A história por trás da gravação de “Mothers of the Disappeared” | U2 Brasil
14 de maio de 2017 · Especial The Joshua Tree
A história por trás da gravação de “Mothers of the Disappeared”
Postado por Thiago Dos Santos
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A origem da canção que conclui, e é a mais experimental de The Joshua Tree, se tornou confusa ao longo dos anos. Por vezes, Bono afirma que foi inspirada por sua viagem quando visitou El Salvador e a Nicarágua em 1986. Outras vezes, ele diz que foi o resultado de um encontro com um ativista e artista Chileno no mesmo ano.

A parte triste da história não é o fato de uma estrela do rock ficar confusa, mas por quê. Muitos dos países da América do Sul e da Central que foram devastados por guerras civis e aterrorizados por ditadores, possuem uma experiência em comum. Jovens estudantes e dissidentes protestaram contra esses regimes brutais apenas para serem declarados “desaparecidos” por esquadrões que os capturariam, torturariam, matariam e enterrariam os corpos em túmulos sem registro na selva.

Isso aconteceu em El Salvador, no Chile, na Argentina e em vários outros lugares. Em cada país, as mães que perderam suas crianças se transformaram em uma organização com um tipo de protesto diferente, as Mães dos Desaparecidos, ou “Mothers of the Disappeared” em inglês. Após aprender sobre esses grupos, cujas raízes estão nos anos 1970 e 1980, Bono se inspirou para escrever a canção “Mothers of the Disappeared”.

“Eu tenho um tipo de relação de amor e ódio com a América. Eu amo o lugar, as pessoas. Uma das coisas que eu odeio é que pessoas tão crédulas possam ter colocado sua confiança em um cara como Ronald Reagan”, disse Bono em uma entrevista a uma rádio em 1987. “Não há dúvida na minha mente que as pessoas da América, através de seus impostos, estão pagando pelo equipamento que é usado para torturar pessoas em El Salvador. Na minha viagem…conheci as mães cujos filhos tinham desaparecido. Elas nunca descobriram para onde seus filhos foram ou onde seus corpos foram enterrados. Eles são presumidos mortos”.

Bono entoa, no verso que inicia a canção, “Meia noite, nossos filhos e filhas / Foram cortados e tirados de nós / Escute o batimento de seus corações / Nós escutamos o batimento de seus corações. ”

Então, como em “Bullet the Blue Sky”, Bono encontrou um ângulo que se aplicava a versão da Americana de The Joshua Tree. Nessa canção que lembra um hino antigo, e conclui o álbum, ele estava descrevendo o que ele percebia como as maldades da atual política externa do país. Enquanto “Bullet” incorporou o Rock’n’Roll Americano para combater a guerra suja, “Mothers” foi em uma direção experimental, despida da música de raiz que outras partes do CD possuíam.

“Consequentemente, o som, que foi algo que Brian Eno criou para o loop de bateria que inicia ‘Mothers’, era muito, muito evocativa daquela escuridão, e do sinistro que há nos esquadrões de morte”, disse Adam Clayton no DVD Classic Albums.

O loop confuso, e simples era o som de Larry Mullen Jr. tocando uma batida em sua bateria, que então foi manipulada por Eno usando uma ferramenta chamada PCM70.

“É essa caixa que vai ressoar certos tons quando você os escolhe. E Brian se tornou um mestre em usar essa caixa”, relembra o coprodutor Daniel Lanois. “Ele na verdade poderia discar mudanças de acorde enquanto a canção era tocada. Mas esse tipo de efeito monótono praticamente se tornou a personalidade da canção”.

As qualidades experimentais e austeras da canção a transformaram em uma música que não era a mais fácil de se tocar ao vivo, embora a banda a tenha incluído em vários shows da The Joshua Tree Tour. A banda só a tem tocado desde então em nome de uma causa, até mesmo a tocando com muitas das mães no Chile e na Argentina durante as visitas que a banda fez em turnês na América do Sul. Uma das performances no Chile, em 1998, também foi transmitida ao vivo para o continente e ajudou a inspirar um protesto contra o antigo ditador, (e naquele momento, senador) Augusto Pinochet, no parlamento do país.

“Desde então, várias mudanças ocorreram no Chile, “ disse Bono em uma entrevista em 1998, “e foi legal se sentir como uma pequena parte disso. ”

Fonte: diffuser.fm


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