Por Éric Bureau
Encontro estranho ontem com Bono, o líder do quarteto irlandês que acaba de lançar seu novo álbum "Songs of Innocence".
U2, uma banda, duas imagens. Uma de maior banda de rock da atualidade, oferecendo gratuitamente seu novo álbum "Songs of Innocence" no iTunes na apresentação mundial do iPhone 6 há um mês. E outra, ontem à tarde em Paris, na intimidade de um pequeno estúdio no Palácio dos Congressos, com dois músicos de um coral negro, modestos e acessíveis.
Não há tensão ao redor deles. Durante meia hora, o cantor Bono, de 54 anos, e o baterista Larry Mullen Jr., de 52 anos, falam com franqueza e paixão do seu novo álbum, que foi lançado finalmente no mercado esta semana, carregado com novas canções. Uma entrevista em inglês. Mas Bono, que tem há muito tempo uma casa em Nice, promete rindo: "No próximo ano será em francês".
O álbum de vocês, disponível de forma gratuita no iTunes, foi ouvido em um mês por mais de 100 milhões de pessoas. Atingiram o seu objetivo?
Sim. Nós realmente queremos que estas canções sejam escutadas pelo maior número de pessoas possível. Porque temos colocado muito de nós no álbum. Os fãs estão contentes. Mas o que mais me entristece é o que os meios de comunicação tem falado mais de como o álbum foi distribuído do que das canções. Algumas estão entre nossas melhores músicas. (Bono)
Eles acusam vocês de desvalorizar a música oferecendo-a grátis.
Isso é falso. Nós cobramos pelo nosso trabalho, a música sempre esteve no centro das discussões. A única ideia era dar um presente aos que já estão pagando pela música. É o contrário, e poético. (Bono)
Como é contar em "The Miracle (of Joey Ramone)" o concerto que mudou sua vida?
O concerto dos Ramones me mudou como cantor. Por ele não gritar, sua voz era muito melódica, e isso me deu autoconfiança. Mas foi um show do The Clash que nos inspirou a ser o U2. Foi a revolução, tão selvagem, e suas palavras tinham uma mensagem muito política. Tratamos de não perder essa inocência, a vontade de lutar por nossas ideias, nossas canções, ser honesto cara-a-cara com o comércio, com a música, com a tecnologia. Tratamos de não nos considerarmos artistas importantes, lutamos para permanecermos fiéis. E isso remete à primeira e primordialmente pertinente pergunta: "Por que formamos esse grupo?" (Bono)
Para salvá-los?
Esta é uma pergunta muito direta (faz uma pausa para pensar). Mas tem razão, sim. U2 não vai salvar o mundo, só queremos salvar nossa pele. Sempre nos sentimos em perigo em nossas vidas, e não sei o que haveria acontecido sem a banda. Provavelmente eu acabaria numa situação desesperadora. E você, Larry, o que faria? (Bono)
Uma viagem ao redor do mundo, ou como um mecânico naval. (Larry Mullen Jr.)
Larry, você aparece na capa com seu filho. É muito inesperado da sua parte!
Eu sempre quis ficar para trás modestamente... sua mãe não gosta muito que você fique assim (risos). Mas era o melhor pra gente e a imagem é bela, agarrando-se a sua infância, sua inocência. Mas quem se agarra a quem, filho ou pai, não sei (risos). (Larry Mullen Jr.)
É verdade que já estão trabalhando em um novo álbum?
Sim, está dois terços terminado... Se chamará "Songs of Experience", em referência ao poeta britânico William Bake, que escreveu "Songs of Innocence and Experience". Será lançado no ano que vem. (Bono)
Ao mesmo tempo que a turnê?
Sim. A gente gostaria de tocar primeiro em locais como o Paris Bercy, mas eu amo os estádios. Quando penso nos três concertos do Stade de France que fizemos da última vez, foi incrível. Era como no Brasil. Ou melhor, como em casa, porque no ambiente era muito celta, na realidade. (Bono)
No seu álbum, faz agradecimentos ao Prefeiro de Nice, Christian Estrosi.
Porque nos facilita a vida. Quando estamos em turnê pela Europa, Nice é nosso porto de origem. Baseamos nossa organização e o prefeito nos ajuda em nossas idas e vindas, no aeroporto... É por isso que passamos nossas férias no Sul, os quatro. Porque a França nos trata bem, as pessoas respeitam nossa privacidade. Isso é algo que nos afeta muito. (Bono)






