Bono: “Em público, eu tinha diferentes eus e todos eles eram muito irritantes" | U2 Brasil
1 de outubro de 2018 · Bono · eXPERIENCE + iNNOCENCE Tour
Bono: “Em público, eu tinha diferentes eus e todos eles eram muito irritantes”
VickyPostado por Vicky

A jornalista Chrissy Iley entrevistou com exclusividade o U2 para a revista britânica Sunday Times. Nesta primeira parte da extensa conversa, Bono falou sobre sotaques, mortalidade e muitos eus.

Eu estou em pé ao lado do palco do Boston Garden. Acabo de acompanhar um show da eXPERIENCE + iNNOCENCE do U2, e isso abrange o poder otimista da inocência e a loucura da experiência. É uma vida olhando para frente e para trás, por entre a escuridão e a luz. É pessoal e é político. É a vida de Bono. Para o encerramento, não há um momento gratuito, não há aquecimento de adulação do público. É Bono sozinho com uma única lâmpada, olhando para uma réplica da casa em que ele cresceu. Uma casa de bonecas de Bono.

Ele sai do palco pingando – um pouco ofegante. Jaqueta preta, calça preta, botas pretas e uma toalha. Nós mergulhamos em um SUV preto. Outros SUVs estão alinhados, mas somos o número um.

Uma escolta policial nos flanqueará a medida que avançamos pela cidade à noite em direção às entranhas do hotel. Mas este momento não é apenas sobre o segredo e o protocolo de ser um rockstar. Trata-se de olhar para Bono totalmente gasto e revelando a sua alma. Ele fala em frases sobre como ele está na circunferência da estranheza, sobre a reconstrução do “American Dream”, nada fazendo muito sentido. Ele está acabado por esse show.

Eu seguro a sua mão, o aperto dele é fraco, mas intenso. Aparentemente, muitas pessoas detestam Bono. Eu posso te dizer que ninguém odiou Bono mais do que Bono detestou a si mesmo, mas falo mais sobre isso mais tarde. Ele pode ver a contradição, uma consciência feroz escancarando o sucesso galopante.

Normalmente é a sua esposa Ali que o recolhe do palco e o coloca no palco. Uma vez foi Oprah. Hoje sou eu, então se você não gosta de Bono, pare de ler isso agora. Nós somos amigos. Eu o conheço há 20 anos, desde que nos conhecemos comendo ovos poche no Savoy há vários álbuns. Eu o vi em primeira mão entrando na Casa Branca durante o regime de Bush, eu o vi aparecer em estádios com seu grande carisma e voz alta, eu o vi em casa como pai, como marido. Mas eu nunca o vi tremer quando sai do palco.

Eu não percebo o segurar de sua mão como um sinal de afeto. Era mais como se ele precisasse de uma mão para ampará-lo. Seus olhos pareciam tristes e cansados atrás de seus óculos de lente lilás. Ele tinha uma cara esfarrapada, que lhe dava definição, mas também vulnerabilidade. Era como se o seu rosto estive manchado.

Estamos agora nas entranhas do hotel Ritz Carlton, mas poderia ser qualquer estacionamento em qualquer lugar do mundo. Ele é escoltado até um elevador que o levará ao seu andar, ficará em seu quarto. Eu vou em outro elevador para o lobby, onde há um bar agradável e várias pessoas que trabalham para o U2 estão começando a se reunir.

The Edge desce com a sua esposa Morleigh Steinberg, que é consultora criativa para o show, mas nenhum outro membro da banda além dele. Eles estão todos na casa dos 50 anos. Têm estado na estrada por 3 anos consecutivos e um senso de que eles precisam preservar sua energia para o show da próxima noite.

Adam Clayton, o baixista, desistiu do álcool nos anos 90 em torno do mesmo período em que desistiu também das supermodelos. Larry Mullen, o baterista, nunca foi um party animal. Ele é muito reservado, e agora também tem uma hora de fisioterapia depois do show, por causa de toda aquela bateria usando seus braços, pescoços e costas.

