Adam: "Nós precisamos de uma pausa agora" | U2 Brasil
5 de outubro de 2018 · Adam · eXPERIENCE + iNNOCENCE Tour
Adam: “Nós precisamos de uma pausa agora”
VickyPostado por Vicky

Na terceira parte da entrevista à revista britânica Sunday Times, Adam fala sobre sua rotina para manter a condição física, a batalha de Larry contra suas dores, o álcool e as saudades de casa.

Eu estou de volta no Boston Garden Arena. Nas entranhas sinuosas do edifício, a equipe de produção do U2 se entrelaça perfeitamente. Eles fazem isso todos os dias e a maioria deles faz isso há anos com um nível de lealdade inquestionável. A maioria da equipe de produção é composta por mulheres, mulheres que fazem as coisas. Elas andam de calça jeans escura, ou calças cargo e Converse.

Eu me aventurei a primeira vez em um bastidor do U2 há algumas décadas atrás. Havia um uniforme diferente – um maxi vestido e sapatos de plataforma flutuantes, e as mulheres corriam, não oscilando em sapatos vertiginoso pelos estádios. As mulheres não precisam mais correr de salto e é condição que o U2 aceita.

Eu encontro Adam Clayton no bunker das guitarras embaixo do palco. Ele me apresenta uma tour do que acontece ali. O técnico de guitarras de The Edge, Dallas Schoo, está se debruçando sobre as 33 guitarras de The Edge, 25 que ele usa todos os dias. Os baixos são menos numerosos – cerca de 18, mas elas se destacam em brilho e Clayton lhe deu nomes.

Um deles, roxo com glitter e alça que ele chama de Phil Lynott e uma outra alça mais gótica que ele chama de The Cure. Eles estão todos alinhados, prontos para a ação. Nós subimos de fato ao palco. Eu olho para a vasta e vazia arena e, em seguida, subo na longa e fina gaiola que balança. É onde eles realizam um pedaço do show. Os lados da gaiola também funcionam como uma tela para os vídeos de realidade virtual e dos filmes políticos. Eu não gosto de alturas ou espaços fechados e Clayton, sempre o cavalheiro, me ajuda a descer.

Ele está vestindo uma camisa Westwood T e Sandalwood. Seu corpo está marcado, impressionante. Ele gosta de malhar. E tem 58 anos. Nós passamos por algumas cortinas improvisadas para fazermos a nossa entrevista, que acontecerá ao mesmo tempo que ele faz sai fisioterapia. Logo ele está nu, exceto por uma toalha. O fisioterapeuta está em turnê com a banda e Clayton recebe sua mensagem antes de cada show.

“Eu treino muito – eu corro e levanto peso pela manhã de modo a me ajudar a deixar mais forte para carregar o baixo e há várias outras peculiaridades ocupacionais que afetam o corpo. Eu tenho que ter certeza que eles não evoluam para problemas reais. Foi um pouco chocante descobrir que coisas que você podia fazer nos seus vinte e trinta anos em termos de ser um músico, quando você chega aos quarenta e cinquenta anos, causam lesões por esforço repetitivo.”

Ele quer dizer túnel do carpo? Ele está tocando seu baixo e seus dedos não se movem.

“Exatamente. Mas na verdade, para mim, um problema maior é o que ele faz com os meus quadris e a parte inferior das costas, ombros e pescoço. Você fica tão travado que não consegue se mexer. Quando você sobe ao palco, não quer sentir essas coisas. ”

Hargen, o fisioterapeuta, é alemão, e ele fala com um sotaque germano-irlandês. Ele tem mãos fortes que parecem saber o que estão fazendo. Assistir alguém sendo massageado é quase meditativo.

“Isto é. Você garante que seus canais estejam abertos quando você estiver no palco. Você não quer pensamentos aleatórios passando pela sua mente.”

É claro, houve um tempo nos anos 90 no qual Clayton estava cheio de pensamentos aleatórios e excessos aleatórios. O educado cavalheiro se tornou selvagem. Ele se apaixonou por Naomi Campbell. Sua “parte masculina” era a capa da Zoo TV, sua timidez inerente substituída pelo exibicionismo desenfreado. Ele percorreu um longo caminho desde então. Ele é casado com Mariana Teixeira de Carvalho, uma advogada de direitos humanos e tem um bebê recém-nascido. Alba e seus vícios terminam em exercícios, camisas de grife e o cheiro perfeito de sândalo.

E ele é muito mais do que isso. Ele é um músico espetacular e ele é dono do palco. Seu suporte para o baixo parece longe de estar apertado ou machucado. Ele fica contente quando conto sobre o show de 10.000 horas.

“Ah sim, de Gladwell.” Ele sorri. Pensamentos aleatórios vêm a minha mente.

Por que parece normal entrevistar um homem que está nu, exceto por uma toalha, falando sobre a perfeição sonora?

“Eu uso somente 6 ou 7 baixos. Edge usa 30 diferentes. Ele é aquele que está buscando a perfeição sonora. Quando começamos de 1976 em diante, o som punk da banda era a coisa mais agressiva e poderosa que um adolescente podia ouvir e todos os baixistas eram estrelas. Era muito mais legal do que a guitarra, então daquele ponto de vista eu também era. Nós também somos um pouco mais misteriosos pelas costas. Eu sou um grande fã de baixo e bateria. Eu percebo que é uma espécie de nicho. Hoje em dia, os discos mais modernos são os baixos e baterias programados e sintetizados. Não é real.”

