Bono sobre seu encontro com a morte: "Foi bem grave" | U2 Brasil
2 de outubro de 2018 · Bono · eXPERIENCE + iNNOCENCE Tour
Bono sobre seu encontro com a morte: “Foi bem grave”
VickyPostado por Vicky

Na segunda parte da entrevista para a revista britânica Sunday Times, Bono fala sobre o momento político do show, a ONE Campaign, seu encontro com a morte e o futuro do U2.

Há uma parte do show que vimos um filme mostrando cenas dos confrontos neonazistas em Charlottesville. A profanação e reconstrução do sonho americano. Isso ele me diz será reestruturado para os shows europeus. Como ele acha que as imagens nazistas vão funcionar na Europa quando começar a turnê em Berlim?

“Nós iremos repensar isso, mas há muitos nazistas agora na Europa. Acho que podemos repensar isso com a mesma espinha dorsal”. Na verdade, eles decidem começar os shows europeus com o discurso de Charlie Chaplin no filme “O Grande Ditador”. “Os ditadores se libertam, mas escravizam o povo! Agora vamos lutar para cumprir essa promessa! Vamos lutar para libertar o mundo – para eliminar as barreiras nacionais”.

“De muitas maneiras é um show baseado em uma narrativa. Esta é a nossa história”. O show é pessoal e político. Nos Estados Unidos, pretendíamos aglutinar o centro e trazer ambos os lados para um terreno comum, com um olhar como forasteiros para os Estados Unidos que eles não pretendem criticar. Mas levantamos um espelho e foi oportuno para o que estava acontecendo lá e então. Na Europa há um assunto diferente. É a casa deles e a inspiração. É o que os fez e é onde eles, suas famílias, seus amigos vivem suas vidas. É claro que eles farão declarações sobre a ascensão da extrema direita. Essa é a tradição deles. Rock n roll com uma consciência.

É claro que esse show parece ser sobre a vida real de Bono, sobre a rua que ele cresceu e etc, mas é uma metáfora para todas as suas vidas. É a sua voz que carrega as suas histórias. Ele fala por todos os quatro, entrelaçados em uma voz singular. Bono é o conduíte e o para-raios, mas é sobre todas as suas experiências. Eles são o U2. Eles são uma banda. Não é o show de Bono, embora ele seja um showman extraordinário.

“Uma das histórias que nós contamos sobre nós mesmos é sobre o nosso país. Os países não existem, são desenhados. Parte da chegada, da junção da eXPERIENCE + iNNOCENCE é perceber que a história pode mudar o que estamos testemunhando nos Estados Unidos agora, e que ela está sendo rescrita com tons mais escuros. Estamos aqui em busca da América, numa época em que a América está em busca de si mesma. Aconteceu algumas vezes ao longo da vida do U2, mas estamos à procura do mesmo país.”

U2 e Bono especialmente sempre estiveram próximos do sonho americano e daqueles que o sonharam. Bill e Hillary Clinton não foram apenas convidados para o seu “castelo”, onde ele assinou a parede – eu vi lá. A+B = uma cama para C. Mas apenas na outra semana Bono foi visitar Bush aparentemente?

“Eu fui, visitei o 44º presidente na semana passada. Se você trabalha com as pessoas, não se limita a cortar as pessoas. Ainda estou próximo a Obama (ele ainda não ficou em seu castelo), mas ele, sua esposa e seus filhos estiveram no nosso pub local.”

“Não gosto de pensar no meu relacionamento com essas pessoas como comércio. Eu gosto de pensar que tendo passado por algumas coisas juntos, ficamos juntos mesmo quando estamos fora do escritório.”

“Eu visitei George Bush em seu rancho. Ele gastou 22 milhões de dólares em medicamentos anti-retrovirais e tive que agradecê-lo por isso.”

Na semana anterior, ele também havia se encontrado com o vice-presidente Pence, porque em algum momento ele estava envolvido no PEPFAR (sigla que representa o The United States President’s Emergency Plan for Aids Relief, plano apoiado pelo presidente dos Estados Unidos com ajuda do gabinete especial que visa o combate à AIDS em todo mundo). Ele ajudou?

“Bem, nós não tivemos os cortes cruéis que o governo havia proposto. Eu teria que dizer que o Congresso desempenhou um papel maior nisso.”

E sobre aquele laranja? “Eu sou sábio o suficiente para saber que qualquer frase com o nome dele se tornará uma manchete, então eu simplesmente não uso o nome dele. Não é nada pessoal. É só se você pode sentir que pode confiar em uma pessoa com quem vai entrar nesse nível de trabalho. Muito dos meus amigos de esquerda duvidaram que eu pudesse trabalhar com George Bush, mas ele veio com Tony Blair e Gordon Brown – veio de uma forma que mudou o mundo no desenvolvimento. Se eles não tivessem feito do desenvolvimento uma prioridade, outros presidentes não o teriam feito. Eles fizeram da vida dos mais pobres uma prioridade para as nações ricas. 45 milhões vão para a escola por causa do cancelamento da dívida.”

