1984/1985 - In the NAME of LOVE | U2 Brasil

 

1984/1985 – In the NAME of LOVE

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Páginas 156 a 165

Bono: Aquela turnê foi o princípio de uma relação amorosa com a Austrália e com a Nova Zelândia. Fizemos um vôo de quase 24 horas até Auckland. Cheguei ao hotel, deitei na cama e às duas da manhã já estava outra vez acordado. Desci para o saguão e vi umas pessoas sentadas no bar que pareciam interessantes. Sentei perto delas e me apresentei. Reconheceram-me como sendo do U2. Disse que não conhecia ninguém em Auckland e então eles me levaram para dar uma volta. Passeamos durante a noite inteira, me levaram ao cume de um lugar chamado One Tree Hill, onde existia uma única árvore no cume de uma montanha, como uma sóbria pintura japonesa. Observamos aquela cidade que era coberta por crateras de vulcões. Tenho essa memória muito viva e creio que é porque me fez reconhecer a minha liberdade. Gostei de estar sozinho. Gostei de estar longe de casa naquele momento e de certa forma também gostei de estar longe da banda.

Ninguém sabia que eu tinha saído do hotel. Sentia que tudo podia acontecer. Toda minha vida fiz isso – desaparecia durante alguns dias e estava com outras pessoas, e elas deixavam. Me levavam às suas casas e me convidavam para comer. Conheci muitas pessoas especiais dessa forma. No dia seguinte fomos para o show e reparei em um rapaz muito prestativo que andava sempre correndo de um lado para o outro, um Maori admirável. Ágil, ativo, atento e com um brilho inteligente nos olhos. Chamava-se Greg Caroll e estava ali na qualidade de responsável pelo palco. Ficamos grandes amigos. Começou a andar com a gente e ficou como assistente da banda. Dava-se muito bem com a Ali. Costumava sair com ela quando nós não estávamos. Era um verdadeiro cavalheiro. Levava as garotas para dançar e tomava realmente conta delas, as estragava com mimos e todas gostavam muito dele, incluindo a Katy, a irmã do Paul McGuiness, que se tornou muito especial para o Greg. Quando ele morreu, alguns anos depois pensei na noite em que o conheci e na nossa jornada. Aquela foi uma relação amorosa com a Nova Zelândia, com o povo Maori, com o Greg e com a Austrália. Adoro estar em turnês, andar na estrada. Agora, me custa muito abandonar a família e os amigos, mas eu sou um viajante nato.

Paul: Foram tempos interessantes. A banda tinha que resolver o problema de recriar ao vivo a abrangente perceptiva sônica do Eno. Lembro de uma vez ter entrado no estúdio durante a gravação de The Unforgettable Fire e falar: “Isso quer dizer que vamos ter um tecladista e uma parte de saxofone?” Estava claro que ninguém queria que isso levasse à expansão da banda.

Adam: Já tínhamos marcado a data da turnê e pensamos em começar pela Austrália. Assim quando chegássemos a Europa e à América já teríamos a turnê bem rodada. Mas foi um desastre, o material não funcionou, por isso, antes dos shows na Europa tivemos alguns ensaios de emergência.

Edge: Foi aí que descobri os seqüenciadores. Eu programava partes das teclas e deixava seguir a sua ordem. Depois tocava guitarra por cima. Colocamos um metrônomo à parte do seqüenciador para o Larry, e de repente tínhamos um tecladista numa pequena caixa preta. Mágica!

Bono: Conhecei o Mick Jones há pouco tempo e ele me falou da primeira vez que sua banda, os Big Áudio Dynamite, tocou com o U2 naquela turnê. Fizeram a abertura do nosso show em Nantes, na França, e ele viu nosso ensaio de som e disse: “Nunca vi uma banda tocar tão repetidamente e sem parar a mesma música. O que esta acontecendo?” Era a ‘Bad’. Era muito difícil, quase uma colisão impossível de culturas para nós. Era uma composição diferente, como o Philip Grass com Astral Weeks e o Van Morrison com a eletrônica alemã. Há seqüências rígidas e metronômicas, depois há uma linha de baixo que esta constantemente improvisando, assim como a linha de voz. Nos esforçamos muito para encontrar essa música. O Larry detestava metrônomos, pois achava que interferiam com o lado espontâneo da banda. Agora detesta tocar sem um. Um dos meus singles preferidos era ‘I Feel Love’, da Donna Summer com o Georgio Moroder. O que me espantava era que a voz dela tinha um som mais emotivo sobre a eletrônica do que acompanhada por uma banda ao vivo. Achei muito interessante. A voz humana funciona por contraste. Torna-se mais humana em comparação com a eletrônica. Eu achava que o Kraftwerk era o melhor grupo de soul da Europa. Não tinham grandes vozes, mas conseguia me comover, eu reagia com emoção à música deles. Estávamos iniciando uma relação amorosa com a música eletrônica, que eu julgo ter atingido seu auge com ‘Pop’.

