2002/2006 - Until the End of the World | U2 Brasil

 

2002/2006 – Until the End of the World

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Páginas 331 a 345

Bono: O negócio com o iPod foi fantástico. Nós tivemos que fazer um vídeo e colocá-lo na TV. Colocamos durante os grandes jogos, o tipo de exposição que nem mesmo uma empresa de gravação poderia arcar, mas que uma firma de tecnologia, gigante como a Apple, podia. E eles eram os parceiros perfeitos. Steve Jobs, um dos fundadores e CEO da Apple, foi o cara que organizou o problema do mundo da música e pirataria. O roubo de músicas é uma coisa real. Nós fazemos música onde outras pessoas fazem objetos, e esse é um negócio caro. E, apesar do que algumas terríveis crianças estão dizendo, a pirataria musical está realmente mudando o estilo de vida de alguns músicos. Foi aí então que surgiu esse tecnólogo que acreditava que se você fizesse isso fácil, divertido e com um razoável custo-benefício, as pessoas iriam comprar as músicas ao invés de roubá-las. As pessoas podem conseguir água em uma torneira, mas elas a compram em uma garrafa, porque acreditam que tem uma melhor qualidade e elas gostam da garrafa. A mesma coisa com a música. Somado à isso, ele reuniu um time que faz lindos objetos. E isso suportou a teoria que eu tenho sobre como o hardware conduz o software. Eu sabia que isso estava chegando, eu senti antes mesmo dele chegar. O iPod é o objeto mais bonito no mundo da música desde a invenção da guitarra. O fundamento é que você tem um acordo com os seus fãs: não façam nada embaraçoso. E eu não acho que tenha alguém que tenha visto esse comercial e que o tenha achado embaraçoso. Ele é realmente excitante. Colocá-lo a venda é a rendição que você deve fazer coisas em que você não acredita, eventualmente por dinheiro. Nós recusamos vinte milhões de dólares apenas pela música. Nós voltamos a atenção para um vídeo de rock. Isso foi excitante.

Larry: A Apple fazia sentido. Era a melhor companhia que tinha e o dinheiro não trocava de mãos. Todos nós concordamos que era a empresa certa para se trabalhar e ambas as partes iriam se beneficiar dessa relação. É claro, que havia muita reclamação por parte do que se pode chamar de ala militante dos fãs do U2. Eles nos acusaram de estarmos nos vendendo.

Paul: O How To Dismantle An Atomic Bomb foi lançado em 22 de novembro e foi distribuído mais do que cinco milhões de cópias por todo o mundo, o que é a nossa maior distribuição de todos os tempos. Dentro de uma semana, isso já estava em torno de oito milhões, e foi o nosso recorde de vendas mais rápidas. Ele estava em número um nas paradas de todo o mundo.

Adam: ‘Atomic Bomb’ foi tratado como se fosse o nosso álbum de retorno, mesmo achando que o All That You Can´t Leave Behind tenha sido um grande sucesso. Eu acho que leva um grande tempo para a mensagem ser transmitida, e você não pode voltar atrás no álbum, tem que dar seqüência com outra ação de compromisso. Nós sentimos como se tivéssemos feito um álbum digno de clamor e quando as pessoas o escutaram, eles reagiram de uma maneira muito parecida. Quando nós lançamos o nosso primeiro álbum, até o sucesso mais modesto era alguma coisa com que ficávamos muito excitados. Vinte e cinco anos depois eu ainda fico excitado, mas eu também tenho um grande senso de humildade. Isso não devia estar acontecendo. Eu deveria ficar feliz apenas por ainda ter um contrato de gravação.

Edge: Para nós conseguirmos qualquer tipo de apoio da contra-cultura do rock ´n´ roll, que é obcecada pela musica underground, foi extremamente gratificante. E depois, ver isso traduzir e capturar a imaginação da atual geração de compradores de álbum em massa, foi muito excitante. A grande recompensa para nós tem sido permanecer sempre relevante, e isso parecia como uma prova. Aparecemos muito na TV. Nós queríamos sair de lá e conhecer as pessoas onde elas estavam, e não onde nós as tínhamos deixado na última vez.

Paul: Nós tínhamos uma grande campanha planejada. Um ano de turnê, sem paradas, primeiro em arenas e depois em estádios. Os ingressos começaram a ser vendidos logo após o Natal. E então aconteceu uma coisa que colocou tudo numa balança.

Edge: No começo de dezembro, nós estávamos gravando o vídeo de ‘Sometimes You Can´t Make It On Your Own’ em Dublin quando eu recebi a notícia que a minha filha, Sian, estava muito doente. Eu disse a eles, ‘Eu tenho que ir’. A partir desse momento meu mundo mudou completamente.

Bono: Tudo o que nós somos é sobre comunidade. A música surge da nossa comunidade. E então se alguém da comunidade sofre algum trauma, todos nós sentimos. Isso impressionou muito. Ver o nosso companheiro com o seu coração partido e ver sua filhinha de sete anos de idade lutar bravamente… isso foi um momento muito terrível.

Edge: Eu não quero entrar muito em detalhes. Mas a minha família passou por momentos muito intensos e a Sian sofreu tendo que passar por experiências muito desagradáveis, o que ela ainda continua fazendo com uma incrível coragem para alguém tão jovem. Uma estranha ironia é que quando você passa muito tempo em um hospital com a sua filha, você rapidamente percebe que sempre tem alguém pior do que você. Nós sempre deixávamos o hospital com uma sensação de que nós somos muito sortudos.

Bono: O nosso primeiro instinto é baixar as ferramentas, focar apenas no que está acontecendo com a família e dar apoio.

Adam: Todos os nossos pensamentos era para qualquer coisa que a família do Edge precisasse naquele momento. Todo o resto tinha que esperar. Quando começamos a ter mais informações, e tivemos mais tempo para avaliar o que era apropriado ou concebível, nós começamos a fazer os cálculos e ver como tudo poderia funcionar.

Edge: Após o primeiro choque inicial e das três intensas primeiras semanas, eu comecei a pensar sobre o ano que estava começando e sobre, ou alguns, dos meus compromissos com o U2 que eu deveria cumprir. A turnê da Vertigo tinha sido anunciada, mas felizmente nenhum ingresso tinha sido vendido ainda. Havia um inferno à procura das nossas convicções e atitudes, lançando várias idéias e datas. Realmente, eu não tinha certeza de quando eu poderia fazer isso. Eu quero dizer, os caras foram maravilhosos. Eles disseram, ‘Se você acha que você não consegue fazer isso, nós entendemos, não se preocupe, nós iremos lhe apoiar durante todo o caminho’.

Larry: Eu teria achado muito difícil ir para a estrada estando na situação do Edge. A decisão era apenas dele e da Morleigh.

Bono: Algumas pessoas que tinham passado por situações semelhantes tinham nos advertido que a coisa mais importante para uma família que está atravessando esse tipo de problema é continuar fazendo o que eles faziam, essa normalidade é importante. E mesmo você achando que sair em turnê não é normal, para nós é e é para o Edge. Ficar sentado em casa, olhando para sua linda garota de nove às cinco, não seria bom para nenhum deles.

Adam: Teve um momento em que o Edge tinha em mãos todas as informações sobre o que envolvia o tratamento e como o nosso ciclo de turnê deveria ser, quando ele disse, ‘Eu acho que tem um jeito de eu participar da turnê e também fazer tudo o que eu preciso pela minha família’. E essa foi uma decisão muito corajosa, mas também muito generosa, porque permitia que a banda funcionasse durante aquele período. Morleigh, Sian e toda a estrutura de suporte estavam envolvidas nessa tomada de decisão e sabiam das implicações que isso poderia ter. Então, eu fico muito admirado e grato que essa tenha sido a forma como ele enfrentou isso e eles tiveram a força de uma unidade familiar para avaliar as informações e imaginar que eles poderiam fazer isso.

Edge: No final, isso parecia ser a coisa mais positiva a se fazer. Para não, em um certo sentido, se tornar vítima desse situação, mas para realmente, de uma forma lógica, sábia e madura, ajustar a sua vida para que a vida possa continuar. O calendário da nova turnê já estava montado, baseado nas necessidades da Sian, e de uma forma estranha eu acho que isso honrou ela. Era como se nós estivéssemos dizendo, ‘nós não vamos descansar e apenas ficar enrolando, nós vamos continuar em frente e seguir as nossas vidas e fazer isso funcionar para todos’. Mas essa foi uma decisão muito difícil pra eu tomar e no final, foi a Sian que me deu força para continuar com a turnê. Eu sentei com ela e disse, ‘Eu não tenho que fazer isso. Eu posso passar mais tempo com você se eu não for’. Tudo que eu precisava era que ela dissesse, ‘Eu não quero que você vá’ e então teria sido isso, eu teria cancelado a turnê, mas ela acabou me devolvendo a segurança! Ela disse, ‘Não se preocupe papai. Vai ficar tudo bem. Eu quero que você faça isso’. Muito impressionante.

