Página 1 a 10 | U2 Brasil

 

Página 1 a 10

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Página 6 – BONO

Há quem diga que entrei para o U2 para salvar o Mundo. Eu entrei para o U2 para salvar a mim. Por vezes, encontro gente na rua que me aborda como se eu fosse o Mahatma Gandhi.

E quando alguém diz: ‘Salve, homem de paz!’, consigo ouvir o Larry rindo baixinho: ‘Está com muita sorte por não ter levado uma cabeçada’. Os elementos da banda ficam surpreendidos com a minha atração pela não-violência, pois sabem que o cantor é quem mais pode tirar partido das músicas. Compreendem a razão pela qual me sinto tão atraído por estas personagens, pelas personagens das músicas – pois no meu dia-a-dia e na minha maneira de ser sou muito diferente delas. Existe uma fúria dentro de mim e não tem tudo a ver com injustiça. Desenvolvi bons modos de disfarçá-la.

Agora me controlo melhor, mas costumava ser difícil falar comigo depois de um espetáculo, pois durante uma hora eu ia estar muito agitado e, se a atuação não tivesse corrido bem, sentia-me traiçoeiro e melindroso.

Os bastidores de um concerto do U2 são mais como um camarim após um combate de boxe ou um jogo de futebol do que um concerto de rock. Temos de nos lembrar que, para o U2, todas as noites têm de ser as melhores. E se não o são, tem de haver uma razão. Temos padrões bastante elevados e nunca esquecemos quem é que paga os nossos salários. A nossa audiência merece a melhor seleção de músicas possível, não basta ‘despejar’ umas quantas para mantê-los entretidos. Eu consigo perceber quando o público está perdendo o interesse e sou menino para mandar um explosivo para o meio deles, sendo que o explosivo provavelmente seja eu. Acendam o rastilho e vejam o que acontece. Para cantar aquelas músicas e atingir as notas elevadas é necessária uma grande dose de concentração e empenho. Temos de entrar nas músicas e vivê-las. Seja no centro de Derry tocando ‘Sunday Bloody Sunday’ ou em Memphis num comício sobre os direitos civis com o Dr. King, cantando ‘Pride in the Name of Love’. Eu estou lá. Um colega está destruindo a vida dele com uma dose de droga. É “bad”. Temos de viver essas emoções. Creio que os membros da banda conseguiram perceber que eu chego a esses lugares. Em alguns momentos, deve ter sido bastante complicado para eles, pois o cantor ausentava-se mesmo.

É difícil alterar a nossa maneira de ser; leva o seu tempo. Uma das mudanças mais extraordinárias que ocorre na nossa vida espiritual não é o fato das nossas falhas de caráter desaparecer, mas sim o começarmos a tirar partido delas. O negativo torna-se positivo: tem-se uma boca grande, acaba-se cantor. É-se inseguro, acaba-se como um artista que precisa de aplausos. Já ouvi falar de pessoas que são alvo de mudanças milagrosas, pessoas que se libertaram de um vício com uma única oração, relações salvas onde ambas as partes dão um passo atrás e deixam o amor de Deus entrar. Mas comigo não foi assim. “I was lost, I am found” (Estava perdido, agora me encontrei), talvez seja mais exato dizer “Eu estava mesmo perdido, agora estou um pouco menos”. E depois mais um pouco, e mais um pouco novamente. Isso para mim é a vida espiritual. O lento reiniciar de um computador em intervalos regulares, acompanhando as pequenas letras do manual. Isso me reconstruiu lentamente numa imagem melhor. Embora tenha levado alguns anos e ainda não tenha terminado o seu processo.

Página 7 – EDGE

O Rock’n’Roll é característico deste período. Não havia precedentes na história musical, pois está totalmente relacionado com a eletricidade.