Adam: ‘Pride’ era o nosso maior êxito até aquele momento e o álbum tinha sido muito bem revisado. Tínhamos apresentações em arenas na América, com 15 ou 20 mil pessoas, sendo que na Europa ainda não tínhamos chegado a tanto. No início dessa turnê tocamos muito em tendas na Europa, que eram espaços temporários, onde cabiam umas 8 mil pessoas. Eram horríveis. Havia muita condensação no interior, o que afetava o equipamento, e nós estávamos começando a usar seqüenciadores e computadores, tocando com metrônomos e tentando trabalhar com essas novas estruturas. Essa abordagem era mais importante agora do que em qualquer outro momento, mas dava sempre algo errado. O inicio da turnê foi complicado.

Bono: Nessa época, estava trabalhando com a gente um cara chamado Ian Flooks. Era o nosso agente, mas era muito mais importante do que isso. Um excelente guia, tanto no Reino Unido como na Europa, sabia onde devíamos nos apresentar e com quem apresentar. Era um dos melhores amigos do Paul McGuinness. Eram cúmplices no que se dizia respeito à comida e bebida. Lembro que em uma das turnês pensei: “Por que motivo nos apresentamos três noites em Lyon e apenas uma em Marselha?” Afinal, era porque em Lyons havia um restaurante excelente e em Marselha não. Uma das facetas mais bizarra dessa banda é que sempre comemorávamos os sucessos que tivemos, indo a restaurantes e abrindo algumas garrafas de vinho. Se o Paul McGuinness e o Ian estivessem, o vinho era sempre o mais caro e eles começavam com longas dissertações, falavam do paladar e aroma do vinho. Entretanto aconteceu uma coisa estranha. Começamos a perceber que o vinho não tinha o mesmo sabor quando era oferecido a nós por qualquer outra pessoa. Na verdade, tornou-se difícil beber um vinho ruim, de má qualidade, e compreendemos finalmente que este pretensiosismo, talvez, não seja completamente sem propósito.

Paul: Fazer shows em lugares melhores e para mais pessoas, ficar hospedado em um hotel de luxo, ir talvez a um restaurante requintado, tudo isso fazia parte do prazer de uma turnê. Ao longo da carreira da banda, fui quase sempre a todos os shows deles. Às vezes voltava à base, por assim dizer, ir a New York tratar de algum assunto, mas no geral, íamos sempre juntos para todos os lugares. Parecia absurdo ser o agente do U2 e não ver os shows deles. Não encarava isso como um fardo, mas sim como um privilégio. Fazia as minhas próprias críticas dos shows e participava das reuniões que tínhamos todas as noites. Pode parecer algo calvinista, mas devo dizer que é isso que os mantêm perspicazes.

Edge: As turnês pouco mudaram. Há pequenas coisas que podem melhorar a experiência, como ter um quarto para cada um em um hotel, um ônibus de turnê melhor e talvez até uma limusine para nos levar ao aeroporto. Mas o fundamental são os shows. Tentar chegar ao local e fazer uma apresentação que faça jus ao material e crie um acontecimento muito especial. É realmente tudo isso que nos faz ir a turnês, pois não conseguimos explorar todas as mudanças como banda, não está nas nossas mãos. Eu diria que isso se aplica sobretudo ao Bono, mas também a toda a equipe de uma forma geral. Ou porque não podemos nos dar ao luxo de não nos empenharmos, pois seria obvio, ou apenas porque a banda só consegue funcionar quando existe empenho total. Não sei. Mas seja qual for o motivo, há sempre uma noção de perigo nos nossos shows – no bom sentido, e em certa medida, no mau sentido. É algo intenso, mas que nós adoramos, pois quando é perfeito, consegue ser realmente perfeito. Para mim a maior mudança foi criar uma família, pois ninguém fazia idéia do que isso implicava, nem os nossos responsáveis de turnê. Muitas vezes foi muito frustrante reparar que reservavam os hotéis sem ter consideração que tínhamos um bebê e uma babá, e que por isso precisávamos estar em quartos próximos. Coisas pequenas, mas que serviam para que todos aprendessem, inclusive eu. Deixei de ser apenas um dos membros, passei também a ser pai e tentar manter a minha família sem perder a ligação com o grupo. Foi complicado tentar conciliar tudo.

