1998/2001 - The Last of the Rock Stars | U2 Brasil

 

1998/2001 – The Last of the Rock Stars

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Páginas 293 a 302

Paul: Aos poucos, no início, e depois o tempo inteiro, o Bono envolveu-se na campanha do Jubileu. Agendávamos a atividade política do Bono fora da Principle Management em Nova Iorque e Dublin. Às vezes, tornava-se bastante complicado fazer isso e continuar a ser justo para o restante dos membros da banda. Houve momentos em que eles ficavam à espera, porque o Bono estava ocupado falando com o Papa. Embora apoiassem a causa dele, havia momentos em que ficavam bastante irritados. Às vezes, o Bono não se preocupava com o tempo das outras pessoas e isso provocou alguma tensão na Principle Management e na banda.

Bono: Eu também fazia isto pelos meus companheiros da banda, mas eles não percebiam por que razão eu continuava com isto conhecendo os riscos. Tinham medo que as conseqüências estourassem em cima de mim, e por tabela, neles. Mas não creio que tenha sido essa a principal razão deles. Temiam que isso desmistificasse e desvalorizasse o U2. Não era um trabalho muito encantador. Uma estrela de rock fica muito melhor numa barricada com um lenço sobre o nariz e uma granada incendiária na mão do que com um chapéu de coco e uma pasta cheia de relatórios do Banco Mundial. Deveria ter-nos prejudicado… mas não o fez. Foi uma bênção ter podido estar lá. Penso que a audiência do rock tinha aumentado desde os anos 60. Houve um reconhecimento de que a revolução não estava ao virar da esquina e que, aos poucos, iriam ocorrer verdadeiras mudanças. Assim, os indivíduos mais empenhados começaram a educar-se sobre estes assuntos e eu tinha de fazer o mesmo. Tornei-me aprendiz de Jeffrey Sachs, um dos economistas mais conceituados e importantes do mundo, um homem extraordinário e um excelente aliado dos pobres, que, para além de conhecer por dentro o assunto da anulação de dívidas, tinha coragem e mérito suficientes para exigir que tal fosse feito. Freqüentei as aulas dele na escola John F. Kennedy da Universidade de Harvard. Estrela de rock na Universidade, que piada! Mas, nesse período, descobri (para minha surpresa…) que sou um pensador bastante racional, mesmo que possa ter comportamentos irracionais, emotivos ou espontâneos. Adorava transmitir grandes idéias. E grandes idéias têm muito em comum com grandes melodias: uma certa claridade, uma certa memória instantânea, uma certa previsibilidade.

Adam: Quando ouvimos falar na campanha do Jubileu pela primeira vez, estávamos todos a bordo. Reconhecemos que era uma coisa pela qual valia à pena lutar. Nos sentamos e falamos sobre o que poderíamos fazer como banda, mas rapidamente se tornou claro que aquilo era trabalho para uma pessoa só e que a melhor pessoa para o trabalho era, sem sombra de dúvidas, o Bono. Ele conseguia captar a atenção de quem queria estabelecer uma ligação entre política, nacionalidade e religião. Ao balançar este assunto em questão e as nossas necessidades como banda de rock’n’roll, a balança inclinou-se acentuadamente para um dos lados. O Jubileu 2000 tinha o potencial de mudar o mundo de uma forma que fazia com que o U2 parecesse uma leve contribuição. Mas o Bono também estava empenhado na banda. Ele é uma pessoa extraordinária, capaz de manter um pé em cada um destes dois mundos tão distintos e conseguir manter-se em equilíbrio. Com certeza que tem as suas dificuldades. Às vezes, ele deve sentir que está muito distante num dos mundos e que talvez a família gostaria de vê-lo mais vezes por perto, mas consegue sempre agüentar a pressão sem desmoronar.

Larry: O Bono passava cada vez mais tempo ao telefone, falando com líderes mundiais, marcando encontros com o Papa. Gerou-se alguma confusão por causa do tempo que isso lhe tomava e o Brian e o Danny ficaram bastante frustrados. A grande questão era se isso estava tendo um impacto na música da banda. A resposta foi um grande “não”. Estava tendo impacto na forma como a banda funcionava fora da música? A resposta é “sim”. Mas ninguém podia pôr em questão o que ele estava fazendo, era notoriamente importante. E acreditem, se pudéssemos, tê-lo-íamos feito.

Edge: Não creio que o trabalho do Bono no Jubileu tenha tido impacto no disco, embora houve momentos em que o Brian sentiu que isso afetava a concentração do Bono. O Brian tem uma abordagem muito simples no que diz respeito à gravação de discos, que se resume a estarmos absolutamente concentrados enquanto trabalhamos, para que o nosso melhor venha de cima. Para ele, qualquer tipo de distração é um grande problema. O Bono anda sempre em movimento acelerado, sempre ocupado com mais de uma coisa ao mesmo tempo. Envolve-se rapidamente em assuntos diferentes, tenta marcar uma diferença e depois se vira para outra coisa qualquer. Nesse sentido, não é um corredor de longas distâncias. Mas contribui para que o U2 demore muito tempo gravando um disco. Há muito tempo que não é desperdiçado, mas não é particularmente produtivo. As coisas parecem não avançar. Isso implica uma boa dose de paciência. E isso também não é um dos pontos fortes do Bono. O Bono cria sob pressão – assim, este novo trabalho, com o qual ele perdia menos tempo do que o habitual, não significava necessariamente que ele fosse menos produtivo. Por exemplo, uma música como ‘In A Little While’. A linha vocal desta música foi criada até bastante rápido, em uma ou duas sessões de improviso. Foi após uma grande noite de boa vida. O Bono chegou ao estúdio, depois de ter dormido duas horas, com uma ressaca jeitosa e sem voz e, de repente, bang! Aconteceu. E isto não é algo que se consiga aos poucos. É algo completo. Ou surge ou não. E é assim que as coisas funcionam com o Bono.