Quando se toca uma guitarra elétrica com um amplificador Marshall num estúdio com o volume tão alto que se atinge o ponto em que se deixou de ser capaz de reproduzir o som de uma forma límpida, cria-se o efeito de compressão. É como se o som fosse demasiado explosivo para ser controlado pelas colunas. Dá a sensação de que o espaço à nossa volta vai ceder, o que, de fato, acontece ao tímpano quando é sujeito a um som incrivelmente elevado – tem tendência a se fechar. É dessa agitação sônica que as pessoas gostam no Rock’n’Roll. Com uma guitarra acústica não se consegue isso.

Há uma estranha magia no som de uma guitarra elétrica. Stratocasters, Les Pauls, Explorers: são apenas pedaços de madeira com um cabo e cordas, mas ainda assim há uma extraordinária variação e todas soam de formas diferentes aos efeitos e amplificadores. Eu não tenho uma relação com uma guitarra em particular, eu não sou tão sentimental. Eu só vejo as diferentes possibilidades que todas elas apresentam. Sou absolutamente fascinado pelo som e como ele pode ser esculpido usando a tecnologia atual.

Parece impossível contemplar uma existência fora da música, mas honestamente eu não sei se me tornaria um músico profissional se o U2 não tivesse me feito acreditar que isso seria possível. Nós estivemos juntos durante toda nossa vida adulta, o que demonstra um incrível nível de comprometimento e solidariedade entre 4 pessoas que decidiram formar uma banda em 1975. Todas as razões que justificavam a idéia, naquela época, ainda permanecem verdadeiras. Nós ainda podemos fazer ótima música juntos, fazer surgir idéias originais e fazer shows emocionantes, empolgantes, espirituais, lidando com a possibilidade que tudo pode acontecer.

Num certo nível, o U2 é uma banda muito disfuncional. Nós nos tornamos a banda que somos porque nós não éramos músicos capacitados. Não éramos capazes de tocar músicas de outros artistas, então tínhamos que criar as nossas. Essa deficiência musical ainda nos ronda. Às vezes quando nós estamos nos preparando para viajar para tocar eu ouço nossos discos antigos e coço a cabeça, imaginando “o que eu toquei aqui? Está meio estranho, como eu fiz aquilo?” De qualquer maneira, fomos guiados a transformar o nosso ponto fraco em um ponto forte. Nós podemos não ser a banda mais talentosa da história do rock & roll, mas acho que estamos entre as mais originais.

A química das personalidades é um grande fator. Bono tem um impulso irreprimível de ser grande, de cobiçar a vida. Ele quer experimentar de tudo, o que faz dele muito vulnerável. Às vezes eu me preocupo que a mídia tenha criado um mito sobre quem ele é e no que ele se apóia. Espero que esse “hype” não impeça as pessoas de perceberem que ele é apenas um homem que está tentando se encontrar. É parte da luta de todos descobrir o que eles estão fazendo e para onde eles querem ir. O U2 escreve músicas sobre a luta, mas nós mesmos somos tão confusos quanto qualquer outra pessoa.

Eu sou guiado por caminhos diferentes dos de Bono. Eu tenho uma curiosidade que me convence a querer encontrar caminhos de fazer música nova e eu tenho o foco para manter seguindo até realizar nossas metas. Eu e Bono juntos anulamos a determinação, concentração e energia um do outro.

Adam e Larry são os contrapontos de Bono e eu. Adam tem uma alma incrível, a consciência improvável da banda. No começo, quando nós 3 estávamos no fervor de nosso Cristianismo, Adam era, de fato, o mais cristão em sua tolerância e humanidade. De algum modo, por ele não precisar se preocupar muito com a música ou as letras, ele tem uma liberdade para contribuir com elementos que você nunca pensaria, liberdade para inserir alguma coisa que estava fora de discussão. Ele é, naturalmente, nosso “avant-garde”. Larry é uma pessoa prática, séria e profundamente cautelosa que sempre puxa a rédea quando nós nos empolgamos demais. Ele está sempre lá para manter o barco firme quando ele está indo em direção às pedras, enquanto eu tenho meu telescópio apontado para outra direção ou quando Bono está fora da torre e Adam está perdendo tempo na cabine do comandante.

