Bono publica excerto exclusivo de sua autobiografia
Bono publica excerto exclusivo de sua autobiografia
25 de setembro de 2022
Bono publica excerto exclusivo de sua autobiografia
Bono publicou um excerto exclusivo de sua autobiografia Surrender no The New Yorker. O texto tem o título “From Boy to Bono”. Leia a tradução!
Vicky
Editora do U2 Brasil

Bono publicou um excerto exclusivo de sua autobiografia Surrender no The New Yorker. O texto tem o título "From Boy to Bono". Traduzimos o texto a seguir:

"Tenho poucas lembranças da minha mãe, Iris. Meu irmão mais velho, Norman, também não as tem. A explicação simples é que, em nossa casa, depois da sua morte, ela nunca mais foi falada novamente.

Temo que isso tenha sido ainda pior. Que na realidade, raramente pensávamos nela novamente.

Nós éramos três irlandeses, e evitávamos a dor que sabíamos que viria ao pensar e falar sobre ela.

Iris rindo. Seu humor sombrio e seus cachos escuros. Risadas inapropriadas eram sua fraqueza. Meu pai, Bob, um trabalhador dos correios, havia levado a ela e a sua irmã Ruth ao balé, apenas para que ela o envergonhasse com seus suspiros e risadas abafadas sobre os protetores que os dançarinos usavam sob os seus collants e que deixavam as suas genitálias salientes.

Eu me lembro, devia ter por volta de sete ou oito anos, eu era um menino se comportando mal. Iris me perseguindo, acenando com uma longa vara, uma que a sua amiga havia prometido que seria capaz de me disciplinar. Eu, temendo pela minha vida enquanto Iris me perseguia pelo jardim. Mas quando eu me atrevi a olhar para trás, ela estava rindo sem parar, com nenhuma parte dela acreditando naquele tipo de punição medieval.

Eu lembro de estar na cozinha, olhando Iris passando o uniforme escolar do meu irmão, o zumbido distante da furadeira elétrica do meu pai vindo do andar de cima, onde ele estava pendurando uma prateleira que havia feito. De repente o som da voz dele, gritando. Um som inumano, um ruído animal. “Iris! Iris! Chame uma ambulância!”

Correndo para os fundos, para as escadas, nós o encontramos no topo, segurando a ferramenta nas mãos, aparentemente tendo perfurado a sua própria virilha. A broca havia escorregado, e ele estava petrificado de medo de que talvez nunca mais voltasse a “funcionar” novamente. “Eu me castrei!”, ele chorou.

Eu estava em estado de choque de ver o meu pai, o gigante do número 10 da Cedarwood Road, caído como uma árvore. E eu não sabia o que isso significava. Iris sabia, e ela também ficou chocada, mas não era esse o olhar que estava em seu rosto. O seu olhar era o de uma bela mulher segurando a sua risada, e então o olhar de uma bela mulher não conseguindo mais reprimir o riso que a dominava. A risada era como a de uma garota ousada na igreja cujo esforços para não cometer um sacrilégio só fazem com que a risada seja ainda mais alta quando finalmente chega.

Ela pegou o telefone, mas não conseguia ligar para o 999 (número de emergência da Irlanda). Meu pai conseguiu passar pelo seu sofrimento na carne. O casamento deles sobreviveu ao incidente. A memória fez uma morada.

Iris era uma mulher prática e frugal. Ela podia trocar o plugue da tomada de uma chaleira elétrica e costurar – cara, ela sabia costurar! Ela se tornou costureira em meio período quando o meu pai se recusou a deixá-la trabalhar como faxineira para a companhia aérea nacional, Aer Lingus, juntamente com os seus melhores amigos da vizinhança. Houve uma grande discussão entre eles, a única briga de verdade da qual me lembro. Eu estava no meu quarto ouvindo sorrateiramente a discussão enquanto a minha mãe levantou a sua voz contra ele: “você não é meu dono.”, sendo incisiva em sua defesa. E para ser honesto, ele não fez nada. O pedido acabou tendo sucesso onde a ordem direta falhou, e ela desistiu da chance de trabalhar com os seus colegas no aeroporto de Dublin.

