2002/2006 - Until the End of the World | U2 Brasil

 

2002/2006 – Until the End of the World

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Páginas 322 a 330

Bono: Há muitas letras nesse álbum que não foram trabalhadas. Não tive tempo. Levantava com uma idéia na cabeça sobre a qual precisava escrever, e as palavras jorravam. No caso de ‘Vertigo’ estava pensando em uma danceteria horrível onde tínhamos estado. Parte-se do princípio que estamos todos nos divertindo e que está tudo muito bom, e as bebidas custam tanto como um bar em um país de terceiro mundo. Uma pessoa está ali bebendo, mas não quer estar ali. E muita gente se sentia assim naquele momento, como quando se liga a televisão ou apenas se olha ao redor e vê o capitalismo grande e gordo sentado no cume da sua montanha, prestes a desabar. É aquela sensação confusa e doentia que percebemos quando estamos bebendo, se drogando, comendo, poluindo e roubando-nos até a morte. E no meio da danceteria está uma moça com unhas pintadas de vermelho. Nem sei se é bonita, isso não tem importância, mas ela tem uma cruz em volta do pescoço e a personagem olha para a cruz apenas para se equilibrar. E ele tem uma pequena epifania, mas vocês não sabem o que é epifania. É uma canção sobre uma alma em desuso em uma danceteria muito em uso. Existe realmente um lugar chamado Vertigo, sabem. É na Alemanha.

Edge: Há em ‘Vertigo’ algumas referências musicais ao nosso primeiro álbum. Mas não foi consciente. Enquanto estávamos trabalhando na música, experimentando idéias diferentes, essas coisas foram se encaixando. É de alguma forma, uma reminiscência daqueles primeiros discos.

Bono: Lembro de ter pensado ‘esse som tem de parecer fresco, como se estivéssemos no início’. Já se vão 25 anos, mas é de fato o nosso primeiro álbum. E ‘Vertigo’ é o primeiro single do nosso álbum. E ainda que pareça estranho, contém uma referência a umas das três canções do nosso primeiríssimo single. Em ‘Stories for Boys’ há um verso tipo Vertigo para os aficionados por trens. Eu só reparei depois que me chamaram a atenção. Hello, hello.

Larry: ‘Miracle Drug’ era uma das novas músicas que surgiu depois do Steve subir a bordo. Tínhamos horas enérgicas todos os dias. Era basicamente entrar na sala, improvisar e ver o que acontece. Várias músicas nasceram desses improvisos.

Edge: Passávamos 15 minutos improvisando. Depois cortávamos algumas coisas com o Carl Glanville, o técnico, e ele descobria uma parte de guitarra que ficava boa sobre o baixo do Adam. Estavam lá, todos os elementos, bastava dar novo arranjo e a música surgia. O Gareth criou aquele bonito início, como o teclado e o baixo por baixo da guitarra, que define a tonalidade.

Bono: Eu voltava a tocar os improvisos antes de se tornarem melodias, e aquilo me levava as lágrimas. Não passam de guitarras, baixos, baterias. Compunha uma melodia nova sempre que os ouvia. Era como abrir uma porta da qual fluíam palavras e melodias. Tinha em mente o personagem de Christopher Nolan. Foi um rapaz que chegou na Mount Temple quando nós íamos sair. No parto a mãe teve uma complicação e ele ficou privado de oxigênio durante duas horas ficando com paralisia cerebral, por isso era paraplégico.

A canção está escrita do ponto de vista da mãe dele. Fala da fé que ela tinha no seu filho, quando durante nove ou dez anos, ela não fazia idéia se ele era ou não um ser consciente e sensível. Nem o hospital, nem os médicos, nem as enfermeiras podiam garantir que ele tivesse consciência do mundo. Mas ela acreditava que sim, pois via nos olhos dele a luz da consciência. E confiava o suficiente em seu próprio instinto e no seu amor por ele, para ensiná-lo, para ler e conversar com ele, como se estivesse ali. E então, quando ele tinha 10 anos, surgiu um medicamento que liberou um músculo, o do pescoço, e lhe permitiu mover-se ligeiramente. E esse movimento o permitiu escrever todas essas histórias e poemas que tinha tido na cabeça durante todos aqueles anos. Tinha na testa um aparelho, como um unicórnio, e o primeiro poema dele chamou-se ‘I Learn to Bow’ (“Eu Aprendo a Reverenciar”), e é sobre esse mecanismo de movimento da cabeça, mas também seu poema de louvor a Deus, que permitiu a ciência libertá-lo. Não sei o que vocês pensam, mas se eu estivesse trancado dentro de mim mesmo durante dez anos, e acabasse por sair, não sei se estaria tão cheio de louvor pelo meu Criador. “Damburst of Dreams’ (‘Explosão de Sonhos’) o primeiro livro dele, conquistou o prêmio Whitbread Literary quando ele tinha 15 anos. Mas a música é sobre a mãe dele. I want a trip inside your head, spend a day there, see what you can see (“Eu quero viajar para dentro de sua cabeça, passar o dia lá, ver o que você pode ver”). Não é comum as estrelas de rock cantarem através da perspectiva de uma mulher mais velha. É uma música sobre fé, a fé de que Deus é capaz de trabalhar através da ciência e nomeadamente da medicina. De um modo mais indireto, é talvez também sobre a Aids e os medicamentos desenvolvidos para detê-la.