Nós crescemos juntos. Nós aprendemos a tocar músicas juntos. Em muitos aspectos a maneira como nós pensamos é quase telepática. Quando Bono está cantando, eu sinto aonde ele quer chegar através dos acordes. Mesmo quando estou compondo sozinho, ouço a voz dele conforme as idéias vão surgindo. Mas a coisa mais interessante é quando aquelas músicas passam para o próximo estágio e Adam e Larry aparecem e tocam conosco – toda uma nova evolução surge. Eu acho que, no final, é isso que fortalece a banda, quando você é capaz de tirar proveito de 4 diferentes perspectivas. É algo tão magnífico que nenhum de nós poderia alcançar sozinhos.

Página 8 – ADAM

Sempre quis ser uma estrela de Rock. Quando tive o primeiro Baixo, aos quinze anos, senti que tinha tudo. Nada mais se passava na minha vida.

Se o U2 não tivesse dado resultado, só Deus sabe onde eu teria ido parar. Não que alguma vez me tivesse preocupado com isso, pois tinha uma enorme quantidade de ambição e energia e empenhava-me para me tornar no tipo de pessoa que achava que devia ser. Abri os braços a tudo o que a vida tinha para me oferecer e, quando surgiu a oportunidade, vivi-a plenamente. E depois segui em frente, desfiz-me dos carros, libertei-me de determinados aspectos que caracterizavam o meu modo de vida. Juntei-me com a Susie. Descobri que sou uma pessoa muito mais simples e discreta do que alguma vez podia imaginar. Cheguei à conclusão que não era o aparato do rock and roll que me sustentava nesta jornada. Era a música e a camaradagem.

Não diria que é divertido gravar com o U2; é trabalho. As sessões não são propriamente preenchidas com gargalhadas e jovialidade. Geralmente, temos o Bono dizendo que fomos um fracasso – e ele inclui-se nesse grupo. A atmosfera no estúdio é tensa. Temos de avaliar as coisas de forma bastante rápida e, a menos que seja algo brilhante, nunca está suficientemente bom. Por vezes pode ser um mau ambiente para se trabalhar. Temos de estar preparados para defender as nossas idéias ou para recuar quando estas estão a ser criticadas de forma fundamentada. O processo de criação é exaustivo. É como se tivéssemos de experimentar todas as possibilidades e explorar todos os percursos até estabelecermos uma versão final. As músicas vão de A à Z e, muitas vezes, no sentido inverso novamente. “Tentamos criar algo alusivo, algo que represente o ponto onde nos enocntramos emocional, física e espiritualmente. E isso foi, ao mesmo tempo, algo agradável e emocionante. “ Se não é o melhor possível de se atingir, para que nos preocupar?”

O Bono é, sem dúvida, a força motriz. Não importa a forma como tentamos descrevê-lo, as palavras são sempre insuficientes, pois ele é muito mais do que se possa dizer. Afirmar que é apenas um aglomerado de contradições não seria fazer-lhe justiça. Ele é bastante inteligente e competente como estrategista, com uma lógica inflexível, mas não sabe como cozinhar um ovo. Não faz mal, acho que nem sequer está interessado em aprender. Ele tem como poderia ser descrito como a clássica programação Macho Alfa. Não tem qualquer dificuldade em decidir o que quer e esforça-se por consegui-lo. Não vê limitações, apenas possibilidades. De certa forma, ele é o espírito do U2, representa coisas que fazem parte de todos nós.

O Edge também é muito ambicioso e empenhado, mas pode não dar para perceber isso a menos que o conheçam bem, pois é uma faceta ligeiramente turvada para a sua humanidade e bondade. Põe sempre as outras pessoas à frente. É bem capaz de estar concentrado com o seu trabalho, a meio da noite, mas se lhe pedirmos ajuda em alguma coisa, ele dedica-nos toda a sua atenção para resolver qualquer que seja o nosso problema. É um amigo e colega fantástico, com uma mente bastante perspicaz. O Bono é mais virado para os resultados enquanto o Edge dá mais importância aos pormenores. Isso origina uma excelente combinação de forças criativas.