Bob era católico; Iris protestante. O casamento deles tinha escapado ao sectarismo da Irlanda na época. E porque Bob acreditava que era a mãe quem deveria ter o voto decisivo na escolha da instrução religiosa dos filhos, nas manhãs de domingo meu irmão, Iris e eu erámos deixados na Igreja Protestante de St. Canice, em Finglas. Então meu pai participava da missa em um Igreja Católica que ficava no caminho, também, confusamente chamada de St. Canice.

Havia menos de uma milha entre as duas igrejas, mas na Irlanda dos anos 1960 uma milha era um longo caminho. Os “Prods” naquela época tinham as melhores músicas, e os católicos tinham o melhor equipamento de palco. Meu amigo Gavin Friday costuma dizer que o Catolicismo Romano era o glam rock das religiões, com as suas velas e as cores psicodélicas, suas bombas de fumaça de incenso e o tilintar dos pequenos sinos. Os “Prods” eram melhores com os sinos maiores, dizia Gavin, “porque eles podem comprá-los!”

Para uma boa parte da população da Irlanda nos anos sessenta e setenta, riqueza e protestantismo andavam juntos. Estar envolvido com qualquer um deles, era colaborar com o inimigo – isto é, a Grã-Bretanha. De fato, a Igreja da Irlanda foi o berço dos insurgentes mais famosos da Irlanda, e ao sul da fronteira sua congregação era modesta em todos os sentidos. Meu pai era enormemente respeitoso com a comunidade da igreja com a qual se casou. E assim, tendo orado sozinho na estrada, ele voltava da sua St. Canice para esperar do lado de fora da nossa St. Canice e nos levar para casa.

Iris e Bob haviam crescido no centro da cidade de Dublin, perto da Oxmantown Road, uma área conhecida localmente como Cowtown porque toda quarta-feira era a sede da feira que trazia os produtos diretamente do campo para a cidade. Nas proximidades do Phoenix Park, Bob e Iris adoravam caminhar e observar os cervos caminhando livremente. Excepcionalmente para um Dub, o termo que é utilizado para se referir aos residentes do centro da cidade, Bob jogava críquete no parque, e a sua mãe, a vovó Hewson, escutava a BBC para ouvir os resultados da partida dos times ingleses.

O críquete não era um jogo da classe trabalhadora na Irlanda.  Acrescente a isso o fato de que o meu pai economizava para comprar discos das suas óperas favoritas, levava a sua esposa e a irmã dela ao balé – e não permitindo que Iris se tornasse a “Senhora Mops”, como ele costumava dizer, mesmo que os amigos delas fossem, você pode sentir um certo ar esnobe em Bob. Seus interesses não eram comuns aos da sua rua, isso é certeza. Na realidade, toda a família talvez fosse um pouco diferente. Meu pai e seu irmão Leslie nem sequer falavam com um forte sotaque de Dublin. Era como se sua voz de telefone fosse a única que usavam.

O nome de família do meu pai, Hewson, também é incomum, pois é um nome protestante e católico. Certa vez, vi em um pub elegante uma sentença de morte pela decapitação de Carlos I, com John Hewson entre os signatários. Um republicano? Bom. Um dos capangas de Oliver Cromwell? Mau.

Como criança eu podia ver que os Hewsons tendiam a viver dentro das suas mentes, enquanto os Rankins estavam mais à vontade com os seus corpos. Os Hewsons podiam pensar demais. Meu pai, por exemplo, podia não visitar seus próprios irmãos e irmãs, caso eles não quisessem vê-los. Ele precisava ser convidado. Minha mãe - uma Rankin – dizia a ele para simplesmente ir até eles. Seus parentes estavam sempre aparecendo na casa um do outro. Qual é o problema? Nós somos uma família. Rankins estavam rindo o tempo todo, se os Hewsons não conseguem fazer isso, temos aqui o tipo de comportamento para manter a todos entretidos.

