1982/1983 - Sing a New Song | U2 Brasil

 

1982/1983 – Sing a New Song

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Páginas 137 a 145

Bono: Um lindo baixo, e outra idéia poderosa. Naquele momento eu não estava ciente que as passagens dos salmos eram o real blues e que nós estávamos nos conectando com boas idéias muito profundas. Mas o canto de How long, how long must we sing this song? foi cantado por multidões por todo o mundo, alcançando um tipo de ápice no Live Aid. Durante todo o dia, depois do Queen ou do David Bowie terem tocado, você podia ouvir a multidão cantando “how long, how long”. Eu tenho certeza que algumas pessoas pensam: “Quanto tempo até eles acabarem essa maldita música?” Mas isso simplesmente se tornou um tema de exasperação do mundo. “How long must we sing this song?”

Larry: Nós sabíamos que tinha alguma coisa especial lá. Nós sentimos que tínhamos acabado as músicas e feito o máximo possível que podíamos fazer com o albúm. Havia uma sensação de que tínhamos alcançado tudo que tínhamos previsto.

Bono: Eu comprei um carro enquanto estávamos gravando War. Meu primeiro carro, um Fiat Uno 127 usado. Esse foi um grande passo na minha vida – eu não precisava mais de ônibus! Uma noite eu estava dirigindo na rodovia Cedarwood, estava chovendo. Eu estava indo para uma festa, tinha uma garrafa de vinho no banco de trás, e estava usando um casaco de pele falso e botas de cowboy com salto cubano. Eu virei a esquina e lembrei que não estava usando o cinto de segurança e resolvi começar a prendê-lo. Foi uma péssima idéia. Quando levantei os olhos, estava indo em direção a um poste telefônico e tentava frear, mas meus sapatos estavam molhados e meus pés escorregavam e eu acertei o acelerador em vez do freio. Cheguei à conclusão, naquele momento, que saltos altos não são ideais para dirigir. Bati de encontro ao poste, exatamente quando consegui colocar o cinto. Obviamente houve um enorme estrondo, porque eu o derrubei.

O poste jazia na rua, e era tanto um poste de eletricidade quanto telefônico, então todos os telefones foram cortados. Saí do carro. Não estava machucado, nem mesmo tonto. Foi estranho. Mas eu tinha sido atingido pela garrafa de vinho, que se chocou contra a parte de trás da minha cabeça, e o vinho escorria pelo meu casaco. Então, todos os prezados cavalheiros que tinham estado ao telefone e ouviram a batida apareceram às suas portas e começaram a se aglomerar em volta do carro com o popstar no casaco de pele, exalando cheiro do vinho – uma história muito simples do ponto de vista deles. Percebi que deveria ir a uma delegacia. Então fui à casa do meu amigo Reggie Manuel e pedi a ele que me levasse à delegacia. Quando Reg me levou de volta, algo medonho estava se desenrolando; havia uma multidão em volta agora, polícia, ambulâncias, e estavam erguendo o poste. E lá estava um casal, Sr. e Sra. Corless. Oh Deus! Não me lembrava de tê-los visto lá.Talvez eu estivesse sofrendo de um abalo emocional.

Acontece que eles não estavam lá quando eu acertei o poste. Na verdade, dez minutos após o acidente, eles tinham estado em volta do carro, conversando sobre o que aconteceu, com o poste caído e todos os fios espalhados pela rua. Um outro veículo passou, um cara dirigindo muito devagar, olhando a cena, e suas rodas ficaram presas nos cabos. Ele terminou por ressuscitar o poste e jogá-lo sobre os pobres e velhos Sr. e Sra. Corless. Você ficará feliz em saber que eles sobreviveram.

Adam: Fizemos um vídeo para ‘New Year’s Day’. Precisávamos de neve, então o diretor sugeriu o norte da Suécia. Era básico, nós nos apresentando na neve, um pouco encobertos, de modo que você não podia nos ver muito bem. Acho que Bono pensava que para estar em um vídeo, você tinha que parecer-se com você mesmo, então ele não estava usando nem mesmo roupas térmicas, apenas as mesmas roupas que ele vestia quando desceu do avião vindo de Dublin.