Bono: A heroína do dia foi, com certeza, a Morleigh, porque ela teve que ficar com toda a carga extra, e teve que agüentar a dor. Sem ela, a turnê nunca teria acontecido.

Paul: A turnê foi agendada para que o Edge voltasse para casa à noite, a idéia central foi essa, certamente no braço americano da turnê, ele nunca conseguiria ficar longe da sua família em Los Angeles por mais do que três dias. Então nós tivemos que remarcar completamente dando apenas um pequeno aviso, havia muitas lacunas e muitas datas perdidas, e o resultado foi que quando os ingressos começaram a ser vendidos, havia muitas pessoas desapontadas, o que eu suponho ser inevitável em uma situação onde nós não estávamos dando a mesma ênfase por todo o mundo.

Larry: Eu estava recebendo telefonemas dos membros da equipe dizendo que eles estavam mandando os equipamentos para Londres para os ensaios. ‘Que ensaios?’ ‘Ensaios para a turnê’. ‘Que turnê?’ O Edge estava em Los Angeles, eu estava em Dublin, eu não sabia em que partes do mundo estavam o Bono e o Adam, tava tudo muito confuso. E para piorar os problemas, o nosso site, o U2.com tinha sido re-lançado, garantindo ingressos para a turnê para os novos membros. O que era um erro. Você pode oferecer uma quantidade limitada de ingressos, mas não pode garanti-los para todo mundo. E isso foi antes de percebemos que a turnê teria que ser remarcada devido à situação do Edge. As pessoas estavam indo para o site apenas para garantir os ingressos. Foi uma grande confusão. Em janeiro, eles lançaram no website ingressos apenas para locações limitadas, mas muitos deles acabaram na mão de cambistas que os vendiam no eBay. Os nossos fãs tinham se sentido enganados. Alguns deles acharam que agora tinham fortes evidências que o U2 não ligava a mínima para eles, e que nós estamos nisso apenas pelo dinheiro. Eles tinham alguns jornalistas do seu lado e em pouco tempo estava espalhado por todos os cantos que os fãs do U2 tinham sido ultrajados. Infelizmente, eu fiquei sabendo desses problemas apenas pelos jornais. Imediatamente liguei para os nossos amigos do U2.com e procurei saber de tudo que estava acontecendo. Passei duas semanas tentando estabelecer planos para cada um dos locais, tentei resolver os problemas pessoalmente, mas com um sucesso limitado. O cavalo tinha escapado. Eu pedi desculpas pessoalmente no website. Existem formas de administrar esse tipo de coisa, mas você nunca pode garantir que a sua audiência não será roubada por cambistas. O U2.com aprendeu algumas duras lições, e eu também. Ter tido os nossos fãs militantes um pouco mais compreensíveis, pode ter tornado o nosso caminho mais fácil para resolver os problemas. Com pensamentos claros, eles não tinham nenhuma idéia do porque as coisas tinham ficado desse jeito. Entretanto, isso faz você se perguntar por que algumas pessoas são fãs da banda, se eles acham que nós deliberadamente nos aproveitamos deles.

Adam: Nos reunimos em fevereiro no México para os ensaios. Eu tenho que dizer que o clima era sombrio. As pessoas não tinham nenhuma noção aonde isso ia nos levar. Estávamos bem atrasados em relação à nossa programação, era de alguma forma, um ambiente muito gélido, um pequeno filme no inverno, filmado no mar. Isso foi terrível. Mas dentro de um curto período de tempo, a música e as peças do show começaram a se unir.

Larry: O México era suficientemente perto de LA para que o Edge pudesse ir para casa quando precisasse. Nós não queríamos colocar mais nenhuma pressão sobre ele, esperando que ele fizesse todas aquelas coisas musicais que ele normalmente faz, e então trouxemos o Steve Lillywhite, o Carl Glanville e o Jacknife Lee para nos ajudar. Havia sempre uma sensação estranha no ar, e de uma semana pra outra nós não sabíamos se teríamos que cancelar a turnê. Foi muito difícil ver um companheiro passando por uma coisa dessas, e é ainda mais difícil quando você sabe que não pode fazer nada por ele. Houve momentos em que eu achei que a decisão pela turnê foi um erro.

Bono: A banda estava tocando muito bem, mesmo quando nós estávamos ensaiando. Estranhamente, havia um plano completamente novo para o Edge tocar. Seu técnico de guitarra, Dallas Schoo, trabalhava muito duro para conseguir os sons corretos. Lá parecia não ter nenhuma distância entre o Edge e a sua guitarra. Era realmente extraordinário. Ele mudou o setlist e começou a colocar músicas do Boy. E tê-lo tocando ‘Into The Heart’, indo dentro do coração de uma criança, foi um momento muito estranho e lindo, onde a guitarra nunca tinha sido tão expressiva. O tema principal do Atomic Bomb era a perda da inocência, e o Boy era sobre como manter isso, assim, havia uma certa simetria entre as músicas. Eu não sei se isso foi percebido por alguém, mas para mim, a Sian pareceu ser o pivô bem no meio disso tudo.

Edge: A doença da minha filha teve o poder de reordenar todas as minhas prioridades. Eu descobri que não podia mais me preocupar com pequenos detalhes. Conhecer os sacrifícios extraordinários e os custos de se realizar uma turnê, fez com que tudo se tornasse mais significante e que cada show deveria ser realmente especial, porque essa era a razão por eu estar lá. E eu tinha razões muito boas para estar em outro lugar. Assim havia muita expectativa sobre esses shows. O álbum camuflou o seu título para que ele fosse muito mais pessoal do que político. Então quando chegou a hora da turnê, ocorreu ao Bono que essa poderia ser a forma como nós iríamos levar as coisas para um próximo nível. Nós não vemos porque deve haver uma separação entre o Bono ativista político e o Bono artista. Fizemos um espaço para a política no show e isso se tornou o tema principal, a influência de toda a turnê.

Bono: Então nós começamos a juntar diferentes peças relacionadas ao que estava acontecendo no mundo e nas nossas vidas, as interseções. Uma amiga minha, Emily B, tinha tropeçado nesse grafite, COEXIST, com a lua islâmica como o C, a estrela de Davi como o X e a cruz do Cristianismo como o T. Depois descobrimos que era uma invenção de um artista polonês, Piotr Mlodozeniec. Isso parecia um símbolo muito poderoso para a tolerância. E então tínhamos o abuso dos direitos humanos acontecendo após 9/11, com os argumentos mais hipócritas sendo usados para justificar porque deveríamos abrir mão do nosso civismo. Era como se fosse ‘tudo bem torturar pessoas porque estávamos tentando salvar a vida’. Basicamente, vender a si mesmo para salvar a nossa bunda. Então nós trabalhamos com a grande artista de vídeo, Catherine Owens, em uma cena onde um rosto apareceria projetado através da fumaça e leria a Declaração dos Direitos Humanos, o que era muito poderoso. Bem, você pode imaginar como isso acabou. A banda, o empresário, todos ficaram com os pés plantados, ‘Oh Deus, aqui vamos nós. E nós ainda nem chegamos na parte da África. O que ele planejou para a África?’ O Willie Williams descobriu essa nova tecnologia, o Google Earth, onde você pode olhar para a arena através da perspectiva de um satélite, sair da arena, ver isso desaparecer sobre você, deixar o município, a cidade, o país, ir para o espaço e escolher um lugar na África e ir visitá-lo. Nós íamos fazer isso em grande escala nos shows. Quanto mais ficarmos com os pés no chão, mais barulho. E corretamente, isso foi um pouco trabalhoso. Nós discutimos jogar fora ‘Where The Streets Have No Name’, como ela foi tão importante para a última turnê, nós pensamos como poderíamos superar isso? Rapidamente o Larry e o Adam colocaram um ponto final nisso. Mas nós tínhamos que achar um novo jeito de apresentar a música, e então surgiu a idéia das bandeiras digitais. E então eu estava parado no palco, uma noite antes da estréia em San Diego, em março, com todas essas bandeiras africanas descendo pelo telão, cantando ‘Where The Streets Have No Name’, quando eu me lembrei de uma coisa que eu já tinha me esquecido há muito tempo – que eu tinha escrito a letra dessa música em uma pequena vila no norte da Etiópia, em um pedaço de papel, uma sacola de enjôo da India Air, eu acho. E aí ela estava, quase vinte anos depois, voltando para a África, todas as coisas sobre terras secas e desertos faziam sentido pela primeira vez. Os cabelos simplesmente se arrepiaram na minha nuca. Eu mal conseguia cantar a música. E era assim durante todas as noites da turnê.

