1998/2001 - The Last of the Rock Stars | U2 Brasil

 

1998/2001 – The Last of the Rock Stars

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Páginas 284 a 292
Bono

Regressamos à Irlanda em abril de 1998. Vínhamos seguindo atentamente o que se passava no nosso país. John Hume era a resposta da Irlanda do Norte a Martin Luther King.

Lutava pela minoria católica, não com bombas de gasolina ou armas de fogo, mas sim com uma voz clara e argumentos bem fundamentados.

No seu ponto de vista, a verdadeira fronteira estava no coração e na mente das pessoas e essa seria a barreira mais difícil de derrubar.
O processo de paz foi uma janela que se abriu na minha vida, foi a primeira vez que senti que todo o sangue derramado iria ter um fim. O Acordo de paz de Sexta-feira Santa foi um excelente trabalho de compromisso. Não ia deixar todas as pessoas satisfeitas, ambos os partidos iam ter de se sujeitar. Igualdade de dor – foi assim que o descreveram. “Compromisso” é uma excelente palavra se olharmos bem. Em Maio de 1998, deveriam realizar-se referendos separados na Irlanda do Norte e na Irlanda do Sul com base neste acordo, cuidadosamente preparados entre o SDLO, de Jonh Hume, e o partido Unionista de David Trimble perante a acentuada resistência das forças mais intolerantes e homens de violência. Nós queríamos que desse resultado, mas os indícios não eram bons. Oferecemo-nos para ajudar no que fosse preciso.

Edge: As votações estavam disputadas e, embora parecesse óbvio que na República os votos fossem peso para o “Sim”, havia grandes probabilidades de o “Não” ganhar na Irlanda do Norte.

Larry: Todos nós temos a nossa opinião sobre o que significa para nós ser irlandês. Dois membros da banda tinham nascido na Inglaterra e foram educados segundo a fé protestante. A mãe do Bono era protestante e o pai católico. Eu fui criado segundo a religião católica. O U2 é um exemplo vivo do tipo de união de fé e tradição que é possível na Irlanda do Norte. Todos nós concordamos que o “Sim” era a única forma de avançar. É sempre perigoso nos envolver na política interna, mas estas circunstâncias eram uma exceção.

Bono: Fomos convidados para participar num acontecimento com David Trimble, o líder unionista protestante, e John Hume, a voz católica moderada. Eu disse que aceitávamos se eles aparecessem juntos no palco. Era a tal antipatia acumulada, que estes dois políticos veteranos, ambos fazendo campanha pelo “Sim”, nunca tinham aparecido juntos no palco e nunca tinham dado um aperto de mão. Eles estavam tão desesperados, prestes a enfrentar uma derrota, que, entre expressões de dúvida e sobrancelhas franzidas, concordaram com a minha proposta.

Larry: Infiltramo-nos num evento que estava decorrendo em Belfast. A banda de rock Ash, da Irlanda do Norte, ia participar num concerto no dia 18 de Maio para apelar pelo “Sim”. Nós perguntamos se podíamos usar o equipamento deles e tocar algumas músicas.

Bono: Nessa noite, estávamos um pouco nervosos. Estive uns minutos com Trimble e Hume numa sala, só os três. Disse-lhes: “Vou lhes pedir para fazerem uma coisa que é muito difícil para os políticos. Vou lhes pedir que subam no palco e não falem”. Eles ficaram confusos. Disse-lhes que ia ser uma oportunidade de lhes tirarem uma fotografia a dar um aperto de mão. Eles concordaram. Como prova de respeito para com todos aqueles que perderam a vida ao longo dos anos para o sectarismo, decidimos pedir ao público um minuto de silêncio, que eu achava nunca ter acontecido num espetáculo de rock, quanto mais em frente a uma das audiências mais barulhentas da face da terra. Mas o público se manteve em silêncio. E nós conseguimos a fotografia.

Larry: Foi marcante ver o Bono no meio de David Trimble e do John Hume com os braços levantados para o céu.