Adam: Acho que o Bono tem, e sempre teve, um papel fundamental no processo criativo da banda, só não tem de estar presente tanto tempo. Assim, dá-nos espaço para respirar e para nos concentrarmos em pormenores. Da forma como as coisas mudaram ao longo dos anos, a banda leva provavelmente mais tempo a mudanças de monitoramento, som, conforto, familiarização, ensaios e experimentar notas e ritmos diferentes. Todo um conjunto de coisas até alcançarmos a melhor base musical para o Bono cantar. Depois, quando já temos essa base, descobrimos, passado algum tempo, que a construímos no lugar errado. Geralmente ele aparece e faz-nos ver isso rapidamente. Então, é preciso mudar a base para outro lugar e estas são as partes do trabalho para as quais o temperamento dele não é o mais indicado. Por isso, funciona muito bem sermos nós quem trata destas coisas e depois, quando já temos tudo organizado, ele se beneficia do fato de já termos resolvido todos os problemas.

Edge: Nos primeiros discos dos U2, o Bono tinha de estar na sala. Levávamos algum tempo conseguindo o arranjo certo, havia muita troca de opiniões sobre a parte de cada um e trabalhávamos todos juntos, mas o Bono era o que tinha a opinião mais objetiva. Mas, na ocasião do álbum Joshua Tree, isso começou a mudar, pois passávamos muito tempo trabalhando em canções sem qualquer resultado. A nossa antiga abordagem parecia já não funcionar e, por isso, tivemos de procurar novas formas de fazer música. Isto foi outro desenvolvimento. O material em All That You Can Leave Behind levou muito tempo pra ficar pronto. E houve uma pausa de dois meses quando eu estava trabalhando em músicas do U2 e o Bono foi para o estúdio com o Danny e o Hal Wilner para gravar a trilha sonora do filme dele, chamado Milion Dollar Hotel.

Bono: Um dia, durante o tempo livre enquanto fazíamos o Rattle and Hum, eu e o Edge subimos até ao topo do Million Dollar Hotel, que ficava perto do nosso clube preferido no centro de LA. Estávamos nós no topo de um edifício gigantesco e o Edge lembrou-se que, se fosse preciso, conseguia saltar de um telhado para o outro. E ele já estava muito perto da beira para o meu gosto. Foi aí que me surgiu a idéia.

Ao passar tanto tempo nesta cidade da imaginação, fiquei contagiado pelo vírus dos filmes. Numa festa em Hollywood Hills, conheci umroteirista chamado Nicholas Klein. Disse-me: “Você tem alguma história?” E eu disse: “Não. Mas tenho uma excelente cena de abertura: um cara tentando saltar do telhado de um edifício para o outro.” E ele disse: “Bem, e eu tenho a frase perfeita pra você.” E eu perguntei: “Qual?” E ele diz: “Depois de ter saltado, lembrei-me…”

Escrevi então a história com o Nicholas Klein e, mais de dez anos depois, Wim Wenders converteu-a num filme. Era uma história sobre o amor incondicional. A sério, era só isso. Era sobre uma garota muito bonita que nunca tinha sido verdadeiramente amada, porque a beleza dela lhe trazia azar e injúrias. Até que conheceu um rapaz muito bonito e simples que gostava da nossa heroína, a Eloise. No final do filme, ele descobre que ela também gostava dele. Era também um policial, onde o narrador era o assassino, o que nós achávamos ser muito inteligente. Acho que nunca ninguém tinha experimentado isso. Além disso, foi também um filme apressado. Podem então perceber o que eu quero dizer quando afirmo que teríamos precisado de mais de 34 dias para filmá-lo.

Não estava muitas vezes presente no cenário, mas adorava fazer a pista sonora do filme. Foi produzida pelo Hal Wilner, que é um tesouro nacional americano e um amigo antigo do U2. É um arquivista e um ativista sonoro e preparou o Million Dollar Hotel com talentos incríveis como Brad Mehldau, provavelmente o melhor pianista de jazz do mundo, Bill Frisel, o grande guitarrista vanguardista e John Hassell, um dos melhores trompetistas de jazz. Sinto sempre que só tenho uma perna quando não estou no estúdio com o U2 e me apoio sempre mais no Edge. Sem o Daniel Lanois, que eu convenci a escrever comigo, ia ter me metido num grande problema. E sem o Hal para pilotar a nave especial, acho que não teria embarcado nessa viagem.

Edge: Algumas das nossas músicas extras acabaram por fazer parte do projeto, o que não era problema. Ninguém as entregou de má vontade ao Bono.

Adam: Havia algumas músicas do U2 e outras tantas que poderiam ter sido músicas do u2. Eram aqueles trabalhos atmosféricos, a meio-tempo que o U2 consegue criar com alguma facilidade. Conseguem ser até muito bonitas, mas são um tipo de música diferente dos discos de rock’n’roll que gostamos de fazer que conseguem conquistar a rádio e, talvez, mudar a nossa vida. Million Dollar Hotel demorou muito tempo pra ficar pronto. Foi muito bom para o Bono que finalmente o tivessem feito e que as pessoas o tivessem ido ver.

Bono: Million Dollar Hotel foi premiado no festival de cinema de Berlim, onde ganhou um Urso de Prata. O Steven Spielberg telefonou ao Wim e disse-lhe que aquilo era material para um Oscar. Nem todas as pessoas mostraram tanto entusiasmo. Fui ao Festival de Cinema de Sarajevo, onde o filme passou às 23h na praça da cidade. Estava uma noite formidável naquela cidade pela qual me apaixonei. Foi incrível ver The Million Dollar Hotel com 3.000 pessoas. Ao início, estava quente, mas depois, com o passar da noite, começou a ficar fresco. Algumas pessoas foram embora. Mais tarde, estava num café e um cara veio falar comigo e disse: “Bono, algumas foram embora antes de o filme acabar. Essas pessoas não prestam. Não percebem nada de cinema, nem sabem nada sobre Wim Wenders”. E eu disse: “O filme é muito longo, já era tarde, estava começando a ficar frio. Para ser honesto com você, eu mesmo teria ido embora”. Ele disse, “Não! Bono, essas pessoas, elas nem estavam em Saravejo quando houve o cerco, eles apenas vieram, essa gente não presta, eles não sabem nada sobre filmes, não sabem nada sobre Win Wenders, não sabem nada sobre Bono”. Eu disse: “E você, o que achou do filme?” E ele me disse: “Eu não sei não, eu fui embora na metade!” Isso é Saravejo. Mas ele disse na minha cara.

