Especial The Joshua Tree: O álbum faixa a faixa | U2 Brasil
Especial The Joshua Tree: O álbum faixa a faixa
Postado por Suderland

Olá, caros apreciadores da boa música!

O artigo de hoje é para homenagear um dos álbuns mais aclamados do mundo do rock: “The Joshua Tree”! Ele é o quinto, de estúdio, do U2. Foi produzido por Daniel Lanois e Brian Eno, foi lançado em março de 1987. Foi número 1 em mais de 20 países e, de acordo com a revista Rolling Stone, foi esse álbum que elevou o U2 à estatura de “superstars” mundiais. “The Joshua Tree” venceu, em 1988, o Grammy Award de “Álbum do Ano” e “Melhor Performance de Rock por um Duo ou Grupo com Vocais”. Também está citado entre os maiores álbuns da história do rock e é um dos mais vendidos do mundo, com mais de 25 milhões de cópias vendidas.

O álbum tem forte influência da música norte-americana. Tematicamente, ele coloca em oposição a antipatia que a banda tem pela política imperialista dos EUA e a profunda fascinação do U2 com o país, suas liberdades, ideais, o “sonho americano”.  As suas letras estão carregadas de imagens “cinematográficas” e mensagens políticas, existenciais e espirituais. Nesse álbum o U2 conseguiu, soberbamente, unir o velho (blues, country e folk) ao novo (elementos eletrônicos e distorção). Se o mundo da música tinha alguma dúvida sobre a capacidade musical do U2, ela se dissipou totalmente com The Joshua Tree.

Em homenagem a essa grandiosa obra de arte do U2 escrevi uma pequena resenha das faixas do “The Joshua Tree”. Vamos a elas. Divirtam-se!

1. Where The Streets Have No Name

A primeira faixa do álbum,  foi lançada como o terceiro single atingindo a 13ª posição nos EUA e a 4ª posição no Reino Unido. É um clássico que passou constar em praticamente todos os shows da banda e se tornou uma das canções mais conhecidas do U2. Essa canção emblemática nasceu numa demo gravada por The Edge, ele queria uma canção para impactar estádios. No estúdio ele apresentou uma canção incompleta, mas que cativou a banda a ponto deles investirem muito tempo de estúdio buscando finalizá-la. Uma curiosidade é que o produtor Brian Eno quase apagou “acidentalmente” essa canção, porque a banda não conseguia chegar numa versão final. Só não o fez porque um engenheiro no estúdio o impediu de fazê-lo, felizmente. E o mundo ganhou uma grande canção para  estádios.

A banda já declarou várias vezes o quanto essa música é importante nos shows do U2, que é a música que levanta o público. Bono disse numa entrevista: “O início de ‘Where the Streets Have No Name’ é um extraordinário ‘throwdown’ para a audiência. Adoro a ideia dessa música – sobre levar alguém em uma viagem, porque é isso que é um concerto. Diz ao público: ‘Sim, podemos estar em um parque de estacionamento, em um estádio ou em outro lugar absurdo para ouvir música, mas a música pode nos levar para outro lugar, pode transcender o tempo e o lugar.'”

Já sobre a inspiração da letra, uma das coisas que o Bono disse foi: “Uma história interessante que alguém me disse uma vez, é que em Belfast, por que rua alguém vive, você pode dizer não só a sua religião, mas dizer quanto dinheiro eles estão fazendo – literalmente, por qual lado da rua que vivem, porque quanto mais você subir a colina mais caras as casas tornam-se. Pode-se dizer quanto as pessoas estão ganhando só pelo nome da rua em que vivem e que lado da rua em que vivem. Isso disse algo para mim. E assim comecei a escrever sobre um lugar onde as ruas não têm nome.”

2. I Still Haven’t Found What I’m Looking For

A segunda faixa do “The Joshua Tree” foi lançada como o segundo single e se tornou um dos grande sucessos da carreira do U2. Ela alcançou o 1º lugar na “Billboard Hot 100”, após o primeiro single do álbum, “With or Without You”. Essa canção nasceu de uma demo gravada pelo baterista Larry Mullen Jr. com clara inspiração da música gospel americana. A banda chegou, inclusive, gravar uma versão dessa canção com coral gospel do Harlem.

