Especial Bono 60: O colecionador
Especial Bono 60: O colecionador
05 de maio de 2020
Especial Bono 60: O colecionador
No terceiro post do nosso especial, uma lista imensa e mesmo assim pequena das referências que fazem parte de toda a formação de Bono ao longo da sua carreira e, especialmente, vida.
Vicky
Editora do U2 Brasil

E estou aqui de volta para mais um episódio desse especial em comemoração ao aniversário de 60 anos do nosso vocalista favorito (bem, pelo menos acho que aqui a gente pode afirmar isso né?)

Como disse lá no primeiro texto, não quero nem de perto fazer uma biografia, uma coisa definitiva e nem nada tradicional nessa singela homenagem. Então se você achou que agora viria encontrar um texto contando como a banda assinou o seu primeiro contrato, como surgiram os hits e todas essas coisas, esqueça. Quero focar os textos no que posso assim dizer na formação de Bono como ser humano, no caminho pelo qual Paul teve que passar para virar Bono e isso com uma visão mais voltada para a cabeça e o coração dele.

Então desculpe a decepção, mas fica a dica que aqui mesmo no U2BR você tem muito material sobre a carreira do U2. Contudo, já vou dar um spoiler que para os próximos meses temos muito material especial sendo preparado para vocês. Aguardem mais especiais (tem um certo álbum fazendo aniversário esse ano), mais entrevistas, mais notícias. E na dúvida, lembre-se: o Google é nosso salvador e nada nos faltara.

Dessa vez não temos mini aula de História, vamos direto ao ponto. Dessa vez, vamos falar sobre as referências que Bono teve durante toda a sua vida. Pessoas, autores, outros músicos, fatos, lugares... Será impossível cobrir todas influências e referências, pois Bono é praticamente um ímã de tantas coisas. David Bowie algumas vezes se definiu como uma espécie de colecionador, uma pessoa que ia absorvendo várias referências a sua volta e a reunindo para definir a sua persona, o seu modo de cantar, as suas letras (não vou começar a falar do homem, ou eu não termino nunca, mas para quem tiver curiosidade escute algo gravado do primeiro álbum dele, passe para uma referência da trilogia de Berlim e siga para os anos 80, são vários cantores dentro de um só). Bono tem muito disso também.

Sem mais delongas, vamos lá.

  • IrlandaWhere you live should not decide / Whether you live or whether you die. Onde você mora não deveria decidir se você vive ou morre, mais do que certo isso, e mais do que deve ser respeitado, mas certamente define quem você se torna. A construção da nossa personalidade é diretamente influenciada pelo meio no qual nascemos e somos criados: nossos pais, dogmas religiosos, cultura do país, rotina, acesso à educação, contexto histórico e todos os pontos que estão em contato não apenas na nossa “fase de formação” mas durante toda a nossa vida.

Um anúncio para uma apresentação do U2 juntamente com The Blades no The Baggot Inn em Dublin, 1979.

Então chega a ser absolutamente óbvio dizer que Paul não seria Bono se não tivesse nascido na Irlanda, mas o cenário do país misturada a sua sensibilidade e o modo como enxerga – e enxergava – o seu mundo ajudou a desenhar não apenas a sua personalidade mas a obra que viria a seguir.

Nos dias de hoje, Bono é mais velho do que era a Irlanda como um país livre na data do seu nascimento. Podemos, portanto, considerá-lo uma verdadeira testemunha de algo ainda sendo formado. Se tivesse nascido do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos por exemplo, estaria inserido na realidade de um país vivendo um Programa Espacial ou a eleição de John Kennedy; na Inglaterra estaria em uma debutante se recuperando do final da II Guerra Mundial; em Dublin ele estava em meio a conflitos, insegurança e um grande aprendizado.

Do trabalho mais recente ao mais antigo, na dobradinha Songs of Innocence e Songs of Innocence, a Irlanda é uma personagem determinante e mais do que presente. No mais recente álbum (se quiserem conferir o nosso especial com uma análise profunda dele bata clicar aqui), em Love is Bigger Than Anything is its Way, numa letra que reflete como boa parte do álbum, uma certa introspecção e reflexão sobre a vida e a passagem do tempo, Bono se coloca observando a baía de Killiney, em Dublin, onde mora e se coloca pensando que talvez cada dia seja um recomeço...

Songs of Experience talvez seja um dos “álbuns mais Bono” de toda a carreira do U2. Estamos acostumados com ele sendo sempre o narrador da banda através das suas letras, mas no último disco elas se tornam testemunhos, se tornam cartas. Ainda há um grande mistério sobre o que Bono disse ter passado por uma experiência de quase morte que o influenciou e alterou sua visão de vida e isso está presente em cada faixa do disco, e quando o Bono de 50 e alguns anos é colocado em frente ao Paul que está em cada letra do trabalho anterior Songs of Innocence parece que vemos um encontro entre duas pessoas diferentes. Dublin da inocência dos anos 70 é uma personagem determinante do disco de 2014, tanto que há uma faixa apenas sobre a Cedarwood Road, onde até mesmos as árvores de cerejeiras no quintal da casa da família Rowen – vizinhos e amigos desde então até os dias de hoje – tem o seu espaço.

