2002/2006 - Until the End of the World | U2 Brasil

 

2002/2006 – Until the End of the World

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Páginas 312 a 321
Bono

Nós voltamos daquela turnê com fogo de verdade em nossos ventres e pensamos, ‘Uau, se pudéssemos engarrafar isto, que tipo de elixir louco teríamos?’

Então nós enviamos nosso engenheiro, Richie Rainey, para as areias do Sul da França para que ele encontrasse um lugar onde pudéssemos ensaiar.

Edge: Nos instalamos em uma velha e decadente boate dos anos setenta em Monte Carlo. As sessões de Mônaco, acho que você pode chamar assim. Havia uma certa ressonância no local.

Bono: Na verdade era um porão consumido pelo fogo. E tinha o som de um porão, que é um som de hard rock. A banda ainda estava flexível por causa da turnê e estávamos tocando muito bem juntos e queríamos capturar um pouco daquele espírito, que era mais de fibra (spunk) do que punk.

Paul: Sempre há muita energia no ar no final de uma turnê, e pedaços de músicas inacabadas, as pessoas se sentem muito desorientadas, então eu acho que a teoria era que seria bom ver se algumas delas poderiam se tornar músicas para o próximo álbum.

Larry: Mesmo que estivéssemos um pouco acabados depois de uma longa turnê, decidimos passar três ou quatro semanas em um estúdio improvisado arremessando idéias. Foi um tempo bem gasto.

Edge: Precipitar–se de uma coisa para a próxima pode fazer com que você aproveite o momento, mas você não tem chance de emergir para um pouco de ar. Parte do que ainda mantém a banda relevante é o fato de que na verdade nós temos uma vida, fazemos coisas normais, saímos com amigos, curtimos nossas famílias. Isto é muito importante para o trabalho, eu acho. Nestes dias nós podemos dar um tempo com os projetos. Nós não estamos arrasados financeiramente, então nós realmente podemos tentar até conseguir algo legal. Mas algumas das coisas de Mônaco acabaram sendo o início do nosso novo álbum, além disso trabalhamos em ‘Eletrical Storm’ e ‘The Hands That Built America’ que se tornaram parte do nosso próximo Best Of.

Paul: Um dos grandes privilégios de se ter uma carreira longa é que, até certo ponto, você pode escrever sua própria história. Houve muito trabalho para o lançamento do segundo álbum Best Of 1990 – 2000. Foi muito bom ver todos esses grandes projetos tão bem feitos. Sempre estivemos conscientes dos aspectos mitológicos de uma grande banda, assim como eu acho que os Beatles eram e os Rolling Stones são. Eu não acho que seja surpresa que o U2 seja protetor da forma como as pessoas os respeitam. Então, compilar algo como aquilo, decidir o que vai e o que não vai para o álbum, remasterizar, melhorar a qualidade dos vídeos, tudo tende a levar um longo tempo.

Larry: Os álbuns Best Of dão à você uma oportunidade para rever e apreciar o seu trabalho. Bem, na maioria das vezes. Nós tivemos a chance de remixar algumas das faixas do Pop o que ajudou um pouco, mas não adormeceu o fantasma do Pop. Eu ainda tenho esta idéia provavelmente maluca de que nós deveríamos terminar aquelas músicas um dia.

Adam: Nós tínhamos materiais que não entraram no All That You Can’t Leave Behind nem nas sessões de Mônaco, e Bono achou que deveríamos esquecer completamente o Greatest Hits e preparar um novo álbum de estúdio. Eu acho que aquilo foi meio desnecessário. Nós levamos três ou quatro meses só para completar duas músicas novas, então ficamos presos ao Best Of.

Bono: ‘The Hands That Built America’ foi escrita sob encomenda para o filme de Martin Scorsese, Gangues de Nova York. Nós temos um respeito enorme por Scorsese, ele é um gênio para incorporar músicas nos filmes, então quando ele chama, você tem que prestar atenção. Trabalhamos com William Orbit, que parece um outro Brian Eno, ele ama texturas e atmosferas, o espírito na máquina.

Larry: Nós estamos sempre interessados em experimentar novos produtores. Gostamos do que William Orbit fez em seu próprio ambiente de trabalho e com Madonna e Blur. Ele é um cara criativo. Nós tentamos algumas coisas com ele na França. ‘Eletrical Storm’ foi uma idéia incompleta. Tínhamos um excelente riff de guitarra e algumas idéias realmente bonitas para a melodia. Trabalhamos muito duro tentando juntar todas estas idéias. No final nós não conseguimos alcançar este objetivo.