Edge: A boca do Bono quase congelou. Mas o vídeo tem uma qualidade épica, havia algo sobre aquela música que parecia conjurar imagens do Dr. Zhivago. As pessoas sempre me perguntam: ‘Foi difícil cavalgar, na filmagem do vídeo?’ E eu tenho que contar a elas que aquilo foi feito no dia depois que partimos. Aparentemente as quatro formas eram todas mulheres, vestidas de forma semelhante a nós.

Paul: ‘New Year’s Day’ foi um hit que esteve no ‘Top 10’ no Reino Unido em janeiro de 1983. Então em março, War ficou conhecido e tornou-se rapidamente o número 1 nos gráficos ingleses. E nós estávamos nas nuvens.

Bono: Não há nada melhor do que estar no lugar de número um, não há nada mesmo. É apenas melhor que o número dois. Estávamos no Hotel Portobello em Londres. Eu amava aquele lugar. Foi depois de um dos nossos shows de Londres; as pessoas bebiam vinho, a voz do Paul McGuinness retumbava no meio da algazarra, ele estava ligando para a América. E estava anunciando às estações de rádio que tinham adicionado ‘New Year’s Day’ às suas playlists que nós tínhamos um hit nos Estados Unidos! Tínhamos o 1° lugar na Inglaterra. Tudo de terrível que tinha acontecido antes não era mais terrível, naquele momento.

Edge: Quando começamos a conversar sobre o que faríamos para a turnê War, sentimos que tínhamos que tentar fazer um pouco melhor do que as turnês anteriores, que tinham sido privadas de qualquer coisa perto do que podemos chamar de design ou coerência visual. Então encontramos um designer de palcos e esboçamos algumas de nossas idéias. Ele voltou com um simples, porém muito distinto projeto dando destaque a três bandeiras brancas.

Adam: Eu não conseguia entender muito bem o conceito da bandeira branca – pacifismo militante. Talvez dissesse mais sobre nós do que pensávamos: somos os ‘fazedores do bem’ do mundo da música, e acreditamos tanto no que estamos fazendo que ficaremos de pé em frente a uma bandeira branca. Eu apenas gostava da bandeira como uma peça do teatro e do fato que ela se agitaria ao vento.

Edge: Eu tenho que assumir algumas responsabilidades pelas bandeiras. Estávamos nos apresentando em alguns festivais europeus na turnê October como artistas juniors, e Bono praticava essa coisa freqüente de se jogar no meio da multidão e tudo o mais que apavorava Paul McGuinness. Em certa ocasião ele se apossou da bandeira e começou a acenar. Mais tarde eu disse a ele ‘Aquilo foi realmente interessante. É como algo visualmente forte’. A bandeira branca parecia um belo símbolo com uma conexão com o álbum, ‘Surrender’ sendo uma das músicas, e elas se tornaram uma grande característica da turnê.

Bono: O set tinha bandeiras e o vídeo tinha bandeiras. Eram valores baratos de produção, mas com um certo efeito. Não podíamos pagar muito, então estávamos sempre procurando descrever-nos de jeitos um pouco diferentes, e as bandeiras eram um bom gancho visual.

Edge: Tocamos em Belfast não muito tempo depois de termos terminado o álbum, e estávamos um pouco tensos sobre cantar ‘Sunday Bloody Sunday’ lá. Bono, sem dizer uma palavra previamente, disse ‘Cantaremos uma música para vocês agora. Se não gostarem, nunca mais a tocaremos de novo. Chama-se ‘Sunday Bloody Sunday’. E nós realmente não sabíamos o que ia acontecer.

Adam: Acho que foi assim que ele se sentiu. Ele era o cantor, ele estava à frente.

Edge: A platéia foi à loucura; houve uma reação totalmente positiva. Aquele foi um momento importante. Quando tocamos aquelas músicas ao vivo, houve um tipo de reação tangível, física, de cada um ali presente, inclusive minha. Era como: ‘Oh merda!’ percebendo que tínhamos algo muito denso em nossas mãos. Precisei de alguns instantes para me recuperar disso. Tivemos alguns shows realmente poderosos na turnê. Bono estava realmente presente a maioria do tempo, jogando-se no meio da platéia.