E então nós fizemos essa chamada, convidando as pessoas à assinarem a One Campaign, uma iniciativa da DATA que nós tínhamos lançado no ano anterior para tentar e reunir os americanos para lutarem contra a AIDS e a pobreza extrema. Nós pedimos ao público para trazerem os seus telefones celulares e isso criaria esse momento do século XXI, aonde toda a arena iria se iluminar em uma galáxia com luzes de diodo. E então perguntávamos a eles, ‘O que vocês querem fazer, ligar para sua mãe, pagar a conta de gás ou assinar a One Campaign para fazer a pobreza virar história?’ É incrível o barulho que eles fazem, porque as pessoas querem fazer parte disso, e eles sentem que são parte disso, parte da geração que efetivamente pode acabar com o super-petroleiro da indiferença. E assim o show desenvolveu uma linha de atuação muito clara. Após algumas dúvidas iniciais, a banda alcançou a auge. Eu quero dizer, o Larry poderia ficar olhando para o seu relógio toda hora que eu começava o discurso na abertura de ‘One’. Ele se esquece que está sendo filmado todo o tempo, e as pessoas estão assistindo ele olhar para o seu relógio. Ele está marcando o meu tempo para ver quão longo o discurso será naquela noite. Isso não tem preço. Em Washington DC., quando tínhamos todos os políticos lá, eu discursei por quinze minutos. O Larry estava acenando atrás de mim, bem a vista de vários congressistas e suas mulheres.

Larry: Foi bem trabalhoso fazer os discursos se tornarem parte de um show de rock. Era uma luta para se conseguir o equilíbrio certo.

Edge: Algumas noites isso se transformava em uma pequena leitura e essas não eram minhas noites favoritas. Eu não gosto quando o Bono surge como um professor escolar. Mas havia noites em que isso se encaixava perfeitamente com a música. É incrível como novas idéias políticas se conectam com velhas músicas e dá à música uma nova perspectiva.

Adam: Há trinta anos, eu confio no Bono. Esse é o trabalho dele. Eu acho que noite após noite, show após show, ele é muito bom em julgar essas coisas.

Bono: Eu não consigo fazer isso todas as noites. E pra jogar limpo com a nossa audiência, existem alguns ocasionais ‘foda-se!’. Mas quanto mais pessoas quiserem escutar o que você tem pra falar, é porque eles sabem que você está falando sobre coisas importantes e que o rock ‘n’ roll sempre foi mais do que apenas divertimento. Algumas pessoas querem apenas que você se apresse. ‘Nós iremos lhe dar a droga do dinheiro, mas agora cale a boca!’. Eu gosto dos dois tipos lá. É um equilíbrio. Mas o Paul McGuiness, com a parte dos direitos humanos, tinha fumaça saindo das suas orelhas. Isso era muito engraçado. As pessoas estavam completamente aborrecidas nos bastidores, mas tudo deu certo.

Adam: O setlist era desafiador, e o público se levantou para esse desafio. Nós tínhamos alguns setlists, que poderiam mudar de noite para noite. Nós estávamos tocando sete ou oito faixas do novo álbum e cinco ou seis músicas do Boy, as quais apenas os fãs mais fervorosos do U2 poderiam ter alguma familiaridade. No final da turnê nós estávamos tocando ‘Eletric Co.’, ‘An Cat Dubh’, ‘Into The Heart’, ‘The Ocean’, ‘Out of Control’ e ocasionalmente ‘Stories For Boys’. Isso foi inspirado por um sentimento que todos nós tínhamos em comum. O jovem rapaz que passou toda a sua adolescência trabalhando para gravar o Boy, tinha agora passado vinte e cinco anos da sua maioridade trabalhando para fazer o Atomic Bomb. Eu senti que de alguma forma nós tínhamos voltado para o mesmo ponto novamente, nós estávamos revisitando esse lugar de juventude e inocência com a maturidade da vida. Eu acho que isso faz muito sentido para onde nós iremos na próxima vez.

Edge: Essas músicas estavam falando com a gente novamente, elas eram relevantes. O interessante é como elas apareceram. Alguns ensaios e nós já as tínhamos.

Adam: Essa é a coisa estranha. Era mais fácil lembrar de músicas que você tinha escrito e gravado a vinte e cinco anos atrás do que se lembrar de qualquer coisa que você tenha feito nos últimos quinze. Quando você volta para esse lugar, você não leva pra lá algum tipo de confidência, e saber disso é muito bom. Quando você está lá, você se concentra tanto em criar, em apresentar e fazer tudo funcionar, que você não necessariamente aprecia a simplicidade e a objetividade disso. ‘Eletric Co.’ realmente levantava a galera. Existem algumas coisas muito boas lá que você só consegue perceber quando tem dezoito ou dezenove anos. Os elementos eram absolutamente afiados, ao mínimo absoluto, do tipo que você precisa para se livrar disso. Depois as músicas se tornam um pouco mais complexas, no som e na produção, e então quando você as toca como seções musicais em três pedaços, elas nem sempre se encaixam direito.

Larry: Os primeiros materiais eram um pouco desafiadores. Vinte anos atrás eu tocava com pouco conhecimento do que eu estava fazendo. E essa é a beleza dessas primeiras músicas, as partes são meio que obscuras, simples e ingênuas. Eu queria tocá-las novamente com uma nova confiança, mas sem perder essa mágica. Foi legal reescrever uma pequena história.

Bono: Eu me dei a chance de escrever algumas letras para as músicas do Boy. Talvez nós tenhamos que regravá-las, agora que elas estão finalmente acabadas.

Paul: No começo do U2 havia uma falta de experiência, e eles compunham músicas melhor do que tocavam. A imaginação musical estava lá, mas a habilidade musical não estava. Mas eu me lembro o quão excitante isso era naquela época, e escutar essas primeiras músicas sendo tocadas novamente pelo U2 é incrível. A essência permanece e isso soa maravilhoso quando é tocado corretamente. Mas esse não era o principal hit do show. Se você somar o número de músicas dos dois últimos álbuns que foram executadas, mais da metade do show veio do século vinte e um. E isso é uma homenagem à real força da banda. Eles nunca foram preparados para descansar em seus triunfos. E o novo material realmente brilhou completamente com sua paixão e poder.

Bono: Algumas vezes eu imagino se toda a arte é profética. Ela diz a você o que vai surgir na sua vida ou o que vai ocorrer no mundo antes de acontecer. ‘Miracle Drug’ foi um desses momentos. É uma canção sobre a fé e sobre os milagres que Deus pode operar desafiando a ciência, e particularmente a medicina. Isto sobrecarregava o show em um nível emocional. Todas as noites. Eu não conseguia olhar para o Edge até que ele estivesse cantando. Então eu olhava para ele, agarrando–se às palavras: ‘I hear your voice it’s whispering in science and in medicine’. E isto sempre me transportava para casa, para o que sua linda filha estava vivendo, a garota mais extraordinariamente bem dotada cujo humor e inteligência a ajudaram a superar sua provação. Eu sempre dediquei esta música aos médicos e enfermeiros, pessoas que passam a vida cuidando de outras e sabem o quanto a vida é frágil.

Eu comecei a apresentar o Edge durante as notas de abertura de ‘Miracle Drug’. Eu dizia algo como: ‘Essas quatro notas me dão fé no futuro. Vocês sabem que Edge veio do futuro’. E as pessoas olhavam para mim. Eu dizia, ‘Sim, ele é do futuro e veio para ficar conosco aqui no presente’. Edge dizia, ‘Não’. Então, houve uma noite em que eu comecei a desenvolver este tema: ‘Mas ele não é do futuro deste planeta, ele veio de um planeta diferente. E na verdade, Larry, Adam e eu estávamos todos lá quando a nave dele pousou no norte de Dublin. E a nave estava fazendo este som’. As mesmas quatro notas. ‘E a porta se abriu, revelando aquela estranha criatura. Larry foi até ele e perguntou, “Quem é você?” Ele respondeu, “Eu sou The Edge”. E Adam disse, “De onde você veio?” Edge respondeu, “Eu vim do futuro”. Larry disse, “Como é o futuro?” Edge respondeu, “É melhor”.’ E então continuamos a música. Foi um daqueles momentos, quando você sorri pouco antes de começar a chorar. Mas, com certeza, eu acredito. O futuro é melhor. Estávamos todos acreditando nisto por Sian.