Edge: Foi um grande momento, não só para todos aqueles que lutaram duramente tanto tempo para levar a paz à Irlanda, mas também para a música. Tal como Jake Burns, dos Stiff Little Fingers, disse em 1978, a solução para o problema da Irlanda do Norte são mil bandas de punk. Tocamos ‘Don’t Let Me Down’ dos Beatles. Era um tanto descarada, mas bastante apropriada para o momento. Nos dias que sucederam o espetáculo, as pesquisas apontavam uma inclinação para o “Sim”. No final, ganhou por uma contagem mínima, dois ou três votos. Acho que os políticos envolvidos mostraram muita coragem, sobretudo David Trimble, ao evolver-se no evento. Foi, sem dúvida, crucial para o processo da paz.

Bono: Militantes unionistas radicais republicanos não gostavam da palavra “compromisso”. Alguns destes militantes separaram-se e um grupo dissidente republicano, conhecido como Continuity IRA, decidiu tentar destruir o processo de paz, que estava dando os primeiros passos, ao fazer explodir um carro bomba no pequeno centro da cidade de Omagh em 15 de agosto de 1998. Matou 29 pessoas e deixou feridos 220 homens, mulheres e crianças que estavam fazendo as suas compras de sábado. Foi o ato mais cruel de covardia numa história de atos covardes levados a cabo por ambos os lados. Lembro-me de estar olhando para a televisão em absoluta descrença. Não havia palavras para o descrever. Não havia nada que se pudesse dizer. Todos na Irlanda estavam em estado de choque. Quando leram o nome de todas as pessoas que morreram na RTE, o país parou. As pessoas choravam nos carros, na O’Connel Street, em todo o lado. Foi um trauma para toda a nação, não só por ter destruído tantas vidas, mas por parecer ser a destruição do processo de paz, que tinha sido meticulosamente preparado, com fita-colante, cola forte e muita fé. Foi difícil a todos os que não eram irlandeses aquilo que sentimos naquele dia. Foi um dos piores dias da minha vida. Talvez porque, de certa forma, tínhamos participado nesse processo. Não conseguia compreender como é que alguém era capaz de uma coisa daquelas. Depois disso, passei por uma terrível crise de fé. Naquele momento, era difícil ser crente. Compusemos a música ‘Peace On Earth’ nesse momento, que é a canção mais amarga e turbulenta que o U2 já compôs.

Estava acontecendo coisas muito intensas na minha vida pessoal. Tinham diagnosticado um câncer no meu pai. Ele tinha uns 70 e poucos anos, mas mantinha uma figura forte e imponente. Era tal a sua boa disposição, que falava muitas vezes em vir a ter câncer. Sempre achou que era o que lhe iria acontecer. Por isso, quando ele me contou, eu disse-lhe: “Então deve estar muito satisfeito.” Ele riu e depois ficou com cara de aborrecido. É um sentimento de impotência. Embora hoje em dia um terço das pessoas, a quem é diagnosticado câncer, sobreviva, é importante detectá-lo cedo e nós não sabíamos qual era a situação dele. O meu irmão assumiu o comando relativo a este assunto e o meu pai deixou. Ao passo que a mim não me deixou intervir da mesma forma, o que eu entendo perfeitamente. Creio que já era muito difícil para ele deixar uma só pessoa conhecer de perto este seu lado tão vulnerável.