Bono: Estávamos em alguma parte da Alemanha e Bob Geldof me telefonou. A princípio fiquei sem saber o que pensar daquele telefonema, pois o Bob era irlandês e nós o admirávamos muito, mas eu só me lembrava das discussões que tínhamos por ele achar que o rock ‘n’ roll devia manter-se afastado da política e da demagogia e ser atrativo, divertido e picante. Os Boomtown Rats estavam muito longe dos Clash. Por isso foi estranho receber um telefonema do Geldof para falar sobre a África. Mas ele falou tão bem, de uma forma incomparável, que quando desliguei o telefone, pensei: “Como vou conseguir que a banda concorde com isso?” Eles sabiam que a tragédia da Etiópia precisava de uma resposta, mas conheciam o plano de trabalho e sabiam que ia ser muito difícil. Por isso eu concordei e a banda não. O Edge não podia, tinha família, o Larry tinha coisas para fazer e o Adam disse: “Está bem. Eu te dou uma ajuda.”

Adam: Fomos para o Basing Street Studios, na parte ocidental de Londres. Quando chegamos, percebemos que a tenda de comunicação social estava montada: jornais, câmeras de televisão e fotógrafos. Estavam todas as pessoas lá sendo empurradas por aquele mundo de estrelas pop londrinas, era esmagador. Eu me senti um intruso. Todas aquelas pessoas pareciam conhecer umas as outras e sentiam-se à vontade naquela situação bizarra. Eu não sabia o que fazer e nem para onde ir. Lembro-me de ouvir o George Michael conversando com o Boy George e lhe dizer que passava a vida toda perdendo os cartões de crédito e que isso era maçante. Eu não sabia o que estava acontecendo. Sentia sempre um pouco intimidado pelo Geldof, pois ele era grande, rude e de Dublin, por isso, tentei passar despercebido. Eu tinha consciência que estava ali para acompanhar o Bono e para contribuir de todas as formas possíveis. O Bono, que tinha sido convidado para cantar e eu sabia que ele não queria ir sozinho a uma coisa daquelas.

Bono: Fiquei pouco à vontade, estava muito inseguro. Aquela era a nata londrina do pop na era dos maus penteados. Parecia um congresso de cabelereiros. E nós éramos uma banda irlandesa de rock que tinha conquistado a América. As pessoas nem sabiam o que pensar de nós, limitavam-se a nos olhar como quem diz: “Vocês nem se quer parecem estrelas de pop.” Era o que parecia. Diga-se de passagem, ninguém também se esforçou para me fazer sentir melhor, exceto uma pessoa: Simon Lê Bom. Ele percebeu que eu me sentia deslocado e veio conversar comigo: “Quer beber alguma coisa? Você está bem?” Nessa fase o Duran Duran era super estrela do pop, e eu achei que ele era engraçado e divertido. É que eu era tudo, menos divertido. Depois, li a letra de ‘Do They Know it’s Christmas’ e achei que era uma letra boa, mas me recusei a cantar o verso que dizia: Tonight thank God it’s them instead of you. É um verso mordaz e revela que no fundo, todos somos egoístas. Acho que o Bob estava tentando ser honesto, autêntico e auto-acusador. Em vez de cantar: We’re lucky it’s not us dizia: Well, when you say that, you mean lucky it’s them. Now look at it. Now look at yourself. Então fui falar com Bob e ele me disse: “Quero que cante esta frase aqui.” Eu retorqui: “Não me diga que é aquele verso?” Ele disse: “É esse mesmo.” “Não posso cantar Bob.” “Não pode cantar esse verso? Por que?”. Disse que eu não queria cantar aquilo e ele disse: “Não se trata do que você quer, entende? O importante é o que estas pessoas precisam.” Eu era muito novo para dizer: “O importante é o que você quer, não é?”. Mas era o show dele e eu me sentia feliz por participar. Sabia que aquele verso precisava de força. Fiz uma espécie de imitação do Bruce Springsteen, foi o que me veio na cabeça.