"Cedarwood Road", disse Bono, "não é sobre exumar o passado, mas entender como ele se torna parte de você. "Eu e meus amigos lidando com uma espécie de cultura skinhead, agressiva daquela época, criando nossa própria realidade e, eventualmente, nossa própria banda de rock and roll. É assim que lidávamos com o medo que sentíamos. Quando eu estava escrevendo sobre Cedarwood, a grande revelação para mim foi que você não pode realmente deixar essas coisas para trás porque elas são quem você é, você nunca pode escapar da sua formação.” – Bono, Rolling Stone, 30/6/2015.

Marcha relembrando os 35 anos do Bloody Sunday, em Derry.

Talvez um dos maiores talentos de Bono como letrista é a capacidade de transportar uma realidade tão sua, tão apenas interessante para si em algo que traduza o sentimento independente do ponto geográfico que o seu ouvinte esteja. Vamos ser honestos aqui, quem no meio dos anos 80, ou nos dias atuais poderia se sentir afetado por um conflito que envolvesse diferença religiosas lá do outro lado do mundo em um país que na realidade pouco importa para a gente? Pois bem, a música que alçou o U2 definitivamente ao posto de uma banda que “merecia ser ouvida” fala sobre um conflito acontecido em uma pequena cidade da Irlanda do Norte 11 anos antes do lançamento da canção. Porém, as imagens pintadas por Bono e o desespero na sua voz faz com que cada linha se torne praticamente universal.

“And the battle's just begun

There's many lost, but tell me who has won

The trench is dug within our hearts

And mothers, children, brothers, sisters torn apart”

Poderia citar mais diversas outras como Running to Stand Still, com a agonia da  caminhada pela Seven Towers ou a sensação de querer estar de volta a uma casa que se reconstrói em meio a algo que foi destruído e não sabemos exatamente pelo o que como em A Sort  of Homecoming. Ou apenas a vontade de dançar com os jovens casais no Crystal Ballroom.

Isso daria assunto para textos e textos, mas vamos a próxima referência ou esse texto não vai acabar até o aniversário de 80 anos do Bono.

  • Iris Hewson – Acho que todos ficaram esperando no primeiro capítulo deste especial enquanto falava sobre a infância de Bono, afinal desde o início da banda nenhuma imagem foi tão presente nas letras do U2 quanto a mãe do seu vocalista.

Iris só foi chamada pelo seu nome mais de 30 anos depois do lançamento do primeiro álbum do U2 em uma música, quando em Songs of Innocence a faixa Iris (Hold me close), a chama pelo nome, e pede que ela não o deixe, como se pudesse voltar a ser aquele adolescente que perdeu sua mãe em 1974. Quem pôde ver algum show da iNNOCENCE+eXPERIENCE Tour e também da eXPERIENCE + iNNOCENCE ao vivo ou em algum vídeo, acompanha a dor de Bono ao estender a mão a cada um dentro das arenas em que se apresentava, como se fosse o filho pedindo pela sua mãe perdida. Bono se mostrava distante de todos frágil, abraçado muitas vezes em si, enquanto Iris tinha algumas imagens projetadas no telão e dizia a todos sobre a dor que estava naquela época aos 14, e ainda está dentro do seu coração, e agradece por ela ser o responsável por ele ter chegado até ali. Era como se ele pudesse olhar nos “olhos que levaram milhares de anos par chegar” e dizer “olha mãe, olha onde eu estou, olha quem eu me tornei. Sobe aqui no palco comigo e veja todos eles”. É um canto de desespero, amor e agradecimento.

"Quarenta anos atrás, minha mãe desmaiou no funeral do próprio pai e eu nunca mais conversei com ela [...]  A raiva sempre segue a tristeza, e eu tinha muito, e ainda tenho, mas as canalizei para a música e ainda o faço. Tenho muito poucas lembranças da minha mãe e coloquei algumas delas em uma música chamada ‘Íris.'" – Bono, Rolling Stone, 2014.

Quando somos crianças – não estudei psicologia, não sei se estou falando besteiras – aos psicólogos,  todos da minha família inclusive, já peço desculpas –  temos o que é chamado de apego aos nossos pais, especialmente a mãe, mas isso não nasce de forma natural conosco, ele é conquistado, o bebê adquire a confiança a sua mãe, que une a ela e se sente segura e disposta a aprender e confiar naquela pessoa que está ali. Uma infância com um envolvimento sadio entre mãe e filho garante adultos seguros e mais preparados, enquanto o contrário faz com que se desenvolvam de maneiras ansiosas ou emocionalmente distantes. Na adolescência, mesmo que a nossa rebeldia grite, ainda temos esse nosso laço que precisa ir sendo desfeito, mas no caso de Bono ele foi cortado de maneira abrupta, é como se ele não tivesse concluído a sua formação. No seu caso ainda foi mais doloroso, pois como já dito Iris era a melhor amiga de Paul, a sua metade até aquele momento.

Bob e Iris Hewson

“Todo adolescente passa por uma fase complicada, e isso foi bem exacerbado, suponho, por não haver ninguém em casa. A morte de minha mãe realmente afetou minha confiança. Eu voltava para minha casa depois da escola, mas não era uma casa. Ela tinha ido. Nossa mãe se foi, a linda Iris. . . Eu me sentia abandonado, receoso. Eu acho que o medo se converte em raiva muito rapidamente. Isso Ainda está comigo” - ASSAYAS; Michka, 2007, Riverhead Books, p. 15, 2005.