Há outra diferença. A família Rankin é suscetível ao aneurisma cerebral. Das cinco irmãs Rankin, três morreram de aneurisma. Incluindo Iris.

Minha mãe me ouviu cantar em público apenas uma vez. Eu interpretei o faraó no musical de Andrew Lloyd Webber “Joseph and the Amazing Technicolor Dreamcoat.” Era na realidade uma parte com algo como uma imitação de Elvis, e foi isso que eu fiz. Vestido em um dos terninhos brancos da minha mãe com algumas lantejoulas prateadas coladas, eu entortei o meu lábio e coloquei para quebrar. Iris riu e riu. Ela parecia surpresa que eu pudesse cantar, que eu fosse a um musical.

Como uma criança muito pequena, desde quando eu pude alcançar o teclado, eu ficava hipnotizado pelo piano. Havia um no salão da nossa igreja, e qualquer momento a sós com ele era um tempo que eu considerava sagrado. Eu passaria séculos descobrindo quais sons as teclas e os pedais poderiam fazer. Eu não sabia o que era reverberar. Eu não podia acreditar como uma ação tão simples podia transformar o salão da igreja em uma catedral. Eu lembro da minha mão encontrar uma nota e depois procurar outra nota para rimar com ela. Eu nasci com melodias na minha cabeça, e eu estava procurando uma maneira de ouvi-las no mundo. Iris não estava procurando por esses tipos de sinais em mim, então ela não os viu.

Quando minha avó decidiu vender seu piano, minhas dicas como ele se encaixariam em nossa casa não podiam ter sido menos sutis. “Não seja bobo, onde nós iriamos colocá-lo?” foi a resposta. Sem piano para a nossa casa. No quarto. Quando eu fui entrevistado na St. Patrick’s Grammar School, no centro da cidade, o diretor perguntou se eu teria algum interesse em me juntar ao seu famoso coral de meninos. Meu coração de onze anos se agitou. Mas Iris, sentido o meu nervosismo, respondeu por mim: “De jeito nenhum. Paul não tem interesse em cantar.”

Minha presença na St. Patrick’s acabou não sendo nada feliz para mim e nada feliz para eles. E durou apenas um ano. A gota d’água envolveu uma professora de espanhol conhecida como Biddy, que eu estava convencido que sempre colocava linhas a mais no meu dever de casa sem ao menos olhar para ele. Quando o tempo estava bom, Biddy costumava tirar o seu almoço de um Tupperware transparente e comê-lo sentada em um banco à sombra da magnifica catedral. O acesso ao parque não era permitido aos alunos durante o horário do almoço, mas eu descobri uma maneira de pular as grades e um dia, com a ajuda de alguns cumplices, joguei cocô de cachorro dentro da sua lancheira. Sem nenhuma surpresa, no final do semestre Biddy queria esse merdinha fora do seu caminho, e foi sugerido que eu poderia ser mais feliz em outro lugar. Em setembro de 1972, eu me matriculei na Mount Temple Comprehensive School.

Mount Temple era a liberdade. Um experimento coeducacional não denominacional – algo notável naquele tempo da conservadora Irlanda. Ao invés de uma classe A, uma classe B, e uma classe C, as seis classes do primeiro ano eram D, U, B, L, I e N. Você era encorajado a ser você mesmo, a ser criativo, a usar suas próprias roupas. E havia garotas. Também usando suas próprias roupas.

