Por Eliezer Silveira Filho
Sempre comentei que achava ser o único fã gay do U2. Exageros à parte, isso se deve ao fato que, diferente de cantores que carregam o discurso LGBT em suas mensagens, o U2 nunca levantou claramente esta bandeira, trazendo assim uma legião de admiradores eclética e engajada com causas mais generalistas dos direitos humanos.
Acompanhei a leitura dos direitos humanos na turnê Vertigo, usei a máscara da Ang Sang Suu Kyi na turnê 360º, acompanhei a relação da banda com Mandela, eternizada recentemente com a canção "Ordinary Love". Mas a visão de igualdade do U2 nunca ficou clara no que diz respeito a população LGBT. Não tivemos uma música que falasse do amor entre iguais, nem um momento nos show que fortalecessem esse discurso. Até esta turnê.
Sem dúvida a iNNOCENCE + eXPERIENCE Tour tem mexido com a emoção dos fãs. O formato mais intimista, a tecnologia onde fãs de todo mundo podem acompanhar por fotos, vídeos, streaming, tem mobilizado milhares de pessoas. E essa vitrine ganhou um brilho a mais com a inclusão do discurso de igualdade de direitos para a população LGBT.
Aproveitando o movimento na Irlanda do referendo de aprovação do casamento gay, a banda enfim "saiu do armário" e se posicionou claramente. Usando "Pride", música histórica dos direitos humanos, Bono relembra que o amor está acima de tudo. E que nunca devemos perder o orgulho de ser gay.
Pode parecer algo simples para um heterossexual, mas para um fã gay, isso é muito forte. A questão do orgulho gay é complexa e muitas vezes de difícil compreensão para alguém que não é. Imagine que você passou a sua infância inteira sem entender seus gostos. Sofreu preconceito na sua casa, na escola, sempre sendo taxado como errado, feio, "podre". Imagina que você foi expulso de casa, apanhou apenas pelo fato de sentir atração por alguém do mesmo sexo.
Pois muitos viveram isso. Eu mesmo vivi isso na minha vida. Você passa por um processo de depressão e não aceitação muito forte, onde muitas vezes a morte parece ser a única saída. "They took your life".
Daí a importância de ter orgulho, de se aceitar. Lembrando de "Original of the Species", "everywhere you go, you shout it, you don't have to be shy about it." Lembro que durante o álbum "How to Dismantle an Atomic Bomb", essa música me ajudou muito no processo de aceitação, de entender que eu não era errado, não estava doente, mas sim, era um ser humano como qualquer outro, diferente como todos são.
Agora com "Pride", U2 fortalece sua pregação do amor acima de tudo. "Love is the highest law in the land! Because if God loves us, whoever we love, wherever we come from..."
E com esse posicionamento agora, milhares de pessoas podem gritar bem alto o orgulho de ser quem são.
"Free at last, they took your life, they could not take your gay pride..."
Obrigado, U2.
- Assista à performance de "Pride (In The Name Of Love)":
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