Bono: ‘Eletrical Storm’ foi uma tentativa de capturar o sentimento de mal-estar que eu estava sentindo no mundo inteiro, especialmente na América, um ar de antecipação nervosa. A música é realmente sobre um casal em um quarto, sentindo que uma tempestade está se formando no céu lá fora e comparando isto à pressão que eles sentem em sua relação. É uma música pós 11/09, mas não é uma música totalmente política. Eu sentia que se o U2 fizesse uma outra grande declaração para a paz, uma guerra começaria só para calar nossas bocas. Um terrorista cruel não vai pôr sua arma no chão só porque o U2 diz que a guerra é ruim.

Paul: Em fevereiro Bono foi capa da revista Time de novo, desta vez sem o resto da banda e com a legenda: ‘Bono pode salvar o mundo?’ Bono estava, se possível, se tornando mais politicamente ativo do que antes, mas pelo menos agora ele tinha sua própria organização, DATA, para cuidar desta sua outra paixão, o que acabou com a pressão e com o conflito potencial na administração Principal. Ele vai muito longe, eu acho, mas é muito difícil criticá–lo porque suas realizações políticas são muito reais. Porém, existem momentos em que isto faz o resto da banda sentir que eles estão em segundo plano. Eu suspeito que eles pensam que o U2 devia ser mais importante para ele do que às vezes é.

Bono: O Jubileu 2000 encarou o milênio como um gancho, uma oportunidade de transferir os débitos dos países mais pobres do mundo para os mais ricos. Quando a campanha internacional se desfez em 2001, o momento era de grande ímpeto, especialmente nos EUA, e nós pensamos que seria um erro abandonar este conjunto extraordinário de figuras que havia se juntado a nós. Um terço de todos os débitos pertencentes aos países menos desenvolvidos estava em processo de cancelamento. Eram cinqüenta e seis bilhões de dólares. Os Estados Unidos cancelaram todo o dinheiro que os países mais pobres do mundo deviam. O Reino Unido cancelou. A Itália cancelou. A França cancelou. Mas esta dívida era na maioria das vezes bilateral, um débito de país para país. Nós ainda estávamos trabalhando duro em relação ao débito multilateral, que é o dinheiro que se deve ao Banco Mundial e ao FMI. Então o débito se tornou o D de DATA.

Quando Bill Clinton deixou o escritório, uma garota muito perspicaz no Tesouro de Larry Summer, a chefe da equipe Sheryl Sandberg, me apontou uma nova direção. Ela disse, ‘Uma reforma no comércio faria uma diferença ainda maior do que uma reforma na carga de débitos. Se a África tivesse a mesma fatia do mercado global que ela possuía nos anos setenta, a quantidade de ajuda que o mundo inteiro fornece em um ano seria dobrada, todo ano. Então, Trade (comércio) se tornou o T de DATA. A questão central era a AIDS, a maior pandemia da história da civilização, maior que a Peste Negra, que dizimou um terço da Europa na Idade Média. Sete mil africanos morrendo todos os dias de uma doença que se pode prevenir e tratar não é uma causa, é uma emergência.

Estas eram as três grandes questões assolando o continente da África, o último A de DATA. Mas a sigla funciona de dois modos. Se você mudar seu ponto de vista e focalizar no que o Oeste acha necessário para liberar os fundos, você terá: Democracia, Responsabilidade da qual se deve prestar contas (Accountability) e Transparência para a África. Nós fundamos a DATA em Washington DC e Londres porque precisávamos formalizar o que eu, Bobby Shriver e Bob Geldof estávamos fazendo há alguns anos. Bobby encontrou o dinheiro, Bob formulou o nome e sentados na cozinha da minha casa, com duas das luzes mais brilhantes do Jubileu 2000, Jamie Drummond e Lucy Matthew, nós planejamos um tipo de manifesto. Geldof ainda estava reclamando, dizendo que não queria participar de nenhum tipo de organização, mas foi o último a deixar a sala naquele dia. Ele tem sido nosso conselheiro e nossa alma gêmea.

Paul McGuiness me disse durante toda a minha vida, ‘Olha, o trabalho de um artista é apontar os problemas e não tentar resolvê–los’. Mas eu sempre enxerguei a criatividade em lugares onde você não espera encontrá–la, no comércio e na política. Eu tento fazer com que a mesma forma lateral de pensar que funciona no estúdio, quando você está puxando uma melodia de um espaço misterioso, funcione em todos os lugares onde eu estiver. Eu quero viver a vida criativa e não apenas fazer coisas criativas na vida. E eu acho que eu me tornei muito bom nestas coisas.