Paul: A primeira parte da turnê Vertigo foi extremamente difícil para todas as pessoas envolvidas porque o Bono saía frequentemente da turnê para regressar ao seu lobby político. Ele estava profundamente envolvido na campanha de preparação da conferência do G8 de líderes mundiais que inspirou a Live8. Significava que andava por vezes distraído. Passava horas ao telefone, que é o tipo de coisa que habitualmente me deixa preocupado. A maior parte dos cantores que fazem um espetáculo de dois em dois dias geralmente não participam em reuniões nem conversam com as pessoas nem freqüentam restaurantes barulhentos nem sequer falam ao telefone para poderem manter a voz. O Bono passava grande parte dos seus dias falando, mas o que é notável, sobreviveu e fez espetáculos memoráveis sem perder qualidade perceptível. Espanta-me como é que ele conseguiu, mas conseguiu quase sempre.

Bono: Há momentos em que a voz vai embora e uma pessoa pensa: ‘Fui longe demais. Devia tratar da minha voz com mais cuidado’. Mas a maior parte das vezes eu voltava daquelas marchas, comícios, reuniões ou salas de conferências e subia ao palco sentindo-me uns centímetros mais alto. Sentia-me flutuar com a expectativa sobre tudo aquilo. E sinto que Deus abençoa este trabalho. Já reparei que não podemos desistir de Deus. Sinto que fui sustentado pelas orações das pessoas, o que não me fez mal nenhum. Estou em grande forma. Os concertos foram fabulosos. Nunca tive a voz tão forte. Como é possível? É uma loucura…

Edge: O Bono parecia estar em todo o lado ao mesmo tempo. Foi fotografado com o presidente Bush e apareceu na conferência do partido Trabalhista com o Primeiro-Ministro Tony Blair, pessoas estas consideradas como os arquitetos da guerra do Iraque, um assunto melindroso para uma quantidade de pessoas, incluindo os nossos fãs. Mas acho que, nesta altura da vida, o Bono está quase imune às criticas às suas motivações e aos seus critérios. Ele o merece porque, após tantos anos de concentração e dedicação a estes assuntos, acho que as pessoas já sabem o que o move. E o Bono fala com todas as pessoas, encontra-se com todas as pessoas se achar que isso pode promover a sua causa.

Larry: Sabíamos que o Bono tinha um ponto de vista bipartidário e apesar da Guerra no Iraque ele falaria com todas as pessoas que lhe dessem ouvidos para tentar inscrever o tema da África na agenda política mundial. Em Dublin, eu marchei com outros militares irlandeses numa manifestação contra a guerra. Foi a primeira vez que marchei contra qualquer coisa. Achei que precisava fazer qualquer coisa para demonstrar os meus sentimentos sobre uma guerra ilícita. Devo confessar que depois disso foi estranho ver o Bono fotografado ao lado de Tony Blair e George W. Bush. A moral da história é que não podemos nos dar ao luxo de confundir a guerra com a África.

Adam: Limitei-me a deixar que o Bono continuasse. Ele já demonstrou ter boa capacidade para discernir. Ele se mexe muito bem nestes círculos e compreende a linguagem. Eu não me sinto à altura.

Bono: Com o Blair prestes a iniciar um período de seis meses como Presidente da União Européia, além de presidir o próximo encontro do G8 de líderes mundiais em Gleneagles, Escócia, esta parecia ser uma oportunidade única para fazer deste G8 um encontro que mudasse tudo. Tony Blair e Gordon Brown tinham levado estes assuntos muito a sério e eram os encarregados da agenda. Todos os que, no mundo inteiro, aderiram à campanha estavam com os olhos postos em nós. No Reino Unido, o cineasta Richard Curtis, tinha unido esforços com as ONGs e inventado a frase “Façam a pobreza virar História”. Eles e a sua companheira, Emma Freus, foram extraordinários. Não fizeram mais nada senão trabalhar o ano inteiro nisto. Mas o encontro aproximava-se e era preciso dramatizar, criar a ocasião. Já tínhamos conversado muitas vezes sobre a idéia de organizar outro concerto Live Aid, mas o Bob Geldof insistia sempre que isso nunca mais iria acontecer. E pior que nos dizer constantemente que não, o Bob afirmou publicamente que não aconteceria, o que não ajudou em nada. Porque, se não fosse uma espada de Damócles, seria certamente uma ameaça para os Governos, nomeadamente para o Governo Britânico, que sentiria todo o peso do Live Aid. Quando o Bob disse não, sentiu-se que tudo aquilo perdia força. Por isso, continuei a encontrar-me com ele para lhe dizer que aquilo poderia ser parte do ímpeto que faria os G8 não apenas concentrarem-se, mas de fato trabalharem em cima dos problemas de África.

Então, após o décimo primeiro assalto, o Bob concordou, e idealizou o conceito do Live8 como um acontecimento de lobbying global, com concertos transmitidos pela televisão em todos os países dos G8. Mas a estaca foi levantada em todos os sentidos, porque se falharmos haverá prejuízos. Assim, o Bob trabalhava naquilo dia e noite o que significava que nós também. O Bob não é membro da DATA, entra e sai, mas gosto de pensar que somos o seu refúgio espiritual, seu escritório, somos com toda a certeza. É preciso muita gente e muito apoio para pôr uma coisa destas de pé, por isso significou o caos para uma organização já sobrecarregada, principalmente na América onde a marca Live Aid não teve grande significado. Foi uma luta. Tínhamos seis semanas e as grandes estrelas não fazem planos com seis semanas de antecedência, mas sim com seis meses. Por isso, foi dramático tentar que as pessoas certas se unissem a nós. Foram tempos de grande tensão. Eu o adoro, é o meu ídolo, mas não foi fácil. Foi difícil vê-lo encarregar-se daquilo tudo outra vez e eu temia que o tivéssemos pressionado muito. As pessoas descrevem-no como ‘o policial bom, o policial mau’. Consideram-me mais comedido, aplicando uma espécie de tortura pela água. Ele é considerado agressivo, aplicando os punhos e a investida. A verdade é que ambos usamos todos os meios necessários, vale tudo. A única diferença é que eu aceito as duas únicas regras do combate: não vale meter os dedos nos olhos nem morder. O Bob não.

Paul: A turnê mudou-se para a Europa em junho. Faltava um mês para o Live8, por isso ainda havia muito para organizar. Entretanto, tivemos de nos mudar das arenas de esporte para os estádios, com uma produção inteiramente nova.

Larry: O público das arenas de esporte parecia controlado em comparação com as multidões dos estádios europeus, que eram selvagens. Foram alguns dos nossos melhores espetáculos de sempre.

Edge: O espetáculo funcionava melhor ao ar livre, o que não esperávamos. A primeira noite em Bruxelas foi muito elétrica e, a partir daí, não deixou de melhorar.

Bono: Houve tantos pontos altos naquela turnê. A Polônia deve ter sido o maior. Estávamos no meio de ‘New Year’s Day’ e eu me esquecera completamente que a canção fora inspirada pelo Movimento Solidariedade. Porque, nas canções do U2, a inspiração original dilui-se à medida que a canção progride. Voltei-me para beber um pouco de água e quando olhei para trás o estádio inteiro, 80.000 pessoas, tinha desaparecido sob uma bandeira vermelha e branca do Solidariedade. Evaporaram-se. Alguém tinha combinado pela rádio local e pela internet uma peça para o nosso público nos pregar. Tinham trazido cartazes que tinham sido distribuídos segundo as cores vermelha e branca e o estádio inteiro transformou-se numa única bandeira. Eu mal podia falar quanto mais cantar. Foi um momento muito emotivo para todos os presentes. Eles sabiam que os tínhamos apoiado naquele momento em que tinham entrado em greve pela Democracia e queriam demonstrar-nos que se lembravam.

Foi o início de uma nova moda que nos acompanhou a turnê inteira. Em Montreal, quando regressamos da América do Norte, durante ‘Sometimes You Can Make In Your Own’, o estádio inteiro ficou vermelho e roxo. Todas as pessoas tinham trazido umas luzes e tinham combinado acendê-las durante ‘Sometimes’. Assim, há um novo aspecto viral relacionado com as atuações ao ar livre onde o público como que se encarrega da direção artística. É bizarro, mas é brilhante. Aquela turnê foi uma maravilha. E havia o Live8, é claro. Devido ao seu anúncio tardio, tínhamos outros compromissos para cumprir. O U2 tinha um concerto programado para Viena naquela noite, mas abrimos o acontecimento em Hyde Park, em Londres, com o Paul McCartney, e foi sensacional estar ali com o Mac.

