Especial Bono 60: Um tal de setembro de 1976
Especial Bono 60: Um tal de setembro de 1976
26 de abril de 2020
Especial Bono 60: Um tal de setembro de 1976
No segundo post para o aniversariante de Maio, saiba um pouco da juventude de Bono e como ele foi levado até chegar a um certo grupo em 1976.
Vicky
Editora do U2 Brasil

Espero que tenham gostado do episódio piloto da vida do jovem Paul Hewson, o primeiro capítulo do nosso especial. Longe de querer “inventar a roda” – afinal estamos falando de um jovem senhor de quase 60 anos e que faz parte da nossa vida por uma boa quantidade de anos também – tentei fugir de colocar os pontos mais conhecidos de como tal música foi feita para Iris ou Bob, elencar fatos, mas o foco foi voltado para a formação em si do que foi criando o estofo para que Paul se transmutasse em Bono.

E agora vamos chegar à parte em que os garotos se encontraram em uma certa cozinha no bairro de Artane, localizado no norte de Dublin, na tarde de um sábado, 25 de setembro de 1976.

Vou começar novamente por uma pequena aula de História (me desculpem, mas tem duas coisas que eu sou: jornalista musical e historiadora frustrada. Do Jornalismo eu tenho o diploma, de História passei na Federal, mas não quis estudar naquela época, quem sabe um dia), acho que vale a pena entender o cenário no qual os personagens estão inseridos para que possa ser entendido melhor cada um deles.

Litoral irlandês durante a onda de calor em 1976.

A Irlanda em 1976 passou por uma grande onde do calor com 3 meses de calor intenso durante o verão, e podem acreditar que isso é um baita de um acontecimento para um país no qual é registrado chuva por mais de 300 dias durante todos os anos. Houve cinco dias seguidos nos quais os termômetros atingiram incríveis 32 graus (Rio de Janeiro mandou um abraço). O litoral irlandês (tanto no lado da “Irlanda livre” quanto da Irlanda do Norte) ficou abarrotado de gente. A cerveja ficou escassa (pense em um problema desses!), alguns alimentos faltaram e houve registro de ataque de tubarões pois eles se aproximaram muito da costa. Quando terminou, a onda de calor de três meses causou a pior seca em 150 anos.

Em outubro do mesmo ano, o quinto presidente irlandês renunciava devido a questões relacionadas ao Ministério da Defesa e é sucedido por Patrick Hillery. Conflitos entre católicos e protestantes, ataques a bomba sendo registrados em ambos os lados da fronteira. Mairead Maguire e Betty Williams, fundadoras do Community for Peace People, uma organização dedicada a incentivar a resolução pacífica dos problemas na Irlanda do Norte, receberam o Prêmio Nobel da Paz. Em Dublin, a primeira Mesquita é aberta.

E a música? 1976 estavam em meio aquela década em que literalmente tudo poderia acontecer. Tínhamos visto nos Estados Unidos, em especial, a grande influência colorida da disco music, o rock passava por tantas mudanças e nuances com nomes como Sex Pistols chutando portas (e bundas, mas o primeiro single veio só depois daquele sábado de setembro, então fica pra depois essa), o punk rock... uma salada, mas deixa falar um pouco mais abaixo sobre isso.

Em março de 1976, a EMI decidiu relançar todos os 22 singles lançados pelos Beatles na Inglaterra e mais uma nova versão de Yesterday. Como resultado, as 23 músicas apareceram nas paradas do país ao mesmo tempo. Em abril, os Ramones lançaram o seu primeiro álbum de estúdio com o mesmo nome da banda. Foi o ano em que o Abba apresentou o hit eterno de todas as festas independente de quantos anos você tenha, Dancin Queen.

Mas vamos voltar à Irlanda que o textão de introdução já está bem grande.