Larry: Isso não era como se nós estivéssemos sentados num estúdio, esperando o Bono chegar. As músicas estavam sendo puxadas, empurradas e arrastadas em diferentes direções. Músicas eram gravadas, desfeitas e montadas novamente na procura por esse componente elusivo. Era quase um processo sem fim de adições e subtrações. Também estávamos mantendo as nossas vidas familiares mais unidas, passando finais de semanas em casa tentando colocar alguma ordem nas nossas vidas. Ann e eu tivemos o nosso segundo filho. O U2 fazia parte da nossa vida, uma grande parte, central e de importância vital, mas já não era mais tudo o que nós tínhamos.

Adam e eu compramos casas perto das do Bono e do Edge no sul da França. Nós fizemos algumas gravações e algumas mixagens lá durante o verão. Havia muito a se fazer para terminar o álbum e todos nós precisávamos nos dedicar. Estávamos envolvidos em todas as facetas do nosso trabalho. No passado, quando as gravações acabavam, nós seguíamos os nossos caminhos separados. Era difícil tomas decisões. O Bono sentia que nós precisávamos arrumar um lugar para trabalhar e tocar. A França era perfeita. Pode ser doloroso quando você tem apenas duas semanas de folga e recebe um telefonema para um encontro daqui a uma hora. Mas isso é o U2. Faz sentido para gente estar no mesmo lugar quando estamos trabalhando.

Bono: O nosso primeiro filho nasceu em 17 de agosto de 1999, Elijah Bob Patricius Guggi Q Hewson. Alguns nomes que são importantes para mim, possivelmente nomes demais. A Ali é incrível. Às vezes eu acho que ela construiu uma casa para funcionar sem mim. Eu não tenho certeza de como eu me sinto em relação a isso, mas as únicas coisas que eu posso apontar como evidências do meu papel são essas maravilhosas crianças. Definitivamente, ela não teria conseguido fazer isso sem mim. Parecia como o começo de uma nova família. Não importa quando haja morte, não há consolo maior do que uma nova vida.

Edge: É sempre um bom sinal quando chegam bebês. O meu garoto, Levi, chegou em 25 de outubro de 1999. Foi em L.A. E dessa vez eu fiz tudo para ter certeza que eu estaria no nascimento.

Adam: Nós recebemos o Freedom of Dublin City numa cerimônia em março de 2000. Isso significou muito para nós. O patriotismo irlandês sempre foi uma armadilha para mim, eu sou o que os irlandeses costumam chamar de ‘blow-in’. Crescido na Irlanda, eu não sei se eu me sinto como um inglês, mas definitivamente eu me sinto diferente de todos os outros. Eu cheguei aqui durante a minha adolescência, parcialmente como uma forma de me rebelar contra os meus pais, parcialmente apenas para assimilar a cultura, e progressivamente eu me via como um irlandês. Então, quando o U2 começou a tocar na Inglaterra, eu achava que eu ia responder às minhas origens, mas foi justamente quando eu percebi que eu tinha me tornado um irlandês. Eu nunca tinha certeza se os irlandeses iriam concordar com a minha forma de demonstrar o meu nacionalismo, ainda existem traços da minha origem inglesa no meu jeito de falar, mas eu tinha a liberdade da cidade de Dublin e, eu acho, que isso me fazia um Dub!

Paul: Foi uma grande honra eu ser incluído quando a banda recebeu o Freedom of Dublin City. Eu sou um pouco como o Adam, pelo fato de que nunca tinha estado na Irlanda até 1962 quando fui mandado para o Clongowes Wood College, uma escola jesuíta. Depois eu fui para o Trinity College, onde eu conheci a maioria dos meus amigos mais próximos que ainda tenho até os dias de hoje, particularmente minha mulher Kathy. Isso me fez sentir como um verdadeiro dublinense.

Larry: Eu fiquei muito honrado. Tão honrado, que eu praticamente estraguei todo o meu discurso. Eu queria dizer alguma coisa como ‘Dublin fez muito mais para o U2 do que nós fizemos para Dublin’, mas acabei dizendo o oposto. Eu não sou o melhor orador público do mundo.

Edge: Foi muito comovente ver os nossos amigos, familiares e uma grande multidão de dublinenses, todos reunidos em uma noite fria para marcar a ocasião. Eu agradeci a multidão pelo apoio e, ainda mais precioso, pelo maior privilégio que eles nos deram – uma vida. Um dos privilégios de ser um cidadão livre de Dublin é ter o direito de pastorar carneiros em lugares abertos. Então, no dia seguinte eu e o Bono emprestamos alguns carneiros e os levamos para comer grama no St. Stephen Green. Na hora parecia uma boa idéia.

Bono: Eu trocaria o meu direito de poder pastorar carneiros no St. Stephen Green por estacionar o meu carro na faixa dupla amarela a qualquer dia.

