Muitos com certeza de alguma maneira estão familiarizados com a estória dos irmãos “João e Maria”. No conto, popularizado pelos irmãos Grimm, os dois irmãos são deixados à própria sorte no meio da floresta pelos seus pais que não possuem mais condições de sustentá-los. Tentando manter o seu caminho para retornar a sua casa, os irmãos fazem uma trilha com migalhas de pão, que acabam por serem comidas por pássaros, o que deixa os dois perdidos e a mercê das garras da bruxa malvada.
Migalhas de pão, dicas, pistas, parece que mais uma vez o U2 vem fazendo isso com os seus fãs, especialmente durante os shows finais da sua eXPERIENCE + iNNOCENCE Tour, mas também nas entrelinhas das músicas do seu último álbum e em algumas coisas que aconteceram nos últimos meses. Lembrando que já fizemos um post com uma análise semelhante, que pode ser lido aqui, que fez parte do nosso especial sobre o lançamento de Songs of Experience e que pode mostrar que talvez esse caminho não seja tão novo na vida do U2. (E fazendo um adendo especial de uma autora louca por David Bowie: ele foi mestre nisso, e é fonte de inspiração para Bono & cia, ou seja, fica aqui mais uma dica e uma pulguinha para habitar atrás da sua orelha).
Comecemos pela famigerada chegada a experiência... quando podemos afirmar com mais certeza de que o U2 tenha chegado a experiência do que no momento da concepção e lançamento de Achtung Baby? The Joshua Tree plantou literalmente as raízes do U2 como uma das mais importantes bandas do anos 80, foi um divisor de águas na carreira deles, no seu posicionamento em finalmente fazer o “sonho americano”, fez com que a banda alcançasse o seu primeiro Grammy e finalmente se fixasse como um grande ato em estádios, capa da Time, entrevistas em canais de TV, a imagem de Bono se tornando onipresente como ícone da geração que deixava os anos 80 rumo a tudo o que estava por vir, mas foi também o que acabou por transformar a banda em uma grande vidraça, coisa que eles mesmo já afirmaram e recontaram por diversas vezes. Pensem só, vocês, recém-feitos adultos, na altura dos seus 30 anos parecendo que simplesmente tinham chegado ao topo da montanha. O problema não era olhar para trás e sim seguir em frente, mas a frente poderia ser uma estrada ou um abismo. E foi assim com essa faca no pescoço que foi erguido Achtung Baby. E sim, na opinião super imparcial de alguém que o acha o disco mais incrível da História da
Humanidade, se The Joshua Tree liberou o U2 para o mundo, Achtung Baby liberou o U2 para dentro de si. A banda saiu do seu círculo de conforto, mudou de país e encarou seus medos, suas neuroses e aos monstros que começavam a pesar no armário de cada integrante. Ousou misturar ritmos, influências. Temos a dance music do início da década, temos hip hop, Sonic Youth, Pixies, temos falsetes, temos emoções, separação, temos uma Alemanha sendo reconstruída na cabeça de uma banda que se destruía e reconstruía a cada faixa gravada ou decepção. É a experiência, é a experimentação. A árvore caíra, bem-vindo ao futuro!
A experiência foi levada mais a frente, a estrada, e não, o abismo não surgiu. E ela além de continuar no próximo álbum da banda, Zooropa, se mostrou com toda a sua enormidade durante aquela que para muitos é considerada a melhor e mais marcante turnê não apenas do U2, mas de toda a década de 90: Zoo TV. No palco todas as noites, a megalomania ria de volta para a banda, Bono se transformava em The Fly com a arrogância de rockstar que lhe era imposta, vinil, óculos escuros. Tivemos a meteórica presença de Mirrorball Man e seu lindo terno prateado distribuindo dólares e luxuria pelos Estados Unidos, mas nenhum desses personagens acabou por povoar tanto o imaginário dos fãs do U2 quanto o nosso demônio de estimação, em seus sapatos vermelhos e esplendor dourado: Mr. MacPhisto.
Saído das páginas de Goethe e misturado a tudo o que o capitalismo e a confusão do início dos anos 90 trazia, do mundo e do caos de dentro da banda, noite após noite ele discursava sobre os acontecimentos, sem contar claro as suas divertidíssimas ligações para a Casa Branca tentando conversar com o primeiro Bush a ocupar a cadeira da presidência dos Estados Unidos.
MacPhisto parecia ter ficado no passado, apenas com uns relances de sua glamorosa existência em lampejos. Mas, no início do ano, em maio, quando a eXPERIENCE + iNNOCENCE Tour pegou o rumo da estrada, quem nos brindou com uma grata ressurreição? Sim, nosso grande e velho amigo, um pouco mais discreto, afinal parece que até os demônios podem sentir o peso da idade, mas com a língua afiadíssima para nos lembrar que na era que trouxe Trump ao poder, a volta das ameaças a democracia e tantas outras cosias que pareciam estar há anos-luz de distância, ele estava mais vivo do que nunca.
Just when you don't believe I exist, that's when I do my best work....