Adam: Não sou cantor. Mas cantava no refrão. Há uma fotografia de todos no estúdio cantando o refrão e foi bom particularmente. A música alcançou o primeiro lugar. Foi uma época incrível. Talvez tenha sido uma reação aos anos em que Tatcher governou, quando se sabia que um governo conservador não iria provavelmente se interessar pelos problemas africanos – não sei. Mas parecia que quando Geldof apareceu, o poder daquela geração, conseguia realmente fazer alguma coisa. Talvez sentíssemos que éramos capazes de resolver os problemas mundiais – hoje em dia acho que já não acontece a mesma coisa. É interessante que, no trabalho do Bono, ele é capaz de alcançar mais introduzindo no mundo político do que incentivando as pessoas a fazerem marchas e protestos pelas ruas, o que não parece ter dado muito resultado nos últimos anos.

Paul: Fomos para a América onde conseguimos pela primeira vez, e por próprio mérito nos apresentar em arenas. Foi a primeira vez que tivemos um avião, o que foi muito divertido. Era um velho Vickers Voscount. Mesmo em 1984 já devia ser muito antigo. Costumávamos viajar muito devagar pela América naquele avião chiadeiro, espiando por aquelas janelas enormes.

Edge: Fomos capa da Rolling Stone como a “Banda dos Anos 80”. Foi bastante importante para nós.

Bono: A Rolling Stone teve um grande impacto nas nossas vidas, tanto os jornalistas como a própria cultura da revista. Levavam a música muito a sério. Confirmavam tudo, discursos e fatos. Não estávamos acostumados que alguém confirmasse as nossas citações, estávamos acostumados que as inventassem. A Hot Press, na Irlanda, também tinha costume de levar a música muito a sério. A revista era seguida por idealismo e por uma espécie de mentalidade guerrilheira, tipo “vamos tentar manter à tona, custe o que custar”, nós adorávamos. E o meu afeto pela Hot Press passou para a Rolling Stone. Por isso, sermos a capa da revista teve um grande significado para nós, mas lembro que não gostei muito da foto. Chegamos a sessão fotográfica e estavam cerca de 30 pessoas. Nós estávamos acostumados com o Anton, que nem sequer tem um assistente. Aquilo parecia um cenário de filme, estávamos nos anos 80 e o dinheiro era para esbanjar. Sentíamos lisonjeados por a Rolling Stone estar gastando todo aquele dinheiro conosco, mas a idéia para a sessão fotográfica foi uma droga. Estilo anos 70, Led Zeppelin, Houses of the Holy, e nós não queríamos fazer parte disso. Tínhamos idéias diferentes sobre o aspecto que devíamos ter e sentimos um pouco pressionados com a escala daquela operação. Acho que reclamei e sou capaz de ter insultado algumas pessoas. Não acho que a capa tenha ficado boa.

Edge: Mas não deixava de ser a capa da Rolling Stone e cavalo dado não se olha os dentes.

Bono: O U2 teve realmente duas fases desagradáveis. Uma delas foi a turnê October, em que meu cabelo era parecido com uma “doninha”. Parecia mesmo um texugo. Foram as primeiras experiências com água oxigenada e que não deram certo. Estávamos tão ocupados discutindo se queríamos mesmo ser uma banda ou não, que nem nos preocupamos muito com a nossa aparência. A segunda foi o período do Unforgettable Fire. Foi uma fase em que eu teimava a andar com botas militares que iam até o joelho. Não se deve chamar a atenção para as nossas pernas quando não a temos. E nem vale à pena falar do cabelo, toda a minha vida tinha sido ruim nesse aspecto. Uma pessoa nunca deve andar como se tivesse passado o cabelo a ferro. Vejo as fotos dessa época e acho que pareço o príncipe Mullet. A única coisa que impediu esse penteado de entrar para a história do pop foi um chapéu feito para homens mais altos. Ainda tem pessoas que não conseguem gostar de nós por causa daquele penteado.

Edge: Ao ver as fotos antigas, acho que realmente não contribuímos em nada. A falta de estilo é surpreendente.

Adam: Estávamos tentando ter um ar mais descontraído e não andarmos sempre de colarinho apertado e com um aspecto militar. Era mais do estilo europeu do leste, algo desse gênero – refugiados chiques.