E o laranja? Ele está com o seu plano? “Não, ele está tentando cortar todas essas coisas no momento, e é por isso que eu não quero estar perto dele. Se ele abaixasse o machado, talvez pudéssemos trabalhar com a administração dele. Mas não podemos fazer isso  com a espada de Dâmocles pendurada.” [A lenda da espada de Dâmocles nasceu na Grécia há 2400 anos. É uma metáfora do perigo que se corre na busca do poder, que foi relatada pelo escritor Ovidio.]

Nós falamos sobre Ivanka Trump e Bono diz, “Não tenho dúvidas de que ela tem a intenção de tentar promover o debate sobre igualdade de gênero.”

Assim como o próprio Bono. Em um das partes do show há uma tela dizendo “A Pobreza é Sexista”. O show acontece essencialmente em uma rodada. Uma espécie de gaiola, que às vezes também engloba a banda, é usada como uma tela para um filme de Anton Corbijn, onde em seu poderoso filme em preto e branco, vimos crianças indo à escola, tomando seu café da manhã, usando capacetes do exército. Uma nação, um mundo em guerra onde as crianças estão em perigo.

“Nós começamos a campanha ‘A Pobreza é Sexista’ há alguns anos, antes do movimento #metoo. Nós estávamos recebendo mensagens de nossas filhas. Você não pode resolver os problemas do mundo usando metade do poder cerebral disponível. Ele trabalhou de forma próxima a Harvey Weinstein (produtor cinematográfico cuja as acusações recebidas contra ele por assédio deflagraram ações que acabaram por balançar a mídia e também o movimento #metoo de mulheres ao redor do planeta) durante o filme ‘Mandela’ (2013), pelo qual ganhamos um Globo de Ouro de melhor canção por ‘Ordinary Love’”.

“Ele fez um ótimo trabalho para o U2. Minhas filhas são muito implacáveis a esse respeito, sempre que eu fico filosófico, elas me dizem: ‘não é a sua hora de falar sobre isso’.”

Eu não sei dizer se é tristeza que eu vejo em seus olhos ou apenas cansaço, mas ainda há otimismo, ainda há soluções.

“Há algumas instituições que tem mantido o mundo em balanço, como a ONU, a União Europeia, o Instituto Breton Woods, o Banco Mundial, o FMI. Todos eles, qualquer que seja sua posição em relação a qualquer uma delas, você tem que concordar que há uma transformação completa das normas institucionais, bem como dos comportamentos internacionais. Seja você um artista, um economista ou um eleitor, você não pode se interessar. Pelo menos depois do Brexit, as pessoas estão discutindo, educando-se.”

Não é esmagador ser tão otimista? “Não, eu sou cauteloso. Muitas pessoas no Estados Unidos estão de luto após a última eleição. Uma morte aconteceu. Uma morte de sua inocência. E minha atitude em relação a isso é que não há problema em acordar dessa visão ingênua do mundo em que achamos que o espírito humano evoluiria naturalmente e o mundo se tornaria mais justo. Em 10.000 anos não há evidências que há um movimento de irmos em frente.

Foi o Dr. King quem disse que o arco moral do universo é longo, mas se inclina para a justiça. Nós não vemos evidências disso. Eu quero acreditar que é verdade, mas na minha vida nunca houve um momento como este em que você realmente acha que a democracia não é uma dádiva.”

Nós falamos de mães separadas dos bebês quando elas cruzam a fronteira e esta ação é apoiada por citações bíblicas. “A One Campaign luta contra a injustiça da pobreza extrema. As pessoas não chegam à fronteira arriscando a vida e a integridade física sem um propósito real. Nós somos pessoas irlandesas que eram refugiados econômicos. Nós flutuamos pela Estátua da Liberdade. A ideia de que pudéssemos ser separados dos nossos filhos quando saíssemos dos barcos…você poderia dizer que a União Europeia foi uma invenção da América. Se você pensa sobre o pós Segunda Guerra Mundial, isso foi um investimento em proteger e unificar a Europa, porque os americanos eram inteligentes. O general George C. Marshall teve a sabedoria em investir porque, se conseguíssemos, poderíamos comprar os seus produtos.”

Os shows da iNNOCENCE + eXPERIENCE são de fato sobre o pesar político e pessoal. Em um minuto você tem Bono saltando pelo quarto com as tampas trazidas pelo serviço de quarto e no outro ele está profundamente triste.

Ele disse que o poeta Brendan Kennelly disse que ele tinha que escrever todas as músicas como se já estivesse morto?

“Sim, imaginar-se livre de ego ou preocupações sobre o que as pessoas pensam de você.”

