U2BR entrevista: Rogério Bettoni | U2 Brasil
26 de janeiro de 2013 · U2BR Entrevista
U2BR entrevista: Rogério Bettoni
Postado por Rômulo

U2BR: Por favor, nos fale um pouco sobre você, e como começou a traduzir livros.

R: Pode parecer clichê, mas meu interesse pela tradução — por línguas estrangeiras, na verdade — surgiu ainda na infância. Mas não cresci sabendo que faria isso — eu queria ser professor, e acabei me formando em Filosofia. Comecei a traduzir livros, mais especificamente, logo que entrei na pós-graduação em tradução, pela UFMG. Com o tempo, acabei me afastando das salas de aula para me dedicar apenas à tradução editorial. Mas comecei trabalhando com textos na área de humanas e filosofia — por ser exatamente o meu chão, meu porto seguro de conhecimento. Há poucos anos comecei a dedicar também à tradução literária.

U2BR: Você já conhecia o livro antes de traduzi-lo? E o U2? Você conhecia ou é fã da banda? Caso negativo, o livro o fez querer saber mais acerca da banda?

R: Eu não conhecia o livro, mas conhecia o autor. Sempre tive uma relação muito estreita com a música: cresci ouvindo electropop e indie rock, principalmente britpop, e era leitor assíduo da NME — na minha época de adolescente, veja bem, do final dos anos 1980 até meados dos anos 1990, obter informação musical era algo complicado, e a NME chegava no Brasil às vezes com um mês de atraso, quando chegava! Então tínhamos a revista Bizz!. E a Bizz! amava o U2.

Essa relação estreita com a música acabou me transformando em DJ — toquei profissionalmente durante sete anos, e lia muito os cadernos culturais do Guardian e do Telegraph, jornal em que o Neil McCormick trabalha até hoje. Então de certa forma eu já estava acostumado aos textos dele. Quanto ao U2, não posso me considerar um fã clássico. Escutei muito a banda até o disco “Pop”, depois parei. Confesso que tenho um problema com os discos do U2 e os interpreto como trios (me refiro aos de inéditas): os três primeiros são muito bons, do “Boy” ao “War”. Os próximos três, de “The Unforgettable Fire” a “Rattle and Hum”, não me convencem tanto. Depois a banda tem uma virada e encara as eletronias, o que foi revigorante pra música deles e muito me agrada: do “Achtung Baby” ao “Pop”. Parei de escutar no “All That You Can’t Leave Behind”, embora encontre algumas pérolas nesse disco. Mas mesmo não sendo fã propriamente dito, a banda sempre esteve presente, de uma forma ou de outra. Quando a Martins Fontes me convidou pra fazer o livro, foi uma alegria só.

U2BR: O que achou do livro?

R: O livro é um relato pessoal incrível, uma catarse sobre como lidar com medos, frustrações e se projetar na vida adulta. Acho que o Neil foi extremamente corajoso e sincero ao expor sua intimidade tão claramente nessa autobiografia; ele consegue algo difícil: reinterpretar sua trajetória enquanto narra e extrai um sentido disso tudo. É um livro com uma linguagem simples e muito, muito bem escrito. 

U2BR: Na versão original, o livro é repleto de gírias. Como ficou a tradução nesse sentido? Foi um livro complicado de traduzir?

R: Não foi um livro simples de traduzir. Mas esperamos que todo tradutor tenha o mínimo de informação a respeito do que traduz. Como eu já conhecia o escritor, conhecia a banda, vivi mais ou menos a mesma época e tinha uma relação estreita com a música, isso facilitou muito. Mas antes de traduzir eu li muita coisa sobre o U2, escutei a discografia inteira algumas vezes, li as letras uma a uma e, principalmente, escutei um release com as músicas do Shook Up!, a banda do Neil. E escutei muito rock dos anos 1980 durante a tradução, inclusive muitas das bandas citadas no livro. Isso foi fundamental para recriar um universo de referências. 

U2BR: Você entrou em contato com o autor (Neil McCormick) em algum momento?

R: Entrei em contato no início da tradução para falar do prazer que seria traduzir o livro dele. A partir daí, trocamos diversos e-mails e o Neil foi sempre atencioso. Às vezes ele já previa alguma situação problemática e ria de mim antecipadamente, dizendo que não desejava estar na minha pele. Mas não tive problemas com o texto, tive desafios. Neil ajudou com as gírias específicas da Irlanda, com algumas expressões malucas que só eles falavam na época, e acabou revelando alguns segredos para a edição brasileira — como mais no fim do livro, em que ele critica vários artistas que considera sem conteúdo nenhum ou algo do tipo: no original ele cita apenas o primeiro nome; essa identificação não é tão óbvia para o leitor brasileiro, então ele mesmo achou melhor citarmos o nome completo das pessoas. Esse contato próximo com o autor é muito produtivo — nem sempre é possível; nem sempre é fácil; nem sempre é necessário.

U2BR: Pode nos contar algo mais acerca do lançamento do livro? Já existe alguma data em mente?

R: Pelo que sei, o livro está previsto para sair ainda no primeiro trimestre.

U2BR: Você sabia que existe um filme baseado nesse livro? Chegou a assisti-lo?

R: Vi o filme antes de começar a traduzir a primeira página. Já no final do primeiro capítulo, percebi que a adaptação se distancia em grande medida do livro — o que não é ruim: adaptações são sempre adaptações. O Neil tem um senso de humor fenomenal e muito sutil na sua escrita, acho que essa atmosfera foi bem reproduzida no filme. É divertido. Os atores me impressionaram.

U2BR: Você acha que o livro vai ser interessante somente para os fãs da banda, ou é um livro que agrade a vários públicos?

R: Não acho que o livro seja somente para os fãs do U2 — sim, o U2 é o pano de fundo da narrativa, mas não se trata de uma biografia da banda. Os fãs do U2 vão amar… e confesso: toda a arrogância, toda a prepotência, que eu via no Bono foi-se embora depois que traduzi o livro. Quem gosta de biografias e de um bom romance vai gostar da narrativa — e acho que deveria ser leitura obrigatória para todas as pessoas que acabaram de formar uma banda e querem seguir carreira musical. Estou ansioso para ver a repercussão do livro em português. Não esqueçam de me dizer o que acharam!


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