Olá, caros fãs do U2 e amantes da boa música!
Vamos a mais uma interpretação das canções do U2. A escolhida da vez é “Silencio”, faixa do novo álbum “Carnaval de Luz”.
A razão para esses nomes em português ainda não foi totalmente esclarecida pela banda. Acredito que seja uma liberdade poética relacionada ao universo latino-americano que atravessa esse novo trabalho. “Carnaval de Luz” faz parte do conceito que liga o álbum aos EPs Days of Ash e Easter Lily: o Carnaval representa a celebração anterior à Quaresma, enquanto a “luz” se conecta à ideia de Bono de que, diante da escuridão do mundo, as músicas precisam brilhar.
Em “Silencio”, essa aproximação com a América Latina fica ainda mais evidente. A letra cita “Jesus of Rio” e “Campo de Cristo de silencio”, numa clara evocação do Rio de Janeiro e do Cristo Redentor. Ao mesmo tempo, o vídeo foi gravado na Cidade do México, e o álbum traz referências como La Reina e Rosalía. Parece existir, portanto, um imaginário latino mais amplo, onde português, espanhol, fé, carnaval e cultura popular se misturam.
Quanto ao significado de “Silencio”, a palavra carrega uma contradição que, para mim, está no coração da música. Existem silêncios onde conseguimos ouvir Deus, o próximo e até nós mesmos. Mas existem também silêncios impostos pelo medo, pela repressão ou pela omissão, onde o mal prospera porque ninguém consegue, ou simplesmente não quer, falar.
Com a declaração dada na revista Rolling Stone, veremos que a mensagem da canção está justamente na diferença entre esses dois ou três silêncios, como veremos a seguir.
.:: Introdução ::.
Quando ouvi Silencio pela primeira vez, a impressão que tive foi de uma música simples, curta, barulhenta e até divertida. São pouco mais de dois minutos e meio de um rock quase punk, cheio de palavras em português/espanhol, gritos, “heys” e uma melodia que entra fácil na cabeça. Aliás, o próprio U2 descreveu a canção como uma homenagem de 2 minutos e 35 segundos à insolência do surf-punk.
Mas aí fui ler a letra com atenção e vi que a canção trata de 3 tipos de silêncios. Há o silêncio contemplativo. O silêncio no qual conseguimos ouvir outra alma. O silêncio da oração e do mistério. Mas também há o silêncio fruto do medo, depois de um tiro, depois de ouvir “cale a porra da boca” e ver spray de pimenta sobre a multidão. Por fim, o silêncio fruto da indiferença. Parece contraditório. E talvez seja justamente aí que esteja uma das chaves da música.
O próprio contexto de Carnaval de Luz ajuda bastante. O U2 descreve o novo álbum como uma coleção de músicas sobre espiritualidade, amizade, liberdade e resistência diante de “forças sombrias que se aproximam”. Aqui vemos o velho U2, que sempre abordou assuntos políticos, dando um deixa que eles estão incomodados com o extremismo e mar de ódio e preconceitos no qual o mundo mergulhou nos últimos anos. O disco foi gravado no mesmo período criativo dos EPs Days of Ash e Easter Lily, e o próprio site oficial estabelece uma ligação conceitual entre os três trabalhos. Assim, o U2 consegue fazer, com maestria, o que poucos conseguem: unir, num mesmo trabalho, temas religiosos e políticos de forma poética e inteligente.
.:: Citações ::.
Agora vamos a algumas citações para pescarmos, com a banda, pistas do que a música quer transmitir. Começo com essa frase abaixo do Edge, que resumiu o disco da seguinte forma:
“É uma coleção de músicas bagunçada, provocadora e sagrada.” (The Edge, anúncio oficial de Carnaval de Luz, U2.com)
E Bono disse:
“Se o mundo está na escuridão, é melhor que nós não estejamos.” (Bono, anúncio oficial de Carnaval de Luz, U2.com)
Ou seja, a ideia de Carnaval de Luz não parece ser ignorar a escuridão. É fazer barulho dentro dela. Aumentar a bateria. Acender uma fogueira maior. Criar. Rir (o humor é uma forma de combater o mal). Amar. Fazer músicas que brilhem. Isso explica bastante coisa em Silencio.