Bono: Fizemos um show pela primeira vez no Madison Square Garden, em New York, e sentimos que foi uma espécie de marco. Ouvíamos falar do Led Zeppelin e do The Who apresentando lá. Nos sentimos em casa pela primeira vez que nos apresentamos lá e continuamos nos sentindo. É o lugar mais caro para fazer show, mas não há mais nenhum lugar assim.

Edge: A primeira apresentação no Garden foi algo especial. Todos os grandes nomes da música se apresentam lá, por isso, se apresentássemos lá e não fôssemos como a Barbra Streisand, o pessoal logo começa: “Mas quem é que são vocês?” Por essa razão era bastante assustador, mas ao mesmo tempo uma sensação fantástica nos apresentar naquele que deve ter sido um dos grandes espetáculos de rock ‘n’roll, certamente em termos da sua história. Lembro de assistirmos os Stones lá em 1981, mas o som estava péssimo. Não sei se era por causa da localização dos nossos lugares, mas não dava para distinguir nada. Quase que desistimos de tocar lá. Tínhamos acabado de chegar de Dublin e estávamos sentindo a diferença do fuso horário, e o Bono dormiu no meio do show deles. Ele estava sentado ao meu lado e uns 20 minutos depois eles começaram a tocar ‘Jumpin Jack Flash’. Dei uma cotovelada nele para acordar. Ele acordou ouviu cerca de 1 minuto a música. Depois olhou para mim e disse: “Já tocaram Jumpin Jack Flash”?

Bono: Passei momentos fantásticos com meu velho nessa turnê. O levei para os Estados Unidos para ver nosso show. Era a primeira vez que ele estava na América. Fui buscá-lo no aeroporto de limusine, mas ele se recusou a entrar, por isso, tivemos que pegar um táxi. Era em Atlanta e durante o ensaio do show pedi aos caras das luzes para o iluminar com um grande holofote quando eu falasse. Eu disse: “Quero apresentar uma pessoa. É a primeira vez que vem à América”. Gritos! “Este é o homem que deu a minha voz, Bob Hewson!” mais gritos ainda. A luz acendeu-se e 12 mil sulistas começaram gritar. Ele levantou, colocou o braço no ar e murmurou alguma coisa terminada em lixar.

Depois do espetáculo todos costumavam me deixar um minuto sozinho para me acalmar. Mas dessa vez ouvi passos atrás de mim, olhei e vi meu pai com os olhos cheios de lágrimas e pensei: “É agora! Chegou o momento! Finalmente ele vai me dizer qualquer coisa!” Toda minha vida esperei por aquele momento! O meu pai ia dizer que gostava de mim. Aproximou-se, estendeu-me a mão um pouco tremula, já tinha bebido um pouco, olhou-me nos olhos e disse: “Filho…. você é um grande profissional!”

Há em Atlanta uma banda da qual o U2 se tornou muito amigo, os REM. Naquele tempo eles eram o máximo e mais conhecidos do que nós no Reino Unido pelos seus álbuns. Nessa turnê, tentamos ir vê-los em Los Angeles. Havia um cara chamado Charlie McNally, um promotor alto, magro e de Dublin, que em tempo se encarregou do U2. O Charlie tinha saído da Irlanda com uma espécie de nuvem negra sobre ele e disse que não voltaria enquanto não ganhasse o seu primeiro milhão. Assim, alguns observadores mais duros disseram: “Parece que tão cedo não vamos tornar a vê-lo.” De um momento para o outro, gerenciava um negócio de limusines na América e o Paul McGuinness estava ansioso para usá-las, pois ele tinha sido muito bom com a gente.

Ele estava então nos levando para o show do REM e aconteceu uma coisa inacreditável no caminho. A razão pela qual só muito, mas mesmo muito mais tarde é que vi os REM… ficamos sem gasolina. Tivemos que sair da limusine e empurrá-la. Empurramos durante bastante tempo só para poder tirá-la da estrada. Foi um momento fantástico. Há sempre alguma coisa que nos faz lembrar da nossa terra.