Edge: Realmente foi uma grande honra receber o Freedom of Dublin City. E na mesma cerimônia, uma acadêmica birmanesa chamada Aung San Suu Kyi foi homenageada na sua ausência. Eu particularmente, não tinha ouvido falar nela antes, mas fizemos um grande esforço para descobrir quem era ela. E foi aí que nós aprendemos a incrível história dessa acadêmica birmanesa baseada na Universidade de Oxford na Inglaterra, que sentia que deveria voltar para Burma para se opor ao brutal regime militar no seu país, mesmo sabendo que estaria arriscando a sua vida e deixando o seu marido e a sua família para trás. Ela se tornou líder da National League for Democracy (Liga Nacional para Democracia) e, apesar de ter sido presa e mantida isolada por anos, ela conseguiu mais de oitenta por cento dos votos nas eleições democráticas de 1990 em Burma. Ela tem sido mantida numa prisão virtual desde então. Ela se tornou o assunto da nossa música ‘Walk On’.

Bono: É uma música sobre nobreza e sacrifício pessoal, sobre fazer o que é certo, mesmo quando o seu coração está lhe dizendo o contrário. A fala inicial nos deu o título para o nosso novo álbum: And love is note easy thing / The only baggage you can bring / Is all that you can´t leave behind (E amor não é uma coisa fácil / A única bagagem que você pode trazer / É tudo aquilo que você não pode deixar para trás). Amor, no sentido mais profundo da palavra, é a única coisa que você pode sempre ter com você, no seu coração. Em algum momento você vai ter que deixar todo o resto para trás. Há uma passagem em Coríntios que usa a imagem de uma casa pegando fogo, e parece sugerir que quando, na morte, nós eventualmente enfrentarmos o julgamento (ou inspeção, como uma das traduções se refere) tudo que for feito de palha e madeira irá ser queimado, apenas as coisas eternas irão sobreviver. Para mim, essas coisas são família e amizade, coisas abstratas, não são as coisas que você faz. Então, no final da música, há uma oração sobre ambições e realizações. You´ve got to leave it behind / All that you fashion / All that you make / All that you build /All that you break / All that you measure / All that you steal /All this you can leave behind… (Você tem que deixar isso para trás / Tudo aquilo que você veste / Tudo aquilo que você faz/ Tudo aqui que você constrói / Tudo aquilo que você destrói / Tudo aquilo que você mede / Tudo aquilo que você rouba / Tudo isso que você pode deixar para trás) Isso é um mantra, uma fogueira de vaidades, e você pode jogar qualquer coisa que você queira no fogo. O que quer que você queira mais do que o amor, isso tem que ir. É uma questão muito interessante a ser fazer: quais são as coisas que você quer mais do que o amor?

Edge: All That You Can´t Leave Behind foi um álbum que confirmou o nosso próprio passado, o que nós nunca tínhamos realmente feito antes. Foi durante o período de composição e gravação que esse aspecto começou a emergir, ele não foi feito precipitadamente, deixando de lado o nosso passado, o que tinha sido feito nos álbuns anteriores. Eu me lembro de ter tido um grande debate sobre o som da guitarra em ‘Beautiful Day’. Eu estava tocando uma Gibson Explorer. Esse realmente era o som do U2, o som que tínhamos feito nosso e que tínhamos abandonado desde War. A questão era até que ponto nós tínhamos ou não que trazê-lo de volta. Particularmente o Bono estava meio incerto em relação à isso. Mas quando eu toquei a música, ela se elevou. Isso era indiscutível.

Paul: O Bono tem uma das vozes mais distintas e o Edge tem um dos sons de guitarra mais distintos na história do rock ´n` roll. E as pessoas não escutaram muito dessas duas coisas por anos. Parece ser senso comum fazer juz às nossas maiores forças.

Larry: As pessoas pensaram que All That You Can´t Leave Behind era um retorno do U2 ao passado. A verdade é que nós ainda estávamos usando o estúdio de uma forma similar. Não era o final da bateria, ‘Beautiful Day’ possui uma durante todo o tempo. Tecnologia é uma grande parte do que a gente faz. Eu acho que nesse álbum, nós fomos um pouco mais sutis.

Edge: Como nós estávamos surgindo com algumas músicas inovadoras, eu senti que poderia usar algumas assinaturas de guitarras. Haviam várias novas idéias em All That You Can´t Leave Behind. Mesmo achando que a palavra do álbum era ‘um retorno ao tradicional som do U2’, ‘Beautiful Day’ é até bem complexa. Essa música começou numa pequena sala no Hanover Quay, nós todos tocando juntos, mas não soou tão bom na primeira vez. Como uma legítima música rock, ela era muito comum. A eletrificação dos acordes com um ‘beat box’ e a parte das cordas (que é o que você escuta agora no começo da música) que o Brian fez, foi um divisor de águas. É a combinação de todos esses elementos contrastantes, os ‘backing vocals’, que aconteceram espontaneamente numa noite (eu escutei uma parte e o Danny pulou no mesmo microfone comigo) e as outras idéias de arranjos, mais a química da banda que acabou fazendo isso o que é. Levou duas semanas para mixar essa música, porque ela simplesmente ainda não estava pronta. O Bono adicionou uma simples linha, tocando o padrão de acordes na guitarra para dobrar o baixo, e isso solidificou tudo. Mas ainda tinha alguma coisa faltando. Eu troquei os acordes do baixo no refrão e o Bono se lembrou de uma coisinha nos teclados que ele pensou ser uma boa cola. Eu achei uma forma de colocar isso na parte da guitarra, que deu uma qualidade meio ácida e a interrompeu de ser tão positiva. Os acordes por si só são tão brilhantes e alegres que a música poderia facilmente soar insípida. Então, havia ainda mais para ‘Beautiful Day’.

Bono: ‘Beautiful Day’ possui claras lembranças da fase inicial do U2, mas com o Edge inserindo uma qualidade vertiginosa e futurista que ela não parece retro. Os acordes da guitarra não são nada especiais, mas era a minha tentativa de fazer o álbum decolar, do jeito que uma banda de rock gosta. Os The Buzzcocks gostariam. A letra expressa espanto, sério, qualquer situação em que você se encontra, de forma tão desconfortável e preocupante quanto ela possa ser, e se você está vivo ou acordado, você então tem alguma perspectiva sobre isso. Eu fui influenciado por um pregador australiano que eu conhecia, chamado John Smith, que em um momento era um pastor no Hell Angel e um orador muito eloqüente com uma mente brilhante. Lembro-me dele conversando comigo sobre como a depressão é um fim. A dor é uma evidência de vida, porque lhe lembra que existem coisas na sua vida que não estão certas. Então, você deve ser grato por isso e celebrar porque ainda existe muita coisa para se viver.