Eu encontrei o Presidente Bush em março de 2002, o que foi muito interessante. Eu era visto como um Clintonista então nós tivemos que trabalhar com a nova administração para convencê–los de que nós não vínhamos de nenhum viés em particular, politicamente. Conversamos com os dois lados do corredor do Congresso. Eu desenvolvi uma relação muito boa com a Doutora Condoleezza Rice, que era a Conselheira de Segurança Nacional dos EUA. Ela deixou que eu e o time da DATA entrássemos, de forma animadora, e foi emotiva em relação à África e às desigualdades do mundo em desenvolvimento. Nós discutimos idéias para um novo tipo de assistência ao desenvolvimento, um que derrotasse os velhos argumentos sobre corrupção e ‘não redecorasse palácios presidenciais para déspotas’. Porque claramente muita ajuda internacional foi mal utilizada no passado, sustentando o fumo de ditadores de modo que ela prejudica mais do que beneficia. Nós acabamos montando com a Doutora Rice um plano para recompensar os países que combatessem a corrupção, dando a eles um aumento na ajuda quando todo o processo fosse claro e transparente. Nós estávamos operando como advogados e ativistas e envolvidos com um trabalho político complicado. Eu tenho muito orgulho do trabalho que fizemos. O Presidente Bush pediu para que eu ficasse lá quando eles anunciassem a nova iniciativa. Ela foi chamada de O Desafio do Milênio, e de fato duplicaria a ajuda à África, com um extra de $ 5 bilhões no orçamento anualmente. Então eu apareci em uma foto com o Presidente Bush, o que levou à crítica por parte de alguns grupos, e alguns dos meus críticos na verdade estavam na banda. Eu mantive uma cara séria na fotografia, mas fiz um rápido sinal da paz quando passamos pelas equipes da Imprensa. Bush sussurrou sob sua respiração, ‘Aqui vai a primeira página de algum lugar: Estrela do rock irlandês com o texano tóxico’. Bush é na verdade um cara divertido. Eu acho que a arrogância e as botas de cow-boy vêm com algum senso de humor. Foram dias tensos, porque eu não queria comparecer ao anúncio do Desafio do Milênio a não ser que eles também se comprometessem com a iniciativa histórica da AIDS – uma responsabilidade que combinasse com a magnitude do problema. Eles não estavam preparados para um comprometimento público, mas privativamente eles prometeram que estavam planejando algo. Houve muitas pessoas ao meu redor que me consideraram muito tolo por ter aceitado a palavra deles. Mas eu aceitei. E eles cumpriram. Em maio de 2003, no seu endereço no Estado da União, o Presidente Bush anunciou que quinze bilhões de dólares seriam fornecidos por cinco anos para combater a AIDS no exterior. Eu fiquei genuinamente assombrado. Para colocar isto em um contexto, em 2001, se você contasse a alguém de Capton Hill que um Administrador Republicano estaria por trás da entrega de drogas anti–retro vírus para pessoas com AIDS na África, eles ririam na sua cara. E eles riram na minha cara. Bush e Rice merecem enorme crédito por isto. E o Congresso, tanto Democratas quanto Republicanos. Então houve grande movimentação e atividade para lidar com tudo isto que durou quase dois anos. Foi incrivelmente constante e intenso. Eu penso que por um lado o U2 queria lançar um álbum com rapidez. É justo dizer que o trabalho da DATA adiou isto. Mas, de qualquer modo, algumas pessoas na banda ficaram aliviadas.

Edge: Morleigh e eu nos casamos em 17 de junho de 2002. Na verdade nos casamos duas vezes, no civil em um pequeno cartório em Dublin e alguns dias depois em uma cerimônia no topo de uma montanha no Sul da França. A cerimônia de Dublin era totalmente genérica e eu fui para ela pensando que era apenas uma formalidade necessária, mas alguma coisa no modo como nós dois dissemos nossos votos, mesmo que no ambiente estéril de um cartório, me pegou de surpresa, e esta acabou sendo uma ocasião muito emocionante. As únicas pessoas presentes eram meus dois ‘padrinhos’, Bono e Chantal O’Sullivan. Nosso casamento francês foi uma união totalmente diferente, com muitos convidados, feita a céu aberto no local mais espetacular, um jardim de cactos no ponto mais alto do vilarejo montanhoso de Eze, dando vista para Cote d’Azur. Mais tarde nós tivemos uma grande festa lá embaixo, perto do mar. Era lua cheia e foi muito mágico. A cerimônia mesmo foi uma espécie de articulação entre as religiões cristã e judaica. Foi como jogar futebol gaélico na Austrália – Eu acho que chamam isto de ‘regras de compromisso’.