Acabamos vendo os REM quando o Ian Flooks organizou o fabuloso show The Longest Day Concert, em Milton Keynes, na Inglaterra. Era um festival que seria o nosso show e com algumas das melhores bandas de sempre reunidas num único dia. U2, REM e Ramones. A banda que nos transformou em uma banda – e era nossa convidada. Como é que isso aconteceu? Talvez Deus não exista. Lembro de ir ao camarim e de ver um cara baixinho, de aparência estranha com o cabelo cheio de trancinhas escrevendo em um pedaço de papel. Parecia o Lucky de ‘A espera de Godot’, com uma expressão impressionante, tragicômica. Aproximei dele com timidez e o cumprimentei. Ele tinha uma bonita e harmoniosa voz fanhosa, com sotaque do sul e modos perfeitos. Foi nesse momento que conheci Michael Stipe. Ele estava lendo alguma coisa e eu também (não lembro o quê), mas foi um momento tipo “o meu é mais interessante do que o seu” e houve aquela dança de dois contemporâneos em torno um do outro. E assim começou uma relação que é das mais importantes da minha vida. A amizade de Michael Stipe significa mais do que eu posso dizer. Ele é das pessoas mais coerentes que se possa ter como amigo. Eu me considero muito leal, mas inconstante. Ele é muito leal. Foi um grande dia, o anfiteatro Milton Keynes Bowl, 50 mil pessoas espalhadas ao longo da encosta. Sempre adorei aquele show. Não gosto de apresentar em locais planos, porque as pessoas que ficam no fundo não conseguem ver.

Adam: Depois, voltamos à Irlanda para fazer uma apresentação pela primeira vez no Croke Park, em Dublin, um grande show ao ar livre, com 57 mil pessoas. Foi um momento muito especial. Foi uma daquelas celebrações de espírito irlandês com muita gente bêbada, pessoas vomitando e esses tipos de coisas. Fazer show em casa é muitas vezes, desesperador, mas aquele dia correu tudo maravilhosamente, foi um bom show. Os meus pais estavam presentes, as coisas tinham melhorado entre nós. Seria exagerado dizer que me apoiavam, mas estavam na multidão, tinham noção do que estava acontecendo e podiam ver e sentir. Já não era tão importante provar a eles alguma coisa.

Edge: Aquele foi provavelmente o ponto alto da turnê, pois tínhamos sido um sucesso. A nossa banda já não era mais uma banda mais ou menos. Estava no topo das listas e tinha conquistado a América e o mundo, e regressava agora para atuar em sua terra natal, no centro da cidade. Havia um estádio inteiro aos pulos ao som de Pride. Foi um show com um impacto enorme. Foi incrível!

Paul: O Live Aid foi no final da turnê The Unforgettable Fire. O Geldof telefonou e falou: “Eu sei que disse que não ia haver o concerto, mas agora vai”. E eu disse “Fale a hora e o local, Bob, e nós estaremos lá”. Acabou sendo um dia muito especial para o U2.

Larry: Eu estava nervoso, era um show muito importante. Todas as bandas queriam participar, devido à exposição que iam ter. Fala-se da enorme cobertura da televisão que ia ter e tudo mais. Eu sei que estávamos lá pelas razões certas.

Adam: O Live Aid foi absolutamente assustador, mas ao mesmo tempo muito excitante. Assustador porque cada grupo só tinha 15 minutos, e tudo tinha que dar certo, não havia ensaios de qualquer ordem. O ambiente estava um pouco descontrolado. Havia imensas câmeras e muita gente na área dos bastidores. Estávamos constantemente expostos e vulneráveis. A apresentação era de dia, o que não era o melhor dos cenários, mas naquele palco éramos apenas mais um grupo e só tínhamos 15 minutos para mostrar o que valíamos. Estávamos rodeados de enormes talentos e não queríamos passar despercebidos.

Edge: Era fantástico ver aquele ambiente. Estava lá todo mundo. Antes da apresentação vimos o Mohammed Ali sendo fotografado pelo David Bailey. Eram nomes de pessoas influentes.