A mortalidade foi o assunto principal do álbum. Na nossa adolescência a gente se sente imortal, você sente que pode dirigir o carro o mais rápido que pode e não vai sair da curva. Quando se tem vinte anos, você comete alguns erros. Nos trinta, você percebe que você é perigoso. É quando você não se sente mais imortal. Eu me lembro do meu pai dizendo as mesmas coisas. Agora, é claro, eu estou quase para completar quarenta. E nos quarenta, eu acho que você já está feliz só de acordar pela manhã.

‘Stuck In A Moment You Can´t Get Out Of’ foi escrita sobre o Michael Hutchence. O Edge estava trabalhando num acorde progressivo com influências gospel no piano e tinha uma bela melodia no estilo Motown. Isso era bem pop, então eu procurei uma frase que pudesse balancear, isso era quase vergonhoso. Eu me lembro do Larry dizer que os versos deveriam ser mais duros e foi quando eu apareci com a linha inicial: I´m not afraid of anything in this world (Eu não tenho medo de nada nesse mundo). Uma música pop que começa com isso, você tem que ter respaldo. Eu achava que o Michael Hutchence merecia uma letra que não fosse ridícula ou sentimental, do jeito que dois amigos conversariam: ‘O que está acontecendo lá? Não tem nada para temer’. Isso tem aquela atitude de quando sua mandíbula vacila, como antes da linha: I´m gonna stand up straight, carry your own weight, these tears are going nowhere (Eu vou me levantar, carregar meu próprio peso, essas lágrimas não vão levar a lugar algum). É como se alguém estivesse entorpecido e você está tentando acordá-lo, os policiais estão chegando e estão em alta velocidade e você está tentando tirá-los do carro porque eles vão bater. Porque eu sei que se o Michael tivesse esperado por apenas mais meia hora teria ficado tudo OK. Essa é a questão. Quando você está nesse momento você não acredita que vai conseguir sair. Você acha que essa escuridão que lhe cerca nunca irá passar. Mas isso passa.

Adam: Essa é a forma clássica do Edge de compor músicas. Foi a primeira vez que eu escutei o Edge tocando uma música que não precisava de mais nada, apenas a letra. Podia ser apenas ele e o piano. Uma grande música gospel.

Edge: ‘Stuck In A Moment’ era uma coisa nova do U2, em termos de estrutura, tempo e mesmo os acordes. O Brian arrumou os pedaços lindamente. Eu fiz o piano em um seqüenciador e ele pegou isso e eliminou a primeira e a segunda nota e manteve apenas as terceiras notas, que ele preparou em outro teclado dando um tratamento pesado nelas, e então você tem esse efeito de outro mundo que é apenas uma tradicional seqüência gospel no piano. Com o U2 é muito comum que o som determine o tom da música. ‘Elevation’ foi uma dessas músicas. Ela começou com um som de guitarra muito legal que eu consegui com um pedal de ótima qualidade que o Danny trouxe. Isso soava como alguma louca coisa funk. Eu consegui uma grande parte da guitarra quase que imediatamente, então eu programei rapidamente um ritmo na caixa de batida e todos nós começamos a tocar contra ela. O Adam realmente alcançou a sua própria ‘Elevation’ porque ele é o cara hip-hop da banda e realmente há uma atitude hip-hop no ritmo. E então o Bono pegou o microfone e começou a improvisar.

Bono: Isso é divertido e uma brincadeira, mas o objetivo é a alma, o coração. É sobre sexualidade e transcendência, uma parte divertida sobre querer sair, nesse caso, para sair literalmente do chão. Eu realmente consigo me lembrar de escrever isso. Foi tudo durante alguns minutos, o que provavelmente não é uma boa admissão para ser fazer de uma música sobre sexo.

Edge: ‘Elevation’ é quase um leve alívio em uma seqüência de músicas muito pesadas. ‘Stuck In A Momente’, ‘Walk On’ e ‘Kite’ são todas músicas de despedida, de uma forma ou de outra. Nós trabalhamos juntos na letra de ‘Kite’, e o Bono estava convencido que ele estava escrevendo sobre os seus filhos, mas eu podia ver que isso era mais sobre o seu pai. Ele dizia, ‘Não, não, eu não acho que seja isso’. Ele não podia ver isso, mas eu podia. Eu acho que apenas quando você conhece alguém muito bem, você consegue ver coisas que eles não admitem para si mesmo. Eu acho que ele estava se esforçando para descobrir como lidar com isso, porque o seu pai era uma pessoa muito fechada que achava as emoções difíceis, e o Bono é uma figura muito emotiva e aberta, então havia essa incrível inadequação. Eu acho que isso era uma coisa muito difícil, em termos de comunicação ou da falta disso.

Bono: Essa é a coisa sobre escrever músicas, algumas vezes você é a última pessoa a saber sobre o que ela é. Isso foi uma referência para um momento absurdo de paternidade, onde eu peguei uma pipa e fui soltá-la no Killiney Hill com a Jordan e a Eve. Eu tinha estado fora, e queria fazer aquelas coisas de pai, mas a pipa soltou da linha e se quebrou em pedacinhos no primeiro vôo, e a Eve perguntou se ela podia ir para casa e brincar com o seu Tamagochi. Então, a música é sobre deixar, mas quando eu a canto, de repente eu estou de volta para um lugar quando eu era criança, em Rush ou Skerries, e me lembro que meu pai tentou fazer a mesma coisa com uma pipa, e foi ruim da mesma forma. Eu percebi que eu não estava cantando de um lugar tão teórico quanto eu achava. Eu sinto que o aspecto de despedida da música não era meu para ele, mas dele pra mim.

