Resenha do U2BR: U2 derruba a “Joshua Tree” novamente e nos leva na sua jornada rumo à experiência
Resenha do U2BR: U2 derruba a “Joshua Tree” novamente e nos leva na sua jornada rumo à experiência
Resenha do U2BR: U2 derruba a “Joshua Tree” novamente e nos leva na sua jornada rumo à experiência
04 de maio de 2018
Vicky
Editora do U2 Brasil

Como poucos outros artistas no mundo o U2 chegou àquela fase da carreira na qual tem apenas um inimigo a bater: si próprio. Sim, o maior inimigo do U2 mora dentro do seu próprio armário, o que me faz jamais querer estar sentada no lugar deles ou com eles nos momentos que precisam desenhar os próximos passos a seguir, sejam eles o novo disco, álbum ou que DJ vai fazer o remix das suas músicas.

Pense como deve ter sido decidir a rota após ter literalmente tirado os fãs de órbita com a turnê de 30 anos de "The Joshua Tree"? 2017 foi um ano no qual praticamente o U2 já entrou em campo com o jogo ganho, mais de 310 milhões de dólares arrecadados, shows em estádios com palcos estratosféricos como apenas eles sabem fazer, um repertório conhecido e consagrado e ainda fechando com um novo álbum e alguns prêmios recebidos.

“O 'Achtung Baby' é o som de homens derrubando a 'The Joshua Tree' a machadadas”, Bono declarou na ocasião do lançamento do álbum em 1991. Talvez a banda em mais um ato de coragem tenha escolhido fazer isso na sua nova turnê, eXPERIENCE + iNNOCENCE, ao deixar de lado qualquer música que faça parte do álbum e que por consequência tenha sido tocada na última turnê. Sim, o U2 provou para si e para todos que é capaz de um show sem “Where The Streets Have No Name” ou “With Or Without You”. Outro ponto a ser analisado para o começo da tour foi o local da sua partida, muitos pensaram e se perguntaram, “O que diabos é Tulsa?”, mas a banda parece ter preferido um lugar de poucos holofotes, com apenas uma data para sentir onde estava pisando antes de realmente colocar seu circo na estrada. A banda não tocava na cidade desde que eram apenas garotos de 20 poucos anos em 1983.

A música escolhida para abertura da noite a ecoar pela arena antes da banda em si foi “Winter Beats”, da banda sueca I Break Horses, que se misturou a uma muralha de gelo à la Game Of Thrones exibida no telão que se pendia por entre a passarela que dividia o espaço em dois, e foi ela que também introduziu os presentes à experiência de realidade aumentada através do aplicativo lançado pela banda nas últimas semanas, que ajudou a converter essa muralha em gelo derretido e uma cachoeira que parecia se projetar pelo chão do lugar. Uma versão pré-gravada de “Love Is All We Have Left” traz o U2 ao palco e ao gigantesco Bono projetado por cima da audiência nas telas dos celulares e de seu aplicativo, aplicativo este que para muitos não funcionou conforme o esperado, já que aparentemente apenas em determinados e exatos pontos da plateia ele conseguia entregar o que prometia além de proporcionar um altíssimo consumo de bateria.

“The Blackout” segue mostrando que prova ser o seu maior triunfo desde a primeira execução, algo que aliás a banda deve ter percebido até no momento de gravar o clipe para, um verdadeiro furacão para ser tocado ao vivo, com uma linha de baixo impecável e um refrão bom para levantar o público. “Lights Of Home”, “Beautiful Day” com a mesma versão tocada na turnê de 2017 e o primeiro bem-vindo resgate da noite anunciado com um dos (pelo menos pra mim) melhores riffs de The Edge: “All Because Of You”, que não era tocada pela banda desde a Vertigo Tour, em 20 de fevereiro de 2006, em um certo estádio do Morumbi, em um certo país da América Latina.

A exemplo da iNNOCENCE + eXPERIENCE Tour é chegado o momento da jornada pela inocência vista pelos olhos de Bono e a sua Dublin dos anos 70. Um ponto que muitos fãs devem ter se frustrados a essa hora é que os vídeos utilizados no telão e a sequência das músicas são praticamente os mesmos da turnê de 2015, mas fica um lembrete: além de o segmento fazer todo o sentido dentro da narrativa que a banda se propõe a contar, a turnê foi “pequena” com muitas shows em poucas cidades, como por exemplo a verdadeira residência em Nova York com 8 shows, o que acabou deixando muitos de fora, e nem todos são hardcores como essa que vos escreve ou os que estão aí lendo, ou seja, para muitos é o primeiro contato com todo este mundo. A lindíssima “The Ocean” serve como uma ponte para “Iris (Hold Me Close)”, em uma ligação que foi no mínimo emocionante e que embalou muitos a pegar  na mão do jovem Paul Hewson enquanto ele lembrava a morte de sua mãe. “Cedarwood Road”, “Song For Someone”, “Sunday Bloodly Sunday” (infelizmente na mesma versão mais lenta e marcada que a banda tinha feito anteriormente), “Sunday Bloody Sunday”, “Raised By Wolves” e “Until The End Of The World” encerram o primeiro bloco da noite. Até o momento já com 13 canções tocadas, um bom número e o prenúncio de um show longo pela frente.