Bono: Lembro de estar junto ao Pete Townshen antes da apresentação do The Who e perguntar: “Não fica nervoso antes de entrar no palco?” Ele me olhou de cima para baixo e disse: “Nervoso? Nervoso por tocar ao vivo, em frente ao público? Ficarei nervoso quando me encontrar com Deus. Mas ficar nervoso por estar na sua frente ou daquelas pessoas? Nunca.” Caramba! É por isso que nunca deixarei de ser um aprendiz. Estamos sempre aprendendo. As pessoas foram bondosas comigo. Eu estava andando com a Ali e o Freddy Mercury me puxou para o lado e disse: “Oh, Bo-No….é Bo-NO ou Bon-O?” Eu disse: “É Bon-O. E ele disse: “ Vem aqui comigo. Estive conversando com o Roger, o Peter e o David e chegamos à conclusão que hoje já não há mais cantores, hoje em dia todos gritam, mas você é um cantor”. Eu estava encostado na parede e ele tinha a mão apoiada na parede e conversava comigo como se estivesse cantando uma garota. Me fez rir, mas eu estava muito nervoso e ia trocando olhares com a Ali. Pensei: “Epa, esse cara é mesmo exagerado”. Mais tarde, comentei o acontecido com alguém e me falaram: “E está espantado com o que?” Eles o chamam de Queen!” Mas eu estava admiradíssimo. Não tinha percebido. O David Bowie veio conversar comigo. E eu só pensava: “O David esta falando comigo”. Entretanto começamos a caminhar lado a lado e eu me virei para perguntar alguma coisa. Como eu estava com um chapéu ridículo com uma aba enorme, ao me virar quase lhe tirei um olho. Conseguir estar com esse deus gênio e quase lhe tirar um olho com a aba do meu chapéu não foi um momento lá muito feliz. O Paul McCartney veio falar com a gente e também nos elogiou. Eu nem conseguia acreditar. Por isso era muito importante participar e fazer o melhor possível. Mas houve momentos de pânico, sempre mudando o cenário de cinco em cinco minutos.

Larry: O Jack Nicholson apresentou. Eu conseguia ver uma bandeira irlandesa esvoaçando e disse orgulhoso: “Incrível, somos a única banda irlandesa se apresentando hoje aqui.” O Geldof estava atrás de mim e começou logo a falar apressado. O Boomtown Rats já tinha se apresentado.

Adam: Nós devíamos tocar três músicas: ‘Sunday Bloody Sunday’, ‘Bad’ e ‘Pride’, que era a mais conhecida. Mas, o Bono desapareceu.

Larry: No meio de ‘Bad’, o Bono resolveu ir escolher uma garota para dançar com ele. O tempo que esteve ausente pareceu uma eternidade. Nós já estávamos nervosos, mas quando ele desapareceu, instalou certo pânico entre nós.

Edge: O mergulho do Bono na multidão foi uma grande besteira, pois ele ainda tinha que passar por vários obstáculos para chegar desde o palco até o público. Era um show em um estádio completamente lotado, com duas ou três barreiras para acomodar as câmeras e a segurança, com uma altura cerca de seis metros desde o palco até o chão. O perdemos completamente de vista. Esteve ausente tanto tempo, que eu cheguei a pensar que ele tinha decidido ficar por aquela música e que já estava a caminho do camarim. Fiquei sem saber o que fazer. Olhava para o Adam e para o Larry para ver se eles sabiam o que estava acontecendo e eles olhavam para mim com o pânico estampado nos rostos. Quando dei por conta, estava ele lá embaixo trepado na última barreira para chegar ao público. E nós continuamos tocando sem parar. Entretanto depois de abraçar uma das garotas das primeiras filas, começou a fazer o caminho de volta ao palco, que demorou mais cinco minutos. Ainda bem que as câmeras não filmaram o resto da banda durante esse momento dramático, pois nós devíamos parecer os “três patetas”: o Curly, o Larry e o Moe.

Paul: Eu estava em um dos lados do palco com o coração na mão, porque julguei que ele tinha estragado tudo. Não conseguia vê-lo, não fazia idéia para onde ele tinha ido. A única coisa que eu sabia é que não íamos mais tocar as músicas que tínhamos combinado. Ficamos naquela versão de ‘Bad’ e nunca chegamos à terceira música que ia ser ‘Pride’. Os membros da banda que estavam no palco se sentiam perdidos, pois também não sabiam para onde ele tinha ido. E ele estava lá na frente, agindo de acordo com o que era aquilo, um espetáculo de televisão, coisa que ele, de uma forma inspiradora, percebeu. Mas aquele dia eu não sabia, e todos achamos que ele tinha estragado tudo.

Bono: Não tocamos a música mais conhecida, porque eu tinha desaparecido sem avisar, para tentar aproveitar uma oportunidade televisiva, e acabei esquecendo da música. Os outros membros da banda ficaram bastante chateados – quase fui despedido!

Paul: Pode-se dizer que depois do incidente, houve alguma discussão.