A banda Them

Temos uma controvérsia para definir qual foi o primeiro grande nome do rock na Irlanda, já que a primeira banda a talvez ter assumido os holofotes para si foi o Them, que tinha ninguém menos do que Van Morrisson entre os seus membros, só que as suas raízes estão em Belfast, Irlanda do Norte, mas como isso na real não importa e o cara é gênio, vamos colocá-los aqui. A primeira “estrela do rock” vinda da Irlanda: Rory Gallagher, ex-guitarrista da banda Taste e para muitos com um talento capaz de rivalizar com Eric Clapton. Nessa época uma banda chamada Horslips, acabou por criar um novo estilo o rock celta misturando tradicionais músicas irlandesas com hard rock e um pouco do toque do recém-nascido punk. Eles foram a primeira banda a decidir não deixar o seu país para alcançar o sucesso, se rendendo a mudar a sua base para lugares como Londres ou Nova York (conhecemos outra banda que fez isso). Mas provavelmente a primeira banda a realmente romper as barreiras das paradas foi o Thin Lizzy com a sua versão da tradicionalíssima e clássica em todos os pubs Whiskey in the Jar (é, ela não é do Metallica não).

Algumas outras bandas surgiram depois desse cenário na Irlanda, nomes como The Radiators from Space e The Boomtown Rats, mas as carreiras decolaram depois de 1976.

Foi o ano também que a Apple Computers foi fundada nos Estados Unidos e que Send in the Clowns, de Stephen Sondheim venceu o Grammy de canção do ano (espero que tenham sacado as referências).

Mas voltemos ao nosso personagem, que vinha de dois anos perdidos da sua vida após a morte de sua mãe, e com uma situação muito longe de melhorar com seu pai e irmão dentro de casa.

O gosto do revoltoso Paul, continuavam a se expandir para além de nomes como T. Rex, David Bowie, Beatles, Elvis e Tom Jones e tornando-se mais eclético. Como tantos adolescentes de sua geração, em 1976, toda a visão musical de Paul foi acometida pela descoberta da primeira onda de novas estrelas "punk" americanas como Ramones, Patti Smith e Television, que acabariam por lançar seus monstruosos (no sentido mais poderoso e positivo) álbuns de estreia em algum momento daquele ano. Enquanto isso, na ilha ali do lado, havia bandas ainda obscuras, mas incrivelmente fascinantes como Sex Pistols e The Damned. Os primeiros tiveram o seu single de estreia Anarchy in the UK, rapidamente retirado de venda pela sua própria gravadora a EMI após uma onda de protestos contra a sua furiosa letra.

Joan Jett (Runaways), Debbie Harry (Blondie), David Johansen (New York Dolls), and Joey Ramone (Ramones). Foto de Roberta Bayley.

Apesar de agora, uns bons anos depois termos músicas em homenagem a Joe Ramone, elogios a The Clash, devoção a Patti Smith e mais uma série de águas passadas por baixo desta ponte, Paul à princípio não caiu de amores pelos nomes da nova onda música que surgia, taxando os punks como “falsificadores e imitadores”. No entanto, a aura de “faça você mesmo” e especialmente a questão de que um músico não precisava ser realmente habilidoso para criar a sua música acabou por fazer com que nascesse nele uma nova visão e aquela sensação de que ter a sua própria banda talvez não fosse tão inviável. Além de claro algo que depois se tornaria um dos traços mais significativos de Bono nos palcos aquela atitude de “hey olhe pra mim” deliberadamente provocativa e arrogante na medida certa.

Outra descoberta do jovem Paul foi Bruce Springsteen (pense só nisso, o Bono de 60 anos olhando o Paul e seus vinis dos 16 anos) que havia lançado em 1975 o seu agora lendário álbum Born to Run, com letras que falavam sobre as paisagens e o tal do sonho americano o que acabaria por ecoar anos depois em um tal The Joshua Tree. Uma outra influência que acabaria por ecoar apenas anos depois, mas com a qual Paul teve seu primeiro contato também nesta época foi Bob Dylan.

Paul também era um leitor ávido – característica que depois apareceria em diversos momentos das suas letras – uma das influências que apareceriam bem cedo quando assumisse o palco e também tivesse conhecida as suas letras são as obras de autores como Oscar Wilde (leia O Retrato de Dorian Gray), William Golding com o seu O Senhor das Moscas e toda a obra do magnífico poeta e dramaturgo irlandês William Butler Yeats.