Eram necessárias duas viagens de ônibus para chegar a Mount Temple, uma longa jornada até o centro da cidade vindo do noroeste de Dublin e depois para o nordeste. Ao menos que você pedalasse, que foi o que eu e meu amigo Reggie Manuel começamos a fazer. Era uma encosta sem fim de uma colina, nós aprendemos a pegar carona na van do leiteiro. Eu não me lembro se alguma vez eu me senti tão livre quanto naqueles dias indo de bicicleta para escola com o Reggie. Se o tempo não nos permitisse pedalar, nos deixando com o árduo caminho do ônibus, a compensação viria às sextas-feiras, quando nós poderíamos parar no centro da cidade depois da escola e visitar a loja de discos Dolphin Discs, na Talbot Street. Lá foi onde eu vi pela primeira vez álbuns como “Raw Power” do Stooges, “Ziggy Stardust” de David Bowie e “Transformer” de Lou Reed.

A única razão pela qual eu não estava na loja de discos às 17:30 no dia 17 de maio de 1974, foi que uma greve de ônibus fez com que tivéssemos que ir à escola de bicicleta. Já estávamos em casa quando as ruas ao redor da Dolphin Discs foram explodidas por um carro-bomba na Talbot Street, e por outro na Parnell Street, e outro na South Leinster Street, tudo em poucos minutos, um ataque coordenado feito por um grupo extremista leal ao Ulster que queria que o Sul soubesse como era o terrorismo. Uma quarta explosão aconteceu em Monaghan, e o número final de mortos foi de 33 pessoas, incluindo uma jovem mãe grávida, toda a família O’Brien, e uma francesa cuja a família havia sobrevivido ao Holocausto.

Naquele mesmo ano, em setembro, nós celebramos o aniversário de 50 anos de casamento dos meus avós. Eles dançaram e cantaram Michael Finnegan. O pai da minha mãe, “Gags” Rankin estava tão bêbado, que seus filhos temiam que ele acordasse durante a noite e não chegasse ao banheiro. Eles deixaram um balde ao lado da cama. E meu avô deixou a vida chutando aquele balde, com um ataque cardíaco fulminante na noite do seu aniversário de casamento.

“Iris desmaiou. Iris desmaiou,” as vozes dos meus primos e tios sopraram como uma brisa através das árvores. “Ela vai ficar OK. Ela só desmaiou.” Antes que eu, ou qualquer pessoa, pudesse pensar, meu pai já estava com Iris no banco de trás do seu Hillman Avenger, com meu irmão Norman ao volante.

Fiquei com os meus primos para me despedir do meu avô, e então voltamos todos para a casinha de tijolos vermelhos da minha avó, no número 8, Cowper Street, onde a pequena cozinha se tornou uma fábrica de sanduíches, biscoitos e chá. Estes dois cômodos com banheiro ao ar livre pareciam conter milhares de pessoas.

Mesmo que seja o funeral do vovô, e mesmo que Iris tenha desmaiado, somos crianças, primos, correndo e rindo. Até que Ruth, a irmã mais nova da minha mãe, irrompe pela porta. “Iris está morrendo. Ela teve um AVC”.

Todo mundo se aglomera. Iris é uma das oito do nº 8: cinco meninos e três meninas. Eles estão chorando, lamentando, lutando para ficar de pé. Alguém percebe que estou aqui também. Tenho quatorze anos e estranhamente calmo. Digo às irmãs e irmãos da minha mãe que tudo vai ficar bem.

Três dias depois Norman e eu fomos levados para o hospital para nos despedirmos. Ela está viva, mas mal. O clérigo local Sydney Laing, cuja filha estou namorando, está aqui. Ruth está do lado de fora do quarto do hospital, chorando, com meu pai, cujos olhos têm menos vida do que os de minha mãe. Entro na sala em guerra com o universo, mas Iris parece pacífica. É difícil imaginar que uma grande parte dela já tenha partido. Nós seguramos a mão dela. Há um som de clique, mas não o ouvimos.