No dia seguinte ao lançamento, quando apresentou a música na escola Mount Temple durante as comemorações dos 50 anos do U2, Bono ainda fez uma brincadeira curiosa. Chamou Silencio de seu novo compacto de rock'n'roll de 45 rotações e calculou quantas “revoluções” caberiam nos dois minutos e meio da música:
“São muitas revoluções.” (Bono, apresentando “Silencio” no Mount Temple)
Pode ser apenas uma piada com a palavra revolutions. Mas vindo de Bono, numa canção que contrapõe silêncio, violência, liberdade e resistência, achei interessante demais para deixar passar batido.
Há ainda um contexto político que não pode ser ignorado, mas aqui precisamos separar evidência de interpretação. No clipe de Silencio, gravado no histórico Salón Los Ángeles, na Cidade do México, homens mascarados usando equipamento tático aparecem agarrando e levando uma pessoa. A imprensa relacionou visualmente a cena às imagens de operações migratórias nos Estados Unidos. Até o momento, porém, não encontrei declaração de Bono, do U2 ou dos diretores Pasqual Gutiérrez e Raúl “RJ” Sanchez dizendo explicitamente que aqueles homens representam o ICE. Portanto, não vou afirmar isso como fato. Mas a associação não surgiu do nada. Poucos meses antes, o U2 havia lançado American Obituary, escrita em resposta à morte de Renée Good, durante o contexto de operações de imigração em Minneapolis. O próprio U2 apresentou Days of Ash como uma resposta imediata aos acontecimentos daquele momento.
E vejam como começa American Obituary:
“You have the right to remain silent… or not…” [“Você tem o direito de permanecer em silêncio... ou não...”]
Meses depois aparece uma música chamada justamente Silencio, falando de tiro, pessoas mandadas calar a boca, spray de pimenta, controle de multidões e homens mascarados detendo alguém no videoclipe.
Coincidência? Pode ser. Mas é uma coincidência bem barulhenta, não é mesmo?
Há uma declaração recente de Bono sobre Days of Ash que, para mim, é uma chave importante para entender um dos versos de Silencio. Falando sobre a violência e as tragédias vigentes no mundo atual, Bono afirmou:
“Não há nada de normal nestes tempos loucos e enlouquecedores.” (Bono, apresentação oficial de Days of Ash, U2.com)
Na mesma declaração, Bono disse que aquilo que vemos diariamente nas pequenas telas (celulares conectados em redes sociais - WhatsApp, Facebook, X, etc.) está sendo normalizado, e que precisamos reagir antes de voltar a ter fé no futuro e uns nos outros. Guardem a palavra normalizado. Ela vai aparecer disfarçada logo no começo de “Silencio”.
Numa entrevista na revista Rolling Stone, Edge explica que existem dois silêncios: um silêncio belo, contemplativo e reflexivo, e outro silêncio constituído por censura e autocensura, no qual as coisas podem se tornar perigosas. Rolling Stone UK. Bono imediatamente conecta esse segundo silêncio à “banalidade do mal”, conceito associado a Hannah Arendt, e diz explicitamente que é disso que aquele trecho da música trata. Assim temos o silêncio que nos permite ouvir × silêncio que nos impede de falar.
Há também uma antiga declaração de Bono que ajuda a entender por que Cristo aparece novamente associado à justiça social nessa música:
“Acho que uma fé em Jesus Cristo sem um compromisso com a justiça social, que não olha para os pobres, é vazia.” (Bono, revista Bizz)
Para Bono, portanto, o Jesus interessante nunca foi apenas uma figura decorativa dentro de uma igreja. É o Cristo que virou mesas no templo e cuja fé precisa produzir consequências no mundo real. Essa visão vem de muito longe na obra dele. Feita essa introdução, vamos à música.
.:: Interpretação ::.