Bono: Houve todo um misto de emoções. Foi um dia fantástico, mas eu achei que tinha estragado tudo. Cheguei em casa e liguei a televisão em tempo de assistir o Bob Dylan, Ronnie Wood e o Keith Richards subindo no palco na Filadélfia. Eram três pessoas que eu admirava muito. O Bob Dylan foi o meu modelo na minha busca espiritual enquanto músico. Eles pareciam todos deslocados, todos eles. Todos resmungavam sobre várias coisas. Era o fim de um dia muito cansativo e eu vi o meu herói como um simples homem, um cara frágil e vulnerável que obviamente, tinha ido além do que devia algumas horas que precederam o show. Sentia-me um pouco triste por causa de todas as suas expressões proféticas, todas as referências bíblicas dos seus versos, da sua capacidade de encarar os críticos, de enfrentar tudo com coragem e dizer coisas simples, admiráveis e certas. E ali estava ele, com um ar confuso e alienado.

Pensei: “Espero que ele esteja bem.” Estava preocupado com a saúde dele. Não sabia o que ele estava fazendo, mas percebi que estava chegando a um ponto de ruptura. Ele não desmoronou. Na verdade após alguns comentários fora do contexto sobre agricultores americanos, ele mencionou o Farm Aid. Mas teve algo que me perturbou. Eu estava sozinho com a Ali no quarto, sai da cama e fiquei de joelhos. Foi um momento muito real, o final de um dia muito longo.

Continuei deprimido durante alguns dias. Voltamos para a casa dos pais da Ali, que moravam em Wexford. Eu estava muito abatido e chateado comigo mesmo. Entretanto conheci um escultor chamado Seamus Furelong, que era amigo da família da Ali. Era um homem de idade, com sessenta e poucos anos. Fui à sua pequena oficina e ele estava trabalhando em uma peça. Estava meio aéreo. Perguntei:

‘O que é isso?’
‘Chama-se “O Salto”.’
E eu disse: ‘O que é o salto?’
‘É o salto de fé. É sobre você.’
‘O que?’ ‘Este é você.’
‘O que quer dizer com isso?’– eu perguntei
‘Nós vimos você no Live Aid.’ – ele disse.
‘Você deu um salto.’ ‘Como assim?’
‘Lembra de quando desceu para junto do público?’
‘Lembro-me muito bem até.
Há dias que não penso em outra coisa’

“Você estava se reafirmando”, disse ele. “Não se sentia feliz no palco. Queria mais. Deu um salto de fé, alcançou alguma coisa e a tocou. E eu fiz isso porque também me senti inspirado.” Não passou de uma mera coincidência, mas me encorajou muito. Dois dias depois recebi um recado para telefonar para o Paul. Telefonei e ele disse: “Não vai acreditar, mas andam todos excitadíssimos com a sua atuação do U2 no Live Aid. As estações de rádio e de televisão andam perguntando às pessoas qual foi o melhor grupo e muita gente escolheu o U2.” Eu disse: “Isso é fantástico.” E ele disse: “Acho que estão todos doidos.” Pois ele também achou que tínhamos sido um desastre.

Paul: Isso foi no fim da turnê e eu fui para o sul da França no dia seguinte com meu amigo Michael Hamlyn, que costuma produzir nossos vídeos. Só conseguia pensar que tinha sido uma ótima oportunidade e que o Bono a tinha desperdiçado. No dia seguinte fomos às Antibes comprar jornais ingleses e vinha uma história formidável, parecia ter sido popularmente decretado que o Bono e o Freddy Mercury foram os destaques do show. Fui percebendo aos pouco o que tinha acontecido. Todos os álbuns do U2 entraram para as paradas e o status deles deu um enorme salto. A partir daí as coisas nunca mais foram as mesmas, pois agora todos sabiam quem era o Bono.

Edge: Ficamos realmente muito surpreendidos quando as pessoas começaram a falar do U2 como uma das melhores apresentações do dia. Achei que estavam tirando uma da nossa cara, pois acreditava que tínhamos ido muito mal. Mas olhando para trás, como fiz uma semana depois do show, comecei ver o que tinha acontecido. Era a sensação do real, do perigo absoluto, que é sempre muito excitante em um show ao vivo, e a total determinação do Bono em estabelecer um contato físico com a multidão depois de se debater alguns minutos com as barreiras. Acho que aconteceu alguma coisa ali, na tentativa que fez para conseguir o que queria tornando aquele momento ainda mais intenso.

Adam: A atitude do Bono teve realmente algum significado, levou a emoção aquele dia até as pessoas. O seu instinto artístico estava certo. Mais uma vez.

*Páginas 156, 159, 160, 163 e 165 – Fotos