O U2 é capa da edição 351 da Q Magazine, que chegou às bancas européias ontem. A seguir você confere a tradução completa que o U2BR fez da entrevista da banda para a revista.
ONDE A MAGIA ACONTECE
No backstage, no seu santuário interior. Aqui é onde se esquece quando baixaram seu álbum – grátis – no iTunes sem perguntar, o acidente de bicicleta de Bono, toda a carga negativa dos últimos 18 meses. É o U2 em sua essência: de turnê, se envolvendo com as bandeiras de seus seguidores. Dorian Lynskey subiu à bordo do caminhão na viagem entre Boston e Nova York para descobrir onde se encontram suas cabeças.
Noite de terça-feira em Boston. O terceiro de quatro concertos do U2 no TD Garden. A canção "People Have The Power" de Patti Smith ecoa pelas caixas de som. 20.000 fãs se levantam esperando e Bono entra no recinto. A poucos passos atrás dele está a Q e a vista é avassaladora. Num instante, rostos entusiasmados e celulares ao alto girando como mariposas em volta da luz.
Sobe pelo pequeno palco com forma de "e", levanta o punho, canta o inicio de "oh-oh" de "The Miracle (of Joey Ramone)" e desfila pela passarela até juntar-se ao Edge, Adam Clayton e Larry Mullen no palco "I". A 28.ª noite da "Innocence + Experience Tour" começou. Depois, Bono conta à Q que ele escolheu a canção de Patti Smith para lhe dar coragem. "Tenho que encontrar essa parte de mim e não a tenho até que chegar no palco. Como se chama aquela pessoa que esconde pombos em suas mangas e quando eles saem fica completamente surpreso? Um mágico!", ri. "Sabe que os colocou ali, mas é incrível quando saem voando." O palco é onde o U2 se converte nas suas próprias mangas. Podem agitar em um estádio, mas cativam numa arena. Se um verdadeiro cativador pode te fazer sentir-se como a única pessoa do lugar, então Bono pode fazer Boston sentir-se a única cidade do mundo. Graças a concertos como este, a turnê "Innocence + Experience", que teve todos os ingressos esgotados, chegará até 2016, mas não há garantias.
"Sabia que o show ficaria genial", disse o diretor criativo Willie Williams no bar do backstage. "Mas para os últimos anos de U2, é como se alguém tivesse feito um vodu. Você se perguntava se eles haviam sido amaldiçoados."
Há quatro anos, o U2 conversava com a Q sobre começar de novo. Mesmo sendo a 360° a turnê de estádios que mais arrecadou em toda história (mais de 736 milhões de dólares), sofreram grandes revés. O confuso e insatisfatório "No Line on the Horizon", de 2009, a perigosa lesão nas costas de Bono que impediu a atuação em Glastonbury em 2010, uma atuação pobre quando finalmente atuaram no festival em 2011, frustrado pelo mau tempo e caos técnico, e o custoso fracasso do musical Spider-Man, para o qual Bono e Edge compuseram a trilha sonora.
"Songs of Innocence", seu melhor álbum em muitos anos, deve ter sido seu renascimento, mas foi ofuscado em Setembro passado pela estratégia de lançamento: carregado, sem aviso, em 500 milhões de iClouds. Sua primeira grande ação sem seu primeiro empresário e mentor Paul McGuinness foi um desastre de relações públicas que impulsionou os detratores do U2. Dois meses depois, Bono teve um sério acidente de bicicleta no Central Park, que precisou de cinco horas de cirurgia de emergência, atrasou a turnê e interrompeu toda a promoção. Deste modo, U2 iniciou sua turnê em Vancouver em Maio com tudo a provar.
Perguntei à Bono se ele acreditava em má sorte: "Não creio na sorte", me disse. "Passo por baixo de escadas. Tatuaria o 13 no meu traseiro sem nenhum problema. Mas acredito que o universo pode tornar-se frio e desagradável. Nunca me surpreendo quando o mundo se torna um pouco feio. Não me surpreendo quando o U2 encontra resistência."
