1978/1980 - Staring at the Sun | U2 Brasil

 

1978/1980 – Staring at the Sun

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Páginas 51 a 54

Edge

Foi um processo muito lento para finalmente chegar à conclusão de que isso era o que eu realmente queria fazer da minha vida.

Talvez tenha acontecido com Adam primeiro porque, nesse ponto, ele estava sem rumo, e a música era um bote salva-vidas. Mas eu não estava naquela situação; eu tinha muitas opções. Apenas não tinha nenhum interesse real em nada mais além da música.

Estava esperando encontrar a coisa que se tornaria o trabalho da minha vida – e essa coisa me encontrou. Concordei com ela e finalmente, quando a banda começou a melhorar e nós começamos a escrever músicas, eu percebi que isso era o que eu queria fazer. Não foi porque eu sempre nutri uma ambição secreta de ser um rock star . Isso veio apenas mais tarde. Eu não queria estar em nenhuma outra banda. A princípio nós estávamos todos indo a lugar nenhum, e decidimos ir lá juntos. Então, algo muito especial começou a acontecer entre nós. Era um tipo de sentimento de irmão para irmão, uma grande lealdade mútua e a confiança de que poderíamos percorrer todo o caminho. Antes de sabermos tocar, antes de conseguirmos escrever nossas músicas, antes de podermos nos apresentar, nós acreditávamos em nós mesmos como uma banda. Se eu não tivesse tropeçado com Bono, Adam e Larry, provavelmente eu teria ido para uma faculdade, tentado conseguir um diploma em qualquer coisa e continuar uma vida daí. Eu não tenho nenhuma idéia de onde estaria sem o U2.

Larry: Eu estava surpreso com o quão longe nós tínhamos ido. Mas eu ainda não queria ficar entusiasmado com isso. Por ora, era só um pouco de diversão. Não estava pronto para abandonar tudo pela banda. As coisas em casa não eram tão simples assim; eu não podia fazer tudo que queria.

Adam: A banda era tudo para mim, eu tinha apostado todas as minhas fichas nela. Eu não tinha nenhuma outra opção.

Bono: A gente ainda estava na escola, mas na minha cabeça Mount Temple tinha se tornado uma sala de ensaios. Tenho grande carinho por ela como um lugar que ajudou a moldar a mim mesmo, aos meus amigos e à minha banda, uma sensação de orgulho de que nós éramos parte de algo em progresso.

Eu realmente acreditava que o U2 era capaz de se tornar algo extraordinário, não sei por quê. Mas se você voltar ao depósito de idéias pobres, havia sempre algumas boas por lá. Acho que o 1° conceito que tivemos sobre valores era que pessoas que vivem vidas ordinárias tinham coisas extraordinárias em suas mentes, às vezes – na maioria das vezes, na verdade. Penso em Patrick Kavanagh dizendo: ‘Ninguém precisa ser medíocre, se é ele mesmo. Deus não cria nada, além de gênios’. O rock’n’roll tinha tendência a simplificar o real, reduzindo todos os pensamentos complicados e todas as idéias de um adolescente a apenas “você quer ser rico e repousar”. Isso é o rock’n’roll. Mas todo mundo que eu conhecia era mais complicado que isso. Todos eles tinham pensamentos loucos enquanto estavam crescendo, e eles ficaram menos loucos quando cresceram. E isso é uma vergonha. Jovens lidam com grandes conceitos como a morte e a indefinição de ser um homem ou uma mulher. Eu queria escrever sobre todas essas coisas. A ironia do punk não explicava o suficiente para mim, e o poder do acorde não me dizia algo aceitável sobre o que quer que fosse que estivesse acontecendo na minha cabeça e na minha vida.

Eu estava rodeado de pessoas extraordinárias. Guggi sempre teve um jeito diferente de ver o mundo. Meu pai costumava chegar perto quando estávamos ambos desenhando; ele observava e dizia: ‘Você realmente tem talento…Guggi.’ E ele realmente tinha. Até mesmo quando criança, ele era um bom artista, um prodígio. A família dele sabia que ele era talentoso e eles queriam que tudo desse certo para ele, mas eles não sabiam o que fazer com uma criança-artista. Na nossa rua, acho que ninguém sabia. Então, Guggi e Gavin formaram o “The Virgin Prunes”, mas Guggi nunca se interessou de verdade por música. Para ele, o Prunes era um jeito de virar um artista.