O primeiro silêncio
There's a quiet where a baby doesn't cry (tranquilo)
There's a hush where a mother might sigh
Mary Mama angel offered her a choice (sereno)
"My son is listening if you got no voice"
[Há uma quietude onde um bebê não chora (tranquilo)
Há um silêncio onde uma mãe pode suspirar
Mamãe Maria, um anjo lhe ofereceu uma escolha (sereno)
"Meu filho está ouvindo, se você não tem voz"]
Bono começa apresentando um silêncio bom. E ele praticamente nos avisa isso através das palavras em espanhol colocadas entre parênteses: tranquilo e sereno. Não é o silêncio de quem foi amedrontado. É quietude.
A cena parece remeter diretamente à Anunciação. O anjo aparece a Maria e ela precisa responder ao chamado que recebeu. No Evangelho de Lucas, Maria aceita: “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1:38). Mas Bono imediatamente desloca essa imagem de Maria e Jesus para outro lugar: “Meu filho está ouvindo, se você não tem voz.”
Quem não tem voz?
Para mim, está aqui uma das frases mais bonitas de Silencio. O verso ressoa como uma voz poética para quem perdeu a capacidade ou o direito de se expressar, seja pelo medo concreto da coerção política e da ameaça de deportação, seja pelo silêncio sufocante da indiferença social. A beleza da poesia de Bono reside na forma como ele entrelaça a dimensão espiritual e a crítica social.
Ao introduzir a figura de Maria oferecendo a escuta de seu Filho aos silenciados, a canção transforma o silêncio de opressão em um espaço de acolhimento e escuta divina. Por outro lado, quando o silêncio decorre da omissão e da apatia, Bono resgata a dimensão ética. Sobre este último caso de silêncio, o Bono, na entrevista à revista Rolling Stone, menciona Hannah Arendt e sua reflexão sobre a banalidade do mal. Ele afirma que a presença do mal “no silêncio” da letra deve ser entendida justamente nesse sentido. Nesse contexto, a letra nos alerta que a ausência de posicionamento não é um ato neutro, mas sim o terreno onde o mal se estabelece sem encontrar resistência.
Porém, quanto àqueles que estão em silêncio por medo da repressão, oprimidos, marginalizados, Maria fala que o seu Filho o escuta, está atento às suas preces. Sob um olhar cristão, isso conversa diretamente com uma característica muito forte do Jesus retratado nos Evangelhos: sua proximidade com aqueles que estavam à margem: os doentes, os pobres, os estrangeiros, os excluídos, os que não tinham poder. Nesse sentido, Maria estaria dizendo: você pode não ter voz para o mundo, mas meu Filho consegue ouvi-lo.
Então já temos aqui nossa primeira definição de silêncio: há um silêncio no qual aqueles que não têm voz ainda podem ser ouvidos por Cristo.
Uneasy feeling, I just heard a gunshot (silencio)
There are things you can get used to or not
A thief at large in a carnival of souls
In the silence the devil rock and rolls
Silencio (silencio)
Silencio (silencio)
[Uma sensação inquietante, acabei de ouvir um tiro (silencio)
Há coisas com as quais você pode se acostumar, ou não
Um ladrão à solta num carnaval de almas
No silêncio, o diabo faz seu rock and roll
Silencio (silencio)
Silencio (silencio)]
Agora temos a segunda definição de Silencio. Mudou tudo. Antes era tranquilo, sereno. Agora Bono usa "silencio" e a palavra aparece imediatamente depois de um tiro. Esse detalhe é importantíssimo porque mostra que Bono está atribuindo significados diferentes para palavras que poderiam parecer sinônimas, mas um tiro separa os dois mundos. E logo depois aparece, para mim, um dos versos mais importantes da música: “Há coisas com as quais você pode se acostumar, ou não.”
