U2 divulga o curta-metragem "Linear Notes" | U2 Brasil
11 de janeiro de 2018 · Bono · Songs of Experience
U2 divulga o curta-metragem “Linear Notes”
RômuloPostado por Rômulo

O U2 divulgou hoje em seu canal da VEVO no Youtube o curta-metragem “Linear Notes”, que apresenta Bono narrando as suas notas do encarte de “Songs of Experience” em uma mistura de filmagens em sépia e preto e branco com cenas de shows.

Dirigido pelo cineasta e fotógrafo Matt Mahurin, que já trabalhou com a banda nos vídeos de “Song For Someone” e “With Or Without You”, o curta tem 9:30min de duração e foi lançado inicialmente para assinantes da Apple Music no dia 1 de dezembro.

Abaixo você confere a transcrição traduzida da narração:

“Você começa no final.
Você começa com uma tela em branco.
Você começa com nada.
Você começa com o vazio.

Talvez tenha sido o Dalai Lama que tenha dito que qualquer meditação na vida começa com a pessoa à morte. Soa um pouco sombrio. Não para mim. Eu perdi minha mãe quando tinha 14 anos e aprendi muito com seu desaparecimento. Eu gostaria que eu fosse mais velho, mas como um jovem adolescente, encarando duramente esse vazio, foi onde uma força vital imprimiu um ritmo em mim, quando uma certa rebeldia começou. Desafiar as probabilidades, desafiar as expectativas das pessoas, desafiar a morte em si. Roubá-la de seu poder sobre mim ou de qualquer outra pessoa (eu já tinha mania de grandeza desde aquela época). Em algum lugar do caminho eu descobri a alegria como um ato de rebeldia e essa rebeldia foi a essência do romance.

A banda passou muitos verões no sul da França, é um lugar que nos salvou de nós mesmos, nos reapresentou ao amor de nossas vidas, a nossa família, a nossa música. O sol caçoando de irlandeses, pois não éramos apenas brancos, éramos rosa. Mas nos últimos verões, estava havendo um certo presságio, onde costumava haver um plácido horizonte, pudéssemos ou não ver, podíamos sentir.

A guerra da Síria estava bem do outro lado da margem.

‘Quando tudo está perdido, nós descobrimos o que permanece.’

A Costa Oeste da Síria no mesmo mar Mediterrâneo, onde observamos enfermeiros e professores, pessoas que se parecem muito conosco, segurando firme suas crianças, seus poucos pertences, se agarrando a quase nada, a uma esperança, ao sonho de uma outra praia, um barco de borracha, pallets de madeira, destroços humanos desembocando na Itália ou Turquia, quem sabe onde.

Então o álbum tem duas canções de amor com pungentes nuvens negras pairando sobre elas, céus de petróleo, lindos, mas inflamáveis.

No último inverno, eu mesmo passei por experiências chocantes que fizeram eu agarrar a minha própria vida como uma tábua de salvação. Muitos de nós tem contato com a mortalidade em algum momento. É uma experiência arrebatadora, eu fui arrebatado. De cara pra parede, com minhas mãos acima da cabeça, autoridades gritando para eu não me mover. Eu não vou me prolongar nisso ou sobre isso. Eu não quero nomear. Eu me sinto fantástico agora, mais forte do que nunca, mas estas músicas tem um ímpeto por trás delas e seria desonesto não admitir a turbulência que eu sentia no momento em que as escrevi. Eu tive que baixar as persianas para o mundo. Limpar os ruídos do fundo e do primeiro plano. As interferências. Diminuir o volume da minha mente povoada para ouvir aquela voz quieta e suave que promete a paz que ultrapassa toda compreensão. Aquela relação que você tem com Deus ou o que quer que você queira chamar de Deus. Uma relação que somente produz a verdade. 

Eu sempre soube que felicidade não se pode planejar. Que é a fonte de uma vida sendo vivida e amada. Eu fui em busca da felicidade que não pode ser fabricada. A felicidade é muito mais fácil de se falsificar. Uma pílula, uma promessa, um cavalo se aproxima em uma aposta de 10 para 1, um rosto bonito para se imaginar, uma noite na cidade, uma boa gargalhada com grandes amigos… A alegria é uma coisa diferente. A grande música é uma alegria… The Beatles, Mozart, Beethoven, Aretha, The Ramones… A alegria explode até mesmo com a raiva, não é mesmo? ‘Raiva é uma energia’, cantou Johnny Lydon no anos 80, quando o U2 ainda estava tentando se encontrar.

