Uma banda de rock que tornou-se a face do ativismo global
Uma banda de rock que tornou-se a face do ativismo global
Uma banda de rock que tornou-se a face do ativismo global
10 de agosto de 2015
Victor Ruyz
Colunista do U2 Brasil

A legendária banda irlandesa de rock, U2, terminou triunfalmente sua passagem pela América do Norte. Críticos têm aclamado o design do palco, que aprimora a intimidade entre banda e fãs, assim como o tema da turnê – uma passagem de volta às origens do U2, em meados de 1970, em Dublin, onde a pobreza, o punk rock, e regras políticas regeram jovens como eles.

O nome da tour, "Innocence + Experience", poderia também caracterizar a evolução da banda em âmbito ativista. Observadores casuais podem ser perdoados por pensar no U2 como uma mera banda beneficente que argumenta com sua audiência, concerto após concerto, sobre suas causas sociais. Mas ao longo de décadas, o ativismo da banda cresceu mais direta e eficientemente, mostrando o caminho certo não somente para músicos e celebridades, mas também para ativistas.

Em 1976, Paul "Bono" Hewson, Dave "The Edge" Evans, Larry Mullen Jr e Adam Clayton, formaram uma banda, sem uma visão particular de mundo. Eles foram atraídos pela rebelião do punk, para ser mais exato. Mas, como devotos do cristianismo (à exceção de Adam), eles chegaram perto de largar o rock ‘n’ roll por causa de sua lugubridade. Raramente discutiam política, até o lançamento do álbum "War", em 1983.

A inocência permaneceu rondando a ingenuidade do U2 ao longo do restante de seus anos da década de 80. A caridade da banda era quase exclusivamente arrecadar consciência e algum dinheiro. Eles fizeram uma turnê com a Amnesty International, gravaram para o movimento anti-apartheid, e em Wembley Stadium fizeram uma performance que atingiu milhares - e milhões através da televisão -, durante o Live Aid. Claro, o U2 trouxera de volta o lema de "música com mensagem", ausente desde os anos 60. E sim, ocorreram bastantes conquistas, como triplicar o número de membros associados da Amnesty dos Estados Unidos, após a tour de 1986.

Mas a consciência causada resultou em melhorias para os direitos humanos? Nelson Mandela foi liberto em 1990 devido a cartas enviadas por membros da Amnesty ao governo da África do Sul? Provavelmente não. As guerras na América Central terminaram por causa que a música Bullet The Blue Sky execrou a administração de Reagan? Pouca chance. Talvez o fato mais depressivo para o U2 foi descobrir que os impressionantes 200 milhões arrecadados no Live Aid puderam cobrir as dívidas da África por um mero mês.

Depois do Live Aid, Bono e Larry discutiram seus ativismos, e o baterista recordou aos membros da banda que "na verdade nós nunca estivemos, realmente, envolvidos em uma causa". Então, nos anos 1990, o U2 apresentou um paradoxo para seus seguidores. Enquanto a banda publicamente passava trotes e incorporava um tanto de niilismo - atos que iam contra sua boa imagem -, de modo simultâneo foi diretamente para a ação do ativismo. A banda começou tomar partido em eleições, desde Bill Clinton em 1992, a Good Friday Agreement, em 1998, referenda que ajudou na paz da Irlanda.

Em 1992, Bono e os outros membros navegaram pelo Oceano Irlandês até a praia britânica para protestar contra a Sellafield Nuclear Processing Plant. Bono propôs moverem-se no interior, quebrando uma ordem direta que proibia demonstrações na propriedade de Sellafield. Alguns membros da Greenpeace disseram-lhe para ir embora, pois o que ele fazia podia arruinar o envolvimento da organização.

Um ano depois, a banda novamente esteve diretamente na ação. "Se você acredita em uma causa, você precisa estar disposto para colocar a si mesmo na linha que condiz com tal causa", explicou o baixista Adam, sobre a intenção da banda de fazer uma apresentação na capital da Bósnia, Sarajevo, que enfrentava uma guerra. Ao fim, o perigo para o grupo e seus fãs – sem mencionar a falta de poder na cidade! – provou ser um grande obstáculo.

Do mesmo modo, pouco concretos foram os resultados das ações dos anos 90. Nenhuma eleição se sucedeu com o apoio do U2. Sellafield continuou funcionando. A guerra na Bósnia permaneceu impiedosa.

Com essas experiências no bolso, Bono, apoiado moralmente pela banda, encontrou-se com o novo milênio abraçando o título de "lobista superstar". Ele objetivou a legislação em favor de diversas causas – dívidas, AIDS, acordos, África, e mais. O cantor explicou a perda da inocência envolvida com isso. "Estou cansado de sonhar. Estou decidido a agir neste momento".

A década de Bono solicitando que líderes de estado e bilionários fizessem algo gerou dividendos. Governos ricos perdoaram dez bilhões de dólares em diversos países pobres, fato que colocou 51 milhões de crianças na escola. Bilhões de Washington, para a luta contra a HIV/AIDS, ajudaram a salvar 9 milhões de vidas. O índice da extrema pobreza, Bono clamou em 2013, esteve pela metade, desde 1990. Ao contrário dos anos 80 e noventa, resultados concretos do ativismo do U2 agora pareciam inegáveis.

Muitos os negaram. Argumentam que celebridades estavam tomando a filantropia do governo, que o U2 se mudou da capital de Dublin para fugir do pagamento de impostos e, mais devastador ainda, que a ajuda deles falhou por não alcançar pobres em países em desenvolvimento. O U2 aceitou algumas críticas, rejeitou outras.

A evolução do U2 não terminou. Confirmando isso, a banda ainda canta e faz sermão às audiências sobre o sofrimento humano, que ocorre tanto em Burma, no Haiti, quanto em New Orleans. Um website mostra a banda apoiando 22 caridades e 22 causas (os números de Bono: 38 e 29).

Mas o avanço mais importante no U2 é a institucionalização do ativismo. Em 2004, Bono e 11 organizações fundaram a ONE. Esta madura e permanente organização moveu o U2 além de sua propensão para com campanhas temporárias. A liderança de ONE incluiu figuras políticas e filantrópicas, e o experiente staff de legislaturas, arrecada fundos, e produz briefs políticos sobre tópicos que vão desde a fome das crianças até transparência de corporações. ONE tem ajudado a introduzir tendências no ativismo como uma mega-filantropia e corporação social de responsabilidade. E com certeza sobreviverá além de Bono.

Ativistas e fãs podem apenas esperar que, com tanta experiência acumulada, o U2 vai sempre apoiar-se em um pouco de inocência.

Fonte:
TIME

Notícias relacionadas
SIGA O U2BR NAS REDES SOCIAIS