Eu também tinha algumas coisas que me preocupavam, nesse âmbito. Os meus problemas de voz se mantinham. Tinha um inchaço nas cordas vocais, que não era um nódulo, e que não desaparecia. Consultei vários especialistas, mas ninguém tinha certeza do que se tratava. Sugeriram que talvez fosse do meu estilo de vida, o fumo, beber muito, estar sempre ao telefone e não descansar. Tentei mudar algumas coisas, mas foi difícil. Falamos em gravar um novo álbum e eu pensei em fazer um disco de vocalista. Estava sempre dizendo isso às pessoas, quase que para me obrigar a fazê-lo. Mas a minha voz estava fraca, eu sabia disso. O Dr. Maurice Collins, um talentoso cirurgião otorrinolaringologista, disse-me: “Temos que encarar isto com seriedade. Quero dar-lhe uma anestesia. Assim, posso examinar melhor isso e ver exatamente do que se trata e, se for preocupante, vou precisar da sua autorização para fazer uma biópsia”. E eu disse: “Biópsia? Isso não é o que fazem às pessoas quando desconfiam que possam ter câncer?” E ali estava ela, a coisa na qual eu não queria pensar. Uma biópsia à garganta ia implicar que não pudesse cantar durante três meses. Eu disse: “Nem pensar. Não posso fazer isso”. E ele retorquiu: “Só quero examinar com o microscópio. Terei 90 por cento de certeza sobre se é câncer ou não. Mas, se se confirmar, tem de me deixar operá-lo”. E eu lá aceitei. Mas não contei a ninguém. Não contei à Ali nem a ninguém da banda. Enfrentei a situação sozinho.

Lembro-me de me estarem preparando para ir para a sala de operações. Estava com uma bata azul e tinha a cortina fechada à minha volta. Não conseguia ver ninguém, mas conseguia ouvir as pessoas no corredor, a gemer e a se lamentarem vindas de uma cirurgia. Pensei logo: “Não é isto que eu quero. Eu quero continuar a cantar”. Comecei a pensar que podia perder a voz para sempre, se fosse câncer, e como conseguiria combatê-lo? Não tenho medo da morte, mas não queria que a minha família tivesse de passar por isso e, além disso, sabia que a banda ainda conseguia fazer mais álbuns. Ia ser bastante inoportuno.

Fui para a sala de operações, deitei-me e deram-me anestesia. Quando dei por ela, estava meio consciente, atordoado. Entretanto, o médico surge no meu campo de visão e me diz: “Volto daqui a uma hora quando já estiver acordado”. Eu agarrei-lhe o braço e abanei-o. Ele disse: “Oh! Não se preocupe. Está tudo bem”. Tive sorte, mas não há nada como um pequeno contato com a morte para nos pôr as coisas em perspectiva. Tudo fica mais definido, percebemos que apreciamos as coisas que podíamos ter perdido. Pouco depois disso, a Ali ficou grávida. Quer fosse pelo meu pai ter câncer, pela morte prematura do Michael ou pela imagem fresca de uma vida nova e de como essa criança é vulnerável quando pegamos nela pela primeira vez, pareceu-me o momento ideal para fazer um álbum sobre as coisas essenciais. Queria fazer um disco emocionalmente cru sobre a vida real e sobre as responsabilidades inerentes a essa vida e a alegria do se estar vivo, acordado, de podermos fazer aquilo que queremos, de passar o tempo com a nossa família e amigos. Se pensarmos na possibilidade de podermos não voltar a cantar, bem, aí temos a certeza de que não vamos nos meter em grandes aventuras.

Edge: Ganhamos algum tempo ao fazer The Best of U2 1980-1990, que foi lançado em novembro de 1998. Sempre resistimos a fazer algo que pudesse parecer que estávamos apresentando um trabalho final, mas achamos que se incorporássemos os primeiros 10 anos já seria mais uma gestão do nosso trabalho, para ordenar o passado. Foi uma boa desculpa para remasterizar alguns dos primeiros discos, uma vez que a tecnologia tinha avançado bastante com os CD’s. Mas também já estávamos pensando no novo álbum.

Adam: Ainda estávamos um pouco marcados pela experiência do Pop. Pois, embora o público e as vendas tenham sido aos milhões, não teve o impacto que nós esperávamos. Não viemos embora com a sensação de que não tínhamos deixado lugar a dúvidas. Precisávamos nos reagrupar e voltar ao trabalho o mais rápido possível. Todos nós achamos que era boa idéia falar com o Brian e com o Danny para saber se estavam dispostos a trabalhar conosco.

