De acordo com números da ONU (Organização das Nações Unidas), mais de 3 milhões de sírios hoje são considerados refugiados. Esse número representa mais da metade da população do país, que tem deixado suas casas – muitas vezes levando apenas a roupa do corpo – na luta pela sobrevivência. São pessoas que precisam de abrigos e de alimentos, sendo considerada uma das maiores emergências humanitárias do nosso tempo.
Essas pessoas deixam seu país devido às nefastas consequências da guerra civil que assombra a Síria desde 2011. Essa guerra começou na chamada "Primavera Árabe", em que uma parte da população passou a reivindicar a queda de Bashar Al-Assad, ditador governante da Síria desde 2000 e que recebeu o cargo de seu pai, que ficou no poder por mais de 30 anos. O governo reagiu ao movimento com força militar e a guerra civil instaurou-se naquele país.
Mas não apenas a violência da guerra tem deixado o povo sírio amedrontado: o Estado Islâmico tem invadido e tomado diversas cidades ao redor do país. Com receio da notória crueldade do EI, a opção dessas pessoas tem sido por abandonar sua pátria, da maneira mais urgente que conseguem fazer, utilizando-se de meios precários e não-seguros.
A Anistia Internacional tem defendido que as fronteiras dos países devem permanecer abertas e que a comunidade internacional deve auxiliar financeiramente o trabalho da ONU. Outra questão importante – e que tem sido bastante abordada pelo U2 durante os shows – é que essas pessoas devem ser consideradas REFUGIADAS e não imigrantes. Essa diferença de tratamento faz toda a diferença perante a legislação internacional.
A questão dos Sírios – defende a Anistia Internacional – atende todos os critérios para que eles se enquadrem na condição de refugiados. Assim, por exemplo, eles não podem estar sujeitos à detenção, que já foi decretada por países como Bulgária, Egito e Grécia. Na condição de refugiados, essas detenções são ilegais. Ao revés, os países que os recebem devem atender os que se encontram em condição de vulnerabilidade e integrá-los a programas humanitários.

Nesse contexto, dentro e fora dos shows, Bono tem defendido que a situação daqueles que fogem de suas casas tem sido deturpada. Ele tem insistido:
Não devemos usar a palavra migrante. Migrante é uma palavra política que costuma retirar o status real dessas pessoas. Eles estão refugiados. Eles estão fugindo da guerra e eles realmente gostavam de suas casas. Eles não estão deixando suas casas porque eles querem viver na Itália ou querem viver na Irlanda. Eles estão deixando suas casas porque não tem um lar".
Nos shows, tem sido frequente a pergunta "o que você quer?", seguida da resposta "um lugar para chamar de lar". Outra frase icônica sobre a questão, que tem sido eternizada nos shows por Bono é "eu não sou perigoso, eu estou em perigo", como uma maneira de estimular e sensibilizar a plateia. No show de Turim (o primeiro da leg europeia), Bono desabafou:
Vendo as notícias, pessoas comuns - todos nós - parecem capazes de tão grande mal e de tão grande amor. Eu não sei a resposta para a crise dos refugiados na Europa e na África, mas eu sei que temos de trabalhar em conjunto para encontrar uma resposta para a crise de refugiados na Europa e na África. Como Nelson Mandela disse: ‘sempre parece impossível até que seja feito'".
Além de pedir às nações que trabalhem juntas para resolução do problema, nesse mesmo show, ele questionou: "O que vocês querem? Uma Europa com seu coração e fronteira fechados à misericórdia? Ou uma Europa de coração aberto?"
Embora a questão esteja permeando todo o show, sendo lembrada em diversos momentos, ela tem sido explorada em um ciclo musical muito forte: a sequência 'Zooropa, Streets e Pride'.
Com seus versos fortes, 'Zooropa' tem se fixado como um hino que define a angústia dos refugiados:
"I am not dangerous, I am in danger. And I have no compass. And I have no map. And I have no reasons. No reasons to get back. And I have no religion. And I don't know what's what. And I don't know the limit. The limit of what we got. Zooropa, don't worry baby, it'll be alright (...) What do you want? A place to call HOME".
'Pride', por sua vez, que encerra o ciclo com sua mensagem de redenção e de esperança, e nessa leg da tour a canção já foi portadora de uma mensagem muito forte sobre os refugiados. No show realizado em Turim (Itália), Bono mudou um dos versos para mencionar o garoto sírio que foi encontrado morto em uma praia da Turquia – uma imagem forte, que comoveu o mundo. Para homenageá-lo, a canção ganhou o seguinte verso: "one boy washed up on an empty beach" (um garoto lavado em uma praia vazia, aos 1:14 do vídeo abaixo).
Embora Bono tenha realizado severas e contínuas críticas, ele também reconhece os esforços que tem sido feitos, sobretudo pela Alemanha, país que havia adotado uma postura pró-ativa e receptiva aos refugiados. Em entrevista a um jornal italiano, Bono mencionou a chanceler Angela Merkel como um símbolo moral e que a Alemanha estáaria mudando a história da Europa. Infelizmente, a Alemanha voltou a realizar o controle de suas fronteiras nos últimos dias.
No último show realizado na cidade de Amsterdam, no domingo passado, Bono voltou à questão: "não há resposta fácil. Mas se a casa do seu vizinho está em chamas, não se surpreenda se ele bater em sua porta". O U2 não tem se limitado a simplesmente mostrar fotos impactantes do cenário devastado da Síria ao seu público, através de um telão de LED. A banda tem escrito, na verdade, mais um capítulo em sua trajetória de apoio às causas humanitárias, sensibilizando o público, promovendo o debate e, sobretudo, fomentando a mudança de mentalidade para o tratamento da questão.