Bono: Foi o dia mais quente da terra e eles estavam no topo daquela montanha deles. Pessoas judaicas se casam debaixo de um chuppah, que é um tipo de barraca de quatro pés sem as laterais. Edge construiu sozinho seu próprio chuppah, e Morleigh e ele ficaram debaixo. O pai de Morleigh, Bob, cantou alguns cânticos judaicos antigos, que soaram como gaélico para mim. Todos tinham sombrinhas japonesas devido ao calor do sol. Foi muito surreal e bonito. E depois as pessoas desceram a colina. Foi realmente um grande momento ver o Edge inteiro outra vez.

Edge: Já era 2003 antes de termos começado a trabalhar a sério no novo álbum. ‘The Hands That Built America’ ganhou um Globo de Ouro e foi indicado para um Oscar. O filme não ganhou o Oscar, mas nós fomos tocar na cerimônia em março, depois eu fiquei em L.A trabalhando sozinho, o que acabou se tornando uma semana bastante interessante. Eu tinha alguns loops que Larry havia preparado para aquele propósito, e estava trabalhando com um equipamento Pro–Tools muito simples na minha casa em Malibu. Era uma grande diversão não ter que pensar muito sobre qualquer coisa que não fosse tocar a guitarra elétrica, trabalhar as ranhuras, trabalhar os riffs, não me preocupando muito com onde aquilo tudo ia dar. Aquele foi o nascimento de ‘Vertigo’. Na verdade ela é parte de um experimento de exploração da guitarra de rock n’ roll, para tentar saber o que ela significa no século vinte e um. Ainda existem novos riffs para serem descobertos? ‘Vertigo’ é um tipo de riff eterno. É como se ele estivesse sempre lá. Depois que eu esbarrei neste riff, havia uma pista de para onde o álbum estava indo.

Bono: Edge não faz muito rock n’roll. Considerando o rock n’roll como música metálica, com sangue correndo pelas suas veias, cheia de adrenalina. Ele não gosta de muitos guitarristas roqueiros, acha que eles são clichês e dominados pelo blues. Então, para ele tocar rock n’roll, a ocasião tem que ser muito especial. Você sabe que é sério. Ele tocou esse riff para mim e foi como assistir ao Edge pondo fogo em si mesmo. É um riff extraordinário. E havia mais ou menos dez deles. Eu pensei, ‘Uau, eu devia prestar atenção a este álbum, porque o Edge está’. E não é sempre que ele quer tocar guitarra. Ele poderia estar no teclado este álbum, e então Larry e Adam entrariam em cena, ‘Oh não, nós nunca vamos extrair uma música de rock n’roll dele’. Mas neste momento eu estava totalmente certo de que ele queria entrar no ringue e ser muito, muito perigoso com seu talento.

Edge: Quando nos reunimos em Dublin para começar a falar sobre o caminho a seguir, sentimos que o álbum seria um álbum da banda, intenso, sólido, e talvez um tanto despido. Eu estava ouvindo muito rock punk, The Buzzcocks, Sex Pistols, The Who, e pensando realmente sobre o significado de uma banda.

Adan: Na turnê Elevation nós parecíamos ter alcançado um novo patamar, sendo capazes de lançar o material de forma muito simples, sem o apoio de sobreposição de vozes ou eletrônica. Nós sentimos que se conseguíssemos prosseguir com todos tocando neste nível, poderíamos fazer um álbum com guitarra sólida.

Larry: Nós queríamos fazer um álbum que soasse mais pesado do que All That You Can’t Leave Behind. Precisávamos focalizar em composições melhores e faixas mais aceleradas.

Bono: Não existe uma forma padronizada para que uma música do U2 comece, mas geralmente eu e o Edge chegamos com uma idéia. E Adam olha com um olho, entusiasmado. E Larry reclama de como aquela não é uma música de rock. É hilário, mas Larry não se impressiona com a força de uma idéia. Ele só se impressiona pela habilidade de esta idéia o envolver em um nível emocional. Larry não é movido por nada que seja intelectual, ele é movido por algo muito mais poderoso, que é o instinto. Mas isto pode aborrecer tanto. Edge chegou à reunião sobre o novo álbum com sete demos. Nenhum vocal fixo, apenas riffs, ranhuras e coisas que você pode chamar de tradição do rock, que é algo sobre o que Larry e Adam reclamaram com ele por vinte anos. E depois que as sete demos foram tocadas, eles só ficaram sentados lá, olhando para os sapatos. Nenhuma palavra. Nenhuma mísera palavra. E quando eles deixaram a sala, eu e o Edge começamos a rir. Mas quer saber? Eles não estavam errados. Era apenas um estudo sobre a composição da música, que só se torna mágica quando eles se envolvem. Edge se contentou com o capricho de uma banda chutando uma idéia. Isto é muito difícil de tolerar para alguém tão brilhante quanto o Edge.