O intervalo se anuncia com um remix novo de “Hold Me, Thrill Me, Kiss Me, Kill Me”, com a participação onipresente de Gavin Friday nos vocais, como já feito nas turnês anteriores, mas um resgate e que nos faz trazer como lembrança mais fresca Bono sobrevoando a plateia pendurado na garra e no seu microfone durante a turnê 360. No telão, a chegada a experiência é mostrada com desenhos dos integrantes da banda como super-heróis, e o que faz sentido em toda a mitologia que banda parece ter criado para si, a verdadeira experiência para eles só chegou nos anos 90, quando eles tiveram que pela primeira vez confrontar a si e mostrar que não eram apenas garotos de sorte, foi a década de rir de si, de encarar – ou se esconder  nos personagens criados por Bono – a inocência estava na turnê de 2015, a jornada foi "The Joshua Tree" e porto de chegada vem agora com a experiência.

A segunda parte abre com “Elevation”, mas na versão Influx, o que não aparecia desde a Elevation Tour, mesmo com alguns erros de execução e não soando exatamente como os fãs lembravam dela, assim que bem azeitada e uma boa lufada de ar na canção que muitos fãs (me incluam nesta lista) acham que precisa de um bom descanso. The Shadow Man – ou seria agora The Showman? -  volta da The Joshua Tree Tour, agora com uma elegante cartola e “Desire” reaparece... For love or Money? Uma boa cutucada de leve na política Trump... Apesar de alguns problemas técnicos, ele volta, o nosso lindo, brilhante e favorito demônio: Mr. Macphisto, e a sua infernal, enigmática e maquiada figura aparecem no telão (com alguns problemas técnicos infelizmente) e com ele traz o momento de catarse esperando por fãs há anos: ACROBAT. Sim, não era lenda urbana, não era blefe, não era um sonho, não era delírio, ela estava entre nós e em uma versão que soou pra lá de competente pela banda (o que fez com que muitos fãs pensassem “Pô, se era tão fácil, precisava demorar tanto?”).

“You're TheBest Thing About Me”, em versão acústica segue, o que na realidade não faz o menor sentido. Na minha opinião, a música precisa ser remanejada para algum outro momento do show ou voltar para a versão full band, porque ela soou como um anticlímax em meio ao que veio e o que estava por vir, uma linda versão também acústica de “Staring At The Sun”, tocada no que antes era o palco E, mas que agora podemos chamar de “palco satélite”. Uma das belas mudanças e adaptações realizadas na estrutura da turnê são as projeções que aparecem embaixo da banda neste palco, o que mostrou por exemplo um lindo sol pelo qual a banda caminhou. Nenhuma música do "Pop" era tocada desde 2005, e foi muito bom ouvir The Edge e sua voz em dueto com Bono. O “segmento Estados Unidos” veio com “Pride (In The Name Of Love)” com nova roupagem, e a dobradinha já anunciada e testada de “Get Out Of Your Own Way” e “American Soul” que foram seguidas por trechos da Declaração da Independência dos Estados Unidos e “City Of Blinding Lights”, com a bandeira estadonudidense projetada por trás da banda e encerrando a segunda parte do show. 23 músicas até aqui.

O encore abre trazendo de volta mais uma preferida dos fãs, a linda “Who’s Gonna Ride Your Wild Horses”, que não era tocada desde o encerramento da Vertigo Tour, em Honolulu 2006 (eu poderia ficar horas enaltecendo este momento, mas vamos seguir em frente). “One”, “Love Is Bigger Than Anything In It’s Way” e em um daqueles momentos no qual um show do U2 beira a uma experiência religiosa “13 (There Is A Light)” foi acalmando a alma de todos em uma verdadeira canção de ninar para os corações balançados pelos 4 naquela noite.

Uma versão lenta de “The Miracle (Of Joe Ramone)” embala a saída. Noite um, missão cumprida.

Claro que há alguns pontos a serem revistos, e o medo e nervosismo de uma noite de estreia vêm até para gigantes como o U2, mas foi uma noite de coragem e boa performance. Claro que a turnê sofrerá ajustes, prováveis mesmo até para a sua segunda noite hoje em St. Louis, mas pelo menos soou como um prenúncio de que mesmo com a idade chegando, como os óculos de grau que Larry agora usa nos fizeram questão de lembrar, o U2 ainda acredita de algum modo que “o infinito é um grande lugar para começar” e pode fazer apostas ousadas.

+ Confira o setlist, fotos e vídeos do show

Fique conosco hoje a partir das 22 horas para a cobertura da segunda noite da turnê e sempre ligados para as novidades sobre a banda!

Créditos pela foto: Remy (U2Start)

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