Foi definitivamente um rock de arena, alto e claro, enchendo o Pacific Coliseum em um som crescente. The Edge toca um riff de guitarra distorcida de duas cordas, a bateria de Larry Mullen Jr. aterrisava com força sobre o contratempo, o baixo de Adam Clayton pulsava abaixo, e Bono estava desencadeando alguns "woo-oohs" com um falsete triunfante. O U2 tomou conta do Pacific Coliseum para uma série de ensaios em grande escala para a sua próxima turnê "Innocence + Experience Tour", que começa no Rogers Arena no dia 14 de maio. A banda estava no meio do ensaio de "Elevation". O palco era uma geometria austera de lâmpadas fluorescentes; a canção foi triunfante. "Uau, isso foi tocado há quatro anos?", disse Bono no último acorde. "Não está mau!"
U2, a banda irlandesa que lançou seu álbum de estreia em 1980, está prestes a testar seu lugar no presente. Como a Apple deu milhões de cópias grátis em 2014 do mais recente álbum do U2, "Songs of Innocence" – 13º disco de estúdio e seu primeiro desde "No Line on the Horizon", em 2009 - a banda não tem nenhuma maneira de avaliar o impacto do álbum através de medidas convencionais de vendas. O álbum também enfrentou uma reação furiosa on-line a partir dos "nonfans" que ressentiram quando o álbum apareceu em suas bibliotecas de música ou no iCloud como "comprado", mesmo ele sendo lançado de forma gratuita. Até que eles executem as canções na turnê, o U2 não vai saber com certeza se alguém deu alguma atenção especial ao seu trabalho. "A ideia de que possa haver toda uma gama de público lá fora que ainda não goste da gente está realmente nos transformando", disse Bono. "Isso nos faz querer sair e encontrá-los se eles estão lá." Ele fez uma pausa. "Eles podem não estar lá."

A "Innocence + Experience Tour" diminui as escalas para arenas após a gigantesca turnê "360º" em 2009-2011 – uma turnê que esgotou estádios em todo o mundo com um palco enorme e altivo. A nova turnê usa vídeo de alta resolução e traz uma abordagem radical em relação ao novo som de arena; é tecnologicamente mais experiente e determinado a ser íntimo, e a reação sobre a Apple, aparentemente, não afetou o grupo. A turnê já vendeu 98% dos 1,2 milhões de bilhetes disponíveis para seus 68 concertos, incluindo lotações esgotadas para toda Europa e, em Nova York, durante os primeiros seis dos oito shows no Madison Square Garden, a partir de 18 de julho. Mas o U2 espera alcançar mais lealdade e ânsia por ouvir as músicas mais antigas.
"Songs of Innocence" tem um duplo mandato e, por vezes, contraditórios. Tem como o objetivo o impacto para a massa pop com canções cheias de detalhes, memórias e individuais locais. A confiança do U2 foi abalada pela resposta do público ao álbum "No Line on the Horizon". Apesar do sucesso da "360º", o álbum no qual ela é baseada não deu nenhum hit que o U2 poderia ter valorizado. Canções como: "Where the Streets Have No Name" e "Pride (In the Name of Love)" se fundem com a popularidade, com um sentido implícito da solidariedade de mente elevada.
Então a banda resolveu agir com disciplina quanto à composição, construindo noções básicas de guitarra acústica mais do que experimentos sonoros em "No Line On The Horizon". Isso também remete a jovens produtores da geração atual. Mesmo que as letras do novo álbum abstenham-se do simples, muitas vezes olhando para trás. "Gostamos de pensar que nós podemos fazer músicas que são contemporâneas para as rádios, mas que na verdade nós surgimos de um lugar diferente", disse Clayton. "Nós temos que escrever a partir da perspectiva desta jornada: uma jornada de 35 anos."