Adam: Eu posso entender que eles tenham sentido que o nosso silêncio era falta de consideração, mas eu acho que Larry e eu somos muito mais cautelosos do que eles. Obviamente nós apreciamos o trabalho, mas quando você ouve as coisas na forma bruta, você pensa, ‘Certo, como isto vai funcionar como uma música do U2? Ainda não há melodias aqui, ainda temos muito no que trabalhar, mas este é um bom ponto de partida’. No passado Bono sempre tinha dificuldade em desenvolver as melodias sobre músicas de rock com riffs de guitarra, elas pareciam ter vindo do Neanderthal, e ele precisava de mais informação harmônica. Ele é mais um cantor da alma do que um cantor de rock. Este é com certeza o modo como eu me senti quando ouvi aquelas demos. Agora eu sei que Bono já pensa que o álbum está terminado porque este é o jeito que a cabeça dele funciona, ele pensa, ‘Eu posso ouvir a música, eu posso ouvir os riffs da guitarra, eu tenho melodias na minha cabeça, sim, isto é um hit!’ Então, ele acha que está tocando um hit para mim, e eu acho que estou ouvindo alguns riffs de guitarra combinados com um compasso de bateria que ainda precisam ser muito trabalhados. É apenas uma diferença de perspectiva.

Edge: Nós sentimos e previmos pela primeira vez que este seria um álbum da banda. Então pensamos em produtores que trabalhavam bem com bandas. Alguém diferente, novas idéias, sangue novo. O nome de Chris Thomas surgiu. Chris trabalhou em muitos álbuns que nós realmente amávamos, notavelmente Never Mind The Bollocks com os Sex Pistols e os álbuns antigos do Roxy Music. Ele havia trabalhado como técnico no White Álbum dos Beatles e mixado o Dark Side Of The Moon do Pink Floyd, todos os tipos de álbuns fantásticos.

Bono: Sex Pistols e Roxy Music é uma mistura sedutora. Tem a energia punk, mas também alguma energia experimental e nós queríamos as duas.

Edge: Chris veio para Dublin, nós demos um monte de coisas e ele disse, ‘Sim, isto é interessante. Vamos para o estúdio ver como isso funciona’.

Bono: Chris tem uma coisa que nós não temos muito no estúdio – o dom da clareza. No meu trabalho fora da banda, eu estava começando a notar que a clareza é a marca da verdadeira inteligência. Se eu conversar com Bill Gates, ele consegue me explicar a aplicação universal do código binário. Enquanto que um suposto gênio só te deixaria confuso. Alguém como o Professor Jeffrey Sachs pode desvendar os mistérios do mercado liberal e da economia Keynesiana. Eu me tornei realmente atraído pela clareza e pelas pessoas que a possuem.

Adam: Chris chegou bem cedo no processo e teve grande entrosamento com o Edge e tudo relacionado à sabedoria da guitarra estava realmente funcionando muito bem. Nós começamos em março de 2003 e o plano era aprontar o álbum para o final do ano. Mas quando as sessões progrediram e a aproximação particular entre o U2 e as composições começou a se consolidar, ele pareceu menos confortável em nos guiar. Porque nós não temos uma base musical acadêmica, nós realmente precisamos desenvolver os arranjos, as melodias e os ganchos simultaneamente. É um processo de tentativa e erro, onde você adiciona mais informação harmônica em uma faixa e afeta o espírito da música, que afeta o espírito da melodia vocal e da composição. Eu penso que Chris achou muito complicado continuar tocando as coisas para frente. Havia muitas idéias, mas nós parecíamos não conseguir fechar um acordo.

Larry: Trabalhamos de forma não ortodoxa e geralmente conduzimos os produtores, técnicos, técnicos assistentes, diretores de estúdios e qualquer pessoa que esteja ali. Por não se lidar com uma pessoa, mas sim com quatro, é preciso muita energia e muita compreensão para fazer isso.

Bono: Estafamos o Chris. Como aconteceu com o Flood e o Nellie no ‘Pop’. Somos como um vírus que rodeia as pessoas com muitas alterações e combinações até que elas não saibam mais para onde se virar.