Essa raiva foi canalizada logo na abertura do primeiro álbum da banda Boy que chega aos 40 anos no final desde 2020. I Will Follow fala do amor incondicional da mãe pelo seu filho, pelo menos é o que Bono disse por muito tempo durante as suas entrevistas, quando afirmava que era sobre a mãe seguir o filho por onde ele precisasse. Porém, em análises feitas posteriormente por ele, especialmente no início dos anos 2000, Bono chegou a dizer que a música de certa forma representava as vezes que ele pensou em tirar a sua própria vida, pós a morte da sua mãe, e isso seria o uso correto do seguir, ele iria atrás de Iris.

Não quero me estender mais sobre isso, ou vamos acabar parando em um texto absolutamente sobre Iris (o que renderia muito, quem sabe um dia). Mas ela está e esteve ao lado de seu filho em muitas ocasiões. Bono se lembra na biografia oficial da banda U2 by U2 sobre o piano que a sua avó tinha em casa, que acabou por ser vendido, mas que na realidade ele queria tê-lo levado para sua casa, mas Iris não deixou. Talvez a música já estivesse dentro dele ali, e de alguma maneira depois ela retribuiria esse piano tirado como o inspirando, mesmo que pela dor durante tanto tempo.

Mofo, Tomorrow, Lemon são outras canções feitas para ela.

  • Bob Hewson – “Você é a razão pela qual eu canto / Você é a razão pela qual a opera está em mim”.

Durante o lançamento da versão do livro Pedro e o Lobo, em 2003, para qual Bono fez as ilustrações em uma entrevista ao jornal britânico The Telegraph, ele contou um história que diz muito sobre o relacionamento dele com o seu pai, Bob Hewson.

Bob and Paul Hewson

“Eu tive um momento incrível com meu velho a primeira vez que ele veio à América (Estados Unidos)” ele lembra com uma risada afetuosa. “Foi no Texas, durante a passagem de som eu combinei para que o pessoal da iluminação colocasse uma grande luz sobre ele enquanto estivéssemos tocando o nosso bis. Eu disse ‘Esse é o homem que me deu a minha voz. Este é Bob Hewson!’ A luz acendeu, 20.000 texanos gritando. Depois do show, estava no camarim, ouvi esses passos atrás de mim e olhei em volta, era meu pai. Seus olhos estavam lacrimejando e pensei ‘É isso. O momento que eu esperei toda a minha vida, meu pai iria me dizer que me amava, ele subiu as escada, veio até a mim, estendeu a mão, um pouco trêmulo, um pouco vacilante – ele havia bebido um pouco – me olhou nos olhos e me disse: ‘Filho, você é muito profissional'”.

Bob e Bono foram assim durante a vida toda, mesmo com Bono sempre lembrando que o afeto não era tão quente na sua casa. Bob de alguma maneira esteve do lado do seu filho sempre. Bono estava ao lado do seu pai quando ele faleceu em 21 de agosto de 2001, vítima de um câncer às 04 horas da manhã. Poucas horas depois, Bono voou para Londres e se apresentou diante de 17 mil pessoas que esperavam pela banda no Earls Court.

"As pessoas olham para alguém como eu e pensam que ele quer que o mundo o ame. Mas ele provavelmente só quer que uma pessoa o ame".

Bono sempre falou que seu pai era um grande homem, apesar de certa maneira poder ser visto “como um homem do seu tempo”, aquele machão durão, o típico que nunca daria o braço a torcer. Bono disse que seu pai, como grande fã de opera que cantava em casa todas as noites, fez com que ele descobrisse a sua voz, que ele criasse o gosto pela música, mesmo que infelizmente não pudesse ter conhecido o seu pai tão bem.

E essa relação de respeito, medo, amor e admiração pode ser visto nas músicas que Bono fez diretamente para o seu pai e acabam por serem momentos mais do que comoventes para aqueles que tomam conhecimento do seu background.

Em 1993, a banda gravou Dirty Day para o seu álbum Zooropa. A música passou 25 anos sem ser tocada em shows da banda, até que na apresentação do U2 em Dublin, em novembro de 2018, ela voltou a ser tocada. E ter sido feita na cidade natal, com a imagem do pai dos quatro integrantes reluzindo no telão, fez mais do que sentido. Na biografia oficial da banda U2 by U2, Bono explica que a inspiração dela veio de um frase dita pelo seu pai: “’It’s a Dirty Day’ (é um dia sujo) era uma expressão que o meu pai poderia usar, e foi influenciado por Charles Bukowski, o grande escritor e bebedor americano. Seu apelido era Hank e eu uso sua frase no final da música, 'Hank diz que os dias passam como cavalos sobre as colinas'. A música é sobre um personagem que abandonou sua família e, anos depois, conhece o filho que ele abandonou. Então não é sobre o meu pai, mas eu usei algumas das atitudes dele.”

"Um cara cascudo, duto. Irlandês, Dublinense, um dubliner do norte da cidade. muito cínico sobre o mundo e as pessoas nele, mas muito charmoso e engraçado.”

Falando em Dublin, no sábado após a morte do seu pai, vimos talvez como nunca, um Bono totalmente desarmado da sua armadura de rockstar diante de milhares de pessoas no lendário Slane Castle, cantando aos plenos pulmões que a emoção lhe permitia Kite. A música não foi composta para Bob, mas fala sobre crescimento, desapego, deixar ir, algo pelo qual Bono começava a passar enquanto observava o crescimento dos sues próprios filhos. Esse momento emocional está registrado no incrível DVD U2 Go Home. Que também conta com um emocionado discurso em que ele, em nome de toda a banda, antes da execução de Out of Control, lembra como as famílias haviam ajudado cada um com dinheiro no começo de suas carreiras.