Bono sobre a fama: "Qualquer um que se encontre no centro do palco tem um megalomaníaco em algum lugar dentro de si. Não é por acaso que eles chegam lá e a pior espécie de megalomaníacos são aqueles que não vão admitir isso. 'Oh meu Deus, como eu vim parar aqui? Para de olhar para mim. Eu não queria todo esse sucesso. Eu sou uma pessoa pura que poderia ter sido um oleiro'. Besteira."
TARDE DE TERÇA-FEIRA
O U2 se encontra fazendo a passagem de som no palco "e". Estão ensaiando "The Crystal Ballroom", uma canção extra de "Songs of Innocence". Porém não a ensaiaram o bastante. "Tocamos ela uma vez mal", disse Bono alegremente. "Parece que vamos tocá-la duas vezes mal."
O U2 já tocou 43 canções diferentes nesta turnê. As canções vêm e vão enquanto se encaixam na narrativa central da inocência (a Dublin dos anos setenta) e experiência (o mundo). Depois de considerar dois setlists completamente diferentes em noites alternadas, concordaram que fosse uma que contaria toda a história – uma história, disse Clayton, "de lealdade, constância, ou simplesmente de não se render."
O U2 é grande na lealdade. Willie Williams, o assessor da banda Gavin Friday, o engenheiro de som Joe O’Herlihy, o promotor Arthur Fogel, a estilista Sharon Blankson e o diretor de vídeo Stefaan "Smasher" Desmedt têm estado ao lado da banda entre 20 e 40 anos. Bono, a quem todos chamam de "B", precisa estar cercado de sábios e talentosos amigos, não meros empregados. "Sou de relações horizontais, não verticais", disse. "Isso é o porquê de eu estar numa banda. O porquê de eu estar casado. O porquê de não gostar que me chamassem de O Chefe."
A turnê esteve sendo desenvolvida desde o começo de 2013, mas a semente foi plantada até antes. Gavin Friday recorda de Bono dizendo na noite de abertura da 360º Tour que a turnê seguinte deveria ser mais íntima. Os locais podem ser menores desta vez – precisam tocar quatro vezes numa arena para igualar a capacidade de um concerto em estádio –, mas as idéias são enormes. Inovações de última geração, incluindo um telão gigante de LED dupla face ao lado de uma estreita passarela que atravessa o público, convertendo eficazmente toda a pista da arena num palco.
A tecnologia que permitiu a O’Herlihy colocar as caixas de som no teto em forma oval, fazendo que o som seja potente igualmente por toda a arena, nunca antes havia sido usada.
Apesar da impressionante tecnologia, cada turnê é fundamentalmente um teste do novo álbum. "Songs of Innocence", ao contrário do seu antecessor, está aguentando muito bem. "Não nos permitiam escutar 'Songs of Innocence' adequadamente devido ao hype," disse Friday durante um descanso para o cigarro. "Eu disse ao Bono que o tratamento era maior que a música, logo a única coisa que pode fazer agora é tornar a música maior que tudo."
Assim, a turnê tem sentido do passado e presente do U2. Seu futuro, sem dúvida, é mais complicado.
Bono sobre a culpa: "Eu não acho que seja possível estar estabelecido na prosperidade, enquanto tanta gente não tem acesso a ela. Como você vive com isso? Você trabalha. Você lida com os problemas e tenta resolvê-los. Suponho porque faço isso, então não me culpo se levo meus filhos em férias para o Caribe ou alguma ilha onde não há paparazzi."
MEIA-NOITE DE TERÇA-FEIRA
Uma discreta afterparty no Club Lounge do Ritz-Carlton. A cantora Amanda Palmer está comendo sushi com um amigo, a atriz Kristen Wiig falando em um canto com amigos e Mike Love dos Beach Boys falando com Mullen. Edge, o diplomático de voz suave do U2, relaxando no escuro, com um travesseiro. Seu entusiasmo pós-show é contagiante.
"No final, está tocando algo que compreende completamente", disse Edge enquanto dá um gole da cerveja. "No estúdio, com frequência toca algo que só entende a metade". Nunca antes haviam tentado a ordem do concerto da noite passada. "Não gostamos que sintam as coisas pré-programadas. Temos que reintroduzi-las ao reino do incerto. É esse pouco de rock n’ roll que é similar ao jazz e ao teatro de improviso, onde não se sabe tudo que vai acontecer." Faz uma cara de dor e ri. "Não posso acreditar que nos comparei ao jazz. A única semelhança é que há um elemento de risco."