Edge: Uma das coisas que fizemos no final do Pop foi a decomposição do formato de banda de rock’n’roll até ao enésimo nível. Queríamos voltar a ouvir a banda, a ouvir guitarras, baixo e bateria como elementos discretos de um arranjo. Dissemos ao Brian e ao Danny: “é o seguinte, ainda não temos nenhuma música para este álbum. Dêem-nos alguns meses para organizar tudo e depois começamos”. Mas o Brian disse: “Não. Não vamos fazer as coisas assim. Vamos já começar a trabalhar, reunir bastante material e depois escolher as melhores partes”. Fomos, então, para o Hanover Quay com o Brian e o Danny e passamos cerca de três semanas fazendo jams. O Brian com os sintetizadores, o Danny com a guitarra rítmica ou percussão. Infelizmente, esta experiência não trouxe grandes resultados e eu comecei a trabalhar pequenas partes e excertos. ‘Kite’ surgiu de um pequeno loop de cordas que eu criei. Começaram todos a me acompanhar e a música acabou por surgir. Foi incrível. Numa longa sessão de improviso, onde se definiram as melodias, as partes de guitarra, as diferentes seções da música e as partes de bateria, a música ganhou forma.

Bono: Recuperei a voz naquele momento. Quando cantei I’m a man, I’m not a child, todos no estúdio ficaram boquiabertos. Eu disse: “Uou!” Foi como um cego de repente conseguir ver. Foi quase cômico. De onde veio esta voz? Quero mais!
Creio que consigo chegar a essa nota quando sou digno dela. É mesmo estranho. Nunca me sentei ao piano ou peguei numa guitarra e toquei uma nota tão alta, pois é muito difícil de se chegar lá. Nunca se comporia uma nota destas. Mas eu consegui. Em dez anos, nunca tínhamos chegado a uma nota assim em grupo, em plena voz.

Adam: Foi um momento inesquecível. Já não ouvíamos aquela voz há algum tempo.

Edge: Inacreditável. Cantou lindamente.

Bono: Estávamos finalmente chegando ao fundo da questão do que se passava com a minha voz. É uma alergia que afeta as minhas fossas nasais. Tive de fazer inúmeros testes alérgicos. O cara que me estava fazendo os testes riu e me disse: “Vou dizer-lhe uma das coisas à qual é realmente alérgico. Às plantas do deserto. Felizmente, é da Irlanda e lá não há muitos desertos”. E eu disse: “Isso é verdade”. E ele diz: “Mas, se for a Las Vegas, é melhor ter cuidado”. Claro, toda a turnê Pop decorreu em Las Vegas e foi aí que a minha voz piorou. Foi um enorme alívio descobrir estas coisas, mas foi muito difícil aceitar que tenho alergias. Parecia ser uma condição mais própria prá Woody Allen. Tenho tendência a ignorá-la, o que nem sempre ajuda. A medicação que eu estava tomando secava-me a garganta e o cigarro também não ajudava em nada. Foi uma luta constante. Foi por isso que comecei a usar óculos de sol, pois fico sempre com os olhos vermelhos. Com o passar dos anos, já controlo mais ou menos a situação, pois tenho mais consciência dos efeitos que tem em mim e mudei a minha dieta.

Mas acho que é mais do que isso. Parece que, quando canto de um determinado lugar, consigo atingir determinadas notas. Creio que um Si bemol, pode ser um Si natural. A paragem seguinte é um Dó. Um grande tenor consegue atingir um Dó agudo uma vez por noite, talvez até mais três vezes em algumas óperas mais puxadas. Eu estou só um tom abaixo disso. Recuemos e confirmemos quando essa nota aparece numa música do U2. São várias. Aparece em ‘Bad’, ‘Pride (in the name of love)’ e ‘I Still Haven’t Found What I’m Looking For’. São as notas com as quais nós vamos embora, com as quais desaparecemos. E não sabemos de onde elas vêm, mas é certamente de um outro lugar. Quando as canto, sou transportado. Não estou consciente quando o faço. Se estivesse, teria juízo e não me atreveria a experimentá-las. Pois depois tenho de enfrentar a dor de cantá-las todas as noites. Por isso, quando elas surgem, é porque o próprio material as criou.
O mais importante é que encontrei a minha voz após algumas dificuldades ao longo de anos e o álbum foi feito com uma certa liberdade e intrepidez.