Larry: Estava muito excitado por tocar com o Paul McCartney, embora ficasse igualmente feliz por tocar tamborim se o Ringo tocasse bateria. Ensaiamos uma vez em Londres, na véspera do espetáculo. O McCartney foi um cavalheiro. Trouxe a sua banda, para o caso de não sabermos tocar a canção. Mas eu nunca iria ensaiar com o Paul McCartney sem saber o que estava fazendo. Tinha estudado inúmeras vezes as minhas partes de ‘Sergeant Pepper’s Lonely Hearts Club Band’. A banda dele não foi necessária, felizmente.

Bono: Tive a idéia de tocarmos o ‘Sergeant Pepper’ para convencer o Bob de que conseguíamos encenar o Live 8 com uma dramaticidade. O Bob disse: ‘Sim, genial, o Sargeant Pepper’, e eu disse: ‘Mas você percebe onde eu quero chegar, não percebe?’ E ocorreu-me de repente que fazia vinte anos. Eu sabia que lhe custaria muito resistir. A idéia original era termos todas as pessoas do nosso tempo no palco, da mesma maneira que os Beatles tiveram todas as pessoas do tempo deles na capa do álbum do ‘Sergeant Pepper’. Por isso, eu queria no palco o Bill Gates, atores, futebolistas, filósofos, políticos, modelos, todas as estrelas pop, magnatas, todos os apoiadores da campanha pela Anulação da Dívida, num quadro vivo, um mural vivo. Talvez fosse muito ambicioso, mas, por acaso, o Bill Gates estava de pé de um dos lados do palco quando nós atuamos. E pensei que podíamos vestir-nos com os trajes do Sergeant Pepper. Nós até mandamos fazer os nossos, mas o McCartney disse: ‘Deixem os da banda dos metais vesti-los e nós sejamos apenas nós’.

Paul: Ninguém sabia tocar as partes dos metais, que se tinham perdido há muito. Conseguimos finalmente localizar Sir George Martin, no Canadá, e ele foi a uma loja de discos, comprou o CD, escreveu as partes que faltavam e as mandou por fax na véspera do ensaio.

Edge: O Paul disse-nos que nunca tinha tocado o ‘Sergeant Pepper’. Tinham-no gravado em estúdio e, naquele momento, os Beatles tinham deixado de andar em turnê, por isso ele só cantou uma vez. Quando chegou ao ensaio para tocar conosco foi a única vez em tantos anos que ele cantou aquela canção ou tocou a parte da guitarra. Foi uma experiência eletrizante. Ele ainda tem uma voz esplêndida, é um grande músico. A princípio, o ensaio foi um pouco difícil. Sendo nós a pior banda de imitadores do mundo, pensei ‘Este não é o melhor momento para todos perceberem porque é que nós começamos a escrever as nossas próprias canções’. Mas, no fim me senti feliz.

Adam: Os Beatles foram uma influência muito importante para todos nós, e estar em uma sala de ensaios com o Paul McCartney, tocando uma das suas músicas, era como se um sonho estivesse se realizando. Eu não me esqueci que ele era o baixista no The Beatles. Eu certamente não queria tocar as notas de maneira diferente do jeito que ele sabia. O Edge me orientou e nós passamos algum tempo escutando o original, e já tínhamos quase tudo pronto quando o McCartney chegou. Isso parecia um pouco como uma aula. Enquanto ele não brigasse comigo por não ter feito o dever de casa certo, estava tudo bem.

Bono: O Paul é uma personalidade muito mais dimensional do que as pessoas imaginam. Ele entrou no nosso camarim antes do show para ver o que nós estávamos escutando. Ele achou uma jaqueta no canto do nosso camarim. ‘Isso é uma Christian Dior?’, ele perguntou. Sharon, a nossa estilista disse, ‘Sim, bem visto’. Ele disse, ‘A Stella acabou de comprar uma dessa pra mim. Quem está usando isso?’ ‘Bono’. ‘Escute homem’, o Paul disse, ‘Nós dois não podemos usar a mesma jaqueta agora, não é?’ Ele começou a achar graça, e eu também… até perceber que um Beatle tinha escondido o meu roupão de palco. O mesmo cara que provavelmente inventou o mop top (corte de cabelo típico dos Beatles) e que trabalhou junto com o seu empresário criando essas roupas dos Beatles, poderia ter desenhado uma etiqueta para arrecadar com isso, o que é bem impressionante. De qualquer forma, eu acabei passando o grande dia vestido em um macacão, parecendo um mecânico. Apesar de tudo, esse era o carro do Paul.

Depois, quando nós estávamos indo para o palco, ele veio e nos parou, na frente de todo mundo, e disse, ‘Nós podemos parar por um segundo?’ Ele nos abraçou e fez uma linda oração sobre como a ‘música é o que nós fazemos e nós damos a nossa música para o Nosso trabalho, Senhor. Nesse dia, use-nos’. Nós geralmente fazemos alguma oração antes de começar, nós paramos e pedimos por uma benção durante o show. Algumas pessoas fazem isso de uma forma muito barulhenta, quase que teatral, como se eles quisessem que Jesus tocasse o tamborim. Mas esse foi um momento muito especial para mim. Eu pensei, ‘Wow, uma benção do Beatle’. Eu estava fazendo a segunda voz. Ficar sobre os sapatos do John foi uma grande sensação. Eu não conseguia tirar o sorriso do meu rosto. E foi adorável soltar os pombos durante ‘Beautiful Day’ e os ver voando em círculos sobre as nossas cabeças.

Paul: Após a apresentação do U2, nós colocamos tudo dentro de um helicóptero, e mandamos tudo, os equipamentos e a banda para RAF Northolt e voamos de volta para Viena bem em tempo de fazermos o nosso show. Eu quero dizer, nós tínhamos os recursos e a força de trabalho para fazer isso, mas isso foi muito prazeroso.

Larry: Nós chegamos mais ou menos uma hora e meia depois. Como era de se esperar, a apresentação em Viena não foi o melhor show que nós já fizemos.

Bono: A outra semana foi uma loucura, porque eu tinha que ficar indo e vindo do G8 Summit na Escócia enquanto fazíamos show por toda a Europa. Assim eu dormi muito pouco durante algumas semanas. Eram quatro horas por noite. Eu cantei com o The Corrs no encerramento do Live8 no estádio Murrayfield em Edimburgo. Eu amo os Corrs. A Andrea lá como cantora. O Johnny Borrell, o grande e jovem líder do Razorlight, me deu uma rosa no caminho para o palco e eu dei para a Andrea. Esse foi um momento muito gentil, um flerte com uma amiga muito próxima, em frente a um milhão dos meus amigos mais próximos. Enquanto isso, a reunião estava acabando em Gleneagles. É incrível que nós tínhamos conseguido os passes. O Reino Unido estava sediando o evento e por alguma razão eles deixaram a gente participar. Estavam lá os oito dos homens mais poderosos do mundo, em um campo de golfe na Escócia, e eu, o Bob Geldof, Richard Curtis, escritor e diretor, Emma Freud e o pessoal do Make Poverty History. Nós éramos como um enxame de abelhas polinizando diferentes plantas, indo de um campo para o outro. Tomamos o café da manhã com o presidente Chirac, tentando fazê-lo concordar com um acordo sobre o comércio. E ele dizia que a França não poderia fazer isso sem os americanos. Aí nós fomos ver o Bush e lhe falamos isso. Nós podíamos falar diretamente com eles, ao invés dos seus funcionários civis com quem tínhamos nos encontrado durante seis meses, tentando negociar esses acordos.

Um dos encontros que eu tenho mais orgulho durante esses seis meses, foi quando eu entrei de penetra em uma conferência na 10 Downing Street. Era um encontro de sherpas, que é o nome para os negociadores. E o clima entre os sherpas era realmente muito ruim, eles não estavam chegando em lugar algum. Através das minhas relações com o Tony Blair, eu pude falar com eles por vinte minutos. Eu lhes disse que o que nós acreditávamos era no perigo e em fazê-los acharem graça, tentar fazer eles se mexerem, tentando fazer eles perceberem que a história estava nas mãos deles, não nas dos seus líderes, e que os acordos poderiam ser feitos ou desfeitos baseados em pequenas impressões. Eu pedi que eles olhassem para os números, olhar para as estatísticas e tentar imaginar um futuro diferente onde nós não aceitemos que doenças, como a malária, ainda estejam entre a gente e que não tenhamos nada para fazer sobre isso. Lá havia tudo o que nós podíamos fazer sobre isso e isso poderia ser tudo, mas erradicá-la em cinco a dez anos – se eles permitirem que certas decisões sejam adotadas. Eu sugeri que quando eles olhassem pra trás, pra suas vidas, isso seria algo do qual eles teriam orgulho e que a dor valeria à pena.

