos deu um fantástico elogio.

Larry: Lá estávamos nós em Londres, à espera do contrato, e numa noite fomos a um concerto no Lyceum. O Paul apareceu com o Nick stewart e disse: “Tenho o contrato.” E fomos todos para o banheiro das mulheres assinar os nossos nomes.

Paul: Precisávamos ir para um lugar onde pudéssemos ver o que estávamos fazendo e o banheiro das mulheres sempre tinha melhor aspecto do que o dos homens.

Adam: Acho que assinar um contrato de gravação no banheiro das mulheres tem um quê de Rock’n’Roll. Foi bastante ridículo, mas creio que não afetou a qualidade do documento.

Larry: O pessoal do ‘A sense of Ireland’ nos hospedou no Tara Towers Hotel. Era bastante requintado para os nossos padrões e, como tínhamos de ficar por lá durante alguns dias por causa do contrato, ficamos sem dinheiro para pagar a conta do hotel. Foi então que o Bono disse ao Paul para telefonar ao Nick Stewart a pedir algum dinheiro.

Edge: O Nick disse: “Eu falo com o departamento financeiro. Já assinamos o contrato, mas ainda não está tudo resolvido. Vou ver o que posso fazer.” Passadas algumas horas, voltou e disse: “Muito bem, rapazes. Aqui está o saque.” E deixou cair um saco cheio de dinheiro em cima da cama.

Larry: Tinha algumas centenas de libras dentro do saco. Eu pensei: “Isto é fantástico!” A pessoa telefona a uma gravadora, pede-lhe dinheiro e ele vem ao nosso hotel trazer um saco cheio dele. Isto é o mundo da música!

Edge: Era mesmo um saco cheio de dinheiro. Não havia clipes, nem elásticos segurando as notas. Parecia que tinha assaltado uma loja no caminho para o hotel. Mais tarde, viemos a descobrir que ele tinha tirado tudo do fundo das despesas para emergência de todos os departamentos da Island Records, e foi com esse dinheiro que pagamos o hotel e voltamos pra casa.

Adam: Não era o melhor contrato que uma banda podia assinar, mas já era bom. Era o compromisso de alguns singles, um álbum e algum dinheiro.

Paul: A Island Records teve início nos finais de 60 e mantinha ainda algum do seu caráter liberal. Na verdade, tivemos muita sorte em assinar contrato com a Island, pois, embora tivesse poucos recursos e ainda fosse um pouco desorganizada, foi a nossa oportunidade de nos tornarmos bons no que fazíamos. Lá, fomos tratados de forma honrada, mas aquilo que eu considerava respeito era, na realidade, um certo caos. Começou tudo muito bem e, de um momento para o outro, o tipo de coisa que as bandas esperam que a gravadora faça, éramos nós que fazíamos. Quisemos manter a iniciativa e isso significava fazer os nossos próprios planos, sobretudo ao que dizia respeito às turnês. Fomos criando várias amizades ao longo dos anos. Tentamos tratar as pessoas com lealdade e lembrar-nos de que as pessoas que trabalham nas gravadoras, mesmo que se tornem diferentes com o passar dos anos, nos contrataram porque gostaram da nossa música e podemos sempre mencionar isso. Estamos competindo com o tempo deles. Será que vão prestar atenção ao novo disco do Bob Marley ou vão trabalhar no disco do U2 durante as próximas horas? O Chris Blackwell era muito esperto, muito falador, um excelente aliado para o U2. Agarrou-se à inteligência da banda e ao empenho que os integrantes do grupo demonstravam. Ele costuma citar-me uma coisa que, aparentemente, eu lhe disse nesses primeiros tempos: “Nós não estamos no negócio das gravadoras, estamos no negócio do U2, o que é muito diferente.” E ele concordou – tinha percebido a mensagem.

Adam: Pouco tempo depois de termos assinado o contrato, começamos a planejar a gravação de um álbum, de singles e tentar encontrar um produtor. O Nick queria que trabalhássemos com o Martin Hannett, o que foi uma decisão inspirada.