Adam: Quando começamos a fazer as demos, em 1998, pensamos mesmo que teríamos o disco pronto passado um ano, mas prolongou-se até 1999 e depois até 2000. Depois da experiência do Pop, decidimos não estabelecer datas limite.

Larry: O Edge tirou alguns dias e trabalhou sozinho em muitas das músicas. Entretanto, voltamos todos ao Hanover Quay e ensaiamos essas idéias. Era assim que o U2 gravava no passado: a banda numa sala tocando em uníssono. Penso que todos gostavam deste processo, embora, como sempre, houvesse momentos bastante duros. As sessões do U2 conseguem ser um martírio. Num dia, está tudo correndo bem e, no outro, vai tudo por água abaixo. Lembramos que este disco não iria ser lançado enquanto não tivéssemos 11 grandes músicas. Só pensaríamos no trabalho artístico e nos títulos depois de termos tudo encaminhado. Era uma boa forma de trabalhar.

Edge: Às vezes, parece que a nossa forma de trabalhar se equipara a construir uma casa do telhado para baixo. Encontramos uma idéia, um pequeno esboço para uma música, e começamos a criar sons e uma identidade sonora para o tema. Entretanto, começamos a gravar e, através do mesmo processo, descobrimos do que a música precisa em termos de arranjos. A abordagem da produção quase que surge antes da própria música – e as letras são a última coisa. Assim, começamos com um som e acabamos com uma música. O processo consegue ser bastante dispendioso em termos de tempo e este álbum demorou ainda mais tempo do que o costume. Continuávamos a fazer tudo o que sempre fizemos, mas não passávamos tanto tempo tocando com o Bono.

Paul: O Jubileu 2000 aproximava-se e o Bono sentiu que devia envolver-se. Foi uma coligação de mais de 90 ONG’s (Organizações não-governamentais), igrejas e sindicatos, um grupo bastante amplo, à procura de algo que marcasse o milênio em termos de pobreza mundial. Foi uma campanha para a anulação das dívidas dos países de Terceiro Mundo, com propostas específicas para a anulação de cerca de 376 bilhões dólares em dívida por parte de 52 dos países mais pobres do mundo ao FMI, ao Banco Mundial e aos países mais ricos do ocidente. Creio que o Bono se sentiu incomodado por aparecer na fotografia e não estar por dentro do assunto. Mas, assim que decidiu envolver-se e ficou a par de tudo, não havia nada que o parasse.

Bono: Eu e a Ali tínhamos estado na África em 1996 e ficamos com o coração destroçado ao testemunhar a tragédia diária que ocorria naquele continente extraordinário, a perda de vidas e de oportunidades. Já nessa altura, tivemos a sensação de que muitos dos problemas da África não eram apenas calamidades naturais, guerras ou chefes militares. Alguns dos problemas de pobreza eram estruturais. A corrupção era um grave problema. Líderes e ditadores corruptos permaneciam no poder durante três ou quatro mandatos e não se preocupavam com o seu povo. Mas também havia corrupção no mundo desenvolvido. O Ocidente, por razões estratégicas, tinha feito empréstimos de avultadas somas de dinheiro às nações africanas durante a Guerra fria, geralmente a homens maus e loucos, só porque não eram comunistas. Pessoas como Mobuto, no Zaire, desperdiçaram os recursos dos países para enriquecimento pessoal e, agora, o mundo ocidental conservava como reféns os filhos daquelas decisões tomadas muitos anos antes.