Tive desde o começo a noção de que esse álbum seria altamente politizado. O mundo está de cabeça para baixo, e há por todo lado, uma furiosa colisão de culturas. Poderia pensar que havia chegado a hora de falar sobre isso, mas eu não estava nessa fase. Quando estou mais empenhado, subo em uma caixa e falo às pessoas, por isso agora o U2 me interessava menos como tribuna. Nas relações que nos rodeiam temos um microcosmo de tudo que está acontecendo pelo mundo afora, os enganos do próprio coração e a brutalidade do dia a dia. Não é preciso estar nos grandes cenários para chegar aos grandes temas. Eu suponho que com a morte do meu pai, eu simplesmente não tenho mais estômago para isso. Não há emenda para a vida. Tenho de escrever discursos e cartas que são polêmicos. Mas nas músicas, se deve seguir o coração.

‘Sometimes You Can’t Make It On Your Own’ foi uma música que andava por ali há anos, mesmo antes da morte do meu pai, e já nessa época falava dele. Cantei uma versão dessa música no enterro dele. Mas continuava incompleta, esperando. É muito chato. Não se pode confiar em Deus. Nem sempre Deus aparece quando chamamos, salvo se estivermos em um local muito humilde, onde não passamos tempo suficiente. Aquela música esteve à espera e de repente tomou forma e parece que sempre existiu.

Edge: O Bono e eu brincávamos com aquela música desde a turnê ‘Pop’, mas alguma coisa não estava certa. Quando a tocávamos juntos, como banda, era um pouco monótona, por isso acabou não entrando em ‘All That You Can’t Leave Behind’. Colocamos ela no novo álbum.

Adam: A forma original possuía um sentimento tradicional e por isso, passamos muito tempo tentando encontrar uma forma diferente, uma maneira de reter as melodias fortes, alterando apenas o conteúdo harmônico para torná-la um pouco mais especial. Acho que estávamos na terceira ou quarta versão quando o Steve alertou para a falta do refrão, uma ponte que elevasse o verso do refrão, por isso o Bono cantou ali mesmo aquele pedaço com voz de falsete.

Edge: Tudo se encaixou de repente. Nas nossas canções é preciso sair da frente, tentar perceber o que é que se pode fazer para tentar guiar a melodia e fazer com que a música soe o mais estável possível. É uma questão de simplicidade.

Bono: Afinal o álbum é sobre a família, a intimidade, as relações humanas. Havia alguns assuntos políticos que estávamos dispostas a abordar e se encaixam no tema do álbum, que é a perda da inocência. O título ‘Love and Peace or Else’ tem uma enorme carga irônica, mas o sentimento é direto. É uma discussão entre namorados com a televisão ligada, sem som, em que vêem militares prestes a entrincheirarem-se e eu me interrogo: ‘Onde esta o amor?’ Para mim, esse é o grande momento da música.

Larry: No princípio, a parte da bateria foi feita com o Brian e o Danny para ‘All That You Can’t Leave Behind’. Montamos um kit que trouxemos dos estúdios Hansa, em Berlim. Não estava acostumado com aquele kit, por isso toquei a música de maneira diferente. Montamos na sala como console de mixagem, em vez de uma cabine de gravação isolada de som, por isso era muito aberto e soava muito alto. Sentei e comecei a tocar aquela espécie de bateria glam rock Glitter Band com o Dany nas maracas*. Naquele salão tinha um som fantástico.

Edge: Era uma melodia fantástica, com o Dany nas maracas e o incrível riff do baixo do Brian. Era tudo o que tínhamos para continuar. Fiz várias tentativas para transformá-la em uma música depois de inúmeras versões que usaram essa abertura sonora. Foi revista para o novo álbum e eu consegui fazer um riff para uni-la. Aquela faixa deve-se a cinco produtores, Brian Eno, Danny Lanois, Chris Thomas, Jacknife Lee e Flood. A música foi escrita em várias etapas e em cada uma delas houve um produtor diferente. Não pode deixar ninguém fora da história, embora não tenham participado ao mesmo tempo.