Bono: O Martin Hannett era um gênio. Já tinha trabalhado com o Joy Division, que era a nossa banda preferida naquele tempo. Seria difícil encontrar um grupo tão pesado na música como o Joy Division. O nome da banda, a letra das músicas e o vocalista eram enormes. Mas, mesmo assim, consegui sentir neles a busca de Deus, da luz, da razão… uma razão de ser. Com o Joy Division, e sentia-se isso, sobretudo por parte do vocalista, a beleza era a verdade e a verdade era a beleza e eles buscavam ambas. Para atenuar a miséria do dia-a-dia, construíram, com a música deles, uma espécie de catedral. Olhando para trás, vejo que foi um ponto bastante religioso da música. Estávamos muito longe de chegar à música pop. Naquele momento, o que se passava em todo o lado era política como uma alternativa. Havia uma revolução cultural, estimulada pela polêmica da imprensa musical quase seguidora do maoísmo. O tema era: “A música não é uma questão de vida ou morte. É muito mais séria do que isso.” Não admira que tenham morrido pessoas.

Larry: Nos encontramos com o Martin em Londres, onde ele estava gravando com o Joy Division. Foi um encontro estranho. Havia uma espécie de intensidade criativa no ar. Eles pareciam calmos e desprendidos. Ao contrário de nós, pareciam estar concentrados no trabalho em estúdio. Não havia tagarelices, não viemos embora dizendo: “São muito divertidos, não são?” Eram todos respeitosos e muito bons.

Edge: Eles estavam gravando ‘Love Eill Tear Us Apart’ e nós ficamos assistindo. Sentia-se a atmosfera no estúdio, como se estivesse acontecendo algo incrível. O ambiente era sufocante – era uma vibração muito intensa. Acho que eles andavam ouvindo Wagner. Não foi bem uma sessão de Rock’n’Roll muito comum, longe disso, mas soou muito bem.

Bono: Ali estava Ian Curtis em pessoa, um cara com uma voz possante. Estávamos vendo discos deles e encontramos dois do Frank Sinatra: The Wee Small Hours e Songs For Swinging Lovers. Isto era post-punk, eles estavam ouvindo Wagner. Tinham a coleção de discos mais incrível que eu já tinha visto, e que tinha mais em comum com o Bob Hewson do que com o filho dele. Fiquei boquiaberto.

Edge: Mostramos ao Martin um demo de ’11 O’Clock Tick Tock’. Ele não ficou muito impressionado, mas disse que tinha gostado da música.

Bono: O título da música nasceu de um bilhete que o Gavin Friday tinha colocado na minha porta na Cedarwood Road. Íamos nos encontrar às “11 em ponto” – é o final da noite. A idéia para esta música surgiu quando eu estava sentado no balcão do Electric Ballroom assistindo a uma apresentação dos Cramps, uma banda de rock’n’roll extraordinária. Foi o gótico no seu ponto mais alto, com o palco cheio de velas. O vudu estava na ordem do dia, havia uma atmosfera satânica e eu estava pensando que aquela ia ser a noite da tragédia. Todos tinham um olhar perdido. Era por causa daquela maquiagem sombria, faces brancas, olhos pintados de preto, aquelas ameixas que os meus colegas dos Virgin Prunes punham no rosto. Parecia o fim do mundo. Para um rapaz tão jovem, com 19 anos, vindo dos subúrbios de Dublin, parecia que aquilo não tinha vida nenhuma. Provavelmente, até tinha mais humor do que aquele que eu fui capaz de captar no momento.

Edge: Nós desprezávamos este movimento que, a nossa ver, era só o anular da antiga hegemonia dos aborrecidos grupos de metal dos anos 70, substituída por algo virado para a individualidade e expressividade rude. Era como se a vida nos fosse tirada por este elemento codificado e orientado para a moda que se estava instalando. Para se estar na moda, era preciso nos vestir e agir de uma certa forma e compor determinados tipos de músicas. Assumimos uma postura de orgulho e decidimos que não queríamos ser iguais a todos os outros grupos nem assumir a postura do dia, que era olhares sombrios, poucos movimentos em palco, comportamentos enfadonhos e monte de músicas com letras completamente incompreensíveis, que provavelmente nem sequer significavam nada. Não éramos legais, porque éramos diferentes. Não quisemos ficar parados, quisemos emergir como uma banda viva.