Nem citei, que talvez seja a mais dilacerante música sobre uma relação de pai e filho. A primeira versão apelidada de Tough foi cantada por Bono durante o funeral de Bob, e posteriormente ganhou um belo vídeo gravado na capital irlandesa onde ele repassa por cenários Sometimes You Can't Make It on Your Own de sua infância e adolescência.

Bob também estrela uma bela versão do clipe de One.

  • Berlim – essa ordem nem faz sentido, mas como falei de One, impossível não lembrar do incrível e o processo criativo da banda para a criação do seu melhor álbum (opinião Achtung Baby totalmente imparcial).

Em 1989, no emblemático show realizado no Point Deport em Dublin, o U2 disse que precisava sonhar sonhos novos. A banda parecia ter chegado no ponto mais alto que qualquer uma poderia sonhar: seu disco The Joshua Tree os havia colocado na capa da Time Magazine, havia sido o número 1  da Billboard com três músicas, vencido o Grammy de Álbum do Ano na edição de 1988, e como os seus ídolos, eles tinham o seu próprio filme nos cinemas (mesmo que isso não tenha sido uma experiência muito boa para a banda), mas aquilo os colocava em um verdadeira encruzilhada. Um turbilhão de sonhos, pesadelos e emoções, e procurando o seu rumo, partiu como um dos seus ídolos rumo à Alemanha, tentando mais uma vez “encontrar o que estava procurando”.

U2 no Hansa Studios em Berlim, 1990.

A capital alemã era mais única ainda do que Dublin, qualquer outra cidade até os dias atuais inclusive, passou por nada parecido com o que ela viveu. Bombardeios, separação, reunificação... O U2 durante meses trabalhou nas paredes do lendário estúdio com Brian Eno, que há pouco mais de 20 anos tinha produzido apenas Heroes de David Bowie no mesmo lugar.

Berlim, o som industrial alemão e muitos outros pontos estão presente em cada faixa - e obviamente no título -  do álbum de 1991, mas não ficou apenas por ali a relação de amor e respeito entre o U2 e a cidade. No trabalho seguinte Zooropa, o U2 gravou Stay (Faraway, So Close), tema do filme Tão Perto, Tão longe, continuação do clássico Asas do Desejo, do diretor alemão Wim Wenders. O clipe para essa música além de lindo tem parte efetiva na memória de cada fã do U2, com os membros vestidos como anjos que vivem sobrevoando as ruas da cidade.

Em 2009, no aniversário de 20 anos da reunificação alemã, a banda se apresentou juntamente com Jay-Z em frente ao Portão de Brandemburgo.

Por um acaso não muito feliz do destino, em 2018, pela primeira vez na história do U2, Bono teve que abandonar um show por problemas na sua voz. A apresentação acontecia justamente em Berlim, como parte da segunda leg europeia da eXPERIENCE + iNNOCENCE Tour. Devido a isso, o último show da mesma turnê teve que ser realizado na cidade.

  • Estados Unidos / América (não vou entrar no mérito que Estados Unidos não é América e vice-versa, vocês entendem o conceito aqui) – você deve ter gritado mentalmente agora The Joshua Tree! Sim, esse disco é o mais “americano” dos trabalhos do U2, mas não é nem de longe a única referência dos yankess dentro do trabalho da banda.

Vamos ser sinceros, mesmo com Beatles, Queen, Rolling Stones, Led Zeppelin, a cultura do século XX é dos Estados Unidos. Seus filmes, suas músicas, seus cortes de cabelo mapearam toda a formação do ocidente pelo menos desde o pós-Segunda Guerra Mundial. E claro que isso acaba por influenciar a trajetória de uma banda como o U2 desde o início da sua carreira.

Imigrantes irlandeses desembarcando em Nova York.

Aliás, quando falamos de Irlanda em especial, talvez o conceito do american dream venha antes até disso. De acordo com o Dictionary of American History, de "50.000 a 100.000 irlandeses, mais de 75 por cento deles católicos, vieram para a América no século XVII, enquanto 100.000 mais católicos irlandeses chegaram no século XVIII”, muitos deles fugindo do que ficou conhecido como a  Grande Fome que atingiu a Irlanda no período entre 1845 - 1849.  No início dos anos de 1910, havia mais pessoas de origem irlandesa vivendo em Nova York do que em Dublin. Não é à toa que anos depois, quando Martin Scorcesse dirigiu seu Gangues de Nova York que retrata a formação da megalópole que tem fortes raízes irlandesas, o U2 tenha sido a banda escolhida para a trilha dele.

Em 1983, o primeiro flerte mais forte com os Estados Unidos se deu quando o U2 escolheu o cenário do Red Rocks localizado no Colorado para a gravação do seu primeiro vídeo-concerto Under a Blood Red Sky, que documentou a pulsante turnê de War que foi a primeira a reforçar a imagem de Bono com toda a sua presença de palco e a força de agir em certo pontos como um ser messiânico em cima do palco, com a bandeira branca nas mãos, marchando em nome da paz.

