Interpretação: Every Breaking Wave | U2 Brasil
4 de novembro de 2014 · Interpretações
Interpretação: Every Breaking Wave
Postado por Suderland
ebw

Steve Lillywhite, um dos produtores da música juntamente com Brian Eno e Daniel Lanois, disse que era uma música que se iniciava lentamente e que gradualmente construía um clímax com paixão e intensidade: “I don’t know if I’m that strong”. Ele revelou: “a canção utiliza o movimento do oceano como uma metáfora para a luta humana”. A letra dessa música é a única que foge um pouco da temática central do álbum, que é um olhar para as bandas, pessoas, lugares e situações que tem alguma relação com a origem do U2. Contudo, a letra de “Every Breaking Wave” possui uma leitura existencial que é universal, por isso ela não fica deslocada e mantém a unidade temática do álbum.

Tendo essas ideias em mente vamos a mais uma interpretação das canções do U2, que sempre nos conduzem para uma bela viagem espiritual, ou filosófica, ou amorosa ou política. Enjoy.

.:: Every Breaking Wave / Cada onda que quebra ::.

Every breaking wave on the shore / Cada onda que quebra na costa

Tells the next one, “There’ll be one more” / Diz ao próximo, “Haverá mais uma”

Every gambler knows that to lose / Todo jogador sabe que perder

Is what you’re really there for / É o real motivo pelo qual você está lá

Summer I was fearless / No verão eu era destemido

Now I speak into answer phone / Agora eu falo pelo interfone

Like every falling leaf on the breeze / Como cada folha que cai na brisa

Winter wouldn’t leave it alone / O inverno não irá deixá-la sozinha

Alone / Sozinha

A música gira em torno da metáfora da onda, do ir e vir das ondas que nos remetem aos ciclos da vida. Aos altos e baixos pelos quais nós passamos na nossa caminhada terrestre. A onda quebrar é inevitável, assim como é inevitável que exista uma próxima onda e que, esta também, quebrará na costa. Portanto, ao mesmo tempo que essa metáfora nos remete a uma angustiante inevitabilidade dos problemas da vida, ela também nos lembra que sempre teremos a oportunidade de recomeçar, de nos levantar após uma queda e seguir em frente, mesmo sabendo que mais na frente cairemos novamente. Mas, como diria o velho cancioneiro, é caindo que aprendemos a nos levantar. E é aprendendo com as experiências que nos tornamos mais sábios.

É interessante observar nessa estrofe a comparação de estações que o Bono faz. Na canção Bono diz que no verão era destemido, provavelmente encarava com ousadia seus oponentes. Mas agora, no inverno, ele fala por interfone, sem a ousadia do verão. Aqui o Bono está constatando que o tempo sempre nos transforma. Se por um lado nos tornamos mais sábios, por outro estamos suscetíveis a traumas que roubam nossa coragem, por vezes imprudente, da juventude. Verão também pode ser uma simbologia para os tempos fáceis, quando tudo vai bem, o que nos torna confiantes. E o inverno, por sua vez, representaria os tempos incertos, tempestuosos, que é quando ficamos vacilantes, inseguros.

Quando Bono diz que “todo jogador sabe que perder é a verdadeira razão de você estar lá”, entendo que o sentido dessa frase é que há muitas pessoas que encaram as relações dessa vida como um jogo, sejam no campo pessoal, amoroso ou profissional. Um jogo onde o compromisso é vencer, subjugar um oponente, mas que, no fim, o jogador acaba sempre perdendo, como nas mesas de bilhar, porque o jogador, a priori, não trabalha com a verdade, ele sempre blefa, simula sentimentos para enganar seus alvos. Contudo, os jogadores conscientes sabem que, no fundo, eles sempre sairão perdendo, porque só se ganha, de fato, quando se é verdadeiro, quando não se blefa, pois as verdadeiras e puras emoções e sentimentos não brotam jamais de jogos de mentira. Estes geram somente alguns momentos de prazer, vindo, em seguida, o vazio do engano, da trapaça.

