Resenha de Neil McCormick - "Songs of Experience" é repleto de desespero e êxtase | U2 Brasil
29 de novembro de 2017 · Songs of Experience
Resenha de Neil McCormick – “Songs of Experience” é repleto de desespero e êxtase
Postado por VictorRuyz

O décimo quarto álbum de estúdio do U2 começa com uma das mais vulneráveis e frágeis músicas já feitas ao longo da carreira de 41 anos. “Love Is All We Have Left” inunda em cordas e sintetizadores trêmulos e em uma mistura de vozes distorcidas com autotune, enquanto é criada uma cantiga espacial de ninar que leva até um apocalipse iminente. “This is no time not to be alive,” Bono canta. Curta, estranha, como uma vinheta dispersa, de uma beleza espectral. É interrompida por um riff de guitarra distorcido.

Então a veterana banda ganha gás, e percorre com a exultante “Lights Of Home”, um hino robusto que remove a experiência de quase morte (“I shouldn’t be here cos I should be dead”) para alcançar a luz no fim do túnel. “Free yourself to be yourself,” é o coro cantado por vocês em um comando para construir “singalongs”. Chegou, claramente, perto da ideia que muitos ouvintes tem do U2 como uma banda motivadora, inspiradora, e criadora de hinos. E “Songs of Experience” é repleto de momentos assim: “Get Out Of Your Own Way”, “Love Is Bigger Than Anything In Its Way”.

Mas o som de um homem em conflito e crise também atravessa o centro desta coleção altamente pessoal de canções, aprofundando-se positivamente com o espírito de “poder fazer”.

“Songs of Experience” é um companheiro de “Songs of Innocence”, de 2014 (o que eles deram de forma controversa gratuitamente no iTunes, se você queria ou não). Isso reutiliza alguns temas. Um trecho da fantástica “Volcano” do álbum anterior retorna como gancho para o hino político anti-Trump, “American Soul”. A faixa de encerramento “There Is A Light”, é uma tenra reformulação de “Song For Someone”, mudando o foco da esposa Ali do cantor para seus quatro filhos, instando-os a chamar a força para enfrentar tempos incertos. “I know the world is done but you don’t have to be.”

Como o principal letrista do U2, Bono tem sido mais confessional do que nunca nesses dois álbuns. “Songs of Innocence” foi um olhar autobiográfico de volta às forças que moldaram U2 crescendo, suas texturas pop modernas foram filtradas através de suas novas raízes de rock de onda, como se o álbum de estreia, “Boy”, fosse revisitado através da prisma de um adulto. Em “Experience”, o mesmo homem está no controle da crise da meia-idade, enfrentando problemas no mundo e em si mesmo. Foi concebido por Bono como uma série de cartas para os entes queridos, algo que você poderia escrever se soubesse que fosse morrer em breve.

Durante entrevistas recentes, um problema de saúde foi citado, sem maiores detalhes. Sugeriu-se um grande susto passado. Mas a grande surpresa para quem conhece o vocalista há tanto tempo quanto eu é que ele admite, pela primeira vez, um abalo real de sua fé. ” “Oh Jesus if you’re still my friend / What the hell you done for me?” Questiona, em “Lights Of Home”. “Sometimes the end is not coming, the end is here,” ele canta, com um tom de perplexidade destruída, na balada existencial “The Little Things That Give You Away”.

O conhecido otimismo do U2 está presente em canções bem-humoradas, como “Shadowman” e “Landlady”, mas é deixado de lado pela impressão irrefutável que são músicas feitas para manter o pessimismo visível. Esforços pessoais são transformados em políticos na sequência mais agitada do álbum, onde Bono briga com a América por ter aderido à direita em “Get Out Of Your Own Way” (“You got to bite back / The face of Liberty’s starting to crack / She had a plan until she got smacked in the mouth / And it all went South”), e também vocifera sobre as costas litorâneas europeias que estão recebendo refugiados, em “Summer Of Love” (“In the rubble of Aleppo / Flowers blooming in the shadows”).

Musicalmente, “Songs of Experience” é talvez o álbum mais antiquado da banda, em parte porque eles não estão mais comprometidos com a busca da ciência em sons para compensar as limitações musicais. Adam Clayton nunca foi tão brilhante, Larry Mullen nunca esteve tão livre na bateria. Até mesmo o cientista Edge parece menos comprometido com os efeitos, flertando com acordes básicos como um Beatle e cuidadosamente articulados com solos de guitarra. Como um fã de longa data, eu não estou certo de estar inteiramente de acordo com esta mudança. Há aspectos harmônicas dos californianos do Fleetwood Mac, enquanto “You’re The Best Thing About Me” tenta alcançar a qualidade dos Rolling Stones – o tipo de banda que os jovens irlandeses queriam distância, mas que agora os citam como modelos. Jacknife Lee e um time inteiro de produtores e engenheiros de estado-da-arte foram trazidos para este trabalho para emprestar todos os detalhes, dinâmicas, batidas modernas, mas somente uma canção, “The Blackout”, vai ao encontro da energia cyberpunk audaciosa do “Achtung Baby”. Esta é agora uma banda que talvez esteja desesperada demais para competir nas rádios e nas paradas de sucesso com seus sucessores, Coldplay e The Killers, mas podem ser melhores servidos seguindo a sua própria arte.

Contudo, como o próprio título diz, “Songs of Experience” não é um trabalho de jovens. São canções que mostram um U2 no estágio maduro e seguro, tocando músicas sobre paixões e propostas, fortificados em voz alta com a coragem do desespero. “The showman gives you front row to his heart / Making a spectacle of falling apart,”Bono canta com um humor rebelde em “Shadowman”, e é este espetáculo que faz “Songs of Experience” tão fascinante. Um pouco machucado pelo tempo e sangrado pelos eventos, U2 continua rebeldemente vivendo sem pressão, como determina sempre o mercado fonográfico.

Nota: 4/5

Fonte: Telegraph


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