Há 50 anos uma bala cruzava o céu de Memphis | U2 Brasil
4 de abril de 2018 · Ativismo
Há 50 anos uma bala cruzava o céu de Memphis
VickyPostado por Vicky
Martin Luther King Jr.

Em 1929, em Atlanta, Geórgia – maior estado em extensão territorial dos Estados Unidos – Alberta Williams King deu à luz a Michael King, nome que depois foi alterado pelo seu pai para Martin Luther King Jr., que afirmava que o nome havia sido registrado incorretamente.

O local de nascimento de King em definitivo ajudou a determinar o seu caráter, o inquieto jovem que com apenas 13 anos e vindo de uma linhagem de pastores protestantes da Igreja Batista, em meio a Escola Dominical ousou questionar um dos maiores princípios do cristianismo, ressurreição corporal de Jesus, nasceu em um dos estados marcados pelo histórico de preconceito racial e segregação existentes desde os primórdios da formação dos Estados Unidos. Parte do sul escravocrata, a Geórgia era um dos estados que por exemplo, a até a década de 1960 ainda tinha escolas separadas para negros e brancos, sem contar os inúmeros incidentes ao longo de toda a sua História causada pelo preconceito e ódio racial.

E foi em um desses episódios que talvez Martin tenha começado a escrever em definitivo o seu nome na história pela luta dos Direitos Civis.

Dr. King não é apenas um apelido respeitoso, mas um título realmente conquistado por Martin em 1955 quando concluiu o doutorado em filosofia pela Universidade de Boston, local no qual também conheceu sua futura esposa Coretta Scott, com quem teve quatro filhos. No ano anterior havia assumido a função de pastor na cidade de Montgomery, no Estado do Alabama, local onde ocorriam os maiores conflitos raciais do país, como em outros locais do sul dos Estados Unidos, no qual inclusive a segregação racial tinha o respaldo da lei. Nos ônibus de Montgomery o motorista tinha que ser branco e os negros só podiam ocupar os últimos lugares. Foi dentro deste cenário que Rosa Parks, uma costureira negra se recusou a ceder o assento para uma pessoa branca e acabou sendo presa. Por 382 dias, King e outros lideraram um movimento contra a segregação, que envolveu a sua prisão, ameaças de morte e ataques a sua casa. O resultado, porém, foi considerado uma vitória já que resultou com a decisão da Suprema Corte Americana em tornar ilegal a segregação no transporte público.

Depois dessa batalha, Martin Luther King participou da fundação da Conferência da Liderança Cristã do Sul (CLCS, ou em inglês, SCLC, Southern Christian Leadership Conference), em 1957. A CLCS deveria organizar o ativismo em torno da questão dos direitos civis, com inspirações na desobediência civil – que havia ganhado notoriedade através do líder indiano Mahatma Gandhi – era formada basicamente por comunidades negras ligadas a igrejas batistas. A CLCS e o seu forte e eloquente líder organizaram marchas pelo direito a voto por todos, o fim da discriminação no trabalho e diversos direitos civis básicos. As suas marchas hoje em dia lendárias e seus grandes e fortes discursos, fizeram com que em outubro de 1964, mesmo ano no qual foi criada a Lei dos Direitos Civis, que garantia a tão esperada igualdade entre negros e brancos, King se tornasse a pessoa mais jovem a receber o Prêmio Nobel da Paz “em reconhecimento à sua nação e à sua liderança na resistência não violenta e pelo fim do preconceito racial nos Estados Unidos.”

“Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença – nós celebraremos estas verdades e elas serão claras para todos, que os homens são criados iguais.

Eu tenho um sonho que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos desdentes dos donos de escravos poderão se sentar junto à mesa da fraternidade.

Eu tenho um sonho que um dia, até mesmo no estado de Mississippi, um estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor de opressão, será transformado em um oásis de liberdade e justiça.

Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Eu tenho um sonho hoje!”

Trecho do lendário discurso “Eu tenho um sonho”, realizado por King em 28 de agosto de 1963, nas escadas do Lincoln Memorial para 250 mil pessoas que participaram da Marcha de Washington por Empregos e Liberdade, na capital dos Estados Unidos.

No ano seguinte, em 1964, Dr. King passou a apoiar outras causas como o combate a Guerra ao Vietnã e a luta por por justiça socioeconômica, contra a pobreza (a “Campanha dos Pobres”), que tinha por objetivo principal garantir ajuda para as comunidades mais pobres do país, e infelizmente o resultado de uma dessas suas batalhas foi a sua morte, em 1968.