Mais tarde, nesse mesmo ano, me lembro de o Bono ter subido no palco no Lyceum. Estávamos nos apresentando com o Echo and the Bunnymen e três ou quatro grupos no Norte da Inglaterra, que faziam parte dessa nova onda psicodélica e que raramente suavam em palco. Nós interagimos com o público. No meio de ‘Electric Co’, o Bono deu um salto extravagante de uma coluna e as calças dele se rasgaram. Toda a imprensa estava presente, assim como o pessoal das gravadoras e todas as pessoas ligadas à música. E o Bono começou a agir de forma desvairada. Foi algo do gênero: “Eu estou fazendo isto pra vocês! Estou fazendo isto pra vocês!”, arrancando a roupa do corpo com repugnância por ter sequer tentado entrar na moda. E ele completamente se perdeu naquilo. E tornou-se característico nos nossos concertos que, ocasionalmente, o Bono ficasse tão entusiasmado que entrava numa espécie de transe e ninguém sabia o que poderia acontecer. Eram momentos de perigo. Nessa noite, na realidade, as coisas não correram lá muito bem, mas foi, sobretudo devido à frustração e revolta que sentíamos em parte por causa do que estava acontecendo na Inglaterra e foi nesse momento que eles, e nós, percebemos que esta história de amor não ia ter um final feliz. Iria haver sangue nas paredes, provavelmente o nosso e o deles.

Paul: O Martin Hannett veio de Manchester para gravar o primeiro disco nos Windmill Lane studios, em Dublin. Não ficou muito impressionado com as instalações e fez que mandássemos trazer alguns equipamentos especiais de Londres.

Bono: Ele parecia o Dr. Who e sabia muito de tecnologia. Tinha harmonizadores e coisas das quais nunca tínhamos ouvido falar. Sempre nos sentimos atraídos pelos técnicos de som e, antes do Brian Eno, havia o Martin. Ele acrescentou uma seqüência harmônica de guitarra em ‘11 O’Clock Tick Tock’ e a música ficou com um som totalmente diferente. Foi o que ele certamente aprendeu com o Joy Division, saber pegá-los nos subúrbios e fazê-los sentirem-se o canto mais extremo da Via Láctea.

Adam: O Martin parecia um enorme gnomo de jardim. Era uma pessoa muito descontraída, mas, depois de conhecê-lo melhor, percebi que afinal ele estava era sempre de ressaca – havia ali uma boa dose de erva fumada.

Edge: Nunca tínhamos estado num estúdio com um produtor adequado, por isso, estávamos um pouco nervosos e isso afetou o desempenho de todos. Foi bastante complicado fazer as linhas de guia. Não chegávamos a acordo em relação ao tempo da música. Começávamos com um tempo e após 16 compassos já estávamos três ou quatro BPM’s (batidas por minuto) acima. E continuávamos sempre avançando cada vez mais rápido ao longo da música.

Adam: Acredito que ele não achou que o nosso ritmo era grande coisa. Estava mesmo sendo muito complicado fazer a faixa da música e ficamos naquilo durante horas. Até que ele disse ao Edge: “O que é que vamos fazer? Já são três da manhã e ainda não conseguimos acertar com a seção de ritmo!”

Larry: Ele me perguntou se eu não usava metrônomo, que é uma referência de tempo metronômica. E eu disse que nunca tinha usado um e que achava que não ia conseguir tocar dentro do ritmo se usasse aquilo. Eu estava tentando me sentir a vontade em um ambiente novo e tentava fazer as coisas como achava melhor. O Martin já devia estar perdendo a paciência comigo. A faixa não estava perfeitamente dentro do ritmo, mas servia. Ele ouviu a faixa vez após vez sem conta. No final da primeira sessão, eu já não suportava ouvir aquela música. Acho que ele devia estar fortemente medicado, pois, à medida que a sessão decorria, ele se tornava cada vez mais incoerente. Mas, apesar da sua condição, fez um bom trabalho.

Paul: O Martin era de lua. Lembro de uma vez ele ter saído do banheiro do meu apartamento na Waterloo Road com um frasco de xarope para tosse e me dizer: “Essa cena é legal na Irlanda?” e bebeu tudo numa golada.

Edge: Assim que terminamos a faixa foi um alivio. Foi tão duro, que acho que o Martin estava preparado para gravar a parte vocal e fazer a mixagem. Mas eu achei que podíamos fazer mais e disse: “Que tal fazer um overdubs? (gravação adicionada a algo já gravado)” Ele olhou para mim como se eu fosse de outro planeta e disse: “De que?” Eu respondi: “Pode ser de outra guitarra?” E ele disse: “Força com isso.” – se bem me lembro, sem muita convicção. Quando entrei na sala de gravação, não fazia idéia o que eu ia fazer. O engenheiro de som colocou a fita cassete e eu comecei a tocar. Comecei em uma parte melodiosa e fui até o refrão. De repente, o Martin ficou todo entusiasmado e disse: “Caramba! Vai ser um sucesso! Adorei!” Sei que ele já era produtor há muito tempo, mas acho que foi a primeira vez que fez overdubs de guitarra. A mixagem ainda demorou algum tempo, pois ele tinha seu próprio tambor de som, um processador de efeitos chamado “modulador de tempo”. Lembro que no final ele teve cuidado em desligar tudo, para que o nosso engenheiro de som não visse o que ele tinha feito.