Mas eu sempre soube que ele era legal. Não apenas porque ele conseguia desenhar retratos, mas porque ele via coisas que as outras pessoas não viam. Mesmo se fosse apenas dinheiro no chão – o que sempre era, a propósito. Ele tinha um olho incrível para aventuras e oportunidades. A gente costumava ir aos concursos quando estávamos na cidade, porque as pessoas que ganham ficam tão entusiasmadas que elas nunca catam todo o dinheiro; há sempre alguma coisa que fica para trás. Há o grande momento quando todas as moedas caem e parece que alguém está pulando numa piscina feita de prata. Nós sempre usávamos a nossa perspicácia pela cidade, e costumávamos descrever todas as pessoas que encontrávamos através de sons, ao invés de palavras. Eu sempre sabia o que ele queria dizer. Nós desenvolvemos esse tipo de código, um jeito de reinterpretar o mundo.

Nós seguimos um dos nossos amigos nas baladas por toda a cidade, ele era muito interessante para nós. Tinha um corte de cabelo moicano, um cobertor sobre sua cabeça e uma grande bengala. Nós nunca mais iremos ver algo assim em nossas vidas. Nós o seguimos pelas ruas até o “Project Arts Theatre”. Esse era o Mick Mulcahy, o merecidamente aclamado artista. Nós andamos pelo Project, um local onde arte e pessoas da classe média habitavam, e onde havia um homem pelado rastejando com sua barriga pelo chão. Esse era Nigel Rolfe, um artista um pouco menos conhecido! Ele espalhou um pó branco e preto no chão e rastejava sobre ele. Eu e Guggi achamos tanta graça que chegamos a chorar. Essas pessoas estavam realizando performances e no Dada – nós não sabíamos o que o Dada era. Mas como todos nós tínhamos problemas com os nossos pais, nós gostamos da sua sonoridade.

Nós conhecemos Jim Sheridan por esses tempos, um autor dramático que mais tarde viria se tornar um grande produtor cinematográfico. E Mannix Flynn, que já tinha entrado e saído várias vezes de centros de reabilitação juvenis e escrito alguns artigos muito poderosos sobre isso. Ele tinha uma grande energia, e seus olhos eram cheios de alegria e travessuras. Ele estava conversando sobre o teatro e como utilizar o espaço do palco, como mover o corpo e como fazer as pessoas acreditarem em você. Ele começou dando aulas de mímica pra mim, pro Gavin e pro Guggi. Com o U2 e o The Prunes e todas essas coisas interessantes acontecendo, realmente parecia que alguma coisa especial estava para acontecer.

Edge: O The Virgin Prunes apresentou uma oportunidade para o Dick, justamente no momento em que o The Hype se metamorfoseou no U2. O Gavin e o Guggi queriam montar uma banda juntos, porque nesse momento o U2 (menos o Bono) era sua banda suporte. Bono viu Dick como um perfeito contraste para as atitudes inovadoras do Gavin e do Guggi, eu achei essa uma idéia brilhante e então convidei o Dick e ele pareceu cautelosamente otimista. Próximo passo seria eles ensaiarem, e parecia que eles estavam juntos por anos. Eu tenho que dizer que me senti um pouco aliviado quando eles deram certo. Eu realmente não gostava da idéia de deixá-lo abandonado.

Bono: Eu sempre gostei do Dick. Eu achava que ele era inovador e extraordinário. Eu achava que ele era na realidade mais apropriado, com suas idéias experimentais, para o “Virgin Prunes”.

Adam: Então o Gavin e o Guggi montaram sua própria banda com membros do Village e os meus dias como um integrante honorário do Prune, chegara ao fim. Eu gostava do Prunes, nós todos gostávamos, mesmo achando que eles eram praticamente o oposto do U2. Mas eu não tive dificuldades com o conceito, o exibicionismo do Gavin e do Guggi e o fato que era mais sobre fazer barulho e ofender as pessoas. Eu sempre estava feliz em fazer barulho o máximo possível.