Algumas vezes um pouco de risco em demasia. Durante a noite de abertura da turnê, Edge calculou mal o tamanho do palco e deu um passo no ar. O vídeo no Youtube do Edge caindo da "edge" (borda, beirada – em inglês) inspirou a previsível risada da rede, mas foi um momento desconcertante. Caiu apenas alguns centímetros do metal do trilho da câmera que poderia tê-lo lesionado seriamente e acabado com a turnê. "No dia seguinte parei e pensei... ufa, na verdade tive sorte. Poderia ter me feito um dano terrível."
Duas semanas depois, o U2 sofreu uma autêntica perda quando Dennis Sheehan, seu gerente de turnê desde 1982, sofreu um infarto fatal. "Nós sentimos mais falta dele como pessoa do que como gerente de turnê", disse Edge. "Não era o que fez, era o que o fazia tão único. Costumamos juntar pessoas que tenham essa idéia."
Parte do atrativo do U2 sobre o palco é a história de amor dos quatro, ainda feroz depois de 39 anos. Suas personalidades são tão fortes e distintas que é impossível imaginar a banda sem um deles. Em Nova York, no sábado, Bono dirá que o U2 é "uma banda de iguais com um público de iguais". Momentos antes de cada concerto, os quatro passam alguns minutos juntos conversando, rezando, pensando sobre o que vão fazer.
"Suponho que nos constituímos como uma banda real desde o começo", reflete Edge. "Sempre penso que os Beatles tiveram um momento duro porque havia basicamente três líderes. Cada um competia para ser o líder da banda. Nós fazemos contribuições seletas para que não se sobreponham. É a ideia de que não há vitórias individuais. É o grupo que ganha."
A brecha entre o U2 ao vivo – imediato, instintivo, temerário – e o U2 de estúdio – neurótico, lento, desconfiado – se personifica no Edge. Gavin Friday disse, "Edge passará um ano num som de guitarra onde Bono quer escrever 10 álbuns ao mesmo tempo." Mas no palco o guitarrista abraça a imprevisibilidade. Um dos momentos de destaque da turnê aconteceu em Montreal, onde Bono espontaneamente convidou dezenas de fãs pra subir no palco durante "Where The Streets Have No Name", sem pensar que a estrutura foi pensada unicamente para suportar o peso de oito pessoas.
"Quase acaba horrivelmente mal", disse Edge. "Mas foi um certo ponto mágico".
Bono sobre um conselho: "Há coisas fáceis de dizer aos artistas que estão no topo, porque eles provavelmente tomaram alguma bagagem em que não tenham notado. Eu tive algumas pessoas incríveis das quais eu aprendi muito. Sempre busquei meus heróis e lhes pedi conselhos: Bob Dylan, Bruce Springsteen, Frank Sinatra. Estou apenas repetindo o que me foi dito e obtendo o crédito."
TERÇA-FEIRA À NOITE
TD Garden. Bono convida o músico local chamado Gretchen Shae pra subir no palco "e" e tocar violão em "All I Want Is You". Clayton e Edge se aproximam atentamente para ensinar-lhe os acordes. A possibilidade de uma falta de sincronia faz com que a canção seja duplamente potente quando funciona. Bono admira artistas como Iggy Pop e o ator Mark Rylance porque "não estão cômodos com a distância entre o palco e o público. Ali é onde vivemos."
Quando Bono ajuda Shae a descer do palco depois da canção, se dá conta do slogan da sua camiseta: "STAND UP ROCK STARS" (RESISTAM ESTRELAS DO ROCK). Sorri. "Gostei da sua camiseta. Sou a favor disso."
QUARTA-FEIRA, HORA DO ALMOÇO
Quarto do Adam Clayton no Ritz-Carlton. Nos anos 90, a pressão da turnê Zoo TV converteu o extravagante animal do U2 em um viciado em auto-aversão. Vinte anos depois se reformou, é um persuasivo anúncio pela sobriedade, emanando sabedoria e calma. Sorri muito, dentro e fora do palco, como se a vida fosse uma séria de agradáveis surpresas.