Isso foi um mês antes. Então agora, voltando para o G8, eles foram o mais longe que eles puderam, mas ainda não foi longe o suficiente. E eles não estão se falando e isso é muito tenso. Eu acho que de uma certa forma, nós nos tornamos um canal entre um líder e outro, o que é meio bizarro. Nós estávamos atrasados para o encontro com o chanceler alemão, Gerhard Schroeder, porque estávamos com o presidente Bush. Ele estava lá em cima reclamando, ‘Onde estão esses malucos?’ Nós nos encontramos e pedimos desculpas e ele meio que relaxou, aí saímos do hotel, fomos para uma esquina, qualquer lugar onde conseguíssemos uma cerveja, porque o Schroeder gosta de tomar uma cerveja para relaxar. E nós começamos a conversar. Ele já estava em uma situação realmente interessante. Os alemães gastam todo ano 4% do GDP para a reunificação do seu país. A sua economia está com grandes problemas. Eles têm a maior taxa de desemprego faz décadas e ele está enfrentando uma nova eleição. O que você acha que a maioria dos seus eleitores irão achar dele se ele estiver mandando mais dinheiro para fora do país, e não para os alemães, mas sim para a África? É preciso muita coragem pra fazer isso. Não é nada louvável o que eles estão procurando, mas esses políticos precisam sentir que há popularidade no propósito deles sobreviverem na suas casas. E assim como fé e destino poderiam levar a isso, o U2 estava em turnê na Alemanha no mesmo período em que estávamos fazendo as negociações. E eu tive que sair do palco e dizer, ‘O seu chanceler…’ e metade do público aplaudiu e a outra metade vaiou. Eu digo, ‘Não, parem com isso, me escutem. O seu chanceler fez parte de um movimento histórico, dando a várias das mais pobres nações do mundo um novo começo, cancelando as suas velhas dívidas’. Aí a platéia aplaudiu isso. Então eu disse, ‘Se ele voltar de Gleneagles, da reunião do G8, e ele já tiver assinado isso lá, vocês deveriam aplaudi-lo’. Então eles o aplaudiram. Eu disse, ‘Se ele voltar pra casa depois de Gleneagles, tendo assinado um cheque de mais de 0.7% e cinqüenta bilhões de dólares, como nós temos pedido pra ele assinar, pedimos para que vocês o recebam como um herói. Se ele não voltar, vocês podem fazer o que quiserem’. E, é claro, o Schroeder ficou sabendo disso. Ele começou a perceber que esse assunto ganhou uma grande torcida. Ele pode ver que todos nós iremos ficar do lado dele se ele fizer o que nós lhe pedimos. E ele concordou em sentir essa dor. Ele fez a coisa certa, mesmo sabendo que ele iria enfrentar uma eleição.

Então nós tínhamos que nos sentar nesses encontros, e o humor era eletrizante. Como eu disse, George Bush é um comediante. Qualquer coisa que você possa sentir sobre ele, eu posso lhe dizer que ele é uma pessoa muito agradável. Eu andava pelo corredor, ele aparecia e ficava chamando a atenção. ‘Aqui está o presidente’, ele disse, ‘O que você quer fazer dessa vez, Bono?’ Agora esse é um cara que sabe de que lado eu fico em uma guerra – a uma longa, longa distância de onde ele esteja – de quem sabe que há tantas coisas que nós nunca iremos ver com os nossos próprios olhos, e mesmo assim o líder do mundo liberal nos deixou entrar na sua sala e ficamos lá por uma hora, balançando a árvore no último minuto, empurrando a malária e empurrando a educação infantil, tendo certeza que essas coisas irão acabar no comunicado.

Com o Blair, nós dizíamos, ‘Você poderia reunir todos os líderes para ler o comunicado? Existe alguma coisa que você possa fazer para torná-lo mais poético do que o usual? Alguma coisa como uma declaração, um novo começo’. Nós não entendíamos esse tipo de linguagem. Mas era muito tarde pra isso. Mas ele conseguiu que todos os líderes assinassem de próprio punho o comunicado, uma coisa que nunca tinha sido feita antes. Porque, quanto mais impressões digitais deles estiverem no documento, mais eles estarão pessoalmente associados à isso, mais fácil será fazer com que eles cumpram as promessas lá contidas. Nós precisávamos de um caixa de cinqüenta bilhões de dólares, e bem no último minuto eles não iriam mais assinar isso. E mesmo sabendo que assinar isso é bem diferente do que assinar o cheque, você não pode descontá-lo sem as suas assinaturas e isso era uma grande novidade. Algumas pessoas desdenharam isso. Eles acharam que cinqüenta bilhões de dólares não eram suficientes. Eles estão certos. Mas era isso que nós estávamos pedindo. Sentíamos que essa era uma quantidade respeitável, considerando o clima da economia. Se tivéssemos tentando por algo ainda maior, eles não teriam assinado. Foi um ato pensado. Até que nós tenhamos participação maior das pessoas na Alemanha, na França e nos Estados Unidos, nós temos que balancear as nossas demandas com as demandas desses países doadores, que também precisam de hospitais e escolas. É claro que eles não estão em uma situação de emergência como a África e que não acho que seja necessária tal comparação, mas alguns dos seus constituintes acham. Até que nós os eduquemos ao nível da emergência dos países em desenvolvimento, as nossas demandas devem ser estratégicas.

Edge: Em Toronto, durante os ensaios para a segunda fase americana da turnê, nós nos encontramos com o produtor Bob Erzin. Nós conversamos sobre o desastre do furacão Katrina, que tinha devastado Nova Orleans e decidimos que iríamos fazer alguma coisa por esses músicos da região do golfo que tinham perdido o seu sustento. Nós criamos a iniciativa do Music Rising com Henry Juszkiewicz, das guitarras Gibson, e dentro de dois meses nós começamos a repor os instrumentos perdidos no furacão. Eu visitei Nova Orleans depois, durante a turnê, para entregar pessoalmente alguns instrumentos. A última vez que eu tinha estado lá foi para a nossa apresentação no Superbowl em 2002. Ver a cidade quase completamente destruída foi um grande choque.

Para a nossa segunda fase da turnê americana, nós fizemos em arenas. Isso provavelmente deveria ter sido uma turnê para estádios, mas por causa da falta dos ingressos quando a primeira fase foi à venda, nós colocamos a segunda à venda mais cedo, e fazendo isso nos comprometemos em tocar nos lugares que já tínhamos combinado. Em retrospecto, nós resolvemos um problema, mas com os seus custos. Nós certamente poderíamos ter vendido os ingressos. Mas os shows em estádios estavam funcionando. Estávamos fazendo algumas das melhores apresentações das nossas vidas.

Paul: Essa era uma América piedosa, perdida nos shows nos estádios. Nós levamos isso para o resto do mundo e, eu suponho como sendo um problema parcialmente de orgulho, eu gostaria de ter levado isso apenas para a América, simplesmente porque eu acho que isso iria chocar as pessoas.

Larry: As datas continuavam sendo adicionadas. A turnê se estendeu até 2006 para a América do Sul. Uma coisa sobre o U2, muito nunca é o suficiente.

Adam: Nós fomos para Los Angeles participar do Grammy Awards em 8 de fevereiro de 2006, para encerrar o ano tocando ‘Vertigo’ e uma versão de ‘One’ com a Mary J. Blide. Nós tínhamos ganhado três Grammies no ano anterior no começo dessa campanha, então dessa vez nós estávamos nos concentrando nas nossas apresentações ao invés de estar lá para coletar os gongos. Foi uma grande surpresa quando nós acabamos ganhando cinco prêmios, incluindo o álbum do ano. Isso simplesmente nos enlouqueceu. Entre as duas cerimônias, nós acumulamos oito Grammies. Isso não podia ficar melhor. Era a confirmação que esse álbum tinha sido aceito, ele entrou na cultura e fez tudo o que você poderia querer que um álbum fizesse. Teve muita alegria, e muito vinho sendo bebido. A experiência recarregou a banda e, em um sentido, nos deu mais uma razão para ir lá e fazer mais shows na América Latina. Tinha uma grande procura pelos ingressos. Em alguns desses shows, havia tantas pessoas dentro quanto fora do estádio. O fervor da audiência no hemisfério sul, onde eles não têm muito dessas grandes produções, pode ser impressionante. Uma das coisas que eu adorei nessa turnê é você realmente pode representar essas músicas com o baixo, a guitarra e a bateria e eles soam muito poderosas. Há uma lição real a ser aprendida lá. Se nós conseguirmos fazer essas músicas funcionarem sem muitos ajustes, elas são as melhores pra isso.