“.Uma manifestação levemente violenta e agressiva e algum tipo de experiência religiosa a seguir. Porque no desespero, eu rezava para Deus. E eu descobri que mesmo no silêncio, algumas vezes Deus te responde. A resposta pode não ser a que você está querendo ouvir, mas sempre há uma resposta se você é sério, se você está preparado para deixar fluir. De qualquer maneira, eu tinha que seguir esses sentimentos, ou instintos, para saber onde eles poderiam me levar.”

A religião estava presente no dia a dia também, e não era apenas no seu, mas de tantos outros em tantos lugares do mundo que passavam pela onda de uma renovação na fé cristã fortemente influenciada pelo movimento Carismático, o que possibilitou que talvez em uma das primeiras ocasiões Protestantes e Católicos pudessem se unir em estudos bíblicos guiados por uma visão mais “leve” e voltado para o encontro de Deus através da felicidade. Os estudantes da Mount Temple tinham as suas reuniões, da qual Paul também participava.

Bono (ou Paul) continuava cada vez mais envolvido com os seus amigos do Lipton Village, o que nem de longe agradava a Bob que mais uma vez enxergava essa vida do seu filho mais novo de uma maneira distante dos princípios e distanciava os dois filhos entre si.

“A vida dentro da Village era como lugar imaginário, algum lugar que desenvolvemos em nossa imaginação para nos dar um estilo de vida alternativo quando jovens. Crescemos estudando pessoas nas esquinas. Riamos da maneira como conversamos e das expressões que eles faziam. Zombamos do mundo adulto e concordamos que nunca cresceríamos porque tudo o que víamos a nossa volta parecia uma grande bobagem.”

Dublin em 1976

Em um país no qual até mesmo a contracepção era ilegal, e onde era comum se casar jovem e ter uma numerosa família, as visões alternativas de mundo como essa dos garotos da Lipton Village não eram vistas com bons olhos e muito menos encorajadas. Os membros do Village não se achavam apenas transgressores e queriam se ver longe disso, eles tinham escolhido “nascer novamente” com novos nomes e imagens.

Mas vamos voltar aos corredores da Mount Temple até o dia que um tal garoto colocou um tal anúncio e aí o resto vocês já conhecem.

Apesar de sua popularidade na escola, a carreira acadêmica geral de Paul em Mount Temple estava longe de brilhar, ele era um aluno “eficiente”, fazendo o necessário para se manter dentre os aprovados sem realmente estar entre os “10 mais” ou com um caminho claro a ser traçado. No entanto, ele sabia que tinha qualificação e uma inteligência nata que talvez o levasse a uma vaga em alguma universidade, talvez pra uma graduação em Artes – isso é claro, se ele realmente estivesse interessado em seguir em frente.

Como sempre, ficou a cargo do pai fazer as perguntas realmente difíceis. Tendo em mente a tendência de seu filho de abandonar as coisas assim que perdesse gosto pela novidade, Bob deixou claro que o financiamento contínuo para sua educação estava condicionado ao seu desempenho e dedicação.  E isso acabou funcionando como uma boa ferramenta motivacional e Paul passou a se dedicar o suficiente para conseguir uma lugar no curso de Artes da University College. Inicialmente encantando e entusiasmado, acabou por se desiludir apenas duas semanas depois desta conversa. o rapaz foi reprovado no Exame de Certificado em Irlandês, incluindo no exame oral de Gaélico, o que impossibilitou que pudesse seguir em frente.

A perspectiva de voltar à escola para refazer o exame amaldiçoado seria suficiente para frustrar as ambições da maioria dos adolescentes, que poderiam estar mais tentados a simplesmente sair e conseguir um emprego naquele momento. Mas esse era o tipo de briga que Paul saberia que jamais venceria contra o seu pai.  Além disso, estar um ano à frente de todos os seus companheiros de escola, fazia com que ele não se sentisse apenas bem em estar de volta, mas que também poderia assumir uma certa posição de líder entre os demais. Sem contar que, com apenas um tópico para se preocupar em seu calendário escolar pelo próximo ano, fazia com que sobrasse muito tempo para se dedicar a muitos outros interesses. E claro que esses incluíam, andar por aí com seus amigos do Village, tentar conquistar uma das garotas mais cobiçadas da escola e quem sabe tentar se tornar um rockstar.