A letra dessa canção descreve uma busca espiritual, uma insatisfação existencial. O instrumental é magistral, tem uma incrível e impactante performance vocal do Bono e um dos refrões mais pop da carreira do U2. Bono deu a seguinte declaração sobre a letra: “A abordagem foi influenciada pela poesia dos Salmos, que eu sempre amei. Para mim, é muito parecido com o blues – onde o homem estava clamando a Deus. É como David declamando a Deus, ‘Onde você está quando eu preciso de você?'”

3. With Or Without You

A terceira faixa e o primeiro single do álbum, ela alcançou o 1º lugar da Billboard Hot 100 nos Estados Unidos durante três semanas. Essa música tem sua origem em demos gravadas durante a “Unforgettable Fire Tour”. Nesse período foi feito a primeira demo de “With Or Without You”. Nessa canção vemos um instrumental que começa calmo e vai crescendo em intensidade até ao clímax no refrão, onde vemos, mais uma vez, uma performance vocal marcante do Bono, que dá dramaticidade à letra.

Aliás, quanto à letra, Bono declarou que “With Or Without You” não faz sentido sem “Walk To The Water” e “Luminous Times”, talvez por isso essas três canções saíram no single de “With Or Without You”. Segundo declarações o Bono, ele escreveu a letra durante uma visita à Riviera Francesa, quando ele se esforçava para conciliar suas responsabilidades como um homem casado e um músico. Seu desejo de pertencer ao mundo da música estava, muitas vezes, em desacordo com sua vida doméstica. Ao escrever a letra ele percebeu que nenhuma faceta de sua vida o definia, mas sim a tensão entre esses dois mundos. Bono explicou que a letra é “sobre ‘tormento’ e como reprimir os desejos só os torna mais fortes.”

4. Bullet the Blue Sky

A quarta faixa é, certamente, uma das músicas mais abertamente políticas da banda, sendo usada nas performances ao vivo para fazer duras críticas aos conflitos políticos e à violência. Ela foi originalmente escrita sobre a intervenção militar dos EUA na Guerra Civil de El Salvador, nos anos 80. Bono pediu ao Edge para “colocar El Salvador através de um amplificador”. É um dos riffs mais pesados compostos pelo Edge, talvez isso tenha feito a banda de metal Sepultura fazer um cover dessa canção.

“Bullet the Blue Sky” se destaca no álbum por sua experimentação, riffs pesados, letra política, falando sobre raiva, usando metáforas, com um refrão fazendo uso de falsetes, gemidos e gritos. Bono realmente interpreta essa canção com muita indignação, mostra toda sua ira. Nas palavras do Bono: “Sim, escrevi essa letra inspirado numa situação em que me encontrei, em El Salvador. Vocês podem imaginar esses camponeses, você sabe, esses camponeses, quando olham para o ar e vêem esses helicópteros chegarem à sua aldeia ou vêem caças. Então eu tentei usar essas imagens, esse tipo de imagens primitivas.”

5. Running To Stand Still

A quinta faixa do álbum é uma grandiosa balada do U2, formada pelos inconfundíveis riffs da guitarra do Edge, acompanhada por um marcante piano. Essa é canção é mais uma que teve forte influência da musicalidade norte-americana (blues acústico e country blues). Foi muito elogiada pela crítica e teve cadeira cativa nos setlists do U2.

A letra é sobre um viciado em heroína que vivia nos apartamentos de Ballymun, Dublin. As sete torres ficaram, desde então, associadas a essa canção do U2. Essa música foi improvisada com o co-produtor Daniel Lanois durante uma sessão de gravação para o álbum. Sobre a letra Bono disse: “é sobre um problema de heroína em Dublin. As sete torres da canção era um lugar (Torres Ballymun) logo atrás de onde eu cresci, o que você chama de um projeto habitacional, com sete torres altas.”

6. Red Hill Mining Town 

A sexta faixa foi planejada para lançamento como segundo single do álbum, mas a banda desistiu e ela deu lugar ao single “I Still Haven’t Found What I’m Looking For”. E, curiosamente, foi a única canção do álbum que não foi tocada nos shows.