Bono: No final, o disco parecia ter mais a ver com ele do que com a gente, mas acho que é excelente e melhor por causa disso.

Paul: A ’11 O’Clock Tick Tock’ chamou atenção, mas não foi nem de perto um sucesso. No entanto já era hábito sermos pessimistas. Assim, se alguma coisa não desse certo, não íamos nos sentir derrotados. Compramos uma van. Tinha uma divisória na parte de trás, que era muito espaçosa, e mandei colocar um banco. Não era muito confortável, mas, pelo menos, era uma van. Dava para transportar muitos equipamentos lá atrás e para levar os quatro membros da banda e mais uma ou duas pessoas na frente. Provavelmente, o lugar mais confortável era o chão. Percorremos a Inglaterra e Irlanda nessa van e tivemos momentos bastante atribulados durante uma das viagens. Era de noite e o motorista, que já não lembro quem era, devia estar muito cansado.

Bono: Tínhamos finalmente uma van! Vivíamos nela. Lembro muito bem dela. Tinha um estofado castanho, que eu passava várias horas olhando. Em vez de ficarmos em Manchester, Birmingham ou Liverpool depois dos shows, fazíamos a viagem de volta e guardávamos o dinheiro que iria ser gasto com hotéis para ir, uma vez por semana, comer em um bom restaurante. Tudo isso foi induzido pelo Paul McGuinness. Podíamos ter um pouco de dinheiro, mas ele preferia dormir na van para depois poder desfrutar de uma boa garrafa de vinho. Acabamos entendendo mais de vinhos do que de guitarras. Mas ali estava eu, num espaço confinado com aqueles homens, era como estar em minha casa em Cedarwood Road! Mas dessa vez eu tinha que fazer essa família dar certo. Sentados na van, ficamos conhecendo a vida uns dos outros. Eram horas e dias ouvindo músicas e dormindo no chão, sim porque eu conseguia dormir em qualquer lugar. Consigo dormir de pé, na rua, no frio… Eu dormia no chão mesmo por cima do lugar do eixo. Conseguia sentir o eixo rodando e sentia o calor do motor. Era um sono atribulado, pois a pessoa fica meio acordada, meio dormindo, durante toda a viagem desde Manchester até em casa. A cabeça ficava cheia de músicas e a voz rouca de tanto cantar. Entretanto acordávamos em Londres.

Edge: Em vez de ficarmos em um hotel, que seria extremamente caro, o Paul arrumou uma casa para alugarmos, que, mesmo ao estilo McGuinness, não era nenhum lugar reles em Clapham, mas era mesmo em frente ao Hyde Park, junto da casa do Jeremy Thorpe, antigo líder do partido liberal. Acho que só tinha três quartos e nós ficamos todos abarrotados no mesmo. Parecia ser característico na gestão do McGuinness que não tivéssemos dinheiro, mas sempre encontrávamos bons restaurantes para comer. Era adepto dos pensamentos de Oscar Wilde: posso passar sem coisas indispensáveis, mas não interfiram nos meus luxos.

Paul: De certa forma isso é verdade, pois durante algum tempo, decidimos que não gastaríamos muito dinheiro em hotéis, preferíamos ir a bons restaurantes. O nosso agente Ian Flooks era uma espécie de bom viveur e seguramente encorajou essa prática. O nosso primeiro agente, Ian Wilson nos deixou para dirigir outra banda e eu comecei a trabalhar de perto com o patrão dele, o Ian Flooks. Ele tinha uma agência excelente chamada Wasted Talent e trabalhava com o Police, Pretenders, Clash, Talking Heads e todas as grandes bandas do momento. O Ian era muito inteligente e acho que conseguiu prever o sucesso do U2. Começamos então a ter um contato mais próximo. Planejamos turnês em todos os detalhes, discutíamos como seriam os shows, os espaços, para quantas pessoas íamos apresentar. Tínhamos uma política de shows bastante conservadora. Queríamos ter a casa cheia, por isso, apresentávamos em lugares que fossem pequenos para a banda e não agendaríamos um segundo dia se achássemos que iria ter metade da audiência. Foi algo que fizemos sistematicamente ao longo dos anos. Queria sair de cada show sabendo que muita gente não tinha conseguido assistir, pois estava esgotado.