Larry: O pensamento do Bono era: ‘A menos que eu vá atrás, não posso esperar que o público se desperte. Se tiver que ir lá e levá-los à submissão, eu irei. Vou deixar essa multidão de joelhos e vou fazê-los me responderem, e farei o que quer que eu tenha que fazer’. De algum modo, eu teria preferido tê-lo no palco, indo fundo nas músicas, tentando deixar a música falar por si só. A verdade é que a banda não era boa o suficiente para isso, precisávamos do Bono para fazer isso.

Adam: Ninguém pediu a ele que passeasse de um jeito legal, mas quando ele o fazia, podia-se sentir o efeito disso. Era muito poderoso. Mas ele não era o melhor competidor do mundo em escalar andaimes. Seu senso de direção e equilíbrio não era o de um atleta.

Bono: O divertido é que tenho medo de altura, mas quando a música está tocando não tenho mais, e fiz coisas realmente estúpidas. ‘Electric Co’ era o grande número em que improvisávamos, eu cantava pedaços de músicas de outras pessoas e desaparecia em algum lugar. Era uma maneira de chamar a atenção do fundo da multidão, que estaria provavelmente apenas bebendo cerveja, comendo cachorro-quente, conversando com suas namoradas, tentando ver algumas formigas no palco. ‘Olhe, ele escalou o palco, e agora está correndo pelo teto. Olhe!’.

Adam: Havia esse suspense: ‘Ele sumiu; vai fazer aquilo?’ Nós não queríamos que nada acontecesse com ele. Não queríamos que caísse, se machucasse ou ficasse paralisado. Não precisávamos que ele corresse esse risco pela banda, mas não havia conversa com ele.

Bono: Eu amava aqueles ônibus azuis. Amava sair do show e passar a noite no ônibus, movendo-me rapidamente pelas estradas da América, parando no meio da noite para um café, a proximidade com nossa tripulação.

Edge: A cultura da Rota 66 é viva e, bem, tivemos bons tempos. Entrando em territórios secos, sem álcool – ‘Uau, ainda há partes da América em que há Proibição!’. Há coisas que sabemos; por exemplo, você entra em outro país e em cada curva da estrada há um anúncio de fogos de artifício. Em muitos lugares, fogos são ilegais, então existem esses locais onde são vendidos. Quando você começa a excursionar, descobre quão diversificado é o país dos Estados Unidos. A idéia de que é uma cultura homogênea é muito imprecisa. São centenas de culturas. O tipo de homogeneização da América que os europeus sempre desdenham é, de um modo estranho, na verdade um tipo de celebração do oposto. É o triunfo de encontrar um mesmo povo entre tantas diversas entidades étnicas, religiosas e geográficas, que forma essa coisa chamada Estados Unidos da América. É mais diverso até do que a Europa, eu acho, porque engloba da Flórida tropical aos desertos do oeste e as áreas geladas do norte. Uma das coisas boas de que Paul McGuinness fazia uma boa idéia era que para penetrar a América você precisava, mais do que qualquer coisa, apenas estar lá e ir a esses lugares. E nós o fizemos. Fomos a partes da América que nunca tinham visto bandas européias. Nós começamos da base. A primeira vez que tocamos no Texas, abrimos para um concurso em Houston. Foi um grande aprendizado. Aprendemos mais sobre tocar ao vivo, e descobrimos que a América é um lugar com muitas visões diferentes do mundo.

Paul: Nos tempos antes do telefone celular, a vida de ônibus era completamente diferente. Horas e horas passavam-se em mais ou menos um silêncio total. Não havia conversas intermináveis com os amigos e amados, negociações progressivas; os negócios deveriam esperar até que fizéssemos uma parada e, enquanto o ônibus estava sendo reabastecido, faríamos as duas ou três ligações telefônicas que tivéssemos que fazer e então voltaríamos ao ônibus. Ligações telefônicas eram preciosas.

Bono: Estávamos no ônibus certa noite, acho que era aniversário de alguém, talvez do Adam, e todos tínhamos caído no sono, exceto Adam, porque ele tinha comido o bolo e qualquer coisa. No meio da noite, fui acordado pelos gritos do motorista do ônibus. Adam estava parado lá, nu, tentando sair do ônibus a 70 mph. Ele queria apenas urinar, sem perceber onde estava.