Tem um pouco de jornalismo no final, que é the last of the rock stars / when hip hop drove the big cars / at the time when new media / was the bis idea (a última das estrelas do rock / quando o hip hop dirigiu grandes carros / no tempo em que mídias novas / era a grande idéia). Isso foi apenas para localizá-la no tempo, dizendo que esse é o momento, e então deixe isso para trás. Uma das coisas sobre se ter filhos é que se você estiver preocupado em não estar por perto para vê-los crescendo, o que você fará? Isso é um fenômeno que pessoas em aviões, quando são avisadas para se prepararem para um acidente, escrevem notas. Por qualquer que seja a razão, nesse momento eu achei que o avião ia cair. Para todo lugar que eu olhava, meu pai estava doente, Michael Hutchence estava morto, eu não estava muito certo sobre o meu próprio bem-estar. Eu apenas queria ter algumas músicas que pudesse, de alguma forma, dizer aos meus filhos algumas coisas sobre quem era o pai deles.

‘In a Little While’ é claramente endereçada para a Sra. A little girl with Spanish eyes, when I saw her first in a pram they pushed her by / Oh my, my how you´ve grown (Uma pequena garota com olhos espanhóis, quando eu a vi pela primeira vez em um carrinho de bebê pelo qual eles a empurravam / Meu Deus, como você cresceu). Eles costumavam me chamar de seqüestrador de crianças na escola porque eu saía com uma garota de um ano a menos. Eles dizem que um ano é muito no show business. Na escola, é o tempo de uma vida. Ela é cantada com uma voz que está preparada durante toda a noite.

Edge: O Bono tinha estado acordado até as seis horas da manhã, dormiu duas horas, veio para o trabalho, pegou o microfone e conseguiu improvisar essa incrível letra e melodia.

Adam: Ela é cantada com uma voz quebrada. E acredite, o Bono estava quebrado naquele dia.

Bono: Eu posso ter feito um mau julgamento sobre a minha distribuição de mobílias na noite anterior. Eu tive essa idéia de escrever sobre a natureza temporal do ser, mas fazer isso de ressaca dá um ar mais de comédia e materialismo que balanceia as pretensões filosóficas. Isso realmente é uma desculpa. In a little while, this hurt will hurt no more, I´ll be home, love (Daqui a pouco, esta ferida não irá mais doer, eu estarei em casa, amor). Eu sou bom em músicas de desculpas. Eu tenho que ser.

Há uma bela tangente no meio dessa música. A man dreams one day to fly / A man takes a rocket ship into the sky / He lives on a star that´s dying in the night / And follows in the trail, the scatter of light (Um homem sonha um dia em voar / Um homem pega um foguete para o céu / Ele mora em uma estrela que está morrendo na noite / E segue no rastro, o dispersar da luz). Isso é a divina comédia. Cristo descreveu o povo reunido como ovelhas, o que eu considero uma das melhores metáforas da humanidade. Há uma certa graça nisso. Você alguma vez já viu um rebanho de carneiro? Ninguém manda. Elas mudam de direção sem uma lógica aparente. Eu amo a idéia dos seres humanos (e não leve isso para o lado pessoal, porque eu sou um deles) acreditarem que eles estão no comando do seu próprio destino. Por todo o progresso e todo esclarecimento que nós temos, eu nos vejo quase que tombando por aí. Existe um pouco de audácia nos seres humanos, que os coloca no centro do universo. Eu sou capaz de fazer isso de diversas maneiras, argumentando com O Todo Poderoso, fazendo acordos. A grande questão, para mim, não é se nós acreditamos em Deus, mas, muito mais importante, se Deus acredita na gente.

Nos anos sessenta e setenta, nós estávamos colocando um homem na lua, estávamos criando medicamentos que iriam aumentar a expectativa de vida das pessoas, e tudo era possível através do progresso. Nos anos oitenta e noventa estava claro que nós não tínhamos lidado com os grandes problemas e era difícil ser otimista quanto ao progresso. Nós podíamos mandar foguetes para o espaço, mas estávamos destruindo o nosso próprio meio-ambiente. Nós temos os medicamentos, mas não os damos para as pessoas que estão sofrendo de alguma praga, como a AIDS. No final do século XX, as pessoas deveriam realmente se orgulhar do que eram capazes de fazer, mas ainda não era o suficiente. Nós temos que achar novas respostas para essas questões. Os problemas do mundo não serão todos resolvidos pela ciência. Esses grandes problemas foram substituídos pela pobreza e depressão e ultimamente pelo coração humano e sua ambição. O que está realmente claro nesse momento. Eu tenho certeza que em cinqüenta anos, quando os historiadores estiverem olhando para esse período, eles irão dizer, ‘Oh, foi quando o século XX acabou com a gasolina, na pista, no final’. É um novo jogo no século XXI. Todas essas coisas estavam na minha cabeça enquanto eu estava escrevendo essa linda pequena música pop. Essas tangentes fizeram a música para mim. Ela deveria ser chamada ‘The Pilgrim and His Lack of Progress’.

Edge: ‘Wild Honey’ encerra o álbum, de certa forma, antes da escuridão de ‘Peace On Earth’. Talvez isso tenha sido um julgamento errado. Eu sempre achei ela um pouco ‘Ob-La-Di, Ob-La-Da’.

Adam: Houve muito debate sobre se essa música deveria ou não ser incluída. Isso era um pouco divertido e fútil, o que é uma coisa pela qual o U2 nunca tinha sido notado.

Bono: O Brian Eno amou isso, ele achou que soava como uma música do Van Morrison. Eu realmente a queria no álbum, porque era divertida e quebrava o clima. Chame isso de um sorvete de frutas entre os pratos. Eu não tenho certeza se o Larry sentiu da mesma forma.