No ano seguinte a banda lançou The Unforgetable Fire que trazia nada mais nada menos do que Pride (In the Name of Love), um verdadeiro ode à liberdade em honra a luta do líder negro que lutou pelos direitos civis e acabou assassinado por isso: Martin Luther King. O nome do álbum também foi influenciado pelos Estados Unidos, já que o U2 o retirou de uma exposição realizada no Museu da Paz em Washington, em homenagem às vítimas dos bombardeios atômicos em Hiroshima e Nagasaki, ocorridos no Japão durante a Segunda Guerra Mundial, que tinha esse nome.

Bono já estava com as letras sendo escritas para o próximo álbum da banda, quando depois de encontros com Mick Jagger e Keith Richards, acabou por ter um contato mais direto com o blues ouvindo artistas como John Lee Hooker. Ele sentiu então que era a vez daquele irlandês explorar à América.

A influência da música americana no U2 que vinha mais do punk e pós punk, passou agora para nomes do jazz, R&B, blues e dos clássicos do rock como Elvis Presley. A dualidade entre a América mítica descrita por escritores como Bukowski e a realista, imperialista com a política intervencionista especialmente na América Central feita por Ronald Regan, está carregada em todas as tintas do disco de 1987. Apesar de The Joshua Tree ser o mais “emblematicamente americano” álbum da banda, não foi nem de longe aí encerrada a influência nos demais trabalhos da banda.

Durante a realização da Zoo TV, Bono resolveu cutucar bem de perto o governo de Bush (pai). Os Estados Unidos haviam mais uma vez voltado a suas garras belicosas para o Oriente Médio, e o demoníaco Mr. Macphisto tentava noite após noite ligar para a Casa Branca e pedir para falar com o seu pupilo. Antes disso, Mirrorball Man zombava dos televangelistas americanos e a sua fé... No dinheiro.

A eleição de Donald Trump e o cenário sociopolítico dos últimos anos não serviu apenas para trazer Macphisto de volta, mas as afiadas críticas de Bono aos Estados Unidos e toda a sua postura. Ou seja, uma verdadeira relação de amor e ódio.

Os Estados Unidos também aparecem na estética de pop e em canções como Miami, além de declarações apaixonados como no clipe de You Are The Best Thing About Me.

  • Fé - para muitos nada pode ser menos rock and roll do que citar bíblia, Deus e a fé em uma banda que não se propõe a ser gospel, mas isso não funciona para Bono e para U2, tanto que já se chegou muitas vezes a confundir o trabalho da banda com bandas cristãs.

A fé, especialmente a cristã, esteve sempre nos permeio da vida de Bono, como já dito aqui anteriormente pelo próprio cenário da Irlanda e pelo casamento dos seus pais. Bono nunca se declarou protestante ou católico, apenas sabemos que segue o cristianismo. O vimos receber a hóstia e comparecer à missas em diversos países e ocasiões. Já o vimos no Vaticano com mais de um papa, ao mesmo tempo que o vimos com diversos pastores e líderes protestantes.

Em uma matéria publica no site da The New Yorker em setembro de 2014, o jornalista Joshua (!) Rothman faz uma leitura interessante sobre a fé de Bono, a presença das referências bíblicas em suas letras e também sobre o porquê de a religião ser “escondida” de certa forma por ele e também de como o fato de a fã e o rock poderem ser uma dualidade presente dentro do vocalista de uma banda de rock.

“Durante o The Troubles (período no qual as tensão entre os grupos na Irlanda era muito grande historicamente determinado de 1968 a 1998, mas com mais impacto entre as décadas de 70 e 80), a banda testemunhou as consequências de uma abordagem à fé que havia se tornado muito organizada e marcial. Contra isso, eles defendiam a "rendição", tanto no sentido político quanto no religioso. Quando Bono apareceu no palco com uma bandeira branca durante as apresentações de ‘Sunday Bloody Sunday’, ele estava expressando não apenas uma posição em relação à política, mas também uma abordagem sobre a fé (geralmente, a música sugeria, que ambas eram a mesma coisa). O U2 estava aprendendo a infundir suas músicas com uma sensibilidade inacessível em suas vidas religiosas - uma espécie de rendição militante.”

O jovem Paul sempre esteve envolto nas questões religiosas desde o tempo do colégio em Mount Temple quando haviam reuniões de grupos que influenciados pelo movimento Carismático voltavam a buscar a sua fé na Bíblia e acreditar em um Deus mais presente dentro de si, de uma maneira diferente, mais ligada ao amor, aos dons do Espírito Santo (fica a dica do nosso Santo Google para mais informações). Ele, The Edge e Larry estiveram envolvido desde aquela época com o grupo Shalom, o que por muito pouco não causou um racha na banda logo na época de lançamento do seu segundo álbum October, quando ele se sentia dividido entre estar com todo aquele furor de ser alguém dentro de uma banda de rock e o lado da contrição e piedade da fé cristã. “Se Deus tinha algo a dizer sobre essa turnê, ele deveria ter levantado a mão um pouco mais cedo”, alegou Paul McGuinness que na época, em 1981, já era empresário da banda.

October talvez seja o disco mais “abertamente cristão” de toda a banda, isso soa até óbvio quando levamos em consideração que o maior hit do disco Gloria tenha boa parte da sua letra feita em uma tentativa de cantar em latim – mesmo que até hoje entre os fãs (rolou um bate papo bem maroto nesses dias de distanciamento sobre essa faixa em especial) não seja um consenso saber a origem dela, já que Bono disse ter se inspirado em Van Morrison, em Patti Smith e na perca da sua mãe -, e com uma estrutura que lembram os salmos da bíblia. A própria faixa título do disco soa exatamente como um salmo sobre promessas de coisas que ainda estão por vir e também por promessas quebradas e passadas.