O U2 vinha tratando justamente de acontecimentos contemporâneos poucos meses antes. Days of Ash foi apresentado oficialmente como uma reação a eventos políticos e humanitários daquele momento, incluindo a morte de Renée Good durante uma operação ligada à política migratória americana. Por isso, embora eu não possa afirmar que esses versos descrevam especificamente o ICE, acho difícil ignorar esse pano de fundo. Na minha leitura, Bono pode estar descrevendo o ambiente psicológico produzido pela repressão: ouvimos um tiro, sentimos alguma coisa, depois somos convidados a decidir se aquilo se tornará apenas mais uma notícia.
Lembram da declaração recente do Bono sobre acontecimentos terríveis sendo normalizados diariamente diante de nossas telas? É exatamente a mesma preocupação. Quantas vezes podemos assistir a uma pessoa sendo espancada, uma família sendo separada, alguém sendo morto, uma guerra destruindo uma cidade, vídeos de bombardeios sobre escolas com crianças ou pessoas sendo perseguidas antes que aquilo deixe de nos chocar? O perigo começa quando o absurdo vira rotina. Talvez seja justamente esse o silêncio que o diabo adora. Não apenas o silêncio imposto pela arma, mas também o silêncio de quem se acostumou com o som do tiro, quando ninguém reage, ou denuncia, ou pergunta, ou quer saber da violência e injustiças que nos cercam.
Então Bono coloca um “ladrão” andando livremente por um carnaval de almas. Sob um olhar cristão, é difícil não lembrar das palavras atribuídas a Jesus em João 10:10: “O ladrão vem apenas para roubar, matar e destruir”. Quem é esse ladrão? Quem está matando, roubando e destruindo pessoas ou países? Pode ser diretamente o diabo, que aparece no verso seguinte, mas também pode simbolizar qualquer força, pessoa, ideologia, país ou organização que roube dignidade, justiça, humanidade ou esperança. Conhecendo o Bono, sabemos quem o Mr. MacPhisto gostava de agradecer nos shows da Zooropa Tour e na Experience + Innocence Tour (2018).
Where did our love go,
Hey, Jesus of Rio?
[Onde foi parar o nosso amor,
Ei, Jesus do Rio?]
A pergunta não é: “Jesus, onde você está?” Bono pergunta: “Onde foi parar o nosso amor?” Isso muda muita coisa. O problema não parece ser a ausência de Cristo. Talvez seja a nossa ausência. Jesus continua lá, metaforicamente de braços abertos sobre o Rio de Janeiro. A imagem mais evidente de “Jesus of Rio” é justamente o Cristo Redentor, referência brasileira que também aparece na iconografia associada à música. É quase como se Bono olhasse para o Cristo de braços abertos e perguntasse: "Nós ainda entendemos esse gesto? Onde foi parar o nosso amor? Onde foi parar nossa capacidade de acolher? Onde foi parar nossa compaixão por quem sofre? Onde foi parar aquela ideia de enxergar o próximo como alguém que possui a mesma dignidade que nós?"

Curiosamente, Bono não pergunta onde foi parar o amor de Jesus. Ele pergunta onde foi parar o nosso. Talvez o problema não seja Cristo ter deixado o mundo. Talvez sejamos nós que deixamos o amor de Cristo. Isso me faz perceber que o Bono mudou a perspectiva da pergunta. Por exemplo, em Wake Up Dead Man, Bono implora para Jesus acordar diante de um mundo quebrado. Em Peace on Earth, Bono pergunta por que Deus não atende certas orações. Agora, em Silencio, Bono pergunta “Jesus do Rio, para onde foi nosso amor?” É o homem quem está sendo omisso. Bono não está perguntando onde Deus está, ele está perguntando onde nós estamos. Cristo continua ali. Os braços continuam abertos. A mensagem continua sendo amor ao próximo. Então, por que tanto ódio dos cristãos no mundo atualmente?
A própria geografia da imagem é interessante. O Cristo Redentor olha para uma cidade marcada por beleza, alegria, desigualdade, violência, religião e carnaval. Tudo junto e misturado. Um verdadeiro carnaval de almas. Então vem uma frase interessante...