Larry: Eu acho que essas histórias das festas do Adam são um pouco exageradas. A verdade é que qualquer indulgência naquela época poderia parecer exagerada comparada com o resto de nós. Em uma escala de um a dez, o que ele era capaz de fazer estava fora de escala. Se havia um problema, era que o Adam não tinha nenhum parceiro de farra na banda, então as pessoas com quem ele acabava saindo eram desertores, guerreiros de rua que estavam por aí pelas esquinas. Mas o Adam não tinha mais ninguém. Eu quero dizer que a banda não estava sempre bebendo. Você pode imaginar? Você está numa loja de doces e esses caras não deixam você nem cheirar as balas. Dias estranhos aqueles.

Bono: Estávamos numa órbita muito diferente. Drogas, sexo, havia uma sensação ocasionalmente de que eles estavam lá, mas não eram partes do nosso mundo. Nós conhecemos, de verdade, as melhores pessoas. E o pior que podia ser dito sobre elas era que vestiam blusas de seda com números de estações de rádio nas costas.

Edge: Àquela altura, comecei a pensar sobre toda a coisa de rockstar, e havia uma parte de mim que pensava ‘Não, não acho que vou entrar nessa’. Não confiava naquele jeito de ver a mim mesmo ou ao mundo, a adoração da celebridade ou como queria chamar isso. Eu amava o que eu fazia, mas não gostava daquela etiqueta particular de ser um astro. Estava feliz em apenas escrever e tocar músicas, e pensar mais no trabalho do que em outras coisas.

Larry: Para mim, o sucesso era não ter mais que carregar ou ajeitar a minha bateria.

Paul: Queríamos ser fortes em todo lugar, não apenas em uns poucos. Não tínhamos receio de tocar para grandes multidões se pudéssemos consegui-las. Era apenas uma questão de chegar lá o mais rápido possível. Red Rocks em Denver,Colorado seria o nosso maior concerto.

Adam: Denver está no meio do país. Uma vez que você está lá, se o rádio está ao seu lado, a platéia pode ser bem entusiasmada. Tivemos uma apresentação realmente boa lá na turnê Boy, em 1981, e um organizador chamado Chuck Morris disse que nos levaria a esse lugar chamado Red Rocks, situado nas montanhas. Era um bom anfiteatro natural. A partir do momento em que o conhecemos, pensávamos ‘Algum dia tocaremos aqui.’ Era muito fotogênico. Então agora que iríamos finalmente tocar em Red Rocks, em 1983, decidimos aplicar todo o dinheiro que tínhamos em uma gravação, não que houvesse muito dinheiro.

Paul: Trouxemos um time de produção britânico liderado por Malcolm Gerrie, que produzia The Tube, um show musical feito em Newcastle que havia dado incentivo para o U2. Era crucial ter um diretor real de rock and roll e um cameraman porque essas espécies não existiam na América. Se você quisesse um vídeo ao vivo, conseguiria um cara que filmava futebol, e o filme se pareceria com isso.

Larry: Somente na América você poderia encontrar um lugar lindo desses no topo de uma montanha onde a gente pode fazer um show de rock. Tinha muito dinheiro envolvido nisso, todo o dinheiro que tínhamos ganhado na turnê, basicamente tudo que estava no banco. Nós achamos que estávamos bem organizados, equipes de filmagem pronta por todo lugar. Nós tínhamos trazido de Hollywood equipamentos de iluminação extra, holofotes, todo tipo de coisa. Então, no dia, começou a chover.

Adam: Red Rocks está a uma milha de altura, então é freqüente estar no meio de uma nuvem de chuva, o que nenhum de nós tinha levado em conta. Mas o tempo podia mudar lá, e esse era um dos períodos em que apenas chovia e chovia. Gastamos o dinheiro, tínhamos a turma da filmagem lá, e todas as luzes e câmeras e equipamentos. As pessoas de nossa produção diziam que haveria muita chuva para a aparelhagem de luz ao vivo. Nosso produtor iria à rádio anunciar ‘O concerto está cancelado, agendaremos para outra data’, mas aquilo não era na verdade uma opção. Não tínhamos o dinheiro para mudar a data. Então concedemos as entrevistas às rádios, dizendo ‘Sabemos que está chovendo agora, mas temos certeza que não estará quando o show começar, então venham, por favor’.

Larry: Aqueles eram momentos de rachar os nervos, de roer as unhas; a maioria da equipe tava sugerindo que a gente cancelasse o show, mas no verdadeiro estilo U2, nós continuamos sem nos preocupar.