O Larry é uma pessoa muito sensível e um amigo fiel. Para ele é tudo preto no branco. Ele pensa no mundo da mesma forma que pensa na bateria: as coisas ou estão no tempo ou estão fora dele, não podem estar ligeiramente no tempo ou ligeiramente fora. A propósito, geralmente, sou eu que estou fora do tempo. O Larry é um amigo muito fiel e um baterista bastante dotado. É difícil perceber como é que ele consegue, pois limita-se a aparecer e a tocar. Pode até estar chegando do ginásio, senta-se e lá começa ele. Faz com que pareça terrivelmente simples.

Não sei dizer qual é a minha contribuição para o U2. Não é necessariamente a minha forma de tocar Baixo. Às vezes, o Edge toca baixo, outras vezes é o Bono. Não é um território exclusivamente meu. Vence sempre a melhor idéia, seja ela de quem for. Mas há algo de especial quando tocamos juntos. É algo inexplicável, mas sempre foi o que mais me entusiasmou. É a base sobre a qual construímos o U2, a faísca de emoção e energia entre nós, e é preciso estar lá para isso acontecer.

Página 9 – LARRY

Não sou de todo uma pessoa extrovertida. Nunca me senti muito à vontade com esta história da fama. Não gosto de chamar a atenção.

Eu sei que pode parecer ridículo – devem estar pensando “Então, está na área errada, não, colega?” E provavelmente até é verdade. Mas a minha paixão é tocar bateria no U2. Dar concertos e fomentar o meu espírito criativo num estúdio são as minhas drogas que escolhi. Quando comecei com isto, a idéia de me tornar uma estrela de rock era ridícula. Não sei até que ponto ser uma grande estrela de rock e tocar bateria se encaixa, e as pessoas que tentam combinar as duas coisas geralmente acabam mortas ou em centros de reabilitação. Eu prefiro ficar batendo em coisas.

Já li muita porcaria sobre o U2. Sempre que nos vejo descritos de uma forma mítica como mestres do nosso destino, me dá vontade de rir. Estar no U2 é mais como andar num comboio descontrolado, ao qual nos seguramos com força para não cair.

A minha função no U2 é manter as coisas estáveis. Ao longo dos anos, a banda enfrentou com dificuldade imperfeições musicais, por isso, só o fato de tocarmos juntos pode ser um desafio. Os concertos podem ser uma espécie de obstáculo e, por vezes, nós tropeçamos. Portanto, como baterista, tento ser o elo firme. Se há alguma dúvida sobre o tempo de alguém na música, eles olham para mim e sabem que eu resolvo a situação. Falar é fácil…

Eu e o Adam contamos muito um com o outro. O Edge podia estar pressionando botões, experimentando sons diferentes e o Bono trepando em andaimes e saltando para o meio do público – às vezes nem sequer sabíamos onde ele estava. Durante a grande parte do tempo, era só eu e o Adam em palco, por isso tínhamos de interagir e comunicar um com o outro.

Pode se dizer que o U2 é uma democracia… mas apenas no sentido grego clássico, quando a democracia estava nas mãos de quem detinha o poder. O processo de tomada de decisão é o mesmo de quando começamos. Quem melhor conseguir fundamentar os seus argumentos e articular as suas idéias ganha o dia. Quando se pertence a uma banda com um membro tão ruidoso, falador, argumentativo e persuasivo como o Bono, as coisas podem tornar-se bastante complicadas para os outros membros.

Todos temos diferentes necessidades e somos pessoas bastante distintas, com personalidades diversas. Somos um só, mas não somos, definitivamente, os mesmos. Se há algo de especial no U2, não tem nada a ver com cada um de nós individualmente. É algo que acontece quando nos juntamos como um todo, num palco ou num estúdio. É uma experiência estranha e difícil de descrever. Mas é a única razão pela qual ainda fazemos isto. Quando tocamos juntos, algo de extraordinário acontece.

Agradecimentos: ao Cris (Bonolocks), Joane e Line pela iniciativa.