No dia seguinte, eu estou na suíte de cobertura de Bono. O serviço de quarto entrega o almoço com frango e legumes. Ele retira a cobertura metálica dos pratos e os bate como címbalos.

Há um barulho de choque no início do show, que ressoa o som ensurdecedor de um scanner de ressonância magnética. É sobre enfrentar a morte. Bono diz: “Não é um assunto muito sexy, mortalidade, é? Mas o que é sexy em estar em uma banda de rock and roll e falar que a sua próxima música é sobre a morte.”

É tão sexy quanto trabalhar em um círculo de embaraço e constrangimento. Ele concorda alegremente. “Sim, está certo. O final do show é quando você volta para sua casa, a casa em que você cresceu. Você acha que é quem você é. Mas eu não estou mais na Cedarwood Road (a rua na qual ele cresceu em Dublin). Agora estou enfrentando uma direção diferente. Parece pretensioso dizer que somos uma ópera disfarçada de banda de rock?”

Sim, ele concorda. “Quando a ópera surgiu, aquilo era punk rock. A ópera apenas se tornou pretensiosa. Mozart tinha uma atitude punk rock.”

Talvez não digamos que é ópera. Digamos que há grandes assuntos durante o programa do show e não apenas um monte de músicas. “Certo”, diz Bono. Em uma das partes do show na noite anterior, onde ele estava dizendo como ele perdeu a cabeça junto com Adam (a saída de trilhos de Adam é sabida e bem documentada) e então ele continuou, “e então aconteceu com The Edge e Larry mais tarde”. Edge o respondeu com um olhar desconfiado.

Quando Edge saiu do limite? “Ok, eu estava dizendo isso apenas porque estava me sentindo apenas um pouco travesso. Eu não gosto de vê-los parecendo presunçosos. The Edge, um zen presbiteriano parecia um pouco irritado e Larry parecia me olhar perguntando “isso pode ser verdade?”

Ele está rindo, mas está pensando seriamente em mudança. “Quem gostaria de permanecer o mesmo, é sobre isso que estou falando. Se o sucesso significa que você troca as relações reais por pessoas centradas na hipermídia, então talvez o sucesso não seja bom. Mas isso não é o que o sucesso fez por mim. Você tem um momento de tontura no qual acha que a sua labuta diária é de interesse público em geral, então você percebe que realmente não é.”

É um pouco complicado se apresentar e pensar que talvez você não seja do interesse do público em geral. Ele se corrige: “Quero dizer, no começo da década de 80, me lembro de ser muito autoconsciente e pensar que jornal que escolhia comprar na banca iria me definir. E eu lembro de sair com Chrissie Hynde, que era totalmente ela mesma o tempo todo. Demorei alguns anos para chegar nesse mesmo patamar.”

Ele acha que não foi ele mesmo por décadas. “Em público, eu tinha diferentes eus e todos eles eram muito irritantes. Nós fomos assistir ao filme Killing Bono e eu comentei com The Edge sobre o ator que me interpretou, ‘em que sotaque ele está falando? Esse não é o meu sotaque.’ E The Edge respondeu, ‘não é, mas é o sotaque que você usava para entrevistas.'”

O ator deve ter pesquisado entrevistas antigas. “É como se as pessoas tivessem uma voz de telefone, uma personalidade de telefone e eu tinha uma nos anos 80.”

Nós dois falamos um pouco com as nossas vozes de telefone por um tempo e rimos um do outro.

“O que aconteceu com o meu sotaque é que eu tive uma mãe Protestante e um pai Católico. Protestantes em Dublin tendem a ter menos sotaque por causa de sua influência anglicana.”

Esse sotaque era propositalmente estranho para que as pessoas não pudessem definir se ele era protestante ou católico?