It's when I'm with you
I miss you the most
It's when I'm with you
I miss you the most
[É quando estou com você
Que sinto mais a sua falta
É quando estou com você
Que sinto mais a sua falta]
A posição desses versos logo depois de “Hey, Jesus of Rio” me faz achar que Bono está falando com Jesus. E se for isso mesmo, a frase fica muito mais desconfortável: “É quando estou com você que sinto mais a sua falta.” Como alguém pode estar com Cristo e sentir falta de Cristo? Talvez quando esteja cercado de símbolos cristãos, igrejas, crucifixos, discursos sobre Deus e pessoas pronunciando o nome de Jesus, mas não encontra ali aquilo que mais admirava nele: justiça, misericórdia, compaixão, perdão, acolhimento e amor ao próximo.
Lembremos daquela antiga frase do próprio Bono sobre acreditar no Cristo que virou as mesas do templo e considerar o cristianismo vazio quando separado da justiça social. Acredito que seja esse o sentido desse verso. Estou cercado por sua imagens e símbolos, mas não consigo encontrá-lo nos cristãos. Se essa leitura estiver correta, alguns versos que aparecem logo depois ficam ainda mais importantes, principalmente aquele sobre a igreja fazendo “controle de multidão”.
There's a quiet where you hear the ocean's roll (tranquilo)
There's a hush where you can hear another soul
Invocation, exaltation is the goal (amigo)
There's a whisper where the mystery unfolds
[Há uma quietude onde você escuta o movimento do oceano (tranquilo)
Há um silêncio onde você consegue ouvir outra alma
Invocação, exaltação é o objetivo (amigo)
Há um sussurro onde o mistério se revela]
E Bono retorna ao primeiro tipo de silêncio, o contemplativo, tranquilo. Uma quietude que permite ouvir outra alma e os mistérios se revelam. O silêncio verdadeiro não elimina a voz do outro, ele permite que finalmente consigamos ouvi-la. Há aqui uma diferença grande entre calar alguém e calar a nós mesmos para ouvir alguém.
E vejam como Bono constrói algo muito bonito: quando todo o ruído desaparece, começamos ouvindo o oceano e terminamos ouvindo outra alma. Há pessoas falando o tempo inteiro que jamais ouviram alguém. E há pessoas em absoluto silêncio prestando uma atenção profunda no outro.
Sob um olhar espiritual, isso lembra imediatamente o episódio do profeta Elias. Deus não estava no vento violento, nem no terremoto, nem no fogo. Elias percebe sua presença numa voz suave e delicada (1Rs 19:11-12). Jesus também buscava esse tipo de silêncio. Marcos conta que, ainda de madrugada, ele se retirou para um lugar deserto para orar (Mc 1:35). O silêncio contemplativo não apaga a voz. Ele retira o ruído para que uma voz mais profunda possa finalmente ser percebida. E Bono diz exatamente isso: “Há um silêncio onde você consegue ouvir outra alma.” Talvez boa parte dos problemas do mundo comece justamente quando perdemos essa capacidade de fazer esse silêncio contemplativo, por causa do barulho das redes sociais, dos noticiários, das guerras, do bombardeio de informações que sofremos diariamente.
There's a quiet saying, "Shut your fucking mouth" (silencio)
There's a diet saying, "Spit it fucking out"
Pepper spraying, church is playing crowd control
In the silence is the devil's rock and roll
[Há um silêncio dizendo: “Cale a porra da boca” (silencio)
Há uma dieta dizendo: "Cuspa essa merda pra fora"
Gás de pimenta rolando, a igreja fazendo controle de multidão
No silêncio está o rock and roll do diabo]
Agora chegamos ao outro silêncio, radicalmente oposto à escuta da alma: a ordem brutal de “calar a porra da boca”. O verso evoca perseguição e coerção, dialogando diretamente com a cena do videoclipe em que agentes táticos mascarados detêm alguém em plena festa, imagem que a imprensa associou às batidas do ICE, além de ressoar o aviso jurídico de “permanecer em silêncio” visto em American Obituary. Em Silencio, a mudez deixa de ser contemplação e assume a face do medo, do interrogatório e da repressão sistemática.