Larry: Começamos lentamente a conquistar o nosso público e nos apresentamos em diversas escolas técnicas e universidades pelo Reino Unido. O dinheiro estava sempre curto, mas ainda conseguimos juntar algum para comprar um bom PA e uma mesa de som. Assim ficava tudo mais simples nas apresentações, mas não garantia que a banda estivesse em forma todas as noites. Percorremos o Reino Unido de uma ponta a outra, ocasionalmente fazendo paradas em estações de serviço para comer alguma coisa e satisfazer a nossa crescente paixão pelo Space Invaders. Passamos as noites em hotéis que iam desde o mais sublime até ao mais barato. A gota d’água foi quando dormi em uns lençóis de nylon cheios de buracos. Estava na hora de comprar um saco de dormir. Se este era o encantador estilo de vida do Rock’n’roll que me haviam prometido, então quero o meu dinheiro de volta. Às vezes, chegávamos ao palco completamente quebrados. Para mim o fato de andar sempre em viagens de um lado para o outro e a convivência o dia todo era a pior parte. Eu gostava das apresentações, mas tinha muito tempo livre. Naquela época, eu não ligava muito para bebida. Vendo agora as coisas, bem que me faz falta. Mas o Adam sim, esse se divertia muito. Só fazia loucuras, como fugir pela janela do hotel no meio da noite pendurado numa corda de lençóis. Ele adorava fazer isso.

Adam: A diversão é algo muito relativo. Se terminávamos um show às 23hrs, ainda tinha tempo para ir a qualquer lugar. Sim, confesso que na maioria das vezes, ia para bares e clubes, achava muito divertido. É o que as pessoas daquela idade fazem – além disso, naqueles dias o hotel não era grande coisa para querermos voltar logo para lá. Lembro que era uma época de muita competitividade – “Quem esta fazendo o que? Onde? E são bons?”. A nossa finalidade era definir a posição que ocuparíamos e fazer de tudo para melhorar. Não era assumir uma postura de laissez faire e ficar esperando para ver o que acontece no dia seguinte. O objetivo era: “Temos que ir naquele programa de televisão. Temos que conseguir a capa daquela revista. Temos que continuar avançando, sempre com a mesma energia.”

Paul: O Martin Hannet teria produzido o álbum do U2, mas estava fazendo a mixagem dos sons ao vivo para Joy Division na América. Então o Ian Curtis se suicidou e a turnê nunca chegou a se realizar.

Edge: O Martin cancelou tudo no último minuto. Estava completamente cansado e, naquele momento, não estava com muita vontade de fazer a gravação do U2. O nome Steve Lillywhite veio à cabeça. Tinha produzido do Siouxie and The Banshees, o XTC e outros grupos excelentes que admirávamos. Tivemos a oportunidade de testar a nossa relação com o Steve no nosso segundo single, que foi ‘A Day Without Me’.

Adam: O Martin era muito descontraído e era uma pessoa da noite. O Steve era muito mais inteligente, prudente, e fazia com que as coisas avançassem. Ele nos dava força, fazia nos sentirmos bem com a gente mesmo. Quando fazia a mixagem de um disco era sempre da melhor forma tirando o melhor partido do que estava lá. O Martin tentava abafar ao máximo o som da banda, enquanto o Steve quase que arrebentava com as colunas. ‘A Day Without Me’ não foi um sucesso, mas exibiu o uso do eco, dando ao Bono mais garra para cantar.

Bono: O Steve foi uma rajada de ar fresco. Era quase como um apresentador de televisão para crianças: “Vamos lá, peguem uma caixa de cereais e uma garrafa de suco vazia e cortem a tampa. Se as colarem fica como um telefone!” Ele era esse lado da Inglaterra, positivo e prático: “Muito bem, vamos arrumar uma forma de conseguir. Larry, Adam, vocês não estão no tempo certo. Ok! Vamos lá, tenho algumas idéias!” E, claro, o Larry ficava ali sentado com ar carrancudo enquanto ele tentava ajudá-lo. Mas o Adam foi diferente. O Adam é nosso espelho. Se ele se engana, nos enganamos todos. Se não se enganar, tudo vai bem. É assim fazer parte do U2 – é ele que regula a marcha. E se tornou um bom amigo do Steve.

*Páginas 90, 94 e 95 – Fotos
Nota: Estamos entrando na Boy Era.