Isto era obsceno e inacreditável. Na Europa, no século XIX, quando alguém não pagava uma dívida, ia parar na prisão com o resto da família. Não era uma situação muito justa nem muito eficaz, uma vez que, se a família está toda na prisão, ia ser complicado recuperar o dinheiro. Esse conceito acabou por ser abandonado. Ainda assim, no século XX, mantínhamos países inteiros nas prisões dos devedores. Senti-me revoltado com essa injustiça. Não era uma idéia baseada em caridade, era uma idéia baseada em justiça. Achei que podíamos fazer algo palpável para mudar a vida das pessoas que tínhamos conhecido anos antes.

O Jubileu 2000 previa a chegada do milênio como um gancho dramático para sustentar a campanha. Queríamos encorajar uma oportunidade única de anular as dívidas dos países mais pobres do mundo aos mais ricos, um ato histórico de generosidade que iria proporcionar um novo começo para um bilhão de pessoas que viviam com menos de um dólar por dia. A idéia tinha uma força própria, mas era a minha função difundi-la em voz alta.

As bandas de rock’n’roll são bons meios de comunicação. Usamos sistemas de som, vídeos, letras de músicas e T-shirts para espalhar a nossa mensagem. Essa mensagem pode ser apenas musical, mas também pode ser algo mais substancial. Já tinha estado ligado a outras campanhas para o Greenpeace e para a Anistia Internacional e achei que o primeiro passo seria atrair o nosso público para que ele se sentisse envolvido no projeto. Fiz um pouco disso, mas onde realmente fui útil foi na América, trabalhando do outro lado, sem dar a cara. O Jubileu 2000 já estava em marcha na Europa, mas ainda não se tinha estabelecido da América. E, em 1998/99, já seria muito tarde para começar a conscientizar as pessoas. Tinha de me dirigir diretamente aos responsáveis e tentar incutir-lhes as idéias.

Tal como já disse, venho de uma longa linhagem de vendedores ambulantes por parte da minha mãe. Não tenho dificuldades em “vender” idéias, desde que acredite nelas. Mas estas idéias traziam consigo uma dose de responsabilidade que eu nunca tinha experimentado. Não queria cometer nenhum erro. O primeiro contacto que estabeleci acabou por ser o mais importante de todos. Estava entre os 10 mais importantes de toda a minha vida. Não só porque a Eunice Shriver era uma das mulheres mais extraordinárias na América, fundadora da Special Olympics e irmã mais velha de JFK (ela própria poderia ter sido Presidenta), mas também porque catalisou uma relação entre mim e o seu filho Bobby, sem o qual eu teria passado anos, em vez de meses, tentando encontrar o meu caminho por Washington DC. Bobby Shriver tinha um sentido bastante apurado de dever cívico, uma paixão pela justiça social e modéstia suficiente para saber quando um Kennedy deve participar numa reunião ou ficar à espera no corredor. Não estou brincando. Um democrata inteligente, foi ele quem me aconselhou a descobrir o seu homólogo de direita. Através do seu cunhado, Arnold Schwarzenegger, fomos apresentados ao congressista republicano John Kasich. Este conselho e estes contatos provaram ter sido cruciais. Ele estava dentro do assunto. O homem que, mais do que qualquer outro, devido á sua experiência familiar, sabia quantas camadas deveriam ser retiradas até se chegar ao coração vivo da política americana.

A primeira pessoa que visitei foi Bill Clinton. Tentei descrever-lhe a idéia pedindo-lhe para imaginar a noite de Ano Novo, 1999: o barulho dos tambores, o toque das trombetas; iria ser um desfile ridículo, a menos que estivesse agregado a uma grande idéia como esta. Ele concordou, mas até o presidente precisava da aceitação do seu gabinete e do congresso para intervir no processo político de DC. Houve uma série de reuniões com 20, 30, 40 e, eventualmente, centenas de pessoas dos estatutos mais baixos, funcionários do governo, membros do Congresso de direita e de esquerda, pessoas como Pete Peterson, do Conselho de Relações Externas, todas as pessoas desde David Rockefeller a Larry Summers, secretário de estado das Finanças, cuja assinatura aparecia em todos os dólares daquele tempo. Qualquer pessoa que pudesse colocar obstáculos no nosso caminho, encontrava-se conosco antes que pudesse sequer tentar. Economistas, macro-economistas, jornalistas, grupos religiosos, papas, padres, evangelistas. É absurdo, para não dizer obsceno, que a celebridade seja uma porta pela qual assuntos tão importantes têm de passar antes de os políticos se aperceberem deles. E lá está. O Jubileu não conseguia entrar em alguns destes escritórios, mas eu conseguia. E sabia que a idéia poderia propagar-se se lhe fosse dada a oportunidade.