Adam: ‘City of Blinding Lights’ era uma faixa que sobrou das sessões do ‘Pop’ embora com um formato diferente. Havia uma melodia que não dava em nada e nós jogamos tudo fora, descobrimos acordes que funcionaram com aquela melodia e a reconstruímos com novas partes de bateria, de baixo e das guitarras. Foi um osso duro de roer.

Edge: É uma faceta dos poemas do Bono de que gosto muito, cinemática, a conjura de um tempo e de um espaço. Nova York, uma cidade que realmente conduz a qualquer lugar um estado de espírito.

Bono: A primeira estrofe é em Londres e o refrão é em Nova York. Tinha em mente a minha primeira visita a Londres com a Ali, quando éramos adolescentes, no barco e no trem, passeando por Piccadilly Circus e subindo Wardour Street, descobrindo o que uma grande cidade podia oferecer. Depois é claro, Nova York, a cena no Madison Square Garden durante a turnê Elevation, onde as luzes se acenderam e 18.000 nova-iorquinos estavam com lágrimas nos olhos aos pulos, e eu gritei: “Vocês estão tão lindos hoje’. É uma frase tão inocente e ingênua. Essa música fala sobre isso, recorda esses tempos. I miss you when you’re not around. Não é necessariamente uma maldição, mas aquela parte de nós que nos falta. Fala de recuperar um sentindo de admiração, de estar em uma cidade e de lembrar a si próprio que não é preciso perder a alma para ganhar o mundo.

É maravilhoso se deixar surpreender pela alegria, lembrar de que o coração bombeia sangue pelo corpo todo e que se têm os olhos abertos para o que acontece no mundo e conseguir dar graças. Não sou uma pessoa para ficar sentado olhando para meu umbigo, prefiro olhar o de outra pessoa, de preferência a que esteja dançando na minha frente. Mas preciso, de vez em quando, lembrar do que perdi. Isso me faz refletir sobre os motivos que me levam fazer o que eu faço. Esse álbum é sobre isso mesmo. A música termina com o verso ‘blessings are not just por the ones who kneel, luckily’. Eu agradeço contínua e diariamente a Deus pelas graças intermináveis e por tapar as fendas pelas quais teria caído se não fosse Ele.

São canções de inocência, canções de experiências. O tema central de todo o álbum é que a ingenuidade é poderosa, no sentido em que às vezes temos mais força se não sabemos o que enfrentamos nessa vida. Anton Corbijin tinha uma exposição no museu Groninger, na Holanda, o seu país de origem, e inaugurei a sala com ele em abril de 2000. Ele queria que eu entrasse em uma sala cheia de Bonos, uma idéia que não me atraiu nada. Havia na sala grandes fotografias minhas e dele, crescendo juntos ao longo de 20 anos. Em uma delas aparecia aquela foto que foi provavelmente a primeira vez que andei de helicóptero, quando tinha uns 21 anos e a minha vida estava a ponto de levantar vôo. Tinha os olhos arregalados, estava em estado de choque.

Um jornalista holandês veio ao meu lado e disse: “O que o Bono atual diz para o Bono da fotografia?” Fiquei um pouco atordoado, mas a minha resposta foi: “Diria a ele que está certo, e que deixasse de se questionar”. E só então percebi quanto perdera. Não falo das rugas no meu rosto, nem de menos cabelo, mas da forma de ver o mundo. Havia tanta clareza, mas era simultaneamente tão desafiante. Agora sou mais audacioso quando se trata de alcançar os meus objetivos, sou mais estratégico. Em ‘All Because of You’ ouve-se também essa mesma idéia de que se pode voltar àquele lugar, o que eu acredito. Uma das coisas que segura o nosso trabalho é a idéia de que se pode voltar ao início e libertar-se dos erros cometidos. É por isso que em ‘All Because of You’ há esses versos:I’m alive, I’m being born, I’ve just arrived, I’m at the door of the place I started out from and I want back inside’.

Edge: O riff de ‘All Because of You’ veio das já lendárias sessões de Mônaco. Queríamos apenas fazer dele um grande rock’n’roll descontraído do século XXI. Deve ser a única música de rock’n’roll que escrevemos na vida.