“Eu não sei. Para ser claro, eu não sabia que estava fazendo isso, mas se você tem um ouvido musical, pode assumir qualquer sotaque.”

Apresento a ele o famoso teste de sotaques, que é para falar com um sotaque georgiano, galês e paquistanês e, em seguida, repito e vejo quanto tempo demora até que todos se tornem iguais. E depois disso é australiano, neozelandês e sul-africano. E porque eu estou ganhando, ele sugere que façamos Dublin Northside e Dublin Southside.

“Eu tinha medo desde cedo quando me mudei para o lado sul de Dublin, para que meus filhos pudessem ter o sotaque do lado sul e soar como pirralhos mimados. Uma noite, eu estava indo para a casa com Ali, para nossa casa em Temple Hill, quando eu ouvi uma festa vindo da estrada, então eu disse ‘Ali, vamos lá descobrir como são os nossos vizinhos’. Ela disse ‘você não pode simplesmente entrar lá’, eu apenas dei uma risada. Ela foi para cama e eu subi a rua e entrei na festa. Algumas músicas legais, algumas músicas não tão legais, algumas pessoas amigáveis, outras me encararam. Um deles, vamos apenas dizer que se chamava Cormac, e ele tinha um moicano e uma certa atitude e decidiu me dar um pouco de tristeza. Eu sou então um cantor de sucesso em uma grande e antiga banda de rock, isso é em 1988. E eventualmente, ele diz em um sotaque de Dublin 4: ‘Sou um anarquista’, eu o agarrei e disse: “Cormac, você é um fodido de um agente imobiliário”, porque eu sabia que era nisso que ele havia crescido.”

“No dia seguinte, Ali me perguntou como a festa havia sido, e eu disse que havia exatamente a porcentagem de idiotas para pessoas muito legais como aquela com a que cresci em Cedarwood Road, nada diferente.”

O ofuscante sol de verão entra e nós estamos submersos no hálito quente dos umidificadores. Bono não toca no almoço.

Em uma recente entrevista à Rolling Stone, Quincy Jones disse que quando ele vai para a Irlanda, Bono sempre insiste que ele fica em seu castelo porque é tão racista lá. Que castelo é esse?

“Eu amo Quincy. Eu o vi recentemente e dei a ele todo o meu o amor que eu tenho em meu coração, mas eu não tenho um castelo.”

Ele tem um reduto vitoriano no final do seu jardim no qual Quincy pode ter ficado. A maioria dos convidados faz isso. Quando eu fiquei lá, havia uma parede assinada pelo presidente Clinton e Hillary. “Agora que penso nisso, ele me disse que teve alguns incidentes racistas na Irlanda nos anos 60 e eu disse que não é assim agora. Venha e fique conosco.”

Quincy também disse que o U2 nunca mais faria um bom álbum porque era muita pressão. “Sim, e Paul McCartney não sabia tocar baixo. Estamos todos tendo esses colapsos aparentemente. A maioria das pessoas aceita que o álbum que acabamos de criar Songs Of Experience, está lá em cima com os nossos melhores trabalhos. Ele certamente teve as melhores críticas.” O single “Love Is Bigger Than Anything In Its Way” é atualmente o número 1 da Billboard Dance Chart, “o que não atingíamos há muito tempo”.

Apesar do que ele diz, deve haver muita pressão para criar músicas como “One” ou “With Or Without You” ou “New Year’s Day” ou “Pride (In The Name Of Love)”. Músicas que definiram décadas.

“Uma das razões pelas quais o U2 é tão considerado nos EUA é porque artistas negros como Quincy Jones sempre nos defenderam. E de volta ao começo, Donna Summer. Nossa música não estava enraizada no blues, eles acharam isso fresco, mas também estranho. De certa forma é mais difícil argumentar se você é um garoto indie do que um negro americano.”

Confira amanhã a segunda parte da entrevista.


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