O cabelo de Clayton cresceu como uma réplica prateada de sua era punk, levando a cada noite uma camiseta diferente de bandas que inspiraram o U2. Hoje toca Blondie. "Estava colocando esta camiseta hoje e pensava em como o Blondie foi grande em um momento", disse com seu amável e aristocrático ronronado. "A tiveram por um momento. A fama é uma coisa extraordinária que pousa em certas pessoas, em certos momentos e enquanto você torce para que ela pouse em você, no final do dia quanto tempo ela permaneça é algo totalmente efêmero. Tem que saber quando ela partiu."
Clayton é friamente crítico de si mesmo ("minha filosofia é que se você pode contar até quatro, pode tocar qualquer linha de baixo do U2") e aparentemente sereno. Ainda assim, o U2 agora está muito menos otimista do acordo com a Apple. "Sempre esperei que houvesse alguma resposta negativa", disse. "O que não esperava foi que as pessoas prestassem pouco interesse nas canções. Sem outra percepção na cultura do que a que éramos os tios maus que colocamos nosso álbum nos celulares das pessoas, isso nos colocou na defensiva". Mas mantém que o presente finalmente funcionou. Em seu primeiro mês, o total de 26 milhões de downloads superaram as vendas do "The Joshua Tree" até agora.
"Conseguimos um público de pessoas mais jovens que conhecem essas canções e que não conheciam as velhas. Não é o que cabia esperar."
Para continuar atraindo novos fãs depois de tanto tempo é uma façanha alinhada com a incansável missão do U2 de lançar seus braços ao redor do mundo, mas Clayton pode imaginar um tipo distinto de futuro. "Tivemos esse momento de fama e ficamos presos nessa de certa forma", disse, retomando sua teoria de Blondie. "Mas pode ser que haja um momento em que digamos que vamos viver com a fatia que temos e deixar de meter a mão em outras fatias."
Bono sobre a América: "Lembro-me de anos atrás dizendo a Noel antes do Oasis tornar-se grande. 'Isso pode ser todo o caminho. Não faça o normal que fazem os britânicos quando chegam aos Estados Unidos, que é manter os dedos para cima.' Os britânicos gostam de uma palmada. Está na cultura em algum lugar. Mas os americanos... se você dizer-lhes que são um bando de idiotas, dizem 'Ok. Estes idiotas não vão comprar teus discos.'"
QUARTA-FEIRA À NOITE
No backstage do TD Garden, com aconchegantes cortinas vermelhas e velas. Acabado de sair de sua sessão de fisioterapia pré-concerto ("para certificar-se de que eu realmente não vá desmoronar"), Larry Mullen Jr. brinca com um palito enquanto relata sua conversa com Mike Love da noite anterior.
"Ele olhou para mim como se eu tivesse duas cabeças", diz ele. 'Sério? Você realmente vai gastar todo esse dinheiro para este show? Realmente você se preocupa tanto? Por que?' É muito pressão, mas eu não posso imaginar fazendo-o se não fosse um desafio. O que move você é a vulnerabilidade."
Quatro dias antes do concerto de abertura, Mullen recebeu a notícia de que seu pai havia falecido. Ele voou para a Irlanda para o funeral na quarta-feira e estava no palco em Vancouver na quinta-feira à noite. "Eu prometi durante anos que iria enterrá-lo", diz ele. "Eu me senti tão aliviado por ter cumprido minha promessa, mas também tão aliviado por voltar ao lugar que eu sempre estive, que é a banda."
Larry Mullen é conhecido como a voz da sinceridade, da prudência do U2. Isso faz dele um otimista imprudente pelos padrões da maioria das bandas. O U2 é forçado a assumir audaciosos (e caros) riscos, mas agora ele admite que tinha a maior das precauções sobre o acordo com a Apple. "Se eu me senti desconfortável com isso? Sim, às vezes sim. Depois eu me senti especialmente desconfortável. É o que é." Mas, continua ele, "de repente, o barco sai do banco de areia. Nós flutuamos novamente. Produzimos canções que são tão boas como nós pensávamos que seriam."