Bono: Com a música desse disco, procurávamos a sensação que tínhamos tido em ‘Boy’, quando bastava a energia visceral e primária da música. Era o que tínhamos feito em ‘Vertigo’ e com ‘All Because of You’. Era regressar ao sentido maravilhoso. Talvez nunca mais se possa voltar a ser ingênuo, mas é possível olhar o mundo com óculos escuros. ‘A Man And A Woman’ tratava do tema da redescoberta de um amor delicioso e romântico quando se é mais jovem, e se percorre com passos menos seguros no caminho do amor. É essa dança em torno do outro, a sedução, a bela paquera, que é afinal, a coisa mais sensual, o não conhecer, o não ir. Homens e mulheres parecem querer percorrer a misteriosa distancia que os separa. Isso me intriga e me interessa sempre.

Edge: Essa é a carta fora do baralho do álbum.Carl, o nosso técnico, estava tentando fazer uma mixagem radical de uma coisa que havíamos gravado quando o Bono entrou, adorou o som, agarrou no baixo e começou a cantar. O violão, que eu toco, era de uma canção totalmente diferente, simplesmente cortada e unida, que inspirou profundamente o Bono.

Bono: Essa música é um presente. É como uma jóia em uma jukebox.

Edge: ‘Crumbs From Your Table’ começou como um padrão de acordes. O Bono e eu a terminamos na França, lunáticos. Foi a única vez que conseguimos escrever uma canção, entre muitas outras, em um teclado. Todos sabem que não temos jeito nenhum.

Bono: Tínhamos saído, e era muito tarde, o sol estava nascendo. Eu não sou uma pessoa de varar a noite. Pelo contrário. Gosto de levantar de manhã cedinho, mas o Edge é uma coruja. Podia ficar ali sentado e deixar os dias passarem sem necessidade de dormir. Como ele não queria dormir, acabamos pegando na guitarra e ficamos cantando, desvairados. Um daqueles momentos em que dois companheiros não dizem nada que faça sentido, mas vão falando ao mesmo tempo, e for fim, tudo se coagula em um pensamento. É então que surge uma bonita música, a letra, o título, a melodia, a publicidade. Surgiu tudo no meio daquela noite lunática. Percebi logo que continha amargura. You were pretty as a picture, it was all there to see, then your face caught up with your psychology, with a mouthful of teeth you ate all your friends, and you broke every heart thinking every heart mends. Quando ouvirem uma canção em que explico algo é quase sempre sobre mim, embora não nesse caso.

Eu fiquei trabalhando para tentar conseguir que os países africanos conseguissem uma representação política adequada. Lembro que fiquei muito zangado por os países pobres terem que estender a mão ao ocidente. Pensei que não era essa a vontade de Deus. Deus não faz distinção entre o presidente do conselho de administração de uma grande empresa e um pobre agricultor na África. Achei que devíamos respeitar mais os pobres. Porque é que eles não têm a mesma representação em Washington e em Londres do que a National Rifle Association ou a indústria de tabaco? Porque o maravilhoso e extraordinário povo africano não pode rebater. Se alguém se mete com a National Rifle Association é perseguido até no churrasco de domingo em seu círculo eleitoral e tentam expulsá-lo do cargo. Quero que os pobres estejam bem representados de modo a não terem de mendigar as migalhas da nossa mesa. Andy ou speak of signs and wonders/ but I need something other/ I would believe if I was able/ but I’m waiting for the crumbs from your table. Essa estrofe visava a igreja, porque na época parecia que ela não estava fazendo nada quanto à emergência da Aids. Digo com alegria que o gigante adormecido já acordou.

Edge: ‘One Step Closer’ começou em ‘All That You Can’t Leave Behind’. Pensei que a progressão de acordes prometia, mas ninguém concordava comigo. Toquei para o Chris Thomas, que disse: “Tem um som fantástico, vamos gravar uma versão”. O Danny Lanois estava na cidade, por isso pedimos a ele que tocasse a pedal steel guitar, eu e o Bono tocamos guitarra e começamos a gravar. Espantem-se, mas o Bono começou a tocar uma música completamente diferente da original. Começava como se fosse Velvet Underground e depois encaminhou para o country. Como ficou muito boa, não nos metemos com ele, embora a versão original durasse uns 15 minutos. O Bono parecia que já sabia todos aqueles versos, o que era incrível.

Bono: Era mais uma música para o meu pai. The heart that hurts is a heart that beats/ Can you hear the drummer slowing? Quando estava com ele no hospital me dediquei a desenhar o equipamento que o rodeava, que o mantinha vivo. Jacknife Lee é de fato, um mestre em nos fazer ver que estamos no século XXI, mesmo que se toque violão, e nessa música nota-se a tecnologia, o sangue movendo-se pelos tubos e a respiração do meu pai. É muito intima. O título surgiu de uma conversa que tive com o Noel Gallagher. Estávamos falando sobre se meu pai teria fé ou não. Eu disse que achava que já não tinha, que a tinha perdido. Não sei se ele sabia para onde ia. E o Noel disse: “Bom, agora está um passo mais perto de saber, não acha?” e foi onde tudo começou.