Bono: Nós estávamos ficando mais próximos das músicas que ouvíamos nas nossas cabeças, mas ainda não estávamos lá. Nós tínhamos que levar isso para o próximo nível.

Larry: Você só pode existir nesse nível através da fé, de uma ambição cega ou pela necessidade de revanche. Ou todos os três. Tivemos grandes momentos de composição, grandes letras. Não há razão, se você não estiver tentando melhorar o seu último álbum. Nós estávamos tentando. Nós queríamos fazer um álbum que fluísse do começo ao fim, que satisfizesse musicalmente, emocionalmente e liricamente. Tem que ter pelo menos quatro singles que alcance o top 40 nas rádios. Nós queremos isso tudo e queremos isso em algum momento durante os próximos cinco anos! Isso é tudo!

Edge: Nós realmente não queremos fazer álbuns ruins. Depois de todo esse tempo nós já sabemos o que é um grande álbum. E às vezes é difícil, porque com dezoito anos você está imerso em música 24 horas/7 dias na semana, e o que nós estávamos acostumados a fazer instintivamente antes, agora temos que nos esforçar para conseguir porque existem muito mais distrações. Mas, em termos de composição, eu sou melhor do que eu era, depois de um longo caminho, estou mais esperto e sei o que funciona. O Larry é um baterista melhor, o Adam é um baixista melhor e o Bono é um melhor compositor e cantor. Isso apenas leva um pouco mais de tempo nos dias de hoje, porque temos que gastar um tempo para chegar aonde queremos ir. Existem mais começos falsos, eu acho.

Adam: É difícil se manter operando nesse nível, requer um comprometimento tremendo, mas enquanto as pessoas estiverem dispostas a assumir esse compromisso, isso valerá à pena.

Larry: Nós provavelmente não somos bons suficientes para repetir os nossos melhores momentos, entretanto, nós tentamos ocasionalmente. Acho que agora nós fazemos melhores músicas e temos melhores idéias. Nada de turnê com os greatest hits.

Bono: Eu não acho que alguém ache que esse é um trabalho para o resto da vida. Eu acho que seja saudável imaginar que isso sempre estará lá. Eu sempre digo, dois álbuns ruins seguidos, e nós estamos fora. Isso, e o malandro gordo, podem terminar essa operação. O preço da admissão é um nível de comprometimento, e isso pode ir ficando cada vez mais difícil para algumas pessoas, ou mesmo para mim. Nós podemos não querer ir pra academia, eles podem apenas não querer alguém criticando o trabalho deles. Isso fica difícil. Depois que você volta pra casa, você retorna para ser o dono dos seus próprios domínios. Esse é o caminho dos machos, em particular. Eles se livram dos argumentos até que não tenham mais nenhum, exceto pessoas que concordam com eles. Isso é incompreensível. Mas eu gosto de um argumento.

Larry: O Bono sempre foi maior do que a vida. Ele traz muito para as pessoas que o conhecem. É muito generoso e além de ser uma boa companhia. Ele também é extremamente complexo. Você não sabe o que se passa naquela cabeça dele e você pode não querer saber. Ele tem um explosivo, um lado imprevisível dele. Ele tem um apetite insaciável por aventuras e ele irá fazer praticamente tudo e ir a qualquer lugar para satisfazer isso. Ser tão bem sucedido quanto ele tem o seu lado ruim, as oportunidades a ele dadas são incríveis, e as responsabilidades que vêm com isso são imensas. É extraordinário como ele consegue sobreviver e conduzir isso. A sua fé é a sua ancora e eu acho que é isso que lhe permite navegar por esses caminhos e voltar incólume. Quanto mais bem sucedido e famoso ele fica fora do U2, mais difícil é conseguir uma oportunidade para falar com ele e sair para passear do jeito que nós fazíamos, mas essa é a vida.

Bono: O meu dom é que eu sou um cantor, um escritor e um performance. Eu poderia ter aprendido outras habilidades para proteger esse dom, e esses dons parecem servir no ativismo político. Mas eu estou mais excitado em me perder nas músicas novamente. Em um futuro próximo, eu irei fechar a porta do ativismo, do comércio e de outras idéias que me engajei, e vou trancar bem apertado, pelo menos por um tempo, e me focar apenas em compor e fazer músicas. Eu preciso dessa banda. A verdade é que eu preciso mais deles, do que eles precisam de mim. Esse é o jeito como eu sou estranho. Eles sustentam o meu jogo. Eu ficaria aterrorizado de estar em um estúdio de gravação sozinho, ou apenas com pessoas que estão trabalhando. Essa é a minha definição do inferno da terra. Você é tão bom quanto os argumentos que você tem. Eu sou uma pessoa melhor por poder ficar perto desses caras. Eles são pessoas muito dignas. Eu tenho certeza que lhes dei muitas dores de cabeça, dores de coração, ataques de ansiedade e muitas noites de insônia. Mas eu também gosto de pensar que eu lhes dei algumas alegrias e algumas aventuras.

Edge: Eu acho que nós conseguimos nos manter unidos porque nós crescemos juntos. Nós sabemos como isso funciona. Cada um descobriu a sua forma de contribuir para a banda. Elas não são necessariamente iguais, mas as nossas quatro contribuições são cruciais. Por razões que eu realmente não consigo entender, isso funciona com as quatro peças, quatro vozes, quatro intelectos, quatro opiniões. Sem isso são seria a mesma coisa. É sobre uma questão de solidariedade entre quatro pessoas que selaram um compromisso ainda nos anos setenta. E a razão pela qual isso era uma boa idéia naquela época, ainda é verdade. Nós ainda podemos, nos nossos dias, fazer grandes músicas juntos, ter grandes idéias e fazer grandes shows. Isso é uma coisa que todos nós damos muito valor. Saber que você faz o seu melhor trabalho nesse contexto, lhe dá um grande incentivo para continuar. Se fossemos capaz de nos separarmos e seguir carreira solo de sucesso, teria sido muito mais difícil nos mantermos unidos. Mas eu acho que todos nós sabemos, bem lá no fundo, que esse é o palco no qual todos nós realmente nos destacamos. O dia em que o U2 acabar será um dia muito triste para todos nós.

Paul: É muito estranho que os mesmos cinco caras estejam trabalhando juntos por quase trinta anos. Isso tem sido muito difícil durante alguns momentos e teve lágrimas e raiva assim como também muita diversão e alegria. Eu acho que nós somos bons estando juntos e bons mantendo as nossas distâncias. O Bono tem uma linha que tem quatro pessoas na banda e cinco no quadro. Eu gosto de trabalhar com o U2 porque eles conseguem tirar de mim todas as minhas habilidades; tem arte e comércio, política e história. Eu nunca fui um músico, frustrado ou não. Eu sou um bom crítico do material, esteja ele acabado ou quase. Nas primeiras etapas de uma música eu não acho que seja muito crítico. Tenho muito orgulho do U2 e a criatividade que eles têm alcançado durante esses anos. Também tenho orgulho do que nós alcançamos juntos nos negócios. Sempre concordamos que seria patético sermos bons na música e mal nos negócios.

Bono: É uma unidade de trabalho muito eficiente, uma banda, porque você tem um cérebro maior do que o da maioria dos artistas. É melhor quatro cérebros do que um. Há muito menos solidão e geralmente mais diversão. E especialmente no ar rarefeito da fama e fortuna, é um raro privilégio estar na companhia das pessoas com quem você começou e que conseguem ver através de você. Nós trazemos o melhor de cada, não o pior, o que é o que muitas bandas fazem. As relações humanas têm uma tendência à desmoronarem – casamentos, famílias, amizades, parece que existe uma certa entropia que doa para o que você não deveria. E quando você não o faz, você luta por isso. E isso é muito para se lutar. Permanecer junto é a parte mais difícil de tudo, mas é a mais gratificante.