Meu pai era um tenor, um tenor muito bom. Ele conseguia comover as pessoas com seu canto, e para comover as pessoas com a música você primeiro tem que se emocionar com ela. Na sala de estar, parado em frente ao aparelho de som com duas das agulhas de tricô da minha mãe nas mãos, ele regia: Beethoven, Mozart, Elisabeth Schwarzkopf cantando “Four Last Songs” de Richard Strauss. Ou “La Traviata”, olhos fechados, perdido em devaneios.

Ele não conhece exatamente a história de “La Traviata”, mas a sente. Um pai e filho em desacordo, amantes separados e reunidos. Ele sente a injustiça do coração humano. Ele é atingido pela música.

Depois da partida da minha mãe, Cedarwood Road se tornou sua própria ópera. Três homens que costumavam gritar para a televisão agora gritando um com o outro. Vivemos em fúria e melancolia, em mistério e melodrama. O tema da ópera é a ausência de uma mulher chamada Iris, e a música aumenta para mantar o silêncio que envolve a casa e os três homens – um dos quais é apenas um menino.

Meu irmão Norman sempre foi um consertador, um engenheiro, um mecânico que conseguia desmontar as coisas e montá-las novamente. O motor da sua motocicleta, um relógio, um rádio, um aparelho de som. Ele adorava tecnologia e adorava música. Um grande toca-fitas de rolo da Sony cromado ocupava um lugar de destaque em nossa “boa sala”, e Norman foi suficientemente empreendedor para descobrir que o de rolo para rolo significava que ele não precisava continuar comprando música. Se ele pegasse emprestado um álbum de um amigo por uma hora, esse seria dele para sempre.

Porque Norman, sete anos mais velho do que eu, já era um homem trabalhador quando eu estava em Mount Temple, o gravador era meu único companheiro quando eu chegava em casa da escola. Alguns finais de tarde eu chegava com tanta fome, mas logo esquecia quem eu era e onde eu estava. Eu ficava na frente do aparelho de som, assim como meu pai, e deixava a casa pegar fogo enquanto ouvia ópera. Ópera-rock: “Tommy” do The Who. A fumaça do carvão encheria a cozinha e logo se infiltraria na sala de estar.

Norman me ensinou a tocar guitarra. Ele me ensinou o acorde C, o acorde G e, muito mais difícil, o acorde F, que exige segurar duas cordas com um dedo. Especialmente difícil quando as cordas estão bem longe do braço da guitarra, como estavam na guitarra barata de Norman. Mas com sua orientação aprendi a tocar “If I Had a Hammer” e “Blowin’ in the Wind”. Eu aprendi como tocar “I Want to Hold Your Hand”, “Dear Prudence” e “Here Comes the Sun” na guitarra do meu irmão.

Norman e eu brigamos muito. Ele chegava do trabalho e eu ficava assistindo televisão, sem fazer a minha lição de casa, não tendo preparado o chá. Ele me daria um tapa. Eu devolveria. Um dos dois acabaria no chão.

Ele tinha um temperamento difícil, mas ele era um rapaz inteligente, como o seu pai, e deveria ter ido para universidade. Ele ganhou uma bolsa de estudos para uma instituição chamada simplesmente High School, uma prestigiada escola secundária Protestante que se inclinava na direção da matemática e da física, mas era mais conhecida como a alma mater de William Butler Yeats. Mas Norman nunca se sentiu muito confortável lá com o seu uniforme de segunda mão, seus livros de segunda mão e a sua religião de segunda mão do seu pai católico. Ele era otimista por natureza, exceto quando a melancolia o dominava. Então realmente o tinha.

O meu desempenho escolar melhorou logo que eu cheguei a Mount Temple, e eu estava me dando melhor lá do que na St. Patrick’s, mas quando Iris morreu eu perdi todo o meu foco. Os professores lamentavam minha caligrafia rabiscada, especialmente comparando com as cartas que meu pai escrevia a eles sobre mim que sempre estavam em uma caligrafia tão bonita. Embora eu adorasse Poesia e História, eu não me sentia tão esperto quanto os meus amigos. Eu temia que no fundo fosse apenas mediano. Eu até mesmo parei de jogar xadrez, o que eu adorava, porque comecei a pensar que isso não era legal. E eu não tinha mãe para me dizer que nada legal era “legal”.