Nesse cenário, a linha seguinte condensa a violência exercida sobre o corpo e a voz. No plano literal, evoca a privação da disciplina alimentar e a obrigação de cuspir o que se quer consumir; já pelo sentido idiomático de “spit it out” (“desembucha”), cria uma tensão direta com o calar forçado, traduzindo o interrogatório que exige confissões enquanto amordaça, ou a recusa visceral em engolir narrativas impostas. Há ainda a acepção política de "diet" como assembleia deliberativa, sugerindo o próprio aparato estatal exigindo depoimento.
A estrofe culmina no choque entre gás de pimenta, controle de multidão e religião. Ao colocar a igreja executando contenção de massas em vez de acolher os aflitos, Bono reativa sua clássica distinção entre Cristo e a instituição eclesiástica: uma estrutura que renuncia à sua vocação profética para atuar como braço administrativo da ordem, mesmo quando ela oprime. Muitas vezes é usada até mesmo como curral eleitoral, para manipular os cristãos pelo medo e ódio do diferente, negando a própria lei de Cristo: amar Deus e o próximo, inclusive os inimigos (Mateus 5:43-44). Essa cumplicidade com o poder explica a dor do verso anterior, “é quando estou com você que sinto mais a sua falta”, revelando que talvez seja justamente dentro do templo erguido em Seu nome onde Jesus mais faz falta, por causa da distância entre o que Jesus ensinou e o que é praticado, de fato.
Há uma sacada sutil no desfecho que amarra tudo com precisão cirúrgica. Na primeira estrofe Bono solta “the devil rock and rolls”, para depois ajustar ligeiramente a letra e cravar “is the devil’s rock and roll”. Se antes o diabo operava na quietude, agora o próprio silêncio vira a sua trilha sonora. É aí que desponta o terceiro silêncio, que não tem nada de espiritual, nem depende de cassetete ou farda para existir.
Falo da omissão, da covardia confortável de quem assiste ao absurdo de camarote e prefere não se meter. Quando fingimos que o tiro na esquina ou a agressão às pessoas diferentes não nos diz respeito. Esse vazio cúmplice deixa de ser um campo neutro e vira palco para o diabo. É exatamente esse silêncio que o Bono relacionou à ideia da “banalidade do mal”, de Hannah Arendt.
Dressed like a devil but tonight you're the host
Of Father, Son and the Holy Ghost
[Vestido como um diabo, mas esta noite você é o anfitrião
Do Pai, do Filho e do Espírito Santo]
Eis o sagrado e o profano dividindo o mesmo salão. Uma pessoa vestida de diabo recebe como convidados: Pai, Filho e Espírito Santo. Essa imagem combina perfeitamente com a definição de Edge para Carnaval de Luz: bagunçado, provocador e sagrado.
Carnaval é justamente o território das fantasias, inversões, máscaras e exageros. Estar vestido como o diabo não significa necessariamente ser o diabo. A roupa é fantasia (Bono já se fantasiou de diabo, Mr. MacPhisto, para fazer belas críticas aos absurdos do mundo). E talvez Bono esteja brincando justamente com nossa mania de julgar as pessoas pela aparência. Quem parece santo pode estar vazio, distante de Jesus. Quem parece diabo pode terminar recebendo a Trindade em casa. Isso é muito Evangelho. Afinal, Jesus constantemente causava escândalo religioso justamente por se sentar à mesa com pessoas consideradas indignas pelos religiosos da época: prostitutas, ladrões, corruptos, etc. Como ele mesmo disse, veio para os que precisam. Talvez por isso o sagrado não esteja onde muitos esperan encontrá-lo.
E então chegamos ao verso mais misterioso de toda a música.
Campo de Cristo de silencio (shhh)
Essa frase me fez parar. Ela parece propositalmente estranha. Não é uma expressão religiosa tradicional que eu conheça. Parece uma imagem construída por Bono, misturando a linguagem espanhola que atravessa a música com uma espécie de expressão litúrgica inventada. O que seria o “campo de Cristo”?