Edge: ‘Original of the Species’ passou por todos os tipos de mudanças. Fiz para ‘All That You Can’t Leave Behind’ mas tinha todo o tipo de sessões diferentes. Em princípio a escrevi para minha filha Holly, e depois o Bono voltou a trabalhar nela e a transformou em algo mais universal.

Bono: Não queria que parecesse uma música infantil, por isso mantive uma espécie de tensão erótica. Novamente a diferença entre o conhecimento e sabedoria. Cuidado com os que sabem tudo. As adolescentes sofrem uma grande pressão para serem bonitas e boas alunas. É como se sempre que acordam todo mundo dissesse o que elas não são. Queria escrever uma música sobre singularidade. Vale à pena recordar que cada um de nós possui algo de que o mundo provavelmente precisa. Um dos desafios da vida é descobrir de que se trata. Mas a melhor maneira de não o descobrir é tentar ser o que não é.

Edge: O álbum encerra com ‘Yahweh’, mais uma música surgida das sessões de L.A, a partir dos loops de bateria do Larry. Saiu quase completa. Quando o Bono a ouviu, pegou no microfone e surgiram algumas melodias fantásticas. Demoramos muito tempo para conseguir os arranjos adequados, mas acabamos gravando com o Chris que achou uma música linda, cheia de ressonância.

Bono: Não quis ofender ninguém com essa música. Yahweh (Javé) é uma palavra sagrada, um nome que não foi escrito por completo nos círculos judeus. E que, por outro lado, também não era algo tão incompleto assim, eles escreviam apenas YWH, sem as vogais. Eu entendo que nós devemos encarar Deus com um misto de admiração, respeito e temor. Como o Cristianismo permitiu que Cristo fosse um amigo e ao mesmo tempo um Senhor e Mestre, nós não achamos que o acesso a ele seja algo de mais. Mas Yahweh era um dos nomes de Deus. Quando Moisés falou com o arbusto em chamas, perguntou: “Quem é você? E o arbusto respondeu: “Eu sou aquele que sou”. Yahweh. Grande Eu Sou. Eu encontrei a música por acaso, enquanto cantava sem realmente saber o que estava cantando. Eu desejei que ela não soasse como uma música de Escola Dominical ou algo parecido. Penso que cada um dos versos dessa canção está sublinhado pela minha necessidade desesperada em saber o que transmitir, em desligar algumas vezes o meu olhar tão crítico, de calçar os sapatos que me foram dados. Eu amo cantar esta música.

Adam: O álbum foi finalizado no primeiro fim de semana de julho de 2004. Levamos um ano e meio para prepará–lo, o que parecia um longo tempo, e foi muito difícil quando estávamos naquele período intermediário em que não parecíamos estar indo a lugar algum. Contudo, depois que ultrapassamos este obstáculo, aceleramos o passo e galopamos até o final. Quando tudo estava terminado, nós todos ficamos entusiasmados com o que tínhamos conseguido criar. Gravamos uma nova canção na segunda última noite no estúdio, que acabou como faixa bônus na Grã–Bretanha e no Japão. Tínhamos uma espécie de faixa eletrônica chamada ‘Xanax and Red Wine’ que incluía a linha ‘how to dismantle an atomic bomb’. Fizemos algumas versões dela, mas não conseguimos unir tudo em uma música só. Bono queria que aquela composição fosse para o álbum, mas nós não tínhamos muito tempo, então surgiu a idéia de começarmos do esboço, tocá–la novamente com um arranjo esparso e adaptar melodias e composições para que coubessem naquele novo formato. Isto se tornou ‘Fast Cars’ e realmente fez com que terminássemos aquelas sessões com uma nota alta. Estávamos sentindo que tínhamos feito um grande álbum, um álbum que merecia ser anunciado.

Bono: A última noite em que pusemos o álbum para tocar com todo mundo na sala, as pessoas estavam bebendo e pulando em volta do local. Foi uma noite incrível. Depois de todo aquele trabalho, era fantástico ouvi–lo soar fresco e excitante.

Edge: Eu acho que é o nosso melhor álbum, embora talvez não seja o mais inovador. Nós tivemos quase que um sucesso absoluto montando um álbum que expõe a banda porque eu acho que algumas músicas poderiam ter ido à áreas sonoramente mais experimentais. Mas como um conjunto de músicas, é o melhor de todos.