Meu pai me ensinou a jogar xadrez um verão que passamos na cidade litorânea de Rush, nos arredores de Dublin, na costa norte, onde vovô Rankin transformou um velho vagão de trem em um chalé de verão.  Não havia muito o que fazer na “cabana”, exceto por  alguns jogos de cartas que não me interessavam. Eu estava interessado em meu pai, e se ele não estivesse jogando golfe, lendo ou saindo com seus cunhados, eu tentaria chamar sua atenção. Lembro-me de caminhar pelo cais e sentir o calor de sua mão no meu pescoço.

No começo eu achei que ele estava me deixando ganhar, mas eventualmente eu descobri que não. Era assim que eu tirava a atenção dele do quer que fosse e colocava em mim. Vencê-lo, vencê-lo! Bob não gostava de perder, e talvez tenha sido aí que aprendi que eu também não gostava.

Bob amava música, mas, em sintonia com a sua esposa, ele nunca sugeriu que nós tivéssemos um piano. Nem ao menos ele perguntou como a minha música estava indo. Ele falava sobre ópera, mas não com os seus filhos. Por anos depois que Iris morreu, ele fazia uma serenata pela sala com “For the Good Times”, de Kris Kristofferson. Ainda me pergunto se ele estava cantando do ponto de vista da minha mãe: “Eu vou me dar bem, você vai encontrar outro”. (“I’ll get along, you’ll find another.”)

Uma vez ele me disse que eu era um barítono que pensava que era um tenor. Um dos seus melhores golpes, e bem preciso. Eu também tinha a essência de um performer e, acima de tudo, performers não gostam de ser ignorados. Talvez Bob não me levasse muito a sério quando adolescente porque ele podia ver que eu estava fazendo um ótimo trabalho. Mas ainda posso ouvir sua voz na minha cabeça, especialmente quando canto.

Naquela época, quando me lembrava de comer, voltava de Mount Temple com uma lata de carne, uma lata de feijão e um pacote de Cadbury’s Smash. Cadbury’s Smash era comida de astronauta, mas comer aquilo não me fazia me sentir como o Rocket Man de Elton John. Na verdade, comer aquilo, era o mesmo que não comer nada na verdade. Mas ao menos era fácil. Você apenas colocava água quente naquelas bolinhas secas e elas se transformavam em purê de batatas. Eu os adicionava à panela em que havia acabado de cozinhar o feijão enlatado e a carne enlatada. E eu comia meu jantar diretamente da panela.

Ainda não gosto de cozinhar ou pedir comida, o que acaba por me levar de volta a quando eu tinha que cozinhar minhas próprias refeições quando adolescente. Foi quando a comida era apenas combustível. Costumávamos comprar um refrigerante barato chamado Cadet Orange porque tinha açúcar suficiente para te manter acordado, mas era tão ruim que você não queria colocar mais nada na boca por horas. Eu costumava beber isso quando tinha gastado too o meu dinheiro para comida com algo mais importante – como “Hello Hooray” de Alice Cooper, por exemplo. Algumas vezes a compra podia ser “Abraxas” do Santana ou “Paranoid” do Black Sabbath – exigiam que eu investisse todo o dinheiro das compras da família.  Nessas ocasiões, confesso, às vezes eu tinha que pegar emprestado toda a lista de compras da loja e não devolver nada. Foi fácil, exceto por um pedaço de pão fatiado, que foi difícil esconder no meu suéter. Mas eu não me sentia bem com isso e, aos quinze anos, já havia abandonado uma vida de crimes.