Ela nasceu inspirada numa greve, nos anos 80, do sindicato nacional dos mineiros na Inglaterra, que se tornaram opositores ferrenhos da Margaret Thatcher quando ela fechou várias minas alegando que não davam lucro. Isso causou um grande impacto econômico negativo para as famílias dos mineiros e gerou um dos conflitos civis mais polêmicos e amargos na Grã-Bretanha no século XX. E o Bono captou, na letra com muita sensibilidade e poesia, a sensação de desgraça que cercou a morte das pequenas comunidades mineradoras.

Sobre a letra, Bono declarou: “Eu estava interessado na greve dos mineiros politicamente, mas eu queria escrever sobre isso em um nível mais pessoal. Uma estatística fria sobre um fechamento do poço e as consequências que se seguem é bastante drástica em um nível, mas nunca diz toda a história humana. Eu queria seguir a história do mineiro desempregado até a sua casa e escrever sobre essa situação na música. A história não contada da greve de carvão é o número de relações familiares que, ou quebraram, ou foram colocados sob grande tensão. Isso foi o golpe final. Aqueles homens perderam o orgulho em si mesmos e não seriam capaz de enfrentar seus filhos ou dormir com suas esposas.”

7. In God’s Country 

A sétima faixa do álbum, segundo algumas entrevistas da banda, foi uma das faixas difíceis para a banda gravar. Já durante as sessões de gravação eles achavam que não seria uma de suas melhores músicas. Mas é uma faixa com riffs animados do Edge, um refrão de fácil assimilação, com uma letra ligeiramente política e com outra excelente performance vocal do Bono. Seu ritmo mais rock pop nasceu das tentativas do Bono de “arrancar um pouco de rock’n’roll da guitarra do Edge”.

Sobre a letra o Bono deu a seguinte declaração: “Não há sonhos suficientes. Na canção ‘In God’s Country’ eu estava falando – eu não sabia se eu estava escrevendo sobre a Irlanda ou a América por algum tempo. Finalmente eu dediquei essa canção para a Estátua da Liberdade: ‘chama nua, ela está com uma chama / eu estou com os filhos de Caim, queimado pelo fogo do amor.’ Eu queria escrever sobre a América e você sabe… o sonho. O sonho americano. E eu me pergunto: onde estão as pessoas que vão se levantar para o desafio? Você sabe, onde estão os novos sonhadores? Eu acho que eu estava falando na época, você sabe, sobre as pessoas que dizem: ‘Eu sou um marxista-leninista (esquerda), cara’ ou, você sabe, ‘Estou com Reagan (direita)’… Estas pessoas que pensam assim são todas velhas, estas são velhas ideologias. Eles são velhos e eu pensei, afastar o antigo, adotar o novo. Onde estão os novos sonhos… onde estão os novos sonhadores? A ideia ‘precisamos de novos sonhos esta noite’ é a linha de pensamento. Eu me pergunto onde eles estão. Eu quero vê-los.”

8. Trip Through Your Wires 

A oitava faixa tem uma pegada bem country e blues. É, notadamente, outra música influenciada pelo mergulho do U2 nas raízes das canções norte-americanas. E, diferentemente das outras canções do álbum, a sua melodia não é carregada de efeitos, é mais simples, porém muito bela. O Bono empregou belos e melódicos vocais no refrão, sem esquecer dos harmônicos solos de gaita, que eu gosto muito.

Segundo o próprio Bono, “Trip Through Your Wires” não faz muito sentido sem “Sweetest Thing”, que virou um b-side no single “Where the Streets Have No Name”. Como “Sweetest Thing” é sobre a Ali, então podemos deduzir que o Bono está sugerindo que essa canção faz referência a sua esposa.

9. One Tree Hill 

Essa canção foi lançada como 4º single do álbum na Nova Zelândia e Austrália, enquanto “In God’s Country” foi lançada como o 4º single na América do Norte. Essa distinção aconteceu porque “One Tree Hill” é uma homenagem do Bono ao seu amigo e rodie, Greg Carroll, que morreu num acidente de moto em Dublin. Dizem que por causa do tema e da carga emocional da letra, a canção foi gravada em apenas um take, pois o Bono estava muito emocionado e não quis fazer outro take. O título dessa canção é uma referência a um monte vulcânico da cidade de Auckland, na Nova Zelândia. Essa canção é marcada, do início ao fim, por um distinto e harmonioso riff criado pelo Edge e pela bateria do Larry. Destaque também para um órgão que dá uma textura mais sombria à música.