Entendo a frase “O inverno não irá deixá-lá sozinha” como uma alegoria para as fases difíceis da vida. É fato que o inverno não derruba só uma folha, com isso eu entendo que as folhas representam pessoas que estão passando por dificuldades, os “invernos” de suas vidas. Muitas dessas pessoas estão caminhando ao nosso lado, estão enfrentando as ondas que, uma após outra, quebram nas encostas. Só precisamos olhar para o lado e ver que esse é o processo natural da vida, não estamos sozinhos. E aqui, no fim dessa estrofe da primeira versão de “Every Breaking Wave” que o U2 tocava nos shows da Tour 360º, o Bono cantava “Eu não sei se sou tão forte para ser alguém que precisa de alguém” (ver vídeo). Isso porque é preciso humildade e demanda um esforço interior para admitir que não somos auto-suficientes, que precisamos de ajuda, que precisamos de alguém para nos salvar.

If you go? / Se você for?

If you go your way and I go mine / Se você seguir o seu caminho e eu seguir o meu

Are we so? / Somos assim?

Are we so helpless against the tide? / Somos tão impotentes contra a maré?

Baby, every dog of street / Querida, cada cão na rua

Knows that we’re in love with defeat / Sabe que estamos apaixonados pela derrota

Are we ready to be swept off our feet / Estamos prontos para sermos derrubados

And stop chasing  / E pararmos de perseguir

Every breaking wave / Cada onda que quebra

Nessa estrofe surgem perguntas existenciais diante das dificuldades da vida representada pelas ondas Será que somos tão indefesos contra a maré?” Quão forte é essa onda? Ou, melhor, quão fraco estamos sendo diante da onda? Será que não estamos supervalorizando algo que poderíamos superar com mais destreza e rapidez? Será que não estamos posando de vítima por causa de nossas carências e por ser mais cômodo? Entendo que o Bono está questionando o quanto podemos lutar contra a maré, contra as sucessivas ondas de dificuldade quem vem em nossa direção.

Creio que é por causa desse pensamento que o Bono canta “Querida, todos os cães na rua sabem que somos apaixonados pela derrota”. Se colocar como vítima é sempre mais fácil do que se olhar no espelho, assumir os próprios erros, se levantar e lutar contra si mesmo. Assim, tendemos a preferir sermos derrubados” e ficar no chão, ao invés de se levantar para encarar a próxima onda de frente. Pessoas assim olham para seus próprios erros e sempre encontram alguém ou algo para pôr a culpa. Elas nunca se responsabilizam pelas suas vidas.

Every sailor knows that the sea / Todo marinheiro sabe que o mar

Is a friend made enemy / É um amigo que se tornou inimigo

And every shipwrecked soul, knows what it is / E cada alma naufragada, sabe o que é

To live without intimacy / Viver sem intimidade

I thought I heard the captain’s voice / Eu pensei ter ouvido a voz do capitão

It’s hard to listen while you preach / É difícil ouvir enquanto você prega

Like every broken wave on the shore / Como cada onda quebrada na costa

This is as far as I could reach / Aqui foi o mais longe que pude alcançar

A metáfora desses versos é profunda e revela uma bela filosofia de vida. A figura do mar ser um amigo que se torna inimigo nos remete uma gama de aplicações para a vida. A mais imediata, talvez, seja a de que o mar representa a nossa vida, o mundo que vivemos no qual nos aventuramos todo dia ao sair de casa para “navegar” nele. E, às vezes, esse mar está tranquilo como um lago e deslizamos nele suave e pacificamente. Noutras vezes esse mar vira nosso inimigo e fica revolto como numa tempestade a ponto de tombarmos no meio de suas agitadas e escuras águas, o que nos deixa aflitos, com a sensação de solitude. E quando uma desgraça se abate sobre nós, a maioria das pessoas nos abandonam (poucos sentem compaixão da dor alheia a ponto de desprender força para reerguer quem caiu) e ficamos sozinhos, por isso o Bono canta que toda alma naufragada sabe o que é viver sem intimidade”.