Edge: A nossa única concessão era que faríamos uma segunda apresentação em um lugar fechado, no Boulder, para qualquer um que não quisesse enfrentar todos esses problemas, mas nós iríamos continuar com o show independente do que acontecesse. O nosso promotor, Barry Frey, não podia acreditar no que tava acontecendo. Eu acho que ele nunca tinha ouvido falar em nada tão louco assim na vida dele, dar continuidade com um show em um lugar aberto com o tempo horrível daquele jeito, chuva e vento nas montanhas. Ele achou que nós tínhamos perdido a cabeça completamente. Mas, com a maior sorte, a chuva parou duas horas antes de entrarmos no palco, e ao invés daquele aguaceiro tinha um tipo de garoa, névoa, alguma coisa confusa no ar. Era como gelo seco de Deus. A atmosfera tava incrível.

Larry: No final, a chuva realmente ajudou a gente. Fez tudo parecer extraordinário.

Bono: Tava um frio congelante. Tinha fumaça saindo das nossas bocas. O Edge estava achando difícil tocar guitarra porque suas mãos estavam duras do frio.

Edge: Você pode perceber se assistir ao vídeo do Red Rocks, existem poucas cenas da platéia. A razão para isso é que o lugar tava só um terço cheio. Mas aqueles que estavam lá eram verdadeiros fãs e estavam tão aliviados por nós estarmos tocando, e nós estávamos tão gratos por poder tocar, e tudo isso ajudou a fazer um show realmente maravilhoso.

Bono: Após o Red Rocks, a banda foi super divulgada, porque todo mundo viu a gente tocando nesses grandes concertos na América. Na realidade tinha apenas umas duzentas e cinquenta pessoas lá. Estava uma chuva torrencial, tinha uma enorme nuvem sobre as montanhas, as pessoas não tinham certeza se o show tinha sido cancelado e então não apareceram, o lugar estava com menos da metade da capacidade. Mas do jeito que foi filmado, pareceu como se tivesse um público enorme. Onde nós estaríamos sem uma lente com uma grande angular? No final das apresentações da turnê do War, quando a banda saia do palco, acontecia esse fenômeno das pessoas cantarem o refrão de ´Forty´: How long to sing this song? How long to sing this song? Isso era muito comovente e marcou o final de todos os melhores shows dessa turnê. Mas ninguém estava cantando naquela noite. Eles estavam todos com muito frio e não havia pessoas suficientes. Nós estávamos nos bastidores e ficamos um pouco desapontados. Tínhamos conseguido fazer esse show quando ninguém achava que conseguiríamos, teria sido bem legal ouvir a multidão cantando. E no momento que estávamos tendo essa discussão, me lembro de ter escutado uma voz aguda, baixinho começando a cantar: ´How long to sing this song?´ Eu pensei: ´O que é isso?´ ´How long…´

Dennis Sheehan, o nosso diretor de turnê, tinha pegado o microfone e estava escondido atrás da barreira, tentando fazer a multidão cantar, sem ter sido pedido para ele fazer isso. E lentamente eles começaram a cantar. Foi um momento muito divertido. A edição fez isso parecer um pouco menos organizado. Eu acho que é isso que eu realmente amo no rock´n´roll, a espontaneidade e o espírito disso, mas eu também amo a estratégia, a ilusão, a fumaça e os espelhos, o aspecto xamanístico. É uma grande sacola com todos os tipos de motivações, e no final você acaba com mágica. Contando essa história, pode parecer despojo pra outras pessoas, mas se não fosse no disco do Under a Blood Red Sky ninguém teria ficado sabendo, porque esse era o disco dessa turnê, e a multidão cantando era o seu ponto alto. Filmar o Red Rocks custou pra gente trinta mil dólares. Esse era todo o dinheiro que nós iríamos ganhar. Era a primeira turnê que iríamos conseguir algum dinheiro, e foi nisso que nós colocamos a grana, então havia muitas apostas naquela noite.

Adam: Aquilo foi um divisor de águas. Nós agora podemos dizer: ‘Certo, nós chegamos em um ponto onde nós somos competidores. Nós estamos no portão de entrada’.