Segundo o site Religion New Service, há mais de 50 referências a Bíblia nas músicas do U2 e essas podem ser tão diretas como em 40 que chega a ser “literalmente” um salmo retirado do livro sagrado, ou algo escrito nas entrelinhas e que brinca com uma certa sensualidade, algo extremamente profano como em Until The End of The World com o seu diálogo entre Judas e Jesus.

Esse tópico seria assunto – como já foi – para um verdadeiro livro, não quero me estender mais porque ainda tem muita coisa para dizer ai a frente. Mas faça você quem sabe a sua própria caça as referências de fé de Bono escondidas nas letras da banda.

Bono escreveu inclusive um prefácio para edição de um livro dos Salmos lançado recentemente.

“O Espírito de Deus se move através de nós e do mundo em um ritmo que nunca pode ser restringido por nenhum paradigma religioso. Eu amo isso. Você sabe, diz em algum lugar das escrituras que o Espírito se move como um vento - ninguém sabe de onde veio ou para onde está indo.” – Bono para o site beliefenet.com em 2001.

  • Livros -  falando em livros sagrados, vou naquele gancho para livros profanos. Bono é um leitor voraz e podemos encontrar referência a diversos autores diferentes por várias letras da banda. Traçar apenas um ou outro ator que tenha aparecido nas letras escrita por ele não é uma missão das mais fáceis, por isso não vou ser nem louca de tentar colocar uma lista aqui.

Há muito tempo, numa galáxia muito distante, eu aprendi com a minha professora da terceira série que para escrever bem era preciso ler muito. Ler ajuda no desenvolvimento do seu vocabulário, ajuda a atiçar a curiosidade para a pesquisa, ajuda você a ter o seu cenário, a descrever as coisas para que os outros possam “ver sem enxergar”. Como um grande letrista, Bono deve ter tido esse conselho ou essa percepção também desde muito jovem.

Encontramos frases e referências a livros e autores por diversas linhas escritas pela banda, mas vou citar apenas algumas neste momento para que tenham uma pequena ideia de quanto o nosso vocalista favorito e honrado aniversariante pode ser eclético.

O exemplo mais notável mais recente foi a obra do poeta inglês William Blake e o seu Canções de Inocência e de Experiência (Songs of Innocence and Experience) que serviram como inspiração e referência para o processo dos dois últimos álbuns lançados pela banda.

Exit, a poderosa canção de The Joshua Tree que voltou a hipnotizar a todos durante a turnê comemorativa aos 30 anos do álbum com Bono encarnando o seu Shadow Man, teve o ponto de inspiração para a sua criação em livros que contavam história sobre assassinatos nos Estados Unidos em anos anteriores: “Eu tinha lido The Executioner’s Song de Norman Mailer e A Sangue Frio de Truman Capote”, disse Bono no livro U2 by U2. Exit foi minha tentativa de escrever uma história dentro da mente de um assassino. Não para focar na América e sua violência presente em uma política externa agressiva, mas para realmente entender que você tem que ir fundo na sua própria escuridão, a violência que todos nós possuímos dentro de nós”.

Sobre Silver and Gold, lançada inicialmente com uma versão acústica para o projeto Artists United Against Apartheid, com Keith Richards e Ron Wood acompanhando Bono, tem o seu verso “I have seen the comings and goings, the captains and the kings”, retirada de um poema do irlandês Brendan Behan, membro do IRA e um dos nomes mais importantes da literatura irlandesa na década de 60. Enquanto ele usava as palavras como uma visão a cerca do Imperialismo Britânico sobre a Irlanda, Bono a transformou em um canto para os que sofriam com a segregação na África do Sul. Uma das outras inspirações de Bono para essa letra segundo ele foi a leitura de Night Of The New Moon, de Lauren van der Post, que relata a experiência do autor em um campo de concentração japonês durante a II Guerra Mundial. A título de curiosidade, esse livro serviu também como inspiração para Furyo – Em nome da honra, filme com David Bowie lançado em 1983.

Procure por referências nas letras escritas por Bono, isso pode ajudar você a ver o mundo de maneira melhor

  • Bob Dylan – como falar de livros sem citar a influência do Prêmio Nobel de Literatura de 2016 (ou seja, um cara muito f*d*).

O U2 estava gravando The Unforgetable Fire em 1984, no Slane Castle, onde Bob Dylan faria um show no mesmo local em julho. A revista Hot Press, importantíssima publicação sobre música na Irlanda sabendo que Dylan havia elogiado a banda, e que os garotos eram o nome mais forte da música do país naquele momento, resolveram convidar Bono para entrevistar Bob.

“Fomos todos para o castelo de Slane, onde fui apresentado ao grande poeta. Foi muito importante para mim. O que eu não esperava é que fosse significar alguma coisa para ele. Por isso, quando ele me perguntou se podia tirar uma foto comigo, fiquei bastante surpreso. Essas eram as características daquele grande homem: a sua humildade e o seu humor.”