Edge: Eu não acho que nenhum de nós tem inveja do outro. O Adam e o Larry provavelmente gostariam de estar mais envolvidos com a composição das músicas, mas ao mesmo tempo, ninguém é deixado de fora do processo e quando eles surgem com alguma coisa, isso é levado bem a sério. Não há nenhuma demarcação, nenhuma preciosidade. Se eu estiver trabalhando com a parte da guitarra, e de alguma forma ela não é tão boa quanto deveria, o Larry me deixará saber. É bem aberto, uma atitude saudável. Acho que aprendemos que os egos devem ser deixados do lado de fora quando você entra em um estúdio. Você pode ter um ego da banda, de fato isso é essencial quando você está determinado a fazer alguma coisa maravilhosa acontecer. Mas desligue o seu lado pessoal disso. Ninguém se irrita porque a sua idéia foi aceita ou não. É a melhor idéia que ganha.

Larry: O Edge é o herói não glorificado. No nível musical, ele tem uma percepção muito real, mas ele não é tão precioso com o que ele faz. Mesmo achando que talvez ele trabalhe o dobro a mais do qualquer outro, ele aceita as críticas e está aberto a discussões porque sabe que todos nós queremos as mesmas coisas da música. Eu aprendi a nunca subestimá-lo. Ele é teimoso e incansável na busca pela música perfeita, o som perfeito, a idéia perfeita, sempre procurando por inspirações. São poucas as pessoas que sabem o que se passa sobre aquele exterior frio.

Bono: O Edge tem o melhor sistema nervoso de todos, é que quando as coisas ficam realmente sérias, ele fica realmente cômico. Então ele sempre puxa o seu tapete se você começar a ficar muito sério. O Larry, pelo outro lado, se assegura de que você está levando as coisas à sério quando você está sendo muito irreverente. O Larry adora a clareza. E eu também. Então, nós estamos sempre procurando o melhor, a melodia certa, o que realmente está acontecendo na sala. Nós somos muito parecidos nesse sentido, entretanto ele não gosta de confusão e eu me divirto com isso. Parece ser parte do processo criativo, para mim. Para conseguir essa clareza, você precisa estar preparado para agitar as coisas.

Larry: Eu dei à esses caras o seu primeiro trabalho quando pus o aviso no quadro do colégio. Algumas vezes eu tentei ingenuamente proteger alguns aspectos da banda. No entanto, estou aprendendo a deixar isso pra lá. Depois de trinta anos é uma coisa muito legal ainda estar fazendo música com os meus amigos.

Bono: Você pode achar que pessoas que cresceram juntos, trabalharam juntos, tocaram juntos e passaram a maior parte do tempo na companhia do outro durante a sua adolescência e vida adulta, poderiam de alguma forma acabar na mesma, mas nós somos todos muito diferentes. E ainda, nós tomos nos modelamos. O Adam sempre foi diferente de mim, ele era diferente de todos nós, e ele tinha que andar em uma via separada, porque ele era um indivíduo em uma banda de irmãos de Deus. O Adam ainda me fez pensar muito sobre a minha vida espiritual, a cuidar melhor de mim e ver as coisas de uma outra perspectiva. Ele nasceu um homem velho. Quando ele tinha dezesseis anos reclamava da falta de calor na escola e das nossas salas de ensaio. Nós usávamos chinelo e pijamas pela casa quando ele já era um adolescente. Mas esse era um sinal precoce que um sábio homem estava à caminho. E talvez isso tenha sido horrível pra ele ter que passar por todas essas experiências difíceis para conseguir alcançar esse nível de conhecimento, mas essa foi a sua jornada, e ele está lá agora. Ele está entrando em alguma coisa ao invés de estar saindo.

Adam: Eu não acho que antes do U2 eu estava destinado a nenhum tipo de poder na minha vida. A melhor decisão que eu já tomei foi ter entrado para o U2 e eu acho que eu nunca tive que tomar nenhuma outra decisão tão séria desde essa. Eu sou eternamente grato por essa banda ter ido tão longe. Isso nunca foi muito fácil, mas eu provavelmente fiz as coisas ficarem mais difíceis pra mim. Por um longo período eu acreditei no mito do rock’n’roll de adquirir experiência sem responsabilidades. Eu escolhi lidar com o fato de estar na banda de uma maneira muito singular e desenvolvi um estilo de vida que achei que combinava com o que eu era. Eu não quero voltar lá de novo, e para isso eu desenvolvi um programa de doze passos que me dava as ferramentas necessárias para que eu olhasse a forma como eu estava vivendo a minha vida e lidar com as coisas básicas do dia-a-dia. Eu aprendi muito sobre mim mesmo, mas ao mesmo tempo, eu não necessariamente acho que percorri um longo caminho. Acho que ainda sou basicamente a mesma pessoa que eu sempre fui. Eu opero em um nível em que me sinto confortável. Eu não acho que eu me sentiria confortável me encontrando com políticos ou fazendo qualquer uma das coisas que o Bono faz tão soberbamente. E o Edge está completamente encaixado na área técnica em que ele trabalha. Eu não sinto que eu estou melhor equipado nessas áreas, do que eu estava quando nos encontramos pela primeira vez aos dezesseis anos. Mas estou definitivamente mais confortável com a minha pele, e eu acho que isso já é alguma coisa.

Bono: Eu me sinto uma pessoa muito mais completa agora. Parece que eu resolvi muitas questões com o meu pai. Alguma coisa aconteceu na última Páscoa. Eu fui nessa pequena capela na França, acendi uma vela, me ajoelhei e lagrimei, mas agradeci à Deus pelo meu pai. E agradeci ao meu pai por todos os presentes que ele me deu. Foi uma sensação muito boa. A razão pela qual ´Sometimes You Can´t Make It On Your Own` não é uma música miserável é porque ela se abre com a linha ´you´re the reason I sing, you´re the reason the opera is in me` (´você é a razão pela qual eu canto, você é a razão pela qual a ópera está em mim`). Ele é a razão pela qual eu tenho essa vida, ou pelo menos, uma grande parte dessa razão. Eu certamente fui levado à um lugar de paz com ele. Eu agradeço à Deus diariamente pela minha vida no U2, porque não apenas esse trabalho colocou o meu talento em uso, ele colocou as minhas inseguranças e fraquezas. Esse é o meu milagre. Então o vazio que você sente pela ausência ou o desejo de ter um significado e um propósito pra sua vida, tudo isso dói, e isso é perfeito para as performances, porque você está tentando preencher o vazio de Deus com a multidão, a sua audiência. Eu não vou ao terapeuta. Se eu tivesse tempo, talvez eu poderia me deitar num sofá e pagar algumas centenas de libras por hora pra alguém ficar me dizendo o que meus amigos poderiam me dizer durante uma noitada em Dublin. Mas por enquanto eu prefiro ficar com as noites e as músicas. Para mim, compor músicas é o lugar onde eu posso mentir. É o lugar onde você tem que se enfrentar. A definição de arte do U2 é abrir o externo, uma cirurgia de coração aberto. Eu queria que existisse um caminho mais fácil, mas, no final, as pessoas querem sangue, e eu sou um deles.

Larry: Há muita alegria no U2. Infelizmente, isso raramente é exposto. Nós somos como uma família disfuncional, com todas as suas alegrias e choros. As personalidades não irão separar o U2. Diferenças musicais não irão separar o U2. Nós iremos nos separar porque alguém espremeu o tubo da pasta de dentes do lado errado.

Edge: Nós ainda somos uma banda em atividade, e enquanto esse livro tem sido uma oportunidade para olharmos para o passado, a verdade é que nós realmente não queremos insistir muito no passado para que ele não entre no caminho do lugar para onde estamos indo no futuro. Ainda estamos aprendendo após trinta anos e tudo é por causa disso. Ainda somos todos fascinados por música, o que isso significa para as pessoas quando ela é maravilhosa, e o que ela significa pra gente. Tendo conseguido durar por todo esse tempo, nós não queremos acabar sem que haja uma briga. Se o rock’n’roll durar mais quinhentos anos, será porque as pessoas ainda irão escrever grandes músicas. Isso tudo é sobre a música e conseguir uma boa música é difícil, muito difícil. O que não significa que tudo o que fazemos é maravilhoso. Desde que nós éramos uma banda punk, nós gravamos todas as nossas jans e ensaios, nossos improvisos e idéias, e se as pessoas escutassem todas essas fitas não lançadas, acredite em mim, iria confirmar tudo o que nós já dissemos sobre o U2 ser uma banda disfuncional. Se o trabalho é ótimo, é ótimo apesar da gente, não por causa da gente. Honestamente, eu ainda continuo pensando na gente como quatro oportunistas do norte de Dublin. Nós nos prometemos que iremos comprar algum sofisticado dispositivo incendiário para a nossa sacola de fitas, de forma que se o nosso avião cair, tudo irá se incendiar.