Nessa estrofe surge uma figura de um capitão”, que na primeira versão de Every Breaking Wave, que o U2 cantava nos shows da Tour 360º, o Bono cantava Eu pensei ter ouvido a voz do mestre. É difícil ouvir enquanto você prega”. Creio que aqui Bono está se referindo à busca pelo Mestre da Vida, Jesus, que, segundo o Evangelho, nos ampara até mesmo quando estamos num barco no meio de uma grande tempestade em alto mar (Mateus 8:23-27). Então Bono diz que é difícil ouvir a voz do Mestre enquanto alguém, que não foi identificado, está pregando. Entendo que o sentido dessa afirmação é que para ouvirmos Deus é preciso parar de ouvir os barulhos externos, deixar de lado até mesmo as pregações que destoam daquilo que Jesus ensinou, e ouvir a voz de Deus que falar aos nossos corações na quietude, no silêncio (Romanos 8:27). O próprio Jesus, quando queria conversar com Deus, buscava a solidão dos montes ou dos mares. E o Bono conclui o estrofe dizendo que há um limite até onde conseguimos alcançar com nossas próprias forças assim como há um limite para onde as ondas conseguem alcançar nas encostas. É inevitável natureza das coisas, da vida.

The sea knows where are the rocks / O mar sabe onde estão as rochas

Are drowning is no sin  /E se afogar não é pecado

You know where my heart is / Você sabe onde meu coração está

The same place that yours has been / No mesmo lugar onde o seu tem estado

We know that we fear to win / Sabemos que temos medo de vencer

And so we end before we begin / E assim terminamos antes de começar

Before we begin / Antes de começar

O mar, a vida, essa existência pela qual passamos e vivemos, está cheia de pedras, de obstáculos que desconhecemos ou não enxergamos até esbarrar neles. Às vezes a vida nos passa uma rasteira que nos deixa apáticos, com vontade de desistir, sem ânimo para lutar. E, dessa forma, por vezes, sucumbimos diante da força avassaladora da vida. Contudo, precisamos ter a consciência de que não temos culpa da nossa impotência diante das forças da natureza, diante das torrentes de problemas que a vida às vezes nos impõe. Nossa inexperiência nos faz ir por mares desconhecidos, aparentemente tranquilos, mas que estão cheios de pedras nas quais acabamos esbarrando. E, quando isso ocorre, às vezes nos falta forças para sairmos desse mar de problemas, daí a importância do Capitão citado pelo Bono no estrofe anterior. Ele, de dentro do barco, pode nos dar a mão e nos salvar do afogamento. Ele pode nos guiar pelo mar e nos tirar do meio das tempestades que possam nos acometer.

O medo do que é novo nos paralisa, enfrentar o desconhecido sempre nos atemoriza, porque não sabemos o que nos aguarda, não sabemos se algo porá nossa existência em risco ou nos fará sofrer. Porém, tão maléfico quanto o medo do novo, é o medo de vencer, um tipo de autossabotamento que nos faz desistir de lutar por aquilo que nos nos tornaria melhores, vitoriosos. Seja por um trauma do passado, seja por complexo de inferioridade…

O certo é que só encarando nossas falhas, procurando corrigi-las e enfrentando nossos traumas e medos é que conseguiremos superar esse “medo de vencer”.

If you go? / Se você for?

If you go your way and I go mine / Se você seguir o seu caminho e eu seguir o meu

Are we so? / Somos assim?

Are we so helpless against the tide? / Somos tão impotentes contra a maré?

Baby, every dog of street / Querida, cada cão na rua

Knows that we’re in love with defeat / Sabe que estamos apaixonados pela derrota

Are we ready to be swept off our feet / Estamos prontos para sermos derrubados

And stop chasing / E pararmos de perseguir

Every breaking wave / Cada onda que quebra

Não, não somos tão indefesos assim contra as marés da vida, nós podemos superar nossos traumas com a devida ajuda, nós podemos superar um naufrágio com as devidas orientações do bom Capitão, que nunca abandona o barco e está sempre à serviço dos seus marinheiros. As marés, apesar do cansaço e angustias que causam, nos tornam mais fortes e nos ensinam que a vida é cíclica, constante e sempre nos dará uma nova chance para aprendermos a lição e dar a volta por cima. Sem esquecer que é possível navegar por suas águas e descobrir novos horizontes, expandir as fronteiras do saber. Isso desde que não desistamos de perseguir nossos objetivos, que paremos de nos autossabotar e busquemos nos superar.

​Obrigado a todos os amantes da boa música que chegaram até aqui. Desejo para você uma serena e pacífica viagem por esse mar da vida.

​@​Suderland


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