Dia 29/08, Bono esteve reunido com o nigeriano Aliko Dangote – o homem mais rico da África – para estabelecer uma forma de ajuda aos mais de dois milhões de afetados com o conflito havido em território nigeriano envolvendo o grupo extremista Boko Haram. Bono visitou alguns campos de refugiados no nordeste do país e declarou que gostaria de ser útil àquelas pessoas.
Mas não é de hoje que Bono é reconhecido por sua coragem e generosidade. O vocalista do U2 tem uma habilidade incomum para convencer os que estão ao seu redor de que eles são os agentes da mudança – não ele mesmo. Essa habilidade de convencimento seria invejada e disputada em ambientes corporativos. As conclusões que apresentamos a seguir são uma compilação da análise publicada pela Revista Fortune.
A publicação cita como exemplo dessa desenvoltura os discursos que Bono fez durante a IETour, sobre a redução do número de crianças infectadas pelo vírus da AIDS. Bono apresenta durante um show dados estatísticos da ONU sobre o tema, com leveza e seriedade mas, sobretudo, transmitindo a credibilidade de um especialista em doenças infecciosas – e não como uma estrela do rock. Surpreendentemente, ele é os dois.
A estratégia de Bono para atrair atenção para uma causa, dar-lhe relevância e somar-lhe mais adeptos estaria condensada em três passos essenciais: um, divulgar os créditos a quem já tem sucesso naquela causa; dois, lembrar às pessoas o quanto elas são especiais à missão; três, sempre pedir para que façam mais. Bono, assim, construiu um histórico favorável de atuação, sendo poucas as personalidades capazes de discutir a pobreza, especialmente na África, e ainda influenciar governos e corporações para se unirem a solucionarem esses problemas.
Por falar em histórico de lutas, essa atuação mais expressiva iniciou-se com o “Jubileu 2000” – campanha de perdão das dívidas dos países mais pobres na virada do milênio. Naquela oportunidade, Bono deu vazão a outra nota incomparável de sua personalidade: sua fé e seu conhecimento do cristianismo. Os resultados foram louváveis: a campanha obteve o cancelamento de mais de $ 100 bilhões de dívida de 35 países mais pobres do Globo, de acordo com o Banco Mundial.
Em 2005 ele iniciou a ONE, um movimento de voluntários com variadas frentes de atuação – todas voltadas à redução da pobreza extrema na África. Em 2006, foi lançada a RED, cuja missão é encontrar e fomentar maneiras criativas para que as empresas contribuam financeiramente para o Fundo Global, trabalhando especialmente junto aos departamentos de marketing das empresas, a fim de alinhar as causas com o objetivo dos negócios. O CEO da Apple, Tim Cook, confessou à Revista Fortune que foi abordado pessoalmente por Bono e que ele “tem essa mistura incomum de características que combina idealismo e ação. A maioria das pessoas tem só um, mas ele tem ambos. Apostamos nele”. Não é preciso mencionar, eis aqui um exemplo notável de sucesso da parceria.
Outro entusiasta de Bono é o CEO da Coca-Cola, Muhtar Kent: “não há ninguém melhor que pode aproveitar a emoção e a alma das pessoas”. Juntando-se à RED, a Coca levantou o equivalente a 8 milhões de dólares para o Fundo Global desde 2011 e promete que levantará mais 6 milhões até o final de 2018. “Ele sonha grande e, em seguida, trabalha duro para fazer as coisas”- finaliza Muhtar Kent. Com essa maestria, Bono ainda arranca elogios e firma parcerias com a Starbucks, o chef de cozinha celebridade Mario Batali e o Bank of America.
Nesse histórico de parcerias é que se insere a visita de Bono à Nigéria em que, para apoiar a população local, ele esteve reunido não só com o homem mais rico do país, mas também com o ex-secretário de Estado britânico, Douglas Alexander e com o vice-presidente nigeriano Yemi Osinbanjo.
"Tenho que admitir que não estava preparado para ver uma criança de nove anos, noiva", disse Bono em entrevista a um jornal alemão, sobre sua visita à Nigéria. A menina estava cercada de outras meninas noivas, ele contou. "Naquele momento, sabia que tinha ficar cara-a-cara com o Boko Haram". O Boko Haram representa uma ameaça constante para as comunidades no nordeste da Nigéria. O objetivo do grupo é impor uma interpretação estrita da lei islâmica, conhecida como sharia.
"Ações, ações, ações", diz Bono. "É sobre ser útil e é isso que eu quero ser."
Ser irlandês desempenha papel importante na identidade de Bono e ajuda a explicar, pelo menos para ele mesmo, porque é tão atraído por essas atividades. Ele afirma que "a Irlanda tem uma memória viva e real da fome e da agitação do colonialismo" e ainda está curando as cicatrizes da violência, pobreza e desespero. "Eu acredito que o desenvolvimento pode funcionar na África porque ele funcionou na Irlanda". A sensibilidade e senso de história irlandesa de Bono parecem dar-lhe coragem de agir onde outros tendem desviar o olhar. Sua fé é determinante para como ele se vê: um seguidor de Cristo, especialmente na tarefa de cuidar dos pobres.