Sobre a letra, segundo Niall Strokes, editor da Hot Press, “One Tree Hill” pode ser interpretado de uma maneira espiritual. Ele a descreveu como “um tour de força espiritual”, explicando que “é um hino de louvor e celebração que descreve o tradicional enterro maori de seu amigo em One Tree Hill e o relaciona, poeticamente, com temas de renovação e redenção”. Steve Stockman, capelão da Queen’s University Belfast, acredita que a canção alude a “lugares transcendentes além do espaço e do tempo da Terra”.

10. Exit

A décima faixa foi desenvolvido a partir de uma longa sessão, mas que foi gravado em uma única tomada. Ela surgiu no último dia de gravação do álbum “The Joshua Tree”. Essa canção começa com o baixo do Adam ditando um tom sombrio, versos calmos, Bono cantando quase sussurrando, o que lhe dá um clima de suspense. Aos poucos o Bono vai elevando o tom e entra a bateria do Larry junto com um denso riff inconfundível do Edge. O instrumental, nessa música, vai crescendo e mudando de estilo. Do meio pro fim ela adquire uma sonoridade hard rock.

A letra, que retratam a mente de um serial killer, foi inspirada no livro de Norman Mailer chamado The Executioner’s Song. Nessa canção o U2 criou um textura cinematográfica densa e sombria para descrever a mente de um assassino. Sobre ela o Bono disse: “É sobre a história de um homem religioso que se tornou um homem muito perigoso, quando ele entendeu mal… as mãos do amor.”

11. Mothers Of The Disappeared 

A faixa escolhida para encerra o álbum, que é uma obra do prima do U2, não poderia ter sido melhor. “Mothers of the Disappeared” é uma canção poderosa que contém uma beleza deslumbrante e uma tristeza dilacerante e, ao mesmo tempo, contestadora. Ela é bem experimentalista, usa bastante sintetizadores em sua sonoridade, além de ter um excelente baixo e uma performance vocal do Bono que reforça o clima de luto e dor, com um refrão que lembra um choro. O instrumental começa baixo e vai crescendo lentamente até atingir um pequeno clímax, onde surge um riff contido da guitarra do Edge.

A letra foi inspirada nas experiências do Bono na Nicarágua e em El Salvador, nos anos 80, após o envolvimento de U2 na turnê A Conspiracy of Hope da Amnesty International. Nessa época Bono conheceu a história das “Madres de Plaza de Mayo”, um grupo de mulheres cujos filhos estão “desaparecidos” por causa das ditaduras argentinas e chilenas. Enquanto na América Central, ele conheceu membros da COMADRES, uma organização similar cujos filhos haviam sido desaparecidos pelo governo em El Salvador. Bono simpatizou com os Madres e COMADRES e queria prestar homenagem à sua causa. Sobre a situação política absurda que o Bono tomou ciência, ele declarou: “As pessoas simplesmente desapareceriam, se você fosse parte da oposição, você poderia encontrar um SUV, com vidro fumê, estacionadas ao lado de sua casa… E, ocasionalmente, eles iriam entrar, pegar você e assassiná-lo, não haveria julgamento.”

Espero que tenham gostado dessa jornada musical por essa “master piece” dada ao mundo pelo U2, o álbum “The Joshua Tree”. Como disse, e repito, se o mundo da música tinha alguma dúvida sobre a capacidade musical do U2, ela se dissipou totalmente com “The Joshua Tree”.

Cordialmente,
Suderland Guimarães (@suderland)


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  • Alexandre Aguiar

    Exit é tão sombria que inspirou um maluco a matar sua namorada! Durante seu julgamento, a canção foi tocada pela defesa, e ele levantou-se e cantou a letra toda! Foi condenado, e o U2 mandou condolencias a familia da vitima!