Antes de começar a escrever estas canções de experiência, eu decidi assumir o desafio de ‘Se você realmente quer chegar ao lugar onde a escrita vive, escreva como se estivesse morto’. É priorizar o que você pode ter a dizer se você acha que estas podem ser as suas últimas declarações. Eu gostaria que as pessoas que ouvissem estas canções soubessem que em muitas delas, eu abordei com uma sensação de que poderia não estar mais por perto para escutá-las no rádio ou no fluxo das coisas. Eu pensei muito sobre a possibilidade de não estar por perto e então fiz estas músicas como cartas de amor. Cartas para pessoas, para lugares.

‘American Soul’ é uma carta para a América. Um país ainda inovando e se reinventando que tem sido a inspiração para esta banda desde a primeira turnê nos anos 80.  Mas enquanto nós gravávamos essas 12 músicas, sentimos que a ideia da América estava sendo desafiada, talvez até mesmo distorcida, de maneiras bastante problemáticas. O crescimento das ideologias de extrema-direita não é uma surpresa, está ocorrendo por todo o mundo, mas ver isto nos EUA, ver a Ku Klux Klan marchando pelas ruas de Charlottesville sem seus trajes ridículos e chapéus pontudos, é um novo nível de perigo e absurdo. Por que eles se sentem tão encorajados? Falar de banir os muçulmanos da América por medo da ameaça de terrorismo seria como os britânicos nas décadas de setenta e oitenta banirem todos os irlandeses do Reino Unido por medo que um de nós pudesse fazer parte do IRA. É claro que poderíamos, mas você não pode interditar o ar porque ele carrega um vírus.

‘The Showman’ é uma carta de amor para qualquer um que cai na arrogância de um artista de muito pouca confiança. Nós damos à luz para estas canções, mas é o público que dá vida e sentido a elas. O relacionamento do artista e do público, no U2, é um romance muito louco, mas também um desafio. Há um acordo entre as partes. Nós não temos que nos preocupar com colocar nossos filhos na escola ou como pagar a viagem da família nas férias, enquanto nosso público não precisa se preocupar sobre a banda dar tudo o que ela tem de melhor.  Mas este conjunto de canções nos custou mais do que esperávamos. Enquanto empurrávamos as canções para lhes darem uma forma, estávamos empurrando uns aos outros para fora do que estava se formando. Eu acredito que sobrevivemos.

A pergunta que não saía da minha cabeça era se eu conseguiria fazer uma música pra Ali, uma música de amor, uma música de exortação, sem provocar aquela náusea de sentimentalismo? É difícil. Hummm, talvez humildade, se eu pudesse lembrar como aquilo era, poderia ajudar.

Se existe algo interessante sobre o ato de escrever é que isso sempre irá revelar o escritor e eu quis mergulhar nu nessas canções de experiência. Não apenas nadar nu, mergulhando com os que eu amo. Eu queria tirar a minha pele. E isso era um diálogo entre minha inocência e minha experiência. No final da experiência, através da sabedoria, esperamos recobrar a inocência.

‘The Blackout’ é uma carta para o momento em que nós estamos onde o apocalipse tanto pessoal quanto político se misturam. Não apenas o monstro de pedra dizimado pelo tempo, mas a democracia jurássica à beira da extinção. Soa melodramático? Bem, é o que esperamos da ópera, não? Grandes melodias, grandes emoções. Não acho que seja exagerado. A democracia no fundo é apenas um ponto fora da curva na história. São aspirações tomadas à força por revoluções sangrentas. É um lance sangrento e conturbado.”

Créditos pela tradução: Ultraviolet-U2


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DiogoYasmin UmemuraDiogo Duarte Recent comment authors
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Diogo Duarte
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Diogo Duarte

Que texto fantástico!
Está aí a diferença entre ser uma banda e ser o U2.
Que venham ao Brasil logo……Louco pra gritar..When the lights go out…..””!!!