Larry: Nós gastamos as £500 do prêmio do Limerick em algumas poucas coisas. Nós fizemos nosso primeiro ensaio fotográfico. Bono, Adam e Edge fizeram uma viagem a uma loja de roupas punk irlandesas, No Romance, de propriedade das irmãs Moylett, Regine e Susan. Eles se prepararam com algumas roupas novas.

Bono: Nós tínhamos uma idéia bem clara do que nós queríamos. Eu tinha em minha cabeça um fundo branco e nós tentamos um tipo de visual do início dos anos sessenta, no estilo do Velvet Underground. E todos tinham que usar calças apertadas, porque era isso que se fazia se você fosse punk rock. Larry se recusou e foi para a sessão de fotos com uma calça boca-de-sino. Calças boca-de-sino eram o inimigo, eles eram os hippies esquecidos, então nós tentamos escondê-lo nos fundos.

Adan: Steve Averill tinha organizado a sessão de fotos com a intenção de fazer um pôster nosso. Isso era uma grande coisa para nós, ter um pôster colorido, com um grande U2 em vermelho e uma foto de todos nós. Essas coisas de status realmente significavam muito naquela época. Olhando para isso agora, nós realmente parecíamos crianças. As fotos foram tiradas por uma garota chamada Phil Sheehy e foram as nossas primeiras fotos a sair na revista Hot Press.

Edge: Hot Press era a revista irlandesa sobre música e nós todos líamos. Bill Graham era um dos escritores que todos nós realmente respeitávamos. Ele possuía um jeito muito especial de escrever, que podia ser muito impenetrável algumas vezes, mas apesar de tudo ele tinha um coração e uma alma para música, que vinha à tona muito claramente em seu trabalho. Nós éramos seus grandes fãs, e de alguma forma o Adam conseguiu persuadi-lo a nos conhecer.

Bono: O Adam era muito persuasivo. Ele tinha impresso alguns cartões escrito “Adam Clayton, empresário do U2”, e convidava as pessoas. Esse era o mundo pós-Geldof em que era permitido fazer barulho e brigar por um lugar no começo da fila. De repente, subir o Monte Everest de helicóptero era extremamente popular. Você poderia fazer essas coisas se você fosse esperto. Tinha um pouco disso na gente: quem nós poderíamos amarrar? E Bill sabia disso e nos deixou pôr o laço ao redor do seu pescoço.

Adam: Eu estava administrando a banda, visto que eu fazia ligações e tentava conseguir apresentações. Na verdade, isso significava ligar para algumas pessoas duas ou três vezes por semana, e às vezes elas se rendiam. Mas o talento natural do Bono de se conectar, de saber onde procurar por apresentações e o que fazer em seguida, qualificou-o como sendo muito eficiente na parte da liderança. Foi idéia do Bono ligar para a Hot Press e conseguir um encontro com Bill. A idéia era levá-lo para um ensaio em Mount Temple, tocar algumas músicas, e então ir para o pub local, o White Horse, e conseguir alguma informação dele. Ele realmente foi e sentou-se no meio de nós, discutindo algumas músicas. Ele tinha a mente aberta, um cara curioso. Nós éramos garotos de escola na época, sabendo nada, na verdade, e pobremente capazes de tocar nossos instrumentos. Mas ele sentou conosco no pub e deu-nos algumas pérolas de sabedoria.

Edge: O conselho mais útil de Bill foi ‘Encontrem um empresário’. Nós dissemos ‘Parece bom. Você conhece algum?’ E ele disse ‘Tem um cara. Ele está como empresário de uma banda chamada Spud, no momento. O nome dele é Paul McGuinness’. Bono disse ‘Você pode conseguir o número do telefone dele?’. E foi isso. Como resultado daquele primeiro encontro, acho que conseguimos algo na Hot Press, realmente uma menção muito pequena, que Bill colocou com uma foto. Mas era típico dele fazer isso. Ele adorava saber o que estava acontecendo nas várias garagens do subúrbio. Ele quis ir a Clontarf para encontrar um bando de crianças porque havia uma pequena chance de algo interessante estar acontecendo.

Bono: A algumas pessoas é dada a dádiva de enxergar o que está errado no presente. A poucas pessoas é dada a dádiva de perceber o que pode estar no futuro. Bill estava no segundo grupo. Ele nunca se irritava sobre onde as coisas estavam porque ele sabia o que tinha ao contornar-se uma esquina. Ele era bom nisso. É algo raro, você sabe.

