Foram quase dez dias em terras irlandesas, cada qual revestido por uma impressão distinta. O mesmo frio que me fez trajar várias peças de roupa, também me fez desapegar, em adaptação natural, ao desnudar-me das expectativas para vivenciar em essência toda a beleza na forma das mais variadas surpresas. Uma experiência que, de tão indescritível, permanece intacta em meu coração... Portanto, qualquer tradução aqui pretensa ainda será mero esboço para a magnitude dessas alegrias amplamente desenhadas!
Fui cerceada pela atmosfera das primeiras vezes: a de atravessar o Atlântico e a de ver finalmente em carne, osso e tecnologia a banda de Rock dos meus sonhos - esta que já dispensa apresentações, pela propagação tamanha no mundo inteiro. E sendo o universo tão vasto quanto ela, a pergunta mais recorrente que me fizeram ao longo da viagem foi também uma grande constatação:
Qual a motivação para vir de tão longe assistir a esses shows do U2 na Irlanda? Por que existem tantos fãs brasileiros?

Após boa parte dos dublinenses que conheci terem me chamado de maluca e outros, cavalheirescamente, parabenizarem a coragem de vir sozinha a um país distante, eu respondia com certo orgulho que o Brasil, assim como o U2, possuía um magnetismo muito peculiar para despertar grandes emoções e agregar diferenças. Nós, seres afetivos por natureza, somos facilmente tocados por aquilo que nos inspira a amar e sonhar alto. Por isso, nossa capacidade para realizar qualquer coisa com intensidade se confunde com a maestria desse grupo irlandês, que se firma ao longo das décadas em amizade, trabalho duro e, claro, abastadas recompensas.
De igual maneira, senti-me imensamente premiada. Há uma moeda de troca entre os fãs com a qual tanto se paga quanto se recebe em dedicação e amor. Haja gratidão ao universo e a todos que de algum modo estiveram presentes, perto ou longe, auxiliando estes meus desbravadores passos através das emanações de carinho. Até aqueles que porventura se indispuseram por qualquer desafinidade passageira tiveram seu valor nesse processo evolutivo – “sejam eles amigos ou inimigos, todos me foram úteis” - como bem canta Bono no singelo registro que fiz, logo ao início da canção “Cedarwood Road”:
Encontrar novos amigos e redescobrir antigos queridos é desses presentes que o U2 não cessa de nos ofertar. Aliás, uma coisa é certa e infalível nos shows desses caras: todos os seus admiradores se harmonizam de uma maneira tão especial, que transcende barreiras, pouco importando idioma, raça, gênero ou credo. A comunicação se estabelece por pura sintonia. Todos se tornam irmãos e irmãs, despretensiosamente. Guardam seu lugar enquanto você precisa ir ao banheiro, pagam sua bebida, tiram fotos quando a bateria do seu celular descarrega e postam nas redes sociais, abraçam e pulam juntos para passar o frio, pegam chuva cantando em uníssono na espera ansiosa do lado de fora da arena, apontam para a bandeira do seu país e puxam conversa na fila.
Creio que esses exemplos de generosidade poderiam se encaixar como num mosaico das interpretações cabíveis de “One”, especialmente quando entoada em coro pela plateia. Oração e mantra, doação de alma. Independentemente se a música já foi executada repetidas vezes, as lágrimas são inevitáveis e a entrega é total. A não ser quando se está mais motivado a fotografar momentos assim com uma intenção exibicionista, tensionando braços à espera do melhor clique-flagrante, aos pés da banda.
Em alguma parte do show, enquanto flanava pelo palco com sua áurea carismática, lembro de Bono ter aconselhado que nos desprendêssemos um pouco dos nossos aparelhos para sentirmos propriamente aquele espetáculo. O curioso é ele ter falado isso segundos antes de descarregar meu smartphone. Recado dado. Riso e pranto acionados em um mix no peito, cara a cara com aqueles monstros consagrados - os autores mais presentes da trilha sonora que há tempos embala minha existência.
Ainda estou para conhecer um grupo musical com o nível de profissionalismo e identificação emocional tão fortemente estabelecidos em meio ao Showbusiness. Eles conseguem transitar da megalomania Mainstream à atmosfera mais intimista com total desenvoltura. Nesta turnê, especificamente, eles estão despidos tais garotos punks bem intencionados. Ouço muitos amigos que têm acompanhado os shows via streaming se queixarem de algumas mesmices ainda presentes no repertório, mas confesso ter abstraído qualquer hit em tom comercial, tendo até mesmo pulado ao som de "Vertigo" e "Elevation". A poção mágica é justamente a de poder acrescentar no caldeirão obras-primas que agradem a todas as gerações de fãs ao redor do mundo.

Ó, tão querida Dublin! Terra pela qual me sinto atraída desde a infância por pura identificação espiritual, inebriada pelo cenário verdejante e místico, pelas flautas, harpas e gaitas, pela liberdade dos artistas de rua, por sua boemia e Literatura tão presentes em minha bagagem de mundo. Em poucas passagens me senti como uma turista, de tão bem adaptada ao habitat. Tomei DART, LUAS, peguei ônibus, fiz trilhas pelo frio, caminhando de Killiney a Vico Road. Fui parar na casa de Paul Hewson - e justo à hora em que os portões para mim se voltam abertos. Poderoso sinal.
Só não sei ainda medir pelo eriçar de todos os pelos do corpo se este cenário foi tão arrepiante quanto o insight estético que tive em frente à praia de Killiney, ao cantarolar trechos de "No Line On The Horizon". Eis que me deparo com a capa do álbum:
Vou viver de recordar, porque ainda não acordei direito. A sensação de adentrar um autêntico “irish pub”, pedir uma “pint” de cerveja Guinness e ouvir música tradicional irlandesa me transportou para um lugar ao qual há muito já pertencia. A primeira madrugada foi fria, com longas caminhadas solitárias pela cidade. Céu bonito, lua gigante. Muitos desencontros, descobertas, humor oscilante pelas horas de sono perdido entre voos quase infindos e um punhado de incertezas. Mas um resquício de neve pela janela do avião ao sair de Amsterdã já bastou para regenerar o espírito. Puro encantamento. Ao avistar a Ilha Esmeralda do alto, não segurei as lágrimas... Nossa, quanto esperei por este momento!
É incrível sonhar com os pés no chão, realizando. De que valeria a existência sem esses deslumbramentos de iniciante? Falar com estranhos, em segurança, nos aproxima ainda mais de nossa real natureza. Aliás, foram eles que me indicaram os caminhos mais certos, não por isso menos audaciosos. Que irlandeses encantadores! Sensação de ter retornado para casa, sem nunca tê-la visitado antes - pelo menos não nesta vida. Curioso foi ter quase perdido o vôo de volta. Minha cabeça e coração estavam tão fincados por lá que até tive a mala extraviada por atraso. Confesso que tentava me despedir de Dublin em meio ao Temple Bar. Era madrugada e os táxis rareavam entre as solicitações de corrida entre os mais bêbados e felizes. Ganhei a disputa por um golpe de sorte. Luck of the irish!
Por hora, a única certeza é a de que voltarei em breve, bem mais leve e resoluta, a fim de degustar sem pressa outras proezas. Entre pileques e muito boa música, vou poetizar a minha escuta, fincar as solas no verde tapete, perder-me por bosques cheios de trevos e amores, ter-me com leprechauns, fadas celtas e druidas. Até mais ver. Foi bom te conhecer, amada Ilha Esmeralda. Tim-tim! Sláinte!!!
* Post sujeito à expansão (acréscimos futuros de mais fotos e vídeos).
Fonte: @paolabenevides