Larry: Esse é um lado alegre do U2 que você dificilmente vê. Mas não era uma das minhas favoritas.

Edge: ‘Peace On Earth’ é uma música que flui no seu coração. É um pouco fria, mas é real. Ela se formou muito facilmente. Eu tinha a música e o Bono pegou o microfone. Tem uma linha que eu nunca tive muita certeza sobre ela: I´m sick of hearing again and again that there´s gonna be peace on earth (Eu estou cansado de escutar de novo e de novo que vai haver paz na terra). Ela é muito negativa. Eu achava que ela deveria ser I´m sick of hearing again and again that there´s never gonna be peace on earth (Eu estou cansado de escutar de novo e de novo que nunca vai haver paz na terra). O que a mudava completamente. O cinismo tem o seu lugar, mas geralmente é uma profecia que se realiza. A noção de que nós temos apenas mais alguns anos no planeta terra e que nós todos deveríamos ‘cair na real’ e viver a vida na ponta da espada é apenas uma desculpa para a total auto-centralização. Isso disse a confiança na história da fada: um pedaço do céu quando você morre é um aspecto da religião que é perigoso, porque isso perdoa muita coisa. Eu não acho que nenhum esteja certo. A nossa posição como uma banda é que nós acreditamos no paraíso, mas vivemos como se não acreditássemos.

Bono: Eu tentei trazer isso de volta para quando eu cresci em Cedarwood Road e para minha violência: Where I grew up / There weren´t many tress / Where there was we´d tear them down / And use them on our enemies (Onde eu cresci / Não havia muitas árvores / Onde havia nós as derrubávamos / E as usávamos contra os nossos inimigos). Há um orgulho nisso. Eu coloquei alguns dos meus aforismos como se eles fossem de conhecimento do mundo: They say what you mock / Will surely overtake you / And you become a monster / so the monster will not break you (eles dizem que o que você zomba / Vai com certeza dominá-lo / E você se transforma em um monstro / Para que o monstro não o destrua). Como um escritor, isso é uma trapaça terrível, mas eu iria adorar conseguir que um deles fosse embora.

Eu estava muito abalado com o bombardeio de Omagh, mas a razão pela qual a minha fé sobreviveu a isso, a razão pela qual eu sobrevivo à esses terrores do mundo, é que eu não me surpreendo com o diabo. Para mim, nós vivemos em uma selva e eu estou esperando a qualquer momento que alguma coisa vai tentar me comer. Eu estou sempre alerta. Eu fico mais surpreso quando a pancada não é lançada. Mas isso não me faz um cínico. De fato, é o oposto. Eu fico maravilhado com a capacidade das pessoas de se sacrificarem pelos outros. Eu fico maravilhado como as pessoas podem demonstrar amor onde não se é esperado e como o amor pode unir grupos diferentes. Eu fico simplesmente maravilhado com os seres humanos. Mas eu nunca me surpreendo quando o tempo fica sujo e eu tento me planejar pra isso. Eu amo isso porque o sol está alto, e eu estou pronto para o momento quando ele não está.

Nem todo mundo a minha volta sente a mesma coisa. Eu tenho visto a fé das pessoas se abalar diante de uma tragédia, algumas pessoas muito próximas de mim. É sobre isso que fala a música ‘When I Look At The World’. É uma música frágil, mas também muito forte. Eu tenho escutado algumas pessoas sugerirem que ela é um retrato da Ali. Eu certamente fui culpado por colocar a Ali em um pedestal no passado, o que pode ser desumano porque livra as pessoas da sua complexidade. Mas eis aqui uma confissão, nessa música, eu me coloquei num pedestal. Ela é escrita do ponto de vista de uma pessoa que está tendo uma crise de fé, olhando para alguém que construiu sua casa sobre uma rocha. When there is all kind of chaos / And everyone is walking lame / You don´t even blink now do you? / Or even look away / So I try to be like you / Try to feel it like you do / But without you it´s no use / I can´t see what you see / When I look at the world (Quando há todo tipo de conflito / E todos caminham com dificuldade / Você nem mesmo pisca agora, não é? / Nem olha de longe / Então eu tento ser que nem você / Tento sentir como você / Mas sem você não tem jeito / Eu não consigo ver o que você vê / Quando eu olho para o mundo). A última imagem é um tanto quanto fria.

Está quase irritado com a fé de outra pessoa. I´m in the waiting-room / I can´t see you for the smoke / I think of you and your holy book / While the rest of us choke (Eu estou na sala de espera / Não consigo lhe ver por causa da fumaça / Penso em você e no seu livro sagrado / Enquanto o resto de nós se afoga). Eu não sei por que ela se passa em uma sala de espera de um hospital, quando as pessoas ainda podiam fumar nesses lugares. É muito pesado, eu mal posso pensar sobre isso. Podia quase ser a voz do meu pai, olhando para mim. O olhar com raiva. O sufoco. Mas essa é justamente a coisa que corre pelo álbum, que lhe dá coesão, o anel da verdade, conectando com o que estava acontecendo na minha vida, conectando com o meu pai e com a minha mãe, que é provavelmente o que tudo isso traz à tona, porque eu nunca mais estive em uma sala de espera cheia de fumaça desde que eu tinha quatorze anos de idade. Eu sempre fico muito maravilhado quando acontece esse tipo de coisa.

Edge: O Adam, o Larry e eu gravamos essa faixa rapidamente e depois eu adicionei mais algumas partes de guitarra. No final das sessões do álbum, todos disseram, ‘Ótimos sons de guitarra, Edge. Como você conseguiu isso?’ e eu não conseguia lembrar porque tudo aconteceu tão rápido. Aí eu fiquei pensando, ‘Droga, como eu vou tocar isso ao vivo?’ Eu não tinha a menor idéia. E realmente, eu acho que nós nunca tocamos essa música ao vivo. Mas eu gosto da idéia da letra de ver o mundo sob a perspectiva de outra pessoa, e essa perspectiva ser a coisa que faz o mundo parecer OK. Eu certamente posso relacionar com isso. Quando você fica velho tem o perigo de você se tornar tão negativo sobre várias coisas, porque o seu desapontamento começa a superar o seu senso de oportunidade. Uma das grandes coisas de se ter filhos é que as oportunidades começam a existir de novo mais tarde.