Na Bíblia, campo é frequentemente uma imagem espiritual. Jesus utiliza o campo para falar de sementes, crescimento, Reino de Deus e diferentes tipos de coração. Na parábola do semeador, a Palavra é lançada como semente e encontra diferentes terrenos (Mt 13:1-23). Então encontrei uma coincidência que achei muito pertinente. Em julho de 2013, durante a Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, o papa Francisco falou justamente sobre um campo. O evento deveria ocorrer num lugar chamado Campus Fidei, “Campo da Fé”. Como a chuva mudou os planos, Francisco transformou o nome numa metáfora e disse aos jovens que o verdadeiro Campo da Fé não era um lugar geográfico. O campo somos nós mesmos. Nosso coração. Ele então utilizou a parábola do semeador para dizer que Cristo lança sua semente nesse campo interior. E pediu aos jovens: “Em silêncio, deixemos entrar a semente de Jesus.” (Papa Francisco, Jornada Mundial da Juventude, Rio de Janeiro, 2013).
Eu não encontrei nenhuma declaração de Bono dizendo que esse verso foi inspirado pela fala do papa Francisco. Portanto, não afirmaria isso. Mas a correspondência é muito interessante como chave interpretativa. O Papa Francisco disse que cada pessoa possui um pequeno pedaço de terra interior onde a semente de Cristo pode entrar. E como ela entra? Em silêncio.
.:: Conclusão ::.
Depois de percorrer toda a letra, acho que “Silencio” trabalha pelo menos com três formas diferentes de silêncio.
- O primeiro é o silêncio contemplativo. É tranquilo, sereno. Nele ouvimos o oceano. Ouvimos outra alma. O mistério se revela. Cristo entra no campo.
- O segundo é o silêncio imposto. Ele chega depois do tiro. “Cale a boca.” Spray de pimenta. Controle de multidão. Medo. Uma voz retirada à força.
- O terceiro é o silêncio da omissão. Esse talvez seja o mais perigoso porque não precisa que ninguém coloque a mão sobre nossa boca. Nós mesmos paramos de falar. Acostumamo-nos. Normalizamos. Ouvimos o tiro e continuamos andando. Talvez seja exatamente por isso que Bono escreveu: “Há coisas com as quais você pode se acostumar, ou não.” A decisão é nossa.
E isso nos leva de volta ao conceito de Carnaval de Luz. Bono disse que, diante das criaturas e monstros que estão fora do carnaval, eles fariam a bateria soar mais alto, construiriam uma fogueira maior, contariam histórias mais selvagens e fariam músicas que brilhassem. Talvez Silencio seja exatamente isso. Uma música de luz que olha diretamente para lugares escuros. Uma música sobre pessoas silenciadas que termina gritando. Uma música sobre repressão que também fala de contemplação. Uma música onde o diabo encontra espaço no silêncio, mas Cristo também. A diferença está na natureza desse silêncio. No silêncio imposto pela violência, o ser humano perde sua voz. No silêncio provocado pela indiferença, o mal encontra espaço para trabalhar, mas no silêncio da escuta conseguimos ouvir o mar. Conseguimos ouvir outra alma. Conseguimos ouvir aqueles que não têm voz. E talvez consigamos ouvir Deus.
Termino essa interpretação voltando àquele estranho verso que, para mim, contém boa parte da chave da música: Campo de Cristo de silencio. No meu entender, esse “Campo de Cristo” é um espaço interior de escuta, onde o ruído cessa. Onde conseguimos ouvir o outro e nossa própria consciência. Onde conseguimos perceber o mistério. E onde Cristo consegue entrar. Talvez todos nós tenhamos esse pequeno campo. O problema é decidir o que vamos deixar crescer nele, porque no silêncio que oprime, o diabo dança, mas no silêncio que escuta, o amor floresce. E entre esses silêncios estamos nós. Escolhendo qual deles alimentar.
Suderland Guimarães
@suderland