Paul MacGuinness: Eu nasci num hospital do exército na Alemanha em 1951, onde meu pai estava situado com o RAF [RAF: Royal Air Force (Força Aérea Real)]. Fiquei apenas um ano lá, então mudamos para uma sucessão de outras bases do RAF. Meu pai era de Liverpool, que é conhecida como a maior cidade irlandesa fora da Irlanda. Minha mãe era professora; ela era de Kerry. Eles decidiram, eu acho, por razões culturais ou talvez até mesmo religiosas, mandar-me para um internato na Irlanda. Então em 1961, aos dez anos, eu entrei para o Clongowes Wood College, dirigido pelos jesuítas.

Achei a Irlanda um lugar muito estranho, quando fui pela primeira vez. Achava difícil entender o que as pessoas estavam dizendo. Mas fiz o melhor que pude e, quando deixei a escola, eu me via como um irlandês. Fui para o Trinity College em Dublin, para estudar psicologia e filosofia. Perdi o interesse quase imediatamente.

Era uma forma muito extrema de psicologia que estava sendo difundida na época; eles eram cheios de bons comportamentos e havia pouca discussão sobre o lado profundo da mente. Continuei com a filosofia, e apesar de ser satisfatório para os meus professores, eu não estava fazendo muita coisa. Rapidamente me tornei amigo de algumas pessoas que estavam mais interessadas em ouvir música e conhecer garotas, e fumar baseado. Era o nosso modo de vida. Eu estava envolvido em teatro com os Trinity Players, atuei um pouco (não muito bem), dirigi algumas apresentações e editei a revista da faculdade durante um período. Eu insultei Brendan Kennelly, o Junior Dean, o que realmente deixou-o bravo. Ao fim do meu 3° ano, recebi uma carta de Kennely dizendo que eu não poderia fazer os testes porque não tinha comparecido a nenhum sermão. Esse tipo de proibição era desconhecido, porque era habitual os alunos se esquivarem dos sermões, mas essa era a vingança de Kennelly, então foi o fim. Tive que deixar Trinity.

Meus pais insistiram na minha matrícula na Universidade de Southampton, perto de onde eles viviam em Bournemouth. A idéia era que eu ficasse em algum lugar onde eles pudessem ficar de olho em mim. Mas isso não me agradou e, depois de uma semana ou duas, peguei o trem para a faculdade. Tive vários empregos: trabalhei de motorista de táxi, trabalhei numa loja de livros, guia turístico em peregrinações a Lourdes. Ao fim do ano, tinha juntado dinheiro suficiente para voltar a Trinity e repetir meu terceiro ano. Estava na metade do ano quando me ofereceram o trabalho de diretor local em um filme, John Boorman’s Zardoz. Minha única qualificação era que eu conhecia o diretor de produção e ele sabia que eu queria entrar para o negócio de filmes. Tudo que o trabalho envolvia era estacionar os caminhões, esse tipo de coisa, prestar serviço em uma filmagem. Mas eu aceitei o emprego e fiz um pequeno pacto comigo mesmo que se eu ainda estivesse trabalhando com filmes quando os testes chegassem não me preocuparia em fazê-los. Relembrando aquele período, eu queria ser ou um produtor de filmes (nunca quis ser um diretor) ou o empresário de uma grande banda de rock and roll.

Eu ouvia falar de pessoas como Brian Epstein (empresário dos Beatles), Andrew Oldham (empresário dos Rolling Stones) e Albert Grossman (empresário de Bob Dylan), e achava que esse era um bom trabalho para quem é capaz de envolver uma grande parte de criatividade do tipo mais interessante – juntar-se a um pequeno grupo de pessoas e construir algo que tenha impacto cultural. Eu nunca fui um músico, nem mesmo um músico frustrado. Eu não conseguia tocar nada, um fato que era óbvio para mim. Mas eu era um fã de música. Comprava discos e lia as revistas sobre música quando podia, e como estudantes, alguns de nós tínhamos um tocador e às vezes colocáva-mos uns discos pra tocar.