Mullen faz uma careta quando considera as vezes que o U2 tem feito besteira, ainda irritado com "No Line on the Horizon" e "Pop". "Fracasso. Calculamos mal onde estávamos. Nós fazemos isso." Mesmo "Songs of Innocence" incomoda ele um pouco. "Porque nós gastamos tanto tempo com isso, já tinha passado do tempo. Nós duvidamos de nós mesmos. Duvidamos das músicas. O que ela realmente diz é que você não tem certeza de sua capacidade."
Larry tem uma solução. Ele é fascinado com a teoria, popularizada pelo livro Outliers de Malcolm Gladwell, que a grandeza requer cerca de 10.000 horas de prática. Os Beatles tiveram esse aprendizado em Hamburgo. O jovem U2 não. Então, aqui está o plano: "Quando essa turnê acabar devemos começar um novo aprendizado de como tocar canções de outras pessoas para se divertir e, em seguida, voltar a gravar um álbum com o que aprendemos. Somente como um experimento. Voltar aos clubes onde você realmente fez besteira e fazermos bem. Nós realmente precisamos voltar atrás. Benjamin Button está onde estamos. Quer dizer, poderia ser o fim da banda (risos), mas seria tão legal."
Aconteça o que acontecer, alguma coisa tem que mudar. "Nós aprendemos", diz ele com firmeza. "Nunca mais vamos passar quatro anos e meio a escrever e gravar um álbum. Esses dias acabaram."
MEIA-NOITE DE QUARTA-FEIRA
Aeroporto de New Bedford, Massachusetts. Um comboio de pessoas carregando containeres do U2 e seus membros da equipe estão a bordo de um par de jatos particulares com o logotipo da "Innocence + Experience". À bordo, bandejas de comida e bebidas cuidadosamente organizadas para um vôo de meia hora para Nova York.
Joe O'Herlihy – metade Rick Rubin e metade Papai Noel – senta e descreve a primeira vez que ele viu o U2. Foi em 1978. Foi a quinta banda no lineup de um show no colégio em Cork. "Basicamente, eles não sabiam como tocar seus instrumentos, mas foi extraordinário. Lembro-me de Bono falando com meia dúzias de pessoas e um cachorro que estavam no concerto. Ele estava convencido de que eles queriam ouvir. Isso me fez entender o que estava por vir."
Bono sobre cantar: "Quando você tem o controle de seu instrumento e seu próprio físico e está funcionando, a canção canta para ti. É espontâneo. Eu não tive muito disso na minha vida, mas eu tenho mais agora do que nunca. Esse sentimento de ser tocado como um sino é uma sensação de êxtase."
QUINTA-FEIRA, HORA DO ALMOÇO
O resort costeiro de Montauk, Long Island. O restaurante favorito de Bono está fechado, sendo assim sentamos em algumas cadeiras de praia para comer sanduíches e beber um vinho sob um céu azul claro. Sua família alugou uma casa próxima a Hamptons durante os shows do U2 no Madison Square Garden. A banda tentou isso durante a turnê do "Joshua Tree", mas foi outono, final de estação, um desastre. "Deixar 70.000 pessoas gritando e chegar a este subúrbio arenoso em silêncio", diz ele esticando seu rosto "Aaaaahhhh!"
Bono gosta de cidades, conversas e quartos cheios de ruído e pessoas. Você pode chegar perto de pop stars e presidentes, ativistas e atores, mas se não fosse famoso seria o maior personagem em seu pub local, gastando toda sua noite bebendo, conversando e contando histórias. Ele tem uma energia boba e impulsiva, incomum para um homem de 55 anos. Estou certo de que uma parte dele acredita que ele poderia negociar com a própria morte, mas o acidente obviamente chocou.
"Ali (esposa de Bono) diz 'Você pode captar a indireta?'," ele diz, acenando com a taça de vinho. "Ela me diz 'Você dirige através da vida como um tanque.' E é verdade. Edge diz que eu considero o meu corpo como uma inconveniência. Eu acho que isso tem que parar."
Enquanto estava em Boston, ele visitou o Dr. Steven Zeitels, o famoso cirurgião de garganta que operou Adele e Roger Daltrey. Bono admitiu a Zeitels que não tinha feito um check-up nos últimos 12 anos. "Ele disse, 'Não é sua vida que depende disso? Você não acha que é um pouco estranho?' Eu respondi: 'Sim, pode ser um pouco estranho.'" Ele parece uma criança castigada. "Eu vou mudar".