Decorreu todo o tipo de reuniões surrealistas. Eu coloquei uns óculos de sol com lentes azuis para rezar o rosário com o Papa, 40 mil apoiadores do Jubileu circundaram a cidade de Colônia durante a reunião do G8 e Bob Geldof criticou severamente, em alto e bom som, o Primeiro-Ministro britânico. Tendo-se Tony Blair esquivado dos insultos perguntando, com o seu perfeito sotaque de Oxford: “O U2 vai lançar um Greatest Hits?” Geldof atacou ainda Jim Wolfensohn, Presidente do Banco Mundial, um homem muito elegante e, na verdade, a pessoa que deu início á Iniciativa de Alívio da Dívida dos Países Pobres Altamente Endividados, conhecida, de forma pouco poética, como HIPIC. Não era, obviamente, um compositor. Num encontro com ele, Sir Bob não se poupou os esforços, deixando o Presidente do Banco Mundial preso à cadeira da sua suíte num hotel em Londres. Numa tentativa de dissimular o abuso, o Presidente disse-me: “Quando é que foi eleito Sir?” Ao início, fiquei confuso. Entretanto percebi que, na opinião de Jim Wolfensohn, era impossível que um Sir o pudesse tratar tão mal e que, na verdade, o Bob devia ser o Bono e eu devia ser Sir Bob.

Este tipo de situação ocorria todos os dias. Lembro-me de Horst Koehler, mais tarde Presidente da Alemanha, mas na ocasião Presidente do FMI, estar sentado ao meu lado e ter dito: ‘Então, é um rock star.Ganha muito dinheiro e então finalmente ganha uma consciência’. E eu tive de lhe explicar que já tinha uma consciência antes de me tornar uma estrela de rock. E de um congressista se ter referido a mim como “Bonio”, de se recusar a olhar-me nos olhos e dizer: “Todos olham para mim como se eu fosse Scrooge, mas este dinheiro vai todo pelo buraco abaixo. Vão estar sempre comprando mais torneiras de ouro e correntes do golfo para ditadores chorões. Eu tento impedir, mas não consigo porque não consigo ter gente do meu lado. Basta tomarem um copo com o Bonio no meio da noite e desaparecem todos do meu lado. Está esperando que me sente aqui e sorria para você?” Mais tarde, esse congressista em particular tornou-se advogado. Prefiro conversar com indivíduos miseráveis e grosseiros, nunca nos mentem.

Fui ter com Jesse Helms, um senador Republicano de direita nos Estados Unidos. Bastava mencionar o nome dele aos democratas que ficavam logo todos em alvoroço. Encontrei-me com ele no senado para saber por que razão impediam a anulação da dívida e, após algum tempo de conversa para chegarmos ao fundo da questão, ele ficou bastante emotivo e de lágrimas nos olhos lamentando a situação da África. Tornou-se óbvio que por baixo daquela aparência de guerreiro insensível estava um coração quente que se comovia. Foi primeira página do Wall Street Journal: Jesse Helms choroso ao ouvir histórias de crianças africanas. Ninguém conseguia acreditar. Quando estava indo embora, ele pôs os braços à minha volta e abençoou-me como um amigo patriarca judeu ao seu filho. Fiquei muito comovido… Deus estava avançando. Confesso que tenho um fascínio pelas pessoas mais velhas. A idade traz consigo uma certa autoridade e, nas sagradas Escrituras, receber a benção de um homem mais velho era algo de muito importante.

*Páginas 284, 288, 291 e 292 – Fotos