No mesmo camarim de Bob Dylan estava outro dos heróis de Bono – e talvez de toda Irlanda –: Van Morrison. Bono assumiu o perfil de aluno e ficou ali em conversa tendo conselho dos seus dois ídolos. Partindo do princípio de que Bono como dito é grande admirador de suas letras, Dylan o convidou para subir ao palco e cantar o clássico Blowin’ In The Wind com ele. Mal sabia que o jovem ali em frente dele tinha – e tem – um certo problema em decorar letras das suas próprias músicas quanto mais uma que ainda vinha com a carga de uma boa dose de nervosismo. Mesmo se esforçando em ter decorado a letra, Bono subiu ao palco em frente aos 40.000 presentes e entregou a sua própria versão, uma espécie de oração lírica em cima da letra que não se lembrava. A frase que deveria ter sido cantada: "How many times must a man look up", Bono a transformou em "How many times must a bombsman last / How many times must people cry?  / How many newspapers must we read before we go to sleep?".

Dylan se manteve no palco, assim que Bono deixou o microfone ele o assumiu e entregou a versão correta para o público, que na realidade não parecia se importar.

“Desculpa por ter inventado partes da letra de ‘Blowin in the wind’. A sua versão com certeza é melhor.” E ele disse: “Eu passo a vida fazendo isso. Também nunca lembro das letras.”

Bono e Dylan criaram uma amizade e uma parceria a partir daí. O irlandês apresentou Daniel Lanois ao americano, e daí surgiu uma parceria para a gravação dos melhores trabalhos de Bob nos anos 90 (na opinião de Bono e também de muitos críticos): Time Out of Mind e Oh Mercy.

Ah sim, e apenas não podemos esquecer que a linda Love Rescue Me de Rattle and Hum foi escrita por um Prêmio Nobel de Literatura.

  • Ramones, The Clash, Patti Smith e o punk – uma maldade colocar tudo isso dentro do mesmo saco, mas a época em que todos esses artistas sugiram desenham a cena punk dos anos 70 e a formação de Bono e U2 como banda.

Bono e seus amigos não caíram de amores pelo punk à primeira vista. Na adolescência, Bono estava mais para David Bowie e John Lennon do que para John Strummer ou Joe Ramone. Mas a atitude de “faça você mesmo” dos punks, bem como a real total atitude “eu não me importo” para o que era considerado “talento musical” ou “cantar bem”, acabaram por o conquistar. A primeira música de Songs of Innocence, The Miracle (of Joe Ramone), com esse título autoexplicativo é uma homenagem de Bono a Joe, e um eco do título de uma outra canção I Believe in Miracles, lançada pelos Ramones em 1989.

“Eu não conseguia cantar em bandas de punk rock ou bandas de hard rock. Eu tentava cantar como Mick Jagger, mas não dava certo. Eu percebi que cantava como uma menina e fiquei meio deprimido com isso, sendo um homem Irlandês. E aí eu percebi que Joey Ramone cantava como uma menina. Percebi que ele tinha uma bela voz cheia de melodia. E se eu tivesse sorte, poderia ter uma também.”

Quando a banda foi formada, as primeiras músicas que aprenderam a tocar juntos foram músicas dos Ramones, Glad to See You Go estava entre elas. Segundo relatos em diversas entrevistas e na biografia oficial do U2, essa música inclusive chegou a ser tocada pelos garotos como sendo próprias para conseguir algumas apresentações – inclusive as primeiras na TV - no início da carreira.

Joe Ramone faleceu no dia 15 de abril de 2001, em Nova York vitimado por um câncer linfático. Segundo os relatos da sua mãe que estava com ele, a última música ouvida por ele antes de partir foi In a Little While. No show do U2 após a morte de Joe, Bono dedicou One e Walk On para Joe, além de ter cantado I Remember You com lágrimas nos olhos. Em outubro do mesmo ano a banda recebeu um prêmio especial da MTV pela sua carreira, ele foi recebido por Marky Ramone e apresentado por Bono.

Bob Dylan e Patti Smith

Na turnê do disco que possuía a homenagem a Joe, a música escolhida para chamar o U2 ao palco era People Have The Power de Patti Smith, a musa, deusa, nossa senhora amém (muito imparcial eu escrevendo sobre ela) não apenas do punk, mas da música e das nossas vidas. Patti é considerada por muitos como a mãe do movimento punk nova-iorquino. No final dos anos 60 Patti já tinha um bom relacionamento na cena cultural de Nova Iorque, nascida em Chicago e criada em Nova Jersey, ela morava na cidade desde 1967. Em 1969 após o retorno de uma viagem que fez a Paris com a sua irmã retornou à cidade, se mudou para o Hotel Chelsea e passou a se envolver mais com o cenário musical. Em 1975, juntamente com o Patti Smith Group lançou o genial Horses, um dos embriões da grande cena punk e que conta como faixa de abertura com um pulsante cover de Gloria de Van Morrison.

The Edge cita no U2 by U2 como a banda se apaixonou por Patti e como a “poesia punk” apareceu para o U2:

“Adam voltou de Londres com uns discos muito interessantes...e um horrível de heavy metal. Estávamos todos falidos, por isso, aquela era a recompensa, acho eu, por ter passado o verão no mercado de peixe. Foi fantástico. Gostei muito do ‘Horses’ e algumas semanas depois fui comprar uma cópia em vinil para mim. Era uma música completamente inovadora e diferente de tudo o que se ouvia na época, juntamente com Pistols, Clash e Stranglers. A música da Patti Smith tinha essa característica de confrontação. A grande diferença é que era poesia.”