Larry Mullen nasceu em 1961, portanto era um ano mais novo do que Paul, e vinha de uma família com um background católico irlandês tradicional. Cresceu com a sua família – pais e as duas irmãs Cecilia e Mary - na Malahide Road, também em Dublin. Desde muito jovem a música esteve presente na sua educação, tendo sido o piano seu primeiro instrumento, bem como o das suas irmãs, mas logo ele ficou entediado e migrou para o estudo da bateria, tendo ganho seu primeiro instrumento como presente da sua irmã Cecília que comprou por apenas 7 libras e lhe deu de presente uma bateria usada. E ela era a sua maior incentivadora, sempre fazendo pedidos para que o irmão mais novo tocasse músicas para ela e o incentivando a prática, além de ser a dona de uma coleção de discos de vinis que ele adorava ouvir com nomes como David Bowie e Roxy Music. Após a morte do seu professor de bateria Joe Bonnie e de ter abandonado as aulas por nem se acostumar com o método da filha e sucessora do seu antigo tutor, Larry passou a estudar sozinho até que seu pai permitiu que ele ingressasse na Artane Boys' Band, uma banda militar que fazia com que Larry tivesse que manter seus belos cabelos loiros muito bem cortados, já que era uma banda marcial. Larry entrou para a Mount Temple, por decisão de seu pai, que viu naquela instituição vários cursos diferenciados e que poderiam proporcionar uma profissão ao garoto, que não era um entusiasta dos livros. Como Larry adorava tocar e a escola tinha um curso de música, pensou que seria uma ideia desenvolver essa habilidade.

David Evans, nasceu em Barking, cidade localizada ao leste de Londres em 08 de agosto de 1961. Seus pais eram originários do País de Gales. David tinha um irmão mais velho, Dick, e uma mais nova, Gil. Devido a carreira do seu pai como engenheiro, a família Evans tinha vivido em vários locais, até em quem 1962 se estabeleceram em Malahide. David começou a tocar guitarra aos 8 anos, e em 1976 juntamente com seu irmão Dick já era um guitarrista bem talentoso, influenciado por diversos nomes da música, especialmente o aqui já citado Rick Gallagher. Ambos eram alunos de Mount Temple.

Assim como David, Adam Clayton também nasceu na Inglaterra, mas na cidade de Oxfordshire, em março de 1960. Seu pai era piloto, o que não fazia disso uma rotina muito fácil para a família. Foi decido então que Adam, sua irmã Sarah Jane e seu irmão Sebastian, deveriam estudar em um colégio interno. Adam fazia questão de voltar para a casa todo final de semana, mesmo quando os seus pais estavam em algum ponto fora do país, e odiava mais do que tudo o retorno ao internato nas tardes de domingo. O seu comportamento e a sua insatisfação acabaram fazendo com que fosse expulso do colégio, mas mesmo assim, seu já agora lendário chame convenceu a sua mãe para que comprasse o sue primeiro baixo por 52 libras, como um incentivo para que desse mais duro. Depois de não se adaptar a uma série de escolas particulares, os Claytons decidiram não gastar mais dinheiro com a educação do seu filho e acabaram por o colocarem na Mount Temple, uma escola com uma filosofia mais “compreensiva”.

Larry havia sido incentivado pelo seu tutor Colm McKenzie a montar uma banda, mas como fazer isso? De uma maneira tímida e despretensiosa um anúncio no mural da escola, ninguém sabe exatamente o texto, mas se sabe que num sábado de setembro, no número 60 Rosemount Avenue, em uma cozinha de Artane, Dublin: Paul, David, Adam, Larry, além de Dick Evans, Ivan McCormick e Peter Martin se reuniram...

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