Paul: O U2 trabalha muito. São perfeccionistas, mas o trabalho se expande até preencher o tempo disponível para executá-lo. Continuo me espantando que eles consigam se concentrarem durante tanto tempo em um disco e fico pasmo por não escreverem as canções antes de gravarem. O Chris Thomas veio me visitar um dia e disse: – Nunca trabalhei com um artista em que nada esteja preparado, eles entram e esperam que aconteça. Estou sentindo que fico os desiludindo. – É sempre assim, e sempre ocorre tudo bem. Mas aquilo foi o canto do cisne. Era esgotante e ninguém se divertia.

Adam: Trabalhamos todo o verão e quando chegou o outono de 2003 tínhamos gravado material suficiente para um álbum. O Jimmy Lovine escutou as faixas e disse: “Já têm um disco, estamos prontos para lançá-lo”. Mas havia um mal-estar na banda.

Larry: Aquilo não era um disco. As músicas tinham uma série de enganos, tinham muitas coisas boas, mas faltava magia, aquilo que distingue o ordinário do extraordinário. É difícil concretizar ou justificar em uma discussão, mas lhe faltava aquilo. Era uma conversa difícil de estabelecer com o Bono e o Edge. Na época o Bono estava nos pressionando para editarmos aquelas músicas como um álbum e não ficou nada contente quando não concordamos com ele. Sei que o Bono e o Edge ficaram muito frustrados, mas não se tem esse tipo de conversa com os companheiros que estão dando o máximo a não ser que se tenha muita fé na música e na banda.

Edge: É como se o balão esvaziasse de repente e batêssemos no chão. Levamos basicamente nove meses suando a camisa com o Chris, mas as músicas não chegavam a lado nenhum, e em alguns casos pioravam.

Bono: O todo começava a soar como a soma das partes. É a diferença entre a matemática e magia. Começamos a nos convencer de que está tudo no seu lugar, mas não é especial. Com o U2 é como se as músicas surgissem por acaso. Não sabemos bem o que estamos fazendo… e não é uma grande ajuda sabermos. É um processo estranho que eu ainda não compreendo bem, mas sei que quanto melhores nos tornamos na nossa arte, mais difícil de torna fazer magia. Há anos, não éramos uma banda. Não sabíamos compor músicas. Não fomos uma banda que tocasse a compasso. Não tínhamos aprendido a tocar as músicas dos outros. E por isso, dependíamos apenas da magia. Só tínhamos isso, esse momento onde tudo se manifestava. Mas nos tornamos melhores à medida que envelhecemos. Começamos a compreender o processo criativo da letra das músicas como uma arte. Começamos a ficar cientes do Cole Porter e do Brian Wilson e eles começaram a nos infectar com esse vírus. E a originalidade se vai.

Larry: Chamamos o Steve Lillywhite e pedimos que ouvisse as músicas e nos dissesse se achava que tinham potencial. Explicamos as discussões que havia na banda. Ele chegou na semana seguinte e ficou mais de seis meses.

Adam: O Steve disse que o material estava ali, mas precisávamos voltar a trabalhar nele. Como ele sabia do que éramos capazes, percebeu que faltava qualidade nas atuações.

Larry: O Edge é um trabalhador muito escrupuloso e o Bono estava tentando apoiá-lo, deve ter sido muito esgotante trabalhar e se empenhar tanto para depois ouvir duas pessoas dizer que afinal não estava pronto. É preciso gentileza para ser capaz de responder ‘talvez tenha razão’. E é tudo: talvez tenha razão. Correm-se riscos. Diz muito de ambos, o fato de estarem preparados para dar ouvidos a um baixista e a um baterista que têm dificuldades em tocar em compasso.

Adam: Não é fácil decidir parar, adiar o lançamento do álbum e começar com um novo produtor, mas não há dúvidas que era o melhor a ser feito.

Paul: Foi difícil telefonar ao Chris e não fiquei contente com isso. Acho que foi difícil para todos gastar tantos meses trabalhando com uma pessoa e depois ter que admitir que afinal não dava resultado. Mas ele fez uma série de trabalhos válidos e há bastante coisas dele no álbum. No entanto, foi de fato, o Steve Lillywhite quem veio, o montou e demonstrou estar decidido a terminá-lo. O Steve é como uma injeção na veia em qualquer projeto, porque é tão contagiosamente prático e bem disposto que levanta o espírito das sessões. Não vale a pena um bom artista lançar um disco a não ser no último trimestre do ano, época em que a venda de discos é tão elevada a nível mundial que se compara a todos o resto do ano. Por isso, quando ultrapassamos o prazo para a edição no outono, o álbum não passou para o começo de 2004, mas sim para o final de 2004. É uma opção dispendiosa acrescentar mais um ano de trabalho devido às despesas que isso acarreta.