Edge: O show no Los Angeles Sports Arena podia ter sido o maior show que já tínhamos feito até aquele momento, e ele ficou um pouco fora do controle. Eu acho que um dos problemas que tivemos, foi ter que lidar repentinamente com a idéia de sermos uma grande banda e tocarmos em lugares maiores. E eu acho que, como intérprete, Bono tinha um leve senso pouco realista, no qual de alguma forma assegurava a todos que, apesar de estarmos tocando em lugares maiores, nada havia mudado. Uma das maneiras nas quais ele conseguia isso era se jogar no meio da platéia ainda mais, marcando referência acerca do contato físico com as pessoas na pista, tentando quebrar a barreira entre o palco e o auditório. Naquela noite, tal ato consistiu em escalar parte da PA e subir a sacada que ficava em volta de todo o auditório. Então ele subiu ali, ainda cantando, e chegou até o topo, e percebeu que não havia mais aonde ir. Ele fez essa completa jornada dramática e não havia fim para essa pequena viagem no meio da audiência. Bono pode ser impulsivo no melhor momento, ele nunca consegue ser mais imprevisível do que quando ele está se apresentando em um show; e todo e qualquer bom senso sai pela porta, e ele é capaz de coisas realmente malucas. A única coisa que ele pôde fazer naquele momento foi pular da sacada e esperar que as pessoas embaixo pudessem segurá-lo. E foi uma longa queda, praticamente de um andar de altura – não estamos falando de um “mergulho” do palco até a platéia. Foi mais ou menos 6 metros de altura entre ele e a sacada. Eu não podia acreditar naquilo. Ele simplesmente pulou.

Bono: Havia fotos da minha descida de 6 metros de altura no Los Angeles Times. Robert Hilburn escreveu uma crítica na qual disse ter sido a coisa mais empolgante que ele já tinha visto – e a mais estúpida.

Edge: Tal e qual, ele foi segurado pelas pessoas lá embaixo. Aquela fora uma visão completamente impressionante. Um momento memorável, eu tenho certeza, em ver um cantor fazendo algo obviamente perigoso, mas envolvendo tanta confiança. O único problema é que havia outras duas ou três pessoas atrás dele que decidiram fazer a mesma coisa, e eu não tenho certeza se a descida deles foi tão boa quanto à do Bono. Felizmente, eu acho que ninguém ficou seriamente machucado. Mas isso pareceu enfatizar algo que eu creio que sempre foi verdadeiro, que é o fato de que Bono fará qualquer coisa para fazer o evento vir à tona. Tal instinto interpretativo é tão forte nele, que até o faria parar do nada. A ligação física com nossa platéia é em grande parte o que faz de nossos shows especiais. Isso é pessoal, não é simplesmente nós aparecermos e tocarmos para qualquer um que aparecesse. Há um profundo entendimento entre a banda e os fãs do U2, e estar no meio de nossas platéias sempre têm sido algo grandioso para o Bono. Nós éramos assim, mas de repente achamos que é preciso ter certo nível de senso sobre isso, certo instinto de auto-preservação, o que às vezes ele parecia não ter. O que eu quero dizer é que ele não é uma pessoa naturalmente atlética, mas devo dizer que, quando ele se apresenta você não dá crédito para as besteiras que ele faz. Claro que ficamos apavorados pelo Bono se matar em uma queda estúpida, mas a idéia de que mais alguém pudesse se machucar tornou-se imprescindível na cabeça das pessoas. Enquanto nosso público estava preocupado, ele estava fora de controle. Então houve ali uma franca troca de olhares, como se diz.

Bono: Momentos como esse, eram sempre relatados à polícia e a banda, bem como a assessoria, se sentavam e sugeriam que aquele não era o caminho a ser seguido. Mas eu sou muito “físico” e nada passivo, e nem me sentiria confortável ficando atrás do microfone em meu lugar apropriado. Eu estava interessado em um tipo diferente de cabaré, então eu iria me fingir de culpado – ‘Não faça mais isso – Sura Honra’

Paul: Ele prometeu que não o faria mais. Mas temo eu que ele não desistiu disso completamente.