A banda continua perplexa com aquilo que Bono chama de "parto difícil" de "Songs of Innocence". Quanto a isso, os membros dizem que pareceu um meio de alcançar ouvintes de um modo mais direto possível. "Apenas para se entrar na consciência do público neste tempo de agora, é realmente difícil, então estávamos pensando em um meio de lançar o álbum para as pessoas", disse The Edge nos bastidores. "A perspectiva de lançá-lo e simplesmente vê-lo desaparecer numa toca de coelho que é algo que acontece com muitos álbuns hoje em dia , seria devastador para nossas almas.
Um mês após o lançamento, Apple anunciou que 26 milhões de pessoas tinham feito o download do álbum inteiro. Mas o que U2 e Apple consideraram como um presente – a Apple pagou a Universal para dar o álbum de graça – foi tratado, numa reação rápida pela blogosfera, como um spam, uma intrusão nos aparelhos pessoais e um abuso de poder por uma imponente banda de rock e uma corporação de tecnologia. O U2 pediu uma desculpa parcial através de um vídeo de perguntas feito pelo Facebook, no qual Bono descreve o lançamento do álbum como "uma gota de megalomania, um toque de generosidade, um pouco de autopromoção, e um medo profundo de que essas músicas nas quais colocamos nossas vidas nos últimos meses, não fossem ouvidas. Eu acho que fomos um pouco barulhentos com tudo isso". A Apple ofereceu uma ferramenta de um clique para deletar o álbum.
Agora, Bono reflete: "Eu acho que a Apple e nós mesmos tivemos muita repercussão negativa que foi dirigida à Big Tech por saber muito sobre nós. Mas na verdade, a Apple não está muito interessada em cada pesquisa que você já fez ela está apenas interessada em sua música, então não é muito justo tratá-la dessa forma. E eu, como uma pessoa que há tempos é membro da Anistia Internacional, e todos esses crimes contra os direitos humanos, acho que isso foi como aqueles e-mails indesejados... e se isso está no topo de suas preocupações, ou ao menos na metade, então sua vida é realmente fantástica."

Kevin Weatherly, vice presidente sênior de programação da CBS Radio e diretor de programa da KROQ em Los Angeles fez uma previsão: "A turnê irá levantar muito interesse. Quando tudo for dito e tiver sido feito, as pessoas irão fazer uma revisita ao álbum. Qualidade sempre prevalece."
Apesar de ter sido dado de graça, a venda física da versão deluxe do álbum, a qual incluia algumas músicas extras e chegou em Outubro, conseguiu ficar no Top 10 da Billboard. Nielsen SoundScan disse que 101,000 mil cópias de "Songs of Innocence" foram vendidas. No entanto, a promoção do álbum foi abruptamente abandonada em Novembro, pouco antes do U2 começar uma semana completa no "Tonight Show Starring Jimmy Fallon", e anunciar a turnê que estava sendo esquematizada desde 2013. Isso aconteceu quando Bono teve um acidente de bicicleta no Central Park, onde fraturou a cavidade ocular, seu ombro, seu cotovelo e sua mão esquerda. "Eu realmente pensava que minha cabeça era mais dura que qualquer outra superfície com a qual eu entrasse em contato, mas eu não penso mais isso." Bono diz, nos bastidores. "Eu não tive um acidente com uma Harley-Davidson. Eu tive um acidente com uma bicicleta e fiquei todo quebrado. Não existe nenhuma glória nisso."
No palco na arena, Bono trabalhou com o espaço, com a segurança de um frontman de longa data, muitas vezes usando a sua mão esquerda para pegar o microfone e para apontar o dedo ao céu. Mas ele ainda está se recuperando. "Parece que eu tenho a mão de outra pessoa," ele diz, nos bastidores. Apontando para os seus dedos anelar e mindinho curvados, ele diz, "Eu não posso dobrá-los, e isso" – ele aponta para outra parte de sua mão – é como rigor mortis. Mas eles dizem que os nervos se curam mais ou menos um milímetro por semana, então em cerca de 13 meses eu devo ver se está voltando." Ele fez gestos com seu antebraço e cotovelo. "Está tudo entorpecido aqui, e isso aqui é titânio," ele disse. "O ombro está melhor, o rosto está melhor."
Ele levantou a mão novamente: "Mas isto é difícil pois eu não posso tocar guitarra." Após dizer isso, ele encarou os outros membros da banda e completou: "Aparentemente eles não se importam," com um meio sorriso no rosto.

Semana passada, o U2 conheceu a nova arena e seus equipamentos, e seu time de produção tentou alguns efeitos visuais, seguindo por encontros que cessavam qualquer possibilidade: uma sessão de orquestra para as baladas? Vídeos com imagens, ou telas coloridas? Como aparar tão vasto setlist? Bono era o que mais dava palpites, mas estava óbvio que o U2 estava determinado a trabalhar em consenso, atentos respeitosamente a cada ideia. "Os sons que mandam. Eles nos dizem o que fazer e eles dizem isso para todos que estão aqui," disse The Edge, durante um encontro no jantar. "Nós temos apenas que libertar as músicas e saber o que elas nos estão pedindo e dizendo-nos para fazer."
A ideia inicial era de dois concertos completamente diferentes, mas o U2 se preocupou com possíveis falhas ou em deixar alguns fãs achando que pegaram o "segundo melhor show". Isso começou semana passada, onde tais planos foram mudados e agora querem ter uma primeira metade relativamente fixa, para variarem na segunda metade – os shows serão separados por um intervalo pela primeira vez em uma turnê do U2. A banda também planeja trabalhar por todo o local onde farão seus shows. Através do piso, havia uma plataforma tripla: um largo palco retangular (uma linha que iluminada forma um "I" de Innocence), um palco menor ("E" de Experience), e entre os dois, uma passarela grande o suficiente para se transformar em um terceiro palco, que talvez seja um local no meio de telões de LED. "Aqui estão eles na arena, e nós queremos fazer com que pousem no colo do público," disse Es Devlin, a designer de produção, que também já trabalhou com Kanye West e Lady Gaga.