Em 1975, Norman conseguiu um emprego no aeroporto de Dublin. Aeroportos nos anos 70 eram ainda mais glamurosos do que TV a cores, ainda mais se você fosse um piloto. Norman havia se candidatado para ser um piloto, mas a sua asma o desclassificou do programa de trainee, então ele acabou trabalhando na Cara, o departamento de computação da Aer Lingus. Computadores, Norman disse a si mesmo, eram ainda mais glamurosos do que os aeroportos, e ele se comprometeu a aprender a pilotar pequenos aviões, assim que ganhasse algum dinheiro.

Milhares de observadores de aviões irlandeses apareciam no aeroporto de Dublin todo final de semana para ver as máquinas voadoras gigantes desafiando a gravidade decolando para algum outro lugar. Cada voo era um lembrete de que havia uma saída da Irlanda, se fosse necessário. Nos anos cinquenta e sessenta, mais de meio milhão de irlandeses compraram passagens só de ida.

A sorte para meu pai, Norman e eu no número 10 da Cedarwood Road, a apenas três quilômetros do final da Pista 2, foi que Norman conseguiu convencer seus chefes a permitir que ele levasse para casa o excedente de comida da companhia aérea. As refeições às vezes ainda estavam quentes quando ele as trazia em latas de alumínio para a nossa cozinha, para serem aquecidas no forno por vinte e três minutos a trezentos e sessenta e cinco graus Fahrenheit. Era uma comida exótica: bife de pernil e abacaxi, uma comida italiana chamada lasanha ou um prato em que o arroz não era mais um pudim de leite, mas uma experiência saborosa com ervilhas. Eu disse a Norman que essa era a pior sobremesa que já comi.

“Isso não é sobremesa, e a propósito a metade do mundo come arroz diariamente.”

Norman sabia coisas que outras pessoas não sabiam. Se meu pai e eu estávamos orgulhosos por meu irmão ter nos livrado da necessidade de comprar mantimentos ou mesmo cozinhar, depois de seis meses o sabor residual do estanho era tudo o que conseguíamos lembrar. À noite, passei a comer flocos de milho com leite frio.

Eu pensava que outra salvação culinária tinha chegado, desta vez na Mount Temple, quando foi anunciado o fim da era das lancheiras. Imagine uma fanfarra de trombetas e aplausos – era assim que estávamos todos animados com o início da era dos jantares escolares. Mas eu estava apenas respirando aliviado brevemente. Os jantares escolares, o diretor explicou, não seriam preparados na cozinha da escola. Ela não era grande o suficiente. Ao invés disso, ela seria entregue por vans em pequenas caixas... diretamente do maldito aeroporto de Dublin! Elas deveriam ser aquecidas, ele anunciou orgulhosamente, a trezentos e sessenta e cinco graus por vinte e três minutos nos novos fornos que o conselho escolar havia pagado por.

Eu nunca tinha andado de avião, mas meu romance com o voo já havia acabado. Comida de avião para o almoço e comida de avião para o jantar era mais do que qualquer estrela do rock em ascensão poderia suportar. Com o tempo, com minha banda, eu ganharia os céus, e naqueles primeiros voos da Aer Lingus eu olhava pela janela e tentava ver Cedarwood Road. Quando finalmente deixei esta pequena cidade e pequena ilha e subi acima desses campos planos, minha mente se encheu de lembranças da cabine telefônica na rua, adolescentes com garrafas e corações quebrados, vizinhos doces e amargos e  os galhos vibrantes cheios de flores de cerejeira do lado de fora de nossa casa. Nesse ponto a aeromoça chegaria e colocaria uma daquelas pequenas bandejas de lata bem na minha frente."

Surrender será lançado mundialmente no dia 1 de novembro. No Brasil, a Editora Intrínseca será responsável pela publicação em português. Até o momento, não temos informações sobre o início da pré-venda. Qualquer novidade informaremos aqui e em nossas redes sociais. Fiquem ligados!

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