O primeiro susto de saúde de Bono foi no final dos anos 90, quando ele pensou que poderia ter câncer de garganta. Sem cirurgia imediata, sua lesão nas costas 2010 poderia ter danificado sua coluna para sempre. "Eu quase fiquei paralisado. Chegou perto." Seu acidente de bicicleta em novembro passado levou à múltiplas fraturas no rosto, braço, ombro e mão esquerda. Ele mostrou-me sua mão. Dois de seus dedos ainda estão paralisados e se recusam a esticar, o que significa que não pode tocar a guitarra. "Parece bom", diz ele antes de rir. "Tenho vergonha de falar sobre isso. É chato se você gosta de tocar guitarra."
O acidente mergulhou o U2 em seis meses de silêncio no pior momento possível. "Um rock star lesionado é a morte de um vendedor", diz Bono entre mordidas no sanduíche. "Foi brutal para mim. Tanto quanto a lesão. Dar às pessoas um presente de graça, é difícil não levar isso errado. Mas nós poderíamos ter explicado a intenção por trás e não o fizemos. Foi um grande erro. Então, estamos tentando varrer e o amigo que é melhor com a escova não está, por isso há meses de rédea livre para pessoas que querem urinar na nossa mão."
Bono gosta de fazer graça de si mesmo, mas ele é ferozmente protetor do U2: as pessoas, a entidade. "Songs of Innocence" é como a banda superou a afligida e furiosa vida de adolescente. "Você estava sozinho, agora você não está sozinho", ele canta em "Volcano". "Eu acho que a banda realmente é uma coisa muito especial e estamos a assumir riscos maiores do que faria qualquer pessoa com um cérebro", diz ele. "Eu acho que definitivamente somos a banda mais interessante, nos amem ou nos odeiam, e eu acho que seria uma lástima se não estivéssemos aqui, realmente."
Concorda com Adam de que o U2 poderia ser menor? Sem buscar a máxima relevância e sucessos no rádio, mas feliz em seu nicho considerável e bem mobiliados?
"Eu acho que é uma pergunta justa", ele responde. "As pessoas dizem, 'Você gosta de Neil Young e Radiohead e suas intimidades, então por que você não pode ser mais privado do que publicamente ambicioso?' E nós vamos ter que olhar para isso. Eu recebo algumas perguntas fundamentais. Temos tocado em estádios há 30 anos. Um pouco louco. É como estar no Arsenal em 1985 e continuar indo para a Liga dos Campeões até hoje. Com a mesma equipe! Mas então você recebe uma dica do universo que lhe diz que ele tem um preço", se reaviva. "Mas espere para ouvir essas músicas novas! Elas não querem ser privadas."
A única coisa boa acidente de bicicleta foi que Bono teve tempo para escrever. Ele está tão animado sobre as músicas que ofereceu à Q uma prévia delas. Ele toca as canções em seu celular e elas soam vibrantes e atraentes, especialmente "Civilisation", "Instrument Flying" e "The Little Things That Give You Away". Uma demo acústica, "Much More Better", fala sobre o acidente. Ele canta: "Eu só canto para demonstrar que estou aqui."
Ele realmente acredita que uma grande canção pode fazer qualquer coisa?
"Eu realmente acho", diz ele, deixando cair os braços como ele faz no palco, como um abraço, ou rendição. "A capacidade das músicas de separar um mau casamento ou manter um bom juntos, para parar de ser rejeitado em um pub, para te levar a aventura, para te dizer o que fazer, como se vestir, como se comportar, está tudo lá. Isso é onde a vida inteligente é."
É verdadeiramente surreal ver um homem comandando uma arena em uma noite e, em seguida, no dia seguinte, cantar canções a alguns centímetros de distância, com uma bateria imaginária. Aqui, como foi no TD Garden, a fé de Bono no U2 é inebriante. Ele abre a sua manga e pombos voam para fora.
Tradução para o português feita pela equipe do U2BR
Créditos: U2Spain, Q Magazine