Bono: São definitivamente as melhores composições. Há um maior número de grandes músicas neste álbum do que em qualquer outro. Não existem recheios. E eu penso que isto é um triunfo. Em retrospecto, faltava coesão sonora. O número de produtores diferentes era sempre um ponto difícil porque enquanto cada um deles fazia um trabalho extraordinário, você precisava ter uma visão clara da arquitetura sonora que cria o clima do álbum inteiro. E talvez a ordem em vigor não estivesse certa. Talvez eu não tivesse me envolvido o bastante. Eu estava saindo do caminho que leva ao consenso ao invés de ficar no caminho do consenso, que é a minha posição usual. É meu trabalho perturbar as águas. Mas eu diria que este é um álbum melhor do que os que já fizemos, e é um álbum melhor do que qualquer um poderia esperar de nós depois de vinte anos.

Adam: Eu lembro de ter me sentido realmente satisfeito com The Joshua Tree e de pensar que tínhamos rompido fronteiras e chegado em lugares que eu não considerava possíveis de se chegar. Eu diria que fiquei igualmente entusiasmado com este álbum, embora ele tenha um tipo diferente de vitalidade e de confidência. Ele é mais maduro e mais seguro.

Larry: Eu acho que este é um álbum realmente bom, com algumas grandes músicas. Eu não sou tão emocionalmente ligado a ele quanto eu sou com o All That You Can’t Leave Behind. Ele não parece tão coeso quanto aquele álbum. Talvez isto tenha a ver com a mistura de personalidades envolvidas, mas parece estar faltando aquela mesma linha emocional.

Paul: Eu amo o álbum, é maravilhoso, provavelmente o maior que eles já fizeram. Bono canta melhor do que ele cantou durante anos. Freqüentemente no trabalho da banda o fato de que a voz dele é o instrumento líder ficou esquecido. Eu fico encantado por vê–lo de novo em sua melhor forma, cantando sobre coisas que importam para ele. Eu não fiquei muito entusiasmado com o título. Na verdade, eu ainda não gosto muito dele. Houve um pouco de discussão sobre ele. Mas é um tema criativo, e embora eu tivesse ampliado meu campo de visão, eu não esperava prevalecer.

Adam: Eu achei que a idéia de chamar o álbum de How To Dismantle An Atomic Bomb era desafiadora, combinava com a ocasião. Houve um pouco de debate e eu estava ciente de que nós pisaríamos em ovos caso o lançamento do nosso álbum coincidisse com alguma atrocidade terrorista, mas eu sentia que era um risco que valia a pena correr.

Larry: Eu entendia de onde Bono estava tirando este título, mas eu estava preocupado porque na época houve muitos boatos sobre armas de destruição em massa e bombas. Se ocorresse um ataque terrorista de qualquer tipo, o álbum seria retirado do rádio. De qualquer modo, o título na verdade tinha muito mais a ver com Bob Hewson do que com qualquer outra coisa. Como Bono diz, nós poderíamos tê–lo chamado de ‘How to Dismantle an Atomic Bob’. Bono estava emocionalmente ligado ao título. No final, seus instintos estavam certos.

Paul: No processo de escolha de um título as pessoas aumentam seu campo de visão e então Bono decide. Provavelmente é um pouco mais sutil do que isto, mas é assim que as coisas se encaminham às vezes.

Bono: Quem vota contra está errado, é simples assim. Você só precisa ter um pouco de coragem. A razão de a cultura corporativista estar em crise na América e nos outros lugares, é o fato de as decisões serem tomadas por comissões. Ninguém quer errar, então ninguém faz nada, o que é o maior erro de todos. Eu me meto em problemas porque sou sempre eu quem leva a banda para as maiores críticas, então as pessoas estão sempre se preparando para lutar em meu favor. E eu aprecio isto até certo ponto. Mas isto é o rock n’ roll. Você tem que abraçar o Zeitgeist (espírito da época – descreve o clima intelectual e cultural de uma era) e ao mesmo tempo intervir nele. E este título uniu o pessoal e o geopolítico. Era o título certo por esta razão. As pessoas ficaram preocupadas que ele fosse parecer grandioso. O que será do rock n’ roll se não ousarmos ter grandes idéias?