Um dos meus amigos, Michael Denny, empresariava a Horslips, uma banda de rock-folk formada por caras espertos e talentosos e que todos trabalhavam em agências ou tinham algum tipo de trabalho relacionado. Eles se tornaram extremamente populares na Irlanda. Naquela época, eu era apenas um estudante e todos eles já eram mais velhos do que eu, mas eles eram todos meus amigos e eu acompanhava alguns deles. Eu percebi como eles acabaram começando um grupo e conseguindo um contrato de gravação, adquirindo vans e assistentes e começando a cruzar as fronteiras, e eu desenvolvi certo gosto por tudo isso. Então comecei a procurar bandas para empresariar. Eu experimentei um pouco; havia um compositor chamado Shaun Davey que eu empresariei para conseguir o seu single de estréia. Ele fez uma música para um comercial de televisão para o National Dairy Council. Era chamada de “The Pride of The Herd”. Nós o lançamos na CBS e o Council trouxe centenas de cópias para dar a fazendeiros e ele chegou ao número um.

Um velho amigo da Trinity, chamado Don Knos tinha um grupo de música folk bem conhecido localmente, que alegrava com o nome Spud. Eles provavelmente acharam que o que estava dando certo para o Horslips, poderia dar certo para eles, então eles me perguntaram se eu queria empresariá-los. Eles eram um grupo com cinco integrantes, com um baterista e tocavam em bares por todo o país. O Horslips tinha aberto um salão de bailes para uma banda de rock folk e então eu comecei a agendá-los com os mesmos promotores. Mas isso foi muito difícil – eu acho que é justo dizer que eles não eram carismáticos como o Horslips e eles também eram menos ambiciosos. Era muito difícil financeiramente trabalhar com eles, porque eles tinham família e precisavam do dinheiro, e então sobrava muito pouco para coisas que precisávamos como pôsters, roupas para usar nos shows e coisas assim. As suas metas eram muito pequenas.

Eles estavam acostumados a ir à Suécia algumas vezes por ano, onde a diferença nas taxas de câmbio fazia com que eles conseguissem um bom dinheiro. Eles foram esquecidos pelo selo de gravação com o qual tinham contrato, o Polydor, e então nós fizemos o nosso próprio selo chamado Break Records e gravamos alguns álbuns que a Sonet, uma companhia de gravação sueca financiou. Então eu comecei a aprender como conseguir financiamento para fazer alguma coisa mais profissional do que simplesmente ser uma banda e alugar roupas e vans e sempre estar quebrado. Eu tentei ser bem profissional, mas eles sempre tentavam acabar uns com os outros, em diferentes combinações. Dois deles, uma vez vieram falar comigo em uma manhã e disseram: “Você tem que se livrar dos outros três”. Depois, em uma permutação diferente, alguns deles poderiam voltar a tarde e dizer: “Não, não, nós não queremos nos livrar dos outros como havíamos dito antes, nós temos que nos desfazer dos outros caras”. Eles não eram muito leais uns com os outros.

Bill Graham era um amigo meu do Trinity. Ele sempre parecia ter uma grande idéia sobre música e sempre tinha alguns álbuns muito interessantes debaixo do braço. Nós até escutávamos músicas juntos algumas vezes, e assim à medida que o tempo ia passando, eu ia empresariando o Spuds e ele trabalhando para a Hot Press, e algumas vezes nós saíamos juntos para alguns clubes noturnos e sonhávamos com a idéia de levar uma banda irlandesa ao topo. O Horslips já tinha demonstrado que eles poderiam deixar sua marca além dos limites de Dublin. Eles tiveram um grande número de contratos de gravação com a Atlantic, RCA, Mercury. É verdade que eles frequentemente eram abandonados, mas eles fizeram dez álbuns e tinham quatro ou cinco contratos de gravação. Mas eles sempre tiveram seu próprio selo na Irlanda. Eles fizeram um bom dinheiro aqui e usaram pra investir seus lucros em turnês mal sucedidas pela Alemanha ou Grã-Bretanha ou até mesmo na América, onde eles poderiam tentar e ganhar algum tipo de apoio.