A inovação mais impressionante da turnê não é imediatamente óbvia. O U2 mudou seu sistema de som para arena: uma matriz oval de 12 alto-falantes que emite som para todo lugar da arena uniformemente. Quando andei por toda a arena enquanto a banda tocava, a música era uniformemente transparente e forte, o volume constante da frente para trás. "Se você está tentando emitir o som para toda a dimensão do local a partir do palco, o local às vezes ganha e você fica preso," diz The Edge. "Com isso, você não tem que tê-lo tão alto – você está recebendo som de boa qualidade de algo que está muito mais perto de você do que o normal."
A banda chama a passarela como o palco divisor porque é isso que ele faz no meio do concerto – transformando-se em uma barreira que separa o público completamente. A divisão é parte da narrativa subjacente do concerto, uma passagem da inocência à experiência carregada por lembranças irlandesas. "Songs of Innocence" é o álbum mais especificamente autobiográfico do U2; seus títulos incluem "Cedarwood Road", onde Bono cresceu, e "Iris", em homenagem à sua mãe, que morreu quando ele era jovem. No início do concerto, a banda é iluminada por uma lâmpada balançando solitária, como Bono estava na sala em Cedarwood Road, 10, onde ele começou a tocar música. Há uma outra ideia também, Bono explicou: "Depois de toda a escala e escultura da ‘360’, para começar a próxima turnê com apenas uma única lâmpada."
O ponto de transição do concerto, sombrio, – "o fim da inocência," Bono chama isso – é "Raised by Wolves", uma canção do álbum sobre um carro bomba em Dublin, que matou 33 pessoas em 17 de maio de 1974. "Nós crescemos em uma cultura onde o terrorismo aleatório foi um horror. É agora parte da vida quotidiana de todo o mundo," disse Gavin Friday, um dos amigos de infância de Bono, que liderou a banda pós-punk dos Virgin Prunes na década de 1970, e que há muito tempo trabalhou com o U2 nos palcos. Na arena, Mr. Friday e um engenheiro de som estavam montando um conjunto de áudio de explosões, discursos e notícias em torno da explosão de 1974. "A forma como o álbum foi lançado, a Apple ofuscou a coisa toda, de modo que o álbum nunca foi escutado realmente," disse ele sem rodeios. "Disseram-me para fazer a música totalmente real."
No intervalo, Bono disse, meio sério, "as pessoas vão andar pelos corredores, não para comprar as camisetas, mas se perguntarão 'Para onde foi a diversão?'" A segunda metade do concerto quebra a lacuna e, fiel ao passado do U2, promete cura e amor. "Quando nós desfazemos essa divisão, temos que estar muito juntos," disse Bono.
Os bastidores da arena estavam movimentados: construções, programação de vídeo, edição de som, restauração, um cômodo de ensaio com outro set de instrumentos. Uma equipe da HBO estava filmando um documentário da turnê. E lá havia mais uma coisa no canto com cortinas: o de gravação, com um estúdio móvel. Lá estava o próximo álbum do U2, "Songs of Experience", tomando forma.

Durante o forçado período afastado, após o acidente, Bono esteve escrevendo canções, algumas vezes com The Edge para tocar os acordes que ele não podia. "No final de um álbum, você está no limite em termos de composição, arranjos, e performance", disse o guitarrista. "É uma pena quando você precisa parar para iniciar uma segunda fase, que é se apresentar ao vivo. Desta vez nós não pararemos. Bono está tentando captar esse momento com nitidez." Novos produtores se uniram à banda em Vancouver, inclusive Andy Barlow, do grupo eletrônico Lam, que participou na criação de novas faixas – em progresso – do U2, como "Red Flag Day", "Civilization" e "Instrument Flying", como Bono entusiasmadamente canta consigo mesmo. "Estamos mantendo a disciplina nas músicas e deixando de lado os parâmetros do som. Elas são bem básicas, coisas terrestres, irreverentes. Não são temas sublimes. Uma das coisas que a experiência traz para nós é ser completo do momento. Qual é o momento? Música pop."
Mas, no meio disso, a banda tem uma turnê para cuidar. "Em 14 de maio nós estaremos a ponto de descobrir se o álbum foi bem sucedido e se o experimento foi bem sucedido," disse Bono. "Se as pessoas souberem as letras, e sentirem as músicas, então o experimento deu certo."