Adam: ‘New York’ foi um pedaço de uma sessão que se juntou após a edição. Ela começou com o Brian e o Danny trabalhando sobre uma bateria do Larry, enquanto nós estávamos numa reunião.

Larry: Sempre há muita vagabundagem no estúdio. Nós gastamos muito tempo tentando encontrar os riffs de guitarra corretos, os vocais corretos, o baixo certo e bateria certa. Isso pode ser tedioso. Normalmente, no período entre escrever e gravar, eu tenho a chance de gravar alguns sons com a bateria. ‘New York’ é um bom exemplo de um som que eu estava trabalhando, tentando a perfeição. Eu pedi para o engenheiro gravar. Nós tínhamos que fazer uma parada depois de uma longa sessão como essa, que ocorre durante o processo de gravação. Quando nós voltamos, o Brian e o Danny estavam brincando com a minha gravação.

Adam: Da forma como aconteceu, esse foi um encontro muito frustrante, e nós estávamos excitados para retornar para o estúdio. Nós entramos na trilha com o Brian e o Danny, com um grande som de buzina com a bateria do Larry, todos nós nos juntamos, o Bono pegou o microfone e tudo se encaixou muito rapidamente. É claro, como sempre acontece nessas sessões, nós tivemos que cortar algumas partes, editar e aprender como tocá-la mais tarde.

Bono: Eu não consigo me livrar de Nova York. Parece que lá é o centro do universo. E é por isso, eu tenho certeza, que o Osama Bin Laden a escolheu. É certamente a cidade dos nossos tempos, assim como Paris e Londres foram no passado o centro da cultura ocidental. Eu tenho um apartamento lá, e tenho a sorte de poder morar lá, passar por lá e sentir o intenso calor de Nova York durante os verões. Houve alguns momentos na minha vida que eu me perdi por lá… e essa é uma grande cidade para se perder. Há uma certa escuridão na música. Ela é uma ode para Nova York, mas você sente um certo perigo na paisagem. É sobre uma crise de meia-idade. I hit an iceberg in my life / But you know I´m still afloat / You lose your balance, lose your wife / In the queue for the lifeboat / You´ve got to put the women and children first / But you´ve got am unquenchable thirst for New York (Eu bati em um iceberg na minha vida / Mas você sabe que eu ainda estou boiando / Você perde o seu equilíbrio, perde a sua esposa / Na fila para o bote salva-vidas / Você tem que dar prioridade para mulheres e crianças / Mas você tem uma sede insaciável por Nova York). Eu estava tentanto conseguir aquela fase em que todo homem quer fugir da sua vida e das suas responsabilidades. E eu posso fazer isso numa música – é muito melhor do que se fazer na vida real. Como um compositor eu tendo a liberar os morcegos e seguir cada idéia selvagem. Então, o personagem sou eu em um universo paralelo, a pessoa que desistiria de tudo pela sua sede por viagens. A Ali nunca me influência nessas músicas. Ela sabe que a fraqueza dos seres humanos é um dos meus assuntos favoritos. Eu não quero deixar nenhuma pedra virada, incluindo a minha. A Ali tem um grande coração. Não deve ser fácil ser casada com um artista que insiste em expor suas próprias hipocrisias. Mas ela sabe que eu não sou um autobiografo.

O álbum termina com ‘Grace’. Existem algumas das minhas pessoas favoritas envolvidas nessa letra, mas a coisa mais importante é que ela personifica a minha palavra favorita no léxico da língua inglesa. Eu dependo dessa palavra. O universo funciona pelo Karma, todos nós sabemos isso. Para cada ação existe uma reação igual e oposta. Existe uma certa reparação nisso: olho por olho, dente por dente. Aí então surge a Grace e vira isso tudo de cabeça para baixo. Eu amo isso. Eu não estou falando das pessoas serem graciosas nas suas ações, mas apenas esconderem as suas feridas. O ministério de Cristo tinha muito o que fazer mostrando como as pessoas se enganam quanto à forma, não existe saída pra isso. Mas aí então, ele diz, bem, eu vou lidar com esses pecados para vocês. Eu vou me responsabilizar por todas as consequências dos pecados. Mesmo se você não é religioso, eu acho que você aceita que existem consequências para todos os erros que cometemos. E então aparece Grace para dizer, ‘Eu irei assumir a culpa, eu carregarei a sua cruz’. É uma idéia muito poderosa. Grace interrompendo Karma.

Adam: Foi uma forma maravilhosa de encerrar o álbum.

Edge: Não foi um álbum fácil de se fazer, mas nenhum deles é. Eu quero dizer, se fosse um processo simples, não doloro, então eu acho que os álbuns não teriam a mesma intensidade ou ressonância. Você tem que arregalar os olhos, abrir as veias e a merda que realmente importa para você, e para fazer isso você tem que ir à alguns lugares escuros. E isso não necessariamente ocorre de maneira fácil ou rápida.

Larry: Foi um trabalho muito detalhista. Quando você escuta uma música como ‘Beautiful Day’ na rádio, parece que não exigiu muito esforço, mas para fazer uma música chegar a esse ponto é difícil, dias e dias tentando montar esse quebra-cabeça. O Edge correu atrás dessa música como se a sua vida dependesse disso. Era importante provar que nós podíamos escrever grandes músicas, e que elas seriam tocadas nas rádios. Nós precisávamos provar para nós mesmos que nós éramos melhores do que tínhamos sido no nosso último álbum. Eu acho que nós fizemos isso, e era bom estar no U2 de novo.

*Páginas 297, 298, 301 e 302 – Fotos