Quando você acredita que eu não existo, é quando eu faço meu melhor trabalho... Sim, MacPhisto está de volta, fazendo o seu “melhor trabalho”: ataques racistas nos Estados Unidos, extrema-direita na França, Putin, e até mesmo o nosso recém-eleito Capitão Bossa Nova... Mas de sua cartola nosso demônio trazia um verdadeiro truque de mágica, esperado e sonhada por muitos: Acrobat, uma das músicas mais aguardadas durante mais de 25 anos pelos fãs, fazia seu debute ao vivo, e o melhor, o fazia para ficar, pois está até hoje no setlist de todas as noites. Próximo ao final da turnê ela se mantém como um dos momentos mais marcantes das apresentações da banda ao ser anunciada pela gargalhada de MacPhisto ao se apresentar e pela esplendorosa e onipresente guitarra de The Edge. O seu álbum de origem? Achtung Baby.
A chegada à experiência
Ao som de uma nova versão de Hold Me, Thrill Me, Kiss Me, Kill Me mixada por Gavin Friday e com os apoios do vocais da maravilhosa Régine Chassagne do Arcade Fire, durante o intervalo do show no telão imenso que pende por sobre a passarela que liga os dois palcos, uma animação conta de maneira alegórica um pouco sobre a carreira do U2, mostrando como 4 garotos inocentes de Dublin foram seduzidos pela fama e glória até se tornarem uma das maiores bandas de rock do planeta. Mas para isso, acabam de ser expulsos do céu e descem para a Terra onde precisam “espalhar seus talentos para os mortais”. Em qual momento isso acontece na carreira da banda, de acordo com o vídeo? Mais uma vez Achtung Baby cruza nossas lembranças e caminhos.
Falando em cruzamento de destino, U2 e Berlim em setembro se encontraram mais uma vez com algo que alterou o curso do que era para ser, mas desta não de uma forma das mais alegres. Na Mercedes-Benz Arena em 02 de setembro deste ano, logo no início da apresentação, um pouco após a execução de Beautiful Day a voz de Bono simplesmente deixou de existir. Sim, o nosso sempre tagarela vocalista não conseguiu terminar o show daquela noite, o que deixou fãs extremante apreensivos e temendo ou algo pior, o que acabou por não se mostrar verdade, felizmente, pois em poucos dias, a banda estava de volta aos palcos fazendo shows na mesma Alemanha, só que dessa vez na cidade de Colônia. O show de Berlim acabou por ser remarcado para 13 de novembro e também “promovido” ao show de encerramento da turnê. Sendo assim, o U2 deixa de se despedir desta turnê em Dublin para o fazê-lo em Berlim, algo que acabará por certo registrado, pois de acordo com as mais recentes notícias, o show será gravado para o DVD oficial da turnê.
Um aceno com Even Better Than The Real Thing sendo tocada, fãs esperançosos a cada passagem de som ouvindo acordes que seriam de Stay (Faraway, So Close!), Who's Gonna Ride Your Wild Horses, The Unforgettable Fire. Até que na segunda noite em Copenhague, os cavalos entram a galope e as mudanças do setlist começaram a surgir. Entram Stay, Horses, depois em Hamburgo, de volta à Alemanha, temos Zoo Station e finalmente The Fly.
A conclusão da jornada entre a inocência e a experiência finalmente começa a se fazer presente diante dos olhos e ouvidos de todos os fãs. Se a iNNOCENCE + eXPERIENCE era o chamado para a saída da inocência que desaguava em The Joshua Tree, e subsequentemente na sua comemoração de 30 anos, a eXPERIENCE + iNNOCENCE parece ser a ponte perfeita para a jornada rumo à experiência, ou seja, rumo ao Achtung Baby e o seu balzaquiano aniversário dentro de 30 anos. O Showman em Songs of Experience, se parece cada vez mais com uma versão mais velha de The Fly. Seriam ambos a mesma pessoa, olhando em pontos de vista, épocas diferentes, e tudo mais a mesma realidade de ser “apenas um rockstar”, admirando a fama à distância enquanto do seu quarto de hotel pensa no que é real e imaginário no seu próprio ser?
O fim da jornada Inocência + Experiência, de mãos dadas. E o que aguardar do U2 depois disso? Aos indícios acima pelo menos para a conspiradora autora deste humilde texto parece ser a turnê de 30 anos do mais germânico dos álbuns da banda, após uma pausa de pelo menos 3 anos que os nossos irlandeses merecem depois de passarem os últimos 4 na estrada, e o que acaba por condizer também com as declarações que os próprios integrantes vêm apresentando à imprensa de que farão uma parada por algum tempo. E depois o que aguardar? Honestamente, vindo do U2, é melhor não esperar nada ou sofrer por antecipação. Os mais alarmistas – ou como alguns preferem dizer realistas – enxergam um fim para a banda. Outros, aposentadoria. Outros, anseiam por novos trabalhos. A certeza? É que eles continuarão para sempre sendo a trilha sonora das nossas vidas.
Time is a train, makes the future the past…