Edge: Eu fiz algum trabalho sozinho antes de voltarmos ao estúdio. Depois o Steve se mudou para Dublin em janeiro de 2004 e de repente, as coisas começaram a recuperar as forças. Escrevíamos músicas novas e as antigas adquiriram nova dimensão. Algumas músicas não mudaram, apenas as tocamos melhor. O grande talento do Steve é o seu entusiasmo e a sua atitude de ‘é possível fazer isso’. O nível de energia aumentou imediatamente, o que parecia afetar o Adam e o Larry, que começaram a tocar tão bem. E assim o projeto recebeu novo fôlego. Todos recuperaram o entusiasmo.

Adam: O Steve tomou uma medida muito inteligente, nos colocou em uma sala diferente do estúdio. Tínhamos feito todos os nossos discos em Hanover Quay, na mesma sala pequena e claustrofóbica. Ele nos perguntou por que é que não nos mudávamos para uma sala mais espaçosa, que era luminosa e aberta, com um monte de janelas para a doca. Disse que os sons seriam diferentes, que iríamos tocar de forma diferente e éramos capazes de gostar. Em uma semana que o Bono estava fora, nós fomos para a tal sala e gravamos quatro músicas: ‘All Because of You’, ‘Vertigo’, ‘Original of the Species’, ‘Crumbs From Your Table’, e elas se transformaram em um novo modelo de trabalho. Quando o Bono voltou, nós estávamos realmente em boa forma.

Edge: O Steve veio acompanhado pelo Gareth Lee, mais conhecido como Jacknife Lee, uma pessoa muito importante para o disco. Uma das coisas que tinha faltado quando trabalhamos com o Chris, foi uma carta fora do baralho, uma pessoa que atira areia para a engrenagem, por isso nos faz superar. As músicas soavam bem, mas eram vulgares, como se estivessem empurradas. O Jacknife Lee é um DJ irlandês, remixer e músico que mora em Londres. Ele é, de um certo modo, um produtor de primeira, que trabalha com equipamento da Pro-Tools, esse tipo de sistema digital computadorizado em vez da gravação convencional do estúdio. Está acostumado a se deslocar com rapidez, tem idéias claras e fundamentadas, e não se sentiu em momento algum intimidado por nós ou pelo que estávamos fazendo. Dávamos a ele uma faixa que tínhamos gravado e em algumas horas ele nos entregava a sua, depois te der dado à faixa novas texturas ou modificado o arranjo. Algumas vezes adorávamos, outras não. Mas era sempre estimulante ter uma opinião objetiva sobre o nosso trabalho.

Bono: Talvez tivéssemos decidido fazer um verdadeiro álbum de rock, mas afinal, não somos uma banda de rock, muito menos um grupo de punk rock. Somos o U2. Tocamos com música rock ou punk ou folk ou soul ou gospel, mas nunca as possuímos, nem vice-versa. Fazemos o que temos de fazer, e a nossa faceta experimental é tão importante como a nossa faceta de composição das letras. Por isso com o Steve e o Gareth tínhamos o Yin e o Yang. E o Flood retornou, ele que também tem uma faceta muito experimental. A introdução de ‘City of Blinding Lights’ é toda do Flood. ‘Love and Peace or Else’ começou a tomar forma.

Larry: Há quem diga que muitos padeiros não fazem bom pão, mas também se pode ver por outra perspectiva e dizer que o pão precisa ser bem amassado. Foi uma época muito produtiva. Com a mudança de sala, tudo parecia ter arrancado a todo vapor, a bateria era gravada em uma sala, o Edge sobrepunha à guitarra em outra, e as vozes gravadas em outra também. Era um ambiente muito criativo. O Bono estava profundamente envolvido com a DATA e aparecia pouco, mas o Edge, Adam e eu, continuamos rigorosamente com o Steve e o Garrett Lee. Trabalhamos todos persistentemente e obtivemos resultados palpáveis. Foi uma grande oportunidade para desmontar as músicas, retirar algumas coisas e adicionar outras, conhecer profundamente o material. Para mim era muito emocionante. Senti que tinha tempo suficiente para trabalhar e tocar aquelas músicas.