Bill e eu conversávamos sobre essa idéia de uma ´banda nova´. O que isso realmente significava era começar do zero, não com pessoas que já tinham participado de várias outras bandas e estavam cansadas. Juventude era importante. Eu acho que não há muito que se tentar se você já tem vinte e sete, vinte e oito anos. Parecia para mim que uma banda nova e ambiciosa poderia usar Dublin como uma base para tomar conta do mundo, de preferência do jeito que o Horslips tinha tentado, mas fracassado. Então eu comecei a procurar por todos os lugares por bandas. Fui convidado para empresariar algumas, mas recusei todas. Eu era um técnico de filmagens freelance, o que era razoavelmente bem pago, quando tinha trabalho, e eu achava que tinha feito muito pouco dinheiro com a minha empreitada no mundo da música. Nessa época eu estava casado com Kathy Gilfillan, que eu conheci na faculdade. Minha esposa me apoiava na maioria das vezes, mas minhas necessidades eram modestas. Eu dirigia um velho carro (banger) e vivíamos em um apartamento com dois quartos na Ballsbridge.

Eu acho que o Bill mencionou o U2 em março de 1978. As lembranças que eu tenho, são eles perseguindo o Bill indo a um dos ensaios e tocar algumas músicas, aí o Bill disse: “Mas essas são músicas do Ramones!”. Eles ficaram embaraçados por ele saber que a música era dos Ramones e não deles, mas eles tinham uma ou duas músicas de sua autoria e o Bill deve ter visto alguma coisa neles. Ele falou que eles precisavam de um empresário e que deveria ser eu. Eu comecei a receber ligações telefônicas do Adam. Eventualmente, após algumas oportunidades perdidas, ele veio me ver com uma fita demo, que devia ter sido acabada de ser gravada em um ensaio. Eu nem mesmo tinha um tocador de fitas e então tocamos a fita cassete na máquina da minha secretária eletrônica. Eu era bem ingênuo sobre música, então eu não podia dizer o quanto ruim era aquilo. Ouvi aquilo diversas vezes, realmente era bem grosseiro, mas devia ter alguma coisa, porque eu concordei em ir e vê-los.

Adam: Eu acho que nós o encontramos na porta do Projects Art Centre. Ele era uns dez anos mais velho que nós, então ele deveria ter uns vinte e sete. É uma grande diferença de idade se você tem dezessete. Ele me cumprimentou como uma pessoa mais velha, mas definitivamente bem legal, vestido com uma jaqueta de couro e jeans. Ele tinha uma certa autoridade.

Paul: Eles estavam abrindo no Project para uma banda chamada Glamblers, que era empresariada pela minha irmã mais nova. O U2 era a banda de suporte e era claramente melhor. Eles estavam fazendo mal, o que eles sabem agora fazer de melhor. Bono era muito pouco comum, ele estava na frente do palco tentando seduzir o público, fazer com que eles olhassem nos seus olhos. A maioria dos outros cantores nessa época olhava para qualquer outro lugar, menos pra platéia. O Edge estava tocando um tipo de guitarra metálica, mas eram mais notas do que acordes e você podia até imaginar o que ele estava tentando fazer, mesmo que ele não estivesse se dando cem por cento. O Adam parecia como se soubesse exatamente o que estava fazendo. Eu realmente não estava olhando para isso do ponto de vista musical – eu apenas achava que ele tinha tudo para ser um bom baixista. O Larry tocava bateria com toda a força e todos ocupavam os mesmos lugares que ainda hoje ocupam no palco Os conheci depois de um concerto e os levei ao Granary Bar ali perto, ofereci umas bebidas, que, como é obvio, não podiam consumir, pois eram muito novos.

Edge: Na Irlanda, ainda havia a lembrança dos dias do “domínio britânico”, que se revelava de formas estranhas. Se alguém tivesse um sotaque inglês como o do Paul, as pessoas reparavam logo e faziam caso. Era algo inconsciente, mas eu testemunhei isso inúmeras vezes. Na verdade, tipos valentes, alguns dos quais conviviam com a gente, tinham medo do Paul. O primeiro trabalho dele para o U2 foi conseguir que nos servissem bebidas no Granary Bar, coisa que era extremamente difícil. Já tínhamos sidos colocados na rua várias vezes, mas ele conseguiu que trouxessem bebida para todos. E nós pensamos logo que, se ele tinha sido capaz de fazer isso, então talvez fosse a pessoa indicada para nos representar.

*Página 50 é a foto trazendo o título “Staring at the Sun”