Patti tem o som, o amor, a doçura e a fúria dentro de si. Amém.

Segundo Bono, The Clash foi simplesmente a melhor banda da história e a responsável por ter dado toda a cartilha que o U2 precisava seguir no final dos anos 70 para o caminho de virar uma banda conhecida. Nascido em Ancara, na Turquia, com o nome de John Graham Mellor, posteriormente assumindo o nome de Joe Strummer, conheceu o guitarrista Mick Jones, então baixista Paul Simonon e ao baterista Terry Chimes e esses formariam o The Clash. Segundo a Rolling Stone disco de estreia deles ainda pode ser considerado até hoje como o disco definitivo do punk. Em uma entrevista de 2003, Bono, Elton John e Chuck D falaram sobre o Strummer e The Clash. Bono contou que eles foram a primeira banda que os garotos de Dublin viram tocar juntos.

“Bem, sem exagero, o Clash foi a primeira banda de rock vimos nos apresentar. Foi em 1977, em Dublin, na turnê ‘Get Out of Control’ - na verdade, escrevemos uma música chamada ‘Out of Control’ depois de assistirmos ao show. Eu tinha 17 anos na época e lembro-me de estar assustado porque havia uma atmosfera agressiva no portão. Mas eu também estava feliz. Fiquei admirado ao ver as roupas deles - eles estavam usando estilo de guerrilha militar, equipamento de ataque artístico - e não havia uma atmosfera na multidão que parecia que algo iria acontecer, como se alguém pudesse morrer ou uma revolução fosse começar. Foi uma daquelas noites que apenas viram seu mundo de cabeça para baixo.”

  • David Bowie - Amém.

Bowie e Bono, Nova York, 2000.

Pense que um dia você talvez pudesse simplesmente sentar e tomar um café com Deus, ou uma cerveja com o Bono. Foi isso que Bono pode viver algumas vezes aos longos dos anos ao ter se aproximado de David Bowie, a ponto de poder estar até mesmo presente no casamento do cantar com a modelo Iman em 1992.

Bowie sempre fez parte do imaginário do U2, desde antes deles serem U2, e isso é absolutamente óbvio por uma banda formada na década de 70. No ano que o U2 se formou, o inglês já era um nome mais do que conhecido do rock, excursionava com a Isolar Tour encarnado o seu Thin White Duke, já tinha sido Aladdin Sane, criado e mandado de volta as estrelas Ziggy Stardust.  Larry Mullen, era um grande fã de Bowie, sempre ouvindo os discos do artista que faziam parte da coleção de discos da sua irmã mais velha. The Hype o segundo nome da banda antes de se tornar U2, era inspirado na primeira banda formada por David nos anos 70, que também chamava Hype.

Bono por diversas vezes citou Bowie em muitas e muitas entrevistas. Ele comparou Bowie a Elvis, dizendo que Bowie foi para Irlanda o que Elvis foi para a América. Na Rolling Stone, na edição especial feita para relembrar Bowie após a sua morte em 2016, Bono citou como foi ver Bowie pela primeira vez:

Bowie, Top of The Pops, 1972

“A primeira vez que o vi se apresentar foi no Top of the Pops em 1972, cantando "Starman". Ele era tão vívido. Tão luminoso. Tão fluorescente. Tivemos uma das primeiras TVs em cores em nossa rua, e David Bowie foi o motivo de ter uma TV em cores. Eu disse que ele era nosso Elvis Presley. Existem muitas semelhanças: a dualidade masculino-feminino, o domínio físico de estar em um palco. Eles criaram silhuetas originais, formas agora vistas como óbvias, que não existiam antes.

Ambos tinham aquela aparência de outro mundo. Com Bowie, você tinha essa suspeita furtiva de que, se estivesse perto dele, talvez encontrasse algumas portas para esses outros mundos. Na minha mente adolescente, ‘Vida em Marte?’ foi muito mais sobre, existe vida na terra? Estamos realmente vivos? Isso é realmente tudo o que existe?”

Em menos de 15 anos depois o mesmo Bono dividiria o palco do mesmo evento que Bowie durante o Live Aid e pouco tempo depois estariam na turnê Conspirancy of Hope juntos. O U2 recebeu Bowie no Hansa Studio onde trabalhavam com Brian Eno, que décadas antes junto com ele, naquele mesmo lugar deu ao mundo Heroes. Eles passaram a se encontrar regularmente por algumas vezes ao longo dos anos e das décadas. David levou a sua filha ver o musical da Broadway produzido por Bono e The Edge inspirado nos quadrinhos do Homem-Aranha.

Emocionado, no texto do Rolling Stone, Bono reafirmou que Bowie sempre havia sido a sua ideia de rockstar, que ele gostaria de se considerar um amigo, mas no real era apenas mais um fã.

Songs of Experience foi dedicado aos sonhos adolescentes de David Bowie.

Encerro por aqui esse texto, porque na realidade ele é digno de um livro todo. Apesar de imenso, o considero até que superficial. Faltam muitas referências aqui ainda: Oscar Wilde, Kraftwerk, Salman Rushdie, uma série de filmes. Ser fã do U2, ser admiradora de Bono me permitiu adquirir um pouco de toda essa bagagem dele e ser eternamente grata por me tornar uma pessoa melhor.

Desculpem o tamanho, espero que gostem e nos vemos nos próximos textos.

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