Bono: Estavam todos contentes por eu não aparecer muito, porque eu os enlouqueço. Sou impaciente e agarro nos instrumentos dos outros. Uma vez me proibiram de tomar café. Não sou do tipo de ficar sentado esperando que Deus entre na sala. Prefiro sair e procurar Deus agora. Por isso sou capaz de abafar as vozes dos outros, o que não é uma qualidade agradável. Mas comigo ausente, abafando os políticos, eles podiam avançar. E quando eu voltei ao estúdio, havia mais material inspirador para escutar, o que significava que eu podia avançar mais rapidamente. Não há dúvida que para o Edge é muito melhor que eu não esteja em estúdio, porque ele é muito diferente de mim. Eu ataco rapidamente uma melodia, escrevo as palavras rapidamente. Ele é como um mestre zen, que passa cinco anos misturando a tinta e cinco minutos escrevendo os caracteres com uma bela caligrafia. O Edge é mais meditativo do que eu. Ainda fica frenético e a fricção criativa existe, mas respeita mais os processos criativos dos outros. Eu voltava ao estúdio com grande ímpeto. Passava o tempo escrevendo. Estava cheio de música.

Edge: As músicas do U2, não surgem de uma maneira concreta, surgem de forma muito instintiva, em que um tema musical soa promissor e todos concordam que vale a pena ser trabalhado. Começamos então, tentando encontrar a essência do tema, seja qual for. As músicas dão muitas vezes voltas estranhas nos arranjos, no estilo, por estruturas completamente diferentes, tempos às vezes diferentes, letras e melodias diferentes. Mas existe sempre um elemento central que é comum do princípio ao fim, e é o que tentamos conseguir na sua forma mais pura. ‘Vertigo’ é um caso bastante invulgar. A minha demo tinha uma melodia vocal diferente, mas quase todas as idéias musicais que estavam na original, chegaram à versão final. Quando voltou à Dublin, a banda começou a trabalhar em melodias diferentes e em idéias rítmicas. Exploramos vários caminhos. Demoramos algum tempo nas experiências antes de obtermos uma versão definitiva da música, de a gravarmos, mixarmos tudo, mas era uma música completamente diferente chamada ‘Native Son’.

Bono: É como a divisão celular, as nossas músicas vão dando a pele e emerge uma nova música. ‘Native Son’ foi inspirada por Leonard Peltier. O ativista dos direitos dos nativos americanos, e foi uma idéia interessante para uma música. A caminho de se tornar ‘Vertigo’ parou e se transformou em ‘Shark Soup’. Foi quando lhe encontramos o ritmo, cantando em castelhano, língua que permaneceu um pouco na introdução. Tinha lido Pablo Neruda, um dos meus poetas favoritos. Ele já morreu, mas fiz uma peregrinação à casa dele no Chile e comi na casa ao lado, onde peguei uma intoxicação e achei que ia morrer. Era só eu e o Guggi, não tinha mais ninguém na estalagem, a própria dona tinha ido para casa. Eu estava estendido no chão e vomitando de 10 em 10 minutos e o Guggi tentando arranjar água, que estava fechada por trás do bar. Quando a dona da estalagem voltou, me encontrou no chão e eu disse: “Pode chamar um médico?”. Ela disse: “O senhor não vai querer conhecer o médico”. E eu disse: “Está bem, não chame o médico. Chame um táxi.” E foi desse episódio que nasceu uma música chamada ‘Shark Soup’.

Adam: O Bono pode aparecer com três melodias diferentes para uma música, e para saber qual é a melhor ele tem que completar três letras independentes porque cada uma possui uma lógica lírica diferente.

Edge: Achamos de fato que ‘Native Son’ estava muito próxima do final, mas o Steve não a achou grande coisa e tinha toda a razão. ‘Vertigo’ está mais próxima da minha idéia original. É apenas uma grande e visceral canção de rock ‘n’ roll. É muito simples em nível instrumental, bateria, uma guitarra, um baixo e as vozes. Não há sobreposições até a terceira parte da música. É uma interpretação muito direta.

Adam: Esse disco parecia sobreviver sem sobreposições. Parecia de fato que as faixas uma vez trabalhadas, estavam bem cheias e completas. Não sei se isso é devido a trabalharmos juntos há 25 anos e saber do que precisamos para que a voz soe bem, mas pode ser. A experiência permitiu que tudo fosse se moldando.

Edge: Rock’n’roll é prender o momento, é um instante, não é algo que se possa escrever sentado no silêncio do escritório. Muitas vezes quando o grupo está em pleno vôo, o Bono começa a falar versos ao microfone, inspirado em grande parte pela a música. Às vezes é difícil escrever esse tipo de letra. Tem tudo a ver com o som e o ritmo das palavras.

*Páginas 312, 315, 316 e 319 – Fotos