Edge: Nós tivemos um mês de recesso em julho de 83, e assim Aislinn e eu decidimos aproveitar a oportunidade a fim de marcarmos nosso casamento. Nós não tínhamos dinheiro, então o pai de Aislinn custeou a recepção. Nós seguimos a tradição e optamos pela igreja da noiva, a Igreja Católica de Blackrock. Tal escolha envolveu uma série de sessões com nosso padre, pois eu era protestante, para que estivéssemos cientes acerca dos fundamentos: todos os filhos seriam criados mediante à fé católica, e se Aislinn começasse a gastar mais do que o necessário em mantimentos, eu não poderia ficar bravo com ela. No entanto, equipados para a vida juntos, nós nos casamos devidamente em 12 de Julho. Viajamos em lua-de-mel para o Sri Lanka. Foi maravilhoso no começo, mas daí a Guerra Civil estourou. Nós passamos alguns dias nervosos tentando voltar para o hotel em uma longa viagem na estrada, forçados a dirigir por estradas desertas após o toque de recolher do meio-dia, só para descobrir que a mesma havia sido evacuada de visitantes estrangeiros. Tivemos que esperar alguns dias para conseguir um vôo de volta pra casa. Tudo isso infelizmente foi uma previsão do rumo que o casamento iria tomar.

No meu aniversário de 22 anos, em Agosto, nós tocamos no Phoenix Park Race Course em Dublin, vinte mil pessoas, com a participação de Simple Minds e Eurythmics, um projeto maravilhoso. Aquele foi realmente um show de “retorno de heróis”, voltando para casa após ter conquistado o mundo. Nós nunca havíamos tocado em nenhum lugar maior do que aquele. Aquela fora simplesmente uma daquelas noites fantásticas, tocando para o público de casa e você não podia fazer nada errado. Todos aqueles que conhecíamos estavam lá. Jimmy Reilly, o baterista do Stiff Little Fingers, estava nos bastidores, ainda abatido pela morte de seu irmão, baleado por um soldado pára-quedista enquanto fugia de uma patrulha no oeste católico de Belfast. Nosso diretor da turnê naquela época era outro norte-irlandês, um protestante chamado Tim Nicholson, cujo irmão estava no Exército Britânico. Dei-me conta de que no nosso camarim Tim e Jimmy estavam batendo papo sobre música, mas se seus irmãos tivessem se conhecido, eles iriam se jurar inimigos. A música une as pessoas como nada mais o faz.

Bono: Esses shows de retorno à casa são como grandes cerimônias de casamento onde você sempre irá se esquecer de convidar alguma tia ou tio, e eles nunca mais irão falar com você. Alguém sempre terá uma fileira, alguém sempre irá beber além da conta, uma criança será concebida – e eu só estou falando a respeito dos bastidores, não do grandioso lado de fora. Esses são grandes eventos tribais. Eu puxei meu pai para o palco, e ele estava sorrindo radiante. Acho que ele estava orgulhoso. Eu estava fazendo o que ele não fez. Tenho tido sorte o suficiente para viver do meu talento, mais do que apenas fazendo-o com o suor do meu rosto. Aquele foi realmente um momento de muito, muito orgulho para mim.

Adam: Nós fizemos nossa primeira turnê no Japão, no qual foi o lugar mais alienado em que já estive. O Japão é o lugar mais próximo de se saber como a Beatlemania deve ter sido. A empolgação que os japoneses exibiam parecia incompreensível; nós estávamos sendo seguidos pelas estações de trem e em lobbies de hotel por adolescentes japoneses. Aquilo se deslocou de toda a proporção mediante a música. Mas o Japão é um país estrangeiro. Às vezes eu acho que eles vêem a cultura e a música ocidental como se fosse um desenho animado.