Edge: Nós pensávamos que estávamos fazendo um álbum político, mas no final, o álbum ficou muito mais ressonante, alcançando algo muito pessoal, além do momento que todos nós estávamos vivendo. Existe muita família naquelas canções e é provavelmente para ela que você se direciona quando os tempos ficam realmente difíceis. Enquanto Bono apoiava o título, eu pensava, ‘Qual a relação entre isto e o álbum que nós acabamos de fazer?’ e começamos a conversar sobre a noção de ‘fé versus medo’. Para mim as grandes questões do momento se relacionam com o modo como você lida com ameaça e medo. Vamos ser comandados pelo medo ou vamos tentar transcende–lo e encontrar um modo de nos apoiar na fé, seja esta fé na humanidade, em algum tipo de poder maior ou no futuro?

Se você olhar para o que George Bush estava planejando, politicamente, tudo o que ele fez se apoiou na idéia de que depois de 11/09 os vilões estrangeiros queriam conquistar a América e a América temia esta posição. E isto pareceu dar a ele a permissão para fazer tudo o que quisesse, como jogar seu peso sobre o Oriente Médio ou tomar de volta a liberdade e o livre arbítrio descritos na Constituição Americana. O que estava acontecendo com os prisioneiros na Baía de Guantanamo era muito anti-americano sobre vários aspectos. Então aquilo era interessante. Enquanto dávamos seqüência ao álbum, a questão fé ou medo começou a se fazer presente, iniciando com o sentimento de paranóia de Vertigo e caminhando até a redenção espiritual de ‘Yahweh’. Para mim este é o tema do álbum: como você vive no século vinte e um quando existem tantas coisas em que se apoiar?

Larry: Este deve ser o último álbum gravado em Hannover Quay, nosso HQ por mais de dez anos. A Autoridade do Desenvolvimento das Docas de Dublin emitiu um pedido obrigatório de compra como parte de um plano para revitalizar toda a área. Nós desafiamos a decisão em tribunal e eles concordaram que um estúdio substituto seria construído em outro lugar. Vou ficar muito triste quando for destruído. Existem muitas lembranças boas naquele lugar. Fizemos algumas músicas boas e nos divertimos muito. Ele é insubstituível. A sua localização sobre a água tem um certo grau de tranqüilidade mesmo com o caos das gravações no estúdio. Existe um sentimento real de espaço criativo. Eu duvido que encontraremos algum dia um outro lugar tão especial.

Edge: O final da última semana foi muito louco. Nós estávamos trabalhando muito duro nas gravações, eu ficava no telefone o tempo todo, ligando para L.A para conversar sobre as edições e me assegurar de que eles estavam com as versões certas das músicas para dar os primeiros passos na masterização, fazer o nivelamento correto e todas essas coisas. Depois fomos para a França e fizemos nossa primeira entrevista para a revista Blender. Eu estava com um conjunto grosseiro de todo o álbum em um CD. Grandes decisões sobre os singles e a ordem das músicas estavam sendo tomadas, então era importante ouvir o álbum várias vezes para absorvê–lo como um corpo de trabalho. Então, enquanto nós passávamos o dia sendo fotografados em meio a todas as facilidades de uma sala de produção de filmes, com múltiplas plataformas de som, eu estava ouvindo o CD através de um pequeno aparelho portátil. Quando o fim da tarde se aproximou, o fotógrafo quis fazer uma sessão adicional em uma piscina abandonada do lado de fora. Nós deixamos tudo, todo o equipamento, todas as roupas e saímos por aproximadamente quarenta minutos. Nós voltamos para dentro e o equipamento já tinha sido desmontado, as luzes estavam apagadas e eu queria pegar o CD. Ele não estava lá. Então nós procuramos por todos os lugares. E eu comecei a compreender que aquilo era muito sério. Então eu acionei o botão do pânico. Pedimos que todos ficassem e dentro de uma hora a polícia de Nice estava lá fazendo entrevistas, procurando em todos os lugares, em todos os caminhões, em cada veículo, em cada interior. Nenhum CD.

Foi uma coisa assustadora porque se isso chegasse na Internet, no dia seguinte dois anos de trabalho teriam sido perdidos e todos os nossos planos em longo prazo seriam arruinados. Nossa gravadora estava desesperada. Eles colocaram a Interpol no caso. A coisa mais estranha foi encontrar membros de um tipo de organização secreta musical, um grupo anti-pirataria cujo trabalho envolve andar de um jeito muito misterioso e furtivo para encontrar quem rouba fitas e quem está por trás das grandes operações de bootlegs. Eles contavam com todos os meios mais sofisticados de rastreamento e tinham pessoas vasculhando a Internet para tentar achar o CD. Foram uns dias muito dramáticos. Nós nunca soubemos quem o pegou. Provavelmente foi alguém que estava atrás de um souvenir. A minha aposta era de que dentro de poucas horas ele estaria no fundo do Mediterrâneo. É o tipo de coisa para qual ninguém daria a mínima alguns anos atrás, mas nesta era da pirataria na Internet o prejuízo financeiro potencial é enorme.