Clayton gosta das coisas reais. “Larry tem necessidades especiais porque há 40 anos ele está batendo em algo que vem resistindo a ele. Ele tem que fazer fisioterapia uma hora antes do show e uma hora depois. Ele está com dor e seus músculos precisam funcionar corretamente. A bateria é a coisa mais fisicamente debilitante que você pode fazer. Estas são coisas que você faz nos seus vinte e trinta anos. É o equivalente a uma carreira esportiva em que você não deveria estar passando dos 35 anos de idade, mas ninguém sabia que, quando o rock n roll começou, ninguém percebeu que poderia ser uma longa carreira. Eu acho que os bateristas de jazz dos anos 30 e 40 poderiam ter descoberto isso e essas pessoas provavelmente não estavam fazendo o suficiente para ter médicos para ajudá-los. Eles provavelmente se medicavam com heroína.

E ele alguma vez se medica? “Se meu pescoço está travado e dolorido eu tomo um Aleve (remédio semelhante ao Paracetamol).”

No palco ele parece puro e solto, mas agora eu aprendi que é preciso muita massagem. Três turnês consecutivas tiveram um efeito acumulativo. Não continuará assim.

“Acho que não. Tem sido bom para a banda tocar e para o acerto dela em si, e quando você vê o quanto Edge faz – cantando, tocando teclado, guitarra, percebe que Edge está no topo do jogo. Bono aprendeu a dominar, a dominar esses palcos, mas devemos fazer uma pausa. A turnê de Joshua Tree foi um trem desgovernado. Nós a estendemos porque estava fazendo um grande sucesso e se adequava ao nosso cronograma devido ao fato da data do lançamento do nosso álbum ter sido alterada. Muitas pessoas trabalham mais do que nós, mas acho que precisamos de uma pausa agora. Estar na frente do público entusiasmado é uma recompensa incrível, mas ficar longe de casa durante a maior parte do ano é cansativo. ”

Eu estava na estrada há apenas alguns dias e sinto um estranho tipo de exaustão em viajar e não estar sozinha. É uma coisa estranha. Clayton está ansioso por um feriado “com o resto dos rapazes no sul da França.” Todos eles têm casas próximas umas das outras na Riviera Francesa. Extraordinário que eles não só trabalhem juntos, mas queiram férias juntos.

“Sim, é perverso.” Isso é algum tipo de síndrome masoquista? “Não, o que realmente funciona é que nos conhecemos há muito tempo. Todos agora têm filhos e há todo um grupo de amigos que estão por perto, isso é uma espécie de comunidade e é bom passar algum tempo juntos.

Todos eles ainda gostam um do outro? “Sim, sou muito grato por isso. Eu ainda acho que Bono, Larry e Edge são as pessoas mais fascinantes da minha vida. Eles constantemente me surpreendem em termos de sua visão, seu desenvolvimento, sua inteligência. Quando você encontra pessoas assim, você as segura.”

“Nós não fizemos nada para envergonhar nossos eus mais jovens. Nós éramos jovens saindo dos subúrbios de Dublin que não sabiam nada, mas tinham um certo idealismo de como pensávamos que o mundo deveria ser e nós honramos isso. Nossas turnês sempre foram baseadas em mais do que efeitos, pancadas, wallop e efeitos de vídeo. Eles precisavam significar algo.”

“Você aprende as coisas conforme elas vão acontecendo. Tentar comer o mais saudável possível e estar em um estado de espírito saudável ajuda a você. Temos um chefe de cozinha que sabe o que devemos comer. Eu me tornei vegetariano. Eu ouvi muito sobre o processamento de carnes, e eu não confio em nada. Eu tenho altos níveis de mercúrio no meu sangue, então eu não como peixe. Eu não tenho bebido por vinte anos, e essa se tornou uma vida completamente diferente, mas percebo que outras pessoas estão indo na mesma direção. Agora existe uma teoria no Reino Unido de que até mesmo um drink pode ser prejudicial a você. Eu acho que isso seja um pouco extremista e um pouco destruidor, mas o álcool pode estar sendo pensado como um dos prováveis causadores de câncer.”

“Isso não é muito rock and roll. Mas esse talvez seja o velho rock and roll no qual era tudo sobre viver no momento, escrevendo linhas e bebendo shots… A noite toda. E agora o desafio é a longevidade e não perder a relevância.”

Depois do hotel, em uma área reservada no bar, ainda haverá champanhe, mas The Edge será o único da banda a socializar, afinal The Edge nunca fica nos extremos.

Clayton continua: “Quanto mais tempo você estiver fora, mais fácil se torna, mas eu nunca posso ficar em apenas um. Eu vejo pessoas que bebem meio copo de vinho e fico ansioso pensando ‘como você pode deixar a metade?’. Mas há aquelas pessoas que podem tomar apenas um copo e deixá-lo, e há pessoas que, a partir do momento que bebem um copo, se libertam e o humor muda. É uma indústria poderosa. Eu me pergunto se a legalização da maconha se tornará uma indústria competitiva.”

Eles trabalharam nos últimos quatro verões, seja em turnê ou gravando. Clayton aguarda com expectativa pelo tempo em família e aproveitar o primeiro aniversário de sua filha. É difícil dizer se estou percebendo que isso pode ser o fim ou se ele está apenas esperando pelo intervalo.

“Albe realmente ama bater instrumentos musicais. E ela tem um olho para olhar a luz e perceber. Fico feliz em dizer que há fortes sinais de que existe uma alma artística lá.”

Eu estou querendo saber se seu massagista tem superpoderes remotos. Também me relaxou. Clayton é o mais sofisticado sândalo. Não te dá um soco. dá-te um abraço reconfortante.

Perdeu a segunda parte da entrevista? Leia aqui!

A quarta e última parte você confere amanhã.


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