Bono: Eu não podia acreditar no que meus olhos estavam vendo. Nós não éramos uma banda de homens, mas uma “boy-band” no Japão. Quando a gente saiu do aeroporto, havia fãs aos berros, e aonde quer que a gente fosse havia garotas soltando seus agudos: no hotel, esperando atrás dos elevadores, quando fomos andar de trem bala em Tókio. Nós estávamos neste extraordinário e veloz super-trem cromado e de plástico do futuro, nós fomos a Tókio e todas as luzes se apagaram. Nós não conseguíamos ver nada e o barulho das rodas era inacreditável. E foi aí que eu percebi que não eram as rodas que estavam fazendo barulho, mas sim os milhares e milhares de fãs que esperavam pelo trem e que agora tinham a suas caras pressionadas contra o vidro, e aí não conseguimos olhar lá fora. E eu me lembro de ter escutado um som, alguma coisa como ‘Rarry’. Digo, eu escutei ‘Bono’ e eu escutei ‘Edge’ e eu escutei ‘Adam’ mas eu escutava mais era ‘Rarry’. Quando nós saímos do trem, eu e o Larry levamos um susto e saímos correndo, com todas essas garotas adolescentes correndo atrás de nós. Nós descemos correndo as escadas da estação de trem e elas vieram rolando as escadas abaixo atrás de nós. Algumas delas estavam tropeçando em outras garotas, uma cena terrível. Nós corremos para fora, vimos um táxi e nos jogamos nele. O táxi logo estava cercado de garotas, batendo no capô do táxi, e o taxista olhava chocado para aquilo tudo. Larry se virou e começou a gritar para ele: ‘Vai, vai, vai!’ O táxi arrancou; cerca de dois quilômetros adiante, o taxista começou a falar com a gente em Japonês, e eu olhei para o Larry e ele olhou para mim. ‘Você sabe onde a gente está indo?’ ‘Eu não sei onde a gente está indo. Você sabe onde a gente está indo?’ Éramos O Gordo e O Magro. Daí o taxista começou a esticar a sua mão, pedindo dinheiro, mas nós não tínhamos nada. Então ele começou a ficar muito irritado e tentou parar o carro e jogar a gente para fora. Mas de alguma forma, depois de prometermos uma grande quantia de dinheiro, e que de alguma forma ele pareceu entender isso (ou talvez foi a ameaça de violência), ele levou a gente de volta para a estação de trem.

Larry: Ok, houve um pouco de gritaria. Pode ser que tinha vinte meninas do lado de fora do hotel. Dificilmente do time das “boy-bands”. Mas havia alguma euforia por parte das meninas, que causou uma grande impressão nos outros três. Eu fiquei um pouco envergonhado, embora lisonjeado ao mesmo tempo. Só de estar no Japão já era uma super experiência. Parecia que nós tínhamos pousado no set de filmagem do filme Bladerunner. Era tão caro, nós não podíamos nos dar ao luxo de comer nos hotéis ou nos restaurantes. Nós tínhamos que pegar comida dos camarins para sobreviver. Nossas namoradas e esposas estavam na viagem, e eu me lembro das crianças pararem a Ann e eu nas ruas para tirarem uma foto com a gente. Não tinha nada a ver com o U2, era só porque nós dois éramos loiros. Eu acho que a gente era parte de um estudo antropológico.

Bono: Nós fomos para o Havaí na mesma viagem e fizemos um show lá. Eu nunca havia estado em um lugar tão exótico. Era muito longe de casa. No hotel Kahala Hilton havia garrafas de vinho no menu por dez mil dólares. O Ronald Reagan havia estado lá. Eu lembro de ter pensado, ‘Por que há golfinhos pulando perto da minha janela?’ O hotel foi arranjado com golfinhos nadando em canais. Como um Calvinista* reconstruído, para mim era o fim do mundo. Isso era o mais perto do errado que você poderia ir, e eu estava tentando buscar dentro de mim, me perguntando, ‘Por que eu não estou gostando disso? Por que eu me sinto tão mal? Isso deveria ser divertido’. Eu supunha que eram apenas barreiras culturais, não sendo acostumado com quão ridiculo é o sucesso e procurando achar minhas respostas para isso, que era ficar no caminho e escrever uma música sobre o Martin Luther King, coisa que fizemos.‘Pride in the Name of Love’ saiu de uma passagem de som no Havaí, a melodia e os acordes. Mais ou menos naquela época, eu conheci um jornalista da revista Rolling Stone, que havia sido muito fundamental na explosão da banda na América. Seu nome era Jim Henke; ele havia me dado um livro chamado Let the Trumpet Sound (Deixa o Trompete Soar), uma biografia do Dr. King, e outra sobre o Malcom X. Eles estavam cobrindo diferentes lados das discussões sobre os direitos civis, o violento e o não-violento. Eles foram livros importantes para mim. O álbum seguinte começou ali no Havaí, com pensamentos sobre a crueldade do homem para consigo mesmo nos meus pensamentos, e golfinhos passando pela minha janela.

*O Calvinista é, no extremo um profundo conhecedor da Bíblia, um moralista, um puritano, que pondera todas as suas ações pela sua relação individual com a moral cristã.

**Páginas 138 e 141 – Fotos