Bono: Eu agradeço a Deus que foi o Edge quem perdeu o CD. Porque se fosse eu, haveria um assassinato.

Paul: A campanha começou bem cedo em 2004 para mim. Eu estava interessado em toda esta tecnologia móvel e particularmente no modo como as companhias telefônicas estão se tornando as distribuidoras de música do futuro. Um velho amigo do negócio da música, Ralph Simon, agora é presidente do Fórum de Música Móvel. Ralph fundou a Zomba Music Publishing e a Jive Records, ele é um genuíno peso pesado da indústria musical, e se tornou o meu guia nesta área em rápida expansão. Os toques de celular são realmente uma pequena ponta de uma fatia que eventualmente vai se tornar um leque completo de sons e imagens distribuídos através do ar para os aparelhos móveis. No passado nós nunca tínhamos trabalhado com publicitários ou patrocinadores. A única vez que permitimos que uma música do U2 fosse usada com finalidade comercial foi em um filme. Se nós fossemos capazes de ligar uma música do U2 a uma campanha publicitária de um filme de grande orçamento, seria como ligar um barco a remo à uma aeronave. O mercado da música se sustenta infiltrando–se em outras mídias livres. Ele é muito hábil em espalhar suas mercadorias pelo rádio, pela televisão e pela imprensa ao invés de comprar espaço de anúncio. Eu senti que havia uma oportunidade comercial enorme com organizações de tecnologia e informação, aquelas cujas máquinas nós utilizamos no trabalho do U2, para infiltrar os orçamentos deles e levar nossa música para a televisão de forma digna e honrada.

Então Ralph Simon e eu passamos a maior parte de 2004 negociando com Vodafone, Nokia, Hewlett – Packard, Intel e T.Mobile, tentando encontrar um modo pelo qual nossas marcas pudessem cooperar para um benefício mútuo sem embaraços. Eu quase fui bem sucedido, mas, no final, eu não consegui convencer a banda. Mesmo que qualquer um desses acordos pudesse ser justificado, eles não queriam ser acusados por estarem se vendendo, e então, infelizmente, nenhum dos acordos sobre a mesa foi consumado. Enquanto isso, nós estávamos negociando com a Apple.

Larry: Surgiu uma proposta de que a banda fosse patrocinada por uma companhia telefônica e ganhasse grandes somas em dinheiro. Eu fui contra esta idéia. Havia diferentes opiniões na banda. Houve uma pressão enorme para que aceitássemos o patrocínio porque a indústria da música está mudando e as gravadoras estão gastando menos e menos dinheiro com publicidade. Foi um verão quente e longo para mim. Havia uma chance real de que aqueles que eram favoráveis ao patrocínio ganhassem com seus argumentos, e então eu seria derrotado. Eu agradeço por isto nunca ter acontecido.

Bono: A relação entre a arte e o comércio sempre existiu e eu nunca considerei que nós fossemos artistas sacros ou que as pessoas que vendem suas músicas sujem as mãos com um lucro imundo. Os artistas são tão gananciosos e egoístas quanto qualquer outra pessoa. Nós estamos no comércio, somos comerciantes que, na Idade Média, vagavam de cidade em cidade vendendo suas mercadorias. Superamos isso. E tentamos fazer os melhores acordos para as nossas músicas. Nós tentamos protegê–las para que ninguém possa roubá–las. Nós tentamos divulgá–las no rádio para que as pessoas possam ouvi–las. Tentamos divulgá–las na televisão para que as pessoas possam ouvi–las e ver os visuais que nós criamos.

Paul: Nós já tínhamos uma relação com a Apple. Fomos uns dos primeiros a adotar o iTunes e encorajamos outros artistas a apoiarem o iTunes no início de 2002. Então surgiu a oportunidade de negociar com a Apple, que venderia iPods do U2 e usaria nosso primeiro single na campanha publicitária do outono de 2004, com a qual eles gastaram vinte milhões de dólares para fazer a divulgação ao redor do mundo. Eles não pagaram nossa presença no comercial, mas nós ganhamos um royalty para cada iPod vendido que tivesse a marca do U2, o que era um tipo de história secreta no negócio do entretenimento, fabricantes de hardware pagando um royalty para fornecedores de software, como por exemplo, fabricantes de música.

*maracas: instrumento musical de percussão que consiste em duas esferas com cabo cheias com pedrinhas ou grãos, que agitadas produzem diferentes sons.

*Páginas 326, 327 e 328 – Fotos