Em 1968, Martin Luther King viajou à Memphis com o intuito de apoiar um protesto de lixeiros que estavam em greve. Quase todos os lixeiros, se não todos, eram negros e trabalhavam em condições miseráveis. Mas quando os manifestantes passaram por uma rua, alguns deles começaram a quebrar vidraças, saquear lojas. A polícia reagiu, agrediu dezenas de pessoas e acabou matando um rapaz de 16 anos. Dias depois, o doutor King voltou a cidade, queria provar que poderia liderar um protesto pacífico ali. Mas, antes do protesto, ele levou um tiro no rosto, enquanto descansava na sacada de um hotel da cidade. James Earl Ray confessou o crime, mas, anos depois, repudiou sua confissão. O corpo do Dr. King descansa no centro que leva o seu nome na cidade de Atlanta. No mesmo ano foi estabelecido um feriado nacional nos Estados Unidos para homenagear Martin Luther King, o chamado Dia de Martin Luther King – sempre na terceira segunda-feira do mês de janeiro, data próxima ao aniversário de King. Em 1993, pela primeira vez, o feriado foi cumprido em todos os estados do país.

Shot rings out in the Memphis sky

“Early morning, April 4
Shot rings out in the Memphis sky
Free at last, they took your life
They could not take your pride.”

“De manhã cedo, 4 de abril
Um tiro cruza os céus de Memphis
Livres em fim, eles tiraram a sua vida
Mas não conseguiram tirar seu orgulho

Mesmo com um erro já identificado e assumido pelo próprio Bono, já que o assassinato de King aconteceu no começo da noite e não da manhã, “Pride (In The Name of Love)”, o primeiro single lançado pelo U2 para “The Unforgetable Fire” em 1984, se tornou talvez a mais conhecida homenagem à memória do grande líder. A sua parte melódica teve origem nas gravações do álbum anterior da banda “War”, de 1983. A ideia original sobre a letra era falar sobre o orgulho de Ronald Reagan no poder militar dos Estados Unidos, mas Bono foi influenciado pelo livro de um professor chamado Stephen B. Oates, sobre Martin Luther King Jr. intitulado “Let The Trumpet Sound: A Life of Martin Luther King Jr.” e uma biografia de Malcolm X outro importante defensor dos direitos dos negros na sociedade dos Estados Unidos.

“Devido à situação no nosso país [isto é, a Irlanda], a luta não violenta sempre foi um conceito muito inspirador. Mesmo assim, quando Bono me disse que queria escrever sobre King no começo, eu disse: ‘Woah, não é sobre isso que somos.’ Então ele entrou e cantou a música e pareceu certo, foi ótimo. Quando isso acontece, não há argumento. Apenas se deixa acontecer.” – The Edge

“Pride” acabou por se tornar a primeira música do U2 a atingir o Top 40 nos Estados Unidos, chegando à 33ª posição.

“Sleep
Sleep tonight
And may your dreams
Be realized
If the thundercloud
Passes rain
So let it rain
Rain down on him
Mmm
So let it be
Mmm
So let it be”

“Durma, durma esta noite
E deixe que seus sonhos se realizem esta noite
Se trovão e nuvem passam a chuva
Então deixe chover, deixe chover nele
Então deixe ser.
Então deixe ser.”

“MLK”, essas três letras, as iniciais de Martin Luther King encerram em uma espécie de canção de ninar do mesmo álbum, para embalar o sonho deixado por King para todos. Ao longo de diversas turnês ela foi executada pela banda, sempre em momentos de lembranças e em alusão a eterna luta por igualdade e liberdade.

Em janeiro de 2004, na data que marcaria o aniversário de 70 anos de King, Bono foi homenageado com o Salute to Greatness’ Awards, recebendo a honraria das mãos da viúva de Martin, Coretta Scott King. Na ocasião Bono fez uma analogia entre a luta iniciada nos anos 60 com a atual situação do continente africano e o combate à pobreza e a batalha contra a AIDS e outras doenças que afligem especialmente aos mais pobres do planeta.

“Ele não estava apenas falando sobre o sonho americano. Era uma ideia muito maior, na verdade, uma ideia que poderia se encaixar em um sonho africano, um sonho irlandês. E certamente não era um sonho. Foi um chamado à ação.”


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