Foi sobre a sua experiência de quase-morte? Com isso eu estou relembrando sobre ter uma operação de 5 horas em novembro de 2014, depois dele ter quebrado o braço em 5 lugares e ter ferido seu globo ocular. No final do ano passado ele estava gravemente doente.

“Quer dizer, eu não quero falar sobre isso, mas eu tive um momento importante na minha vida recente, onde eu quase deixei de existir. Estou completamente mais forte do que nunca.”

Ele está falando sobre isso, como se tivesse uma decisão. Será que ele teve uma escolha, se ele poderia passar por isso ou não?

“Não, eu não tive. Não foi uma decisão. Foi bem grave. Eu estou bem agora, mas eu quase não estaria.”

Não é à toa que isso tenha mudado o curso de suas canções, tanto daquelas que falam sobre mortalidade, as outras que são cartas para seus filhos e esposas, reflexões, conversas com seu eu mais jovem sobre como as coisas poderiam ter sido, deveriam ter sido.

“Curiosamente eu já estava no caminho da escrita sobre a mortalidade. Ela sempre esteve no plano de fundo.”

Claro que sim, e como poderia não ser? Ele tinha 14 anos quando a sua mãe morreu. Iris teve um aneurisma fatal em um funeral de família. Ele sempre gostou de salientar quantos deuses do rock perderam a mãe como John Lennon Inicialmente, ele e Larry se uniram pois tinham a morte de suas mães em comum. Estava sempre no plano de fundo.

“E então isso virou primeiro plano.”

Ele teve uma premonição do que iria acontecer? “Não, mas eu tive um monte de avisos. Alguns socos justos ao longo dos anos. ”

Como cair da bicicleta? “Esse foi uma deles. Havia alguns sussurros sérios nos meus ouvidos que eu deveria ter tomado conhecimento. The Edge diz que eu olho para o meu corpo como se ele fosse um inconveniente e eu o faço. Eu realmente amo estar vivo e eu sou muito bom em estar vivo, o que significa que eu gosto de tirar o melhor de qualquer dia. A forma como eu sou criado como um artista é que eu não vejo as músicas como sendo arte ou como estando em uma banda. Eu vejo a vida como sendo o que você se expressa através. Eu certamente tenho um vigor renovado porque era um impasse. Foi a primeira vez que eu coloquei meu ombro na porta e ela não abriu. Eu sempre fui capaz de fazer isso e agora eu sinto que Deus sussurrou para mim. Da próxima vez tente bater na porta ou apenas tente a maçaneta. Não use seu ombro, porque você vai quebrá-lo.”

E isso teve um impacto em coisas práticas como a turnê?

“Sim. Eu não posso fazer tanto quanto costumava. Nas turnês anteriores eu podia conhecer cem congressistas entre os shows e depois dos shows e agora eu sei que não posso fazer isso. Essa turnê é particularmente exigente e exige que eu me prepare para isso diariamente, que eu me concentre nela diariamente, que eu me concentre nele para que eu possa me entregar completamente. É por isso que esses shows são ótimos. Eu me preparo para isso e minha voz é mais forte do que tem sido. Você já ouviu falar sobre o livro de Michael Gladwell ‘10.000 hours’?”

É sobre você ter que colocar 10.000 horas de trabalho em algo para ser bom nisso?

“Acho que acabamos de chegar a 10.000 horas. Não é genial. São apenas 10.000 horas. Eu ainda não as alcancei, mas a banda já. Eles estão no auge. Logo no início estávamos bem, digo que até ótimo, mas eu não achava isso, e eu provavelmente era o mais fraco, mas eu era o frontman. Eu poderia agarrar a atenção para mim. Eu poderia impulsionar as músicas. Eles entregaram as 10 mil horas e estão em outro nível agora. Mas ninguém vai me dizer que eles viram o U2 em outra turnê e eles estavam tocando melhor. Não vai acontecer.”

Talvez seja porque ele esteja com uma sensação de conclusão, que não pode ser melhor. Se você começa seu show com uma ressonância magnética e termina sozinho no palco com uma lâmpada solitária, a metáfora é entrar e sair do mundo sozinho. Ele tem 58 anos, mas talvez ele tenha vivido sua vida em anos de cachorro.

“Todo mundo chega a este lugar. Se você tem um confronto com sua própria mortalidade ou alguém próximo a você, você vai chegar a um ponto em sua vida em que você faz perguntas sobre para onde está indo. Isso significa que esse é o pico? Não haverá outra turnê do U2 depois disso? ”

“Eu não sei. Eu não coloco nada como garantido. O U2 neste momento com essas canções, com essas cartas de amor, é um dos nossos melhores trabalhos e eu não tenho certeza se isso é o tipo de coisa que possa ser dito sobre muitas pessoas que estão por aqui há tanto tempo.”

Bono sempre viveu com o medo de que o U2 fosse visto apenas como uma banda que apresentasse a sua herança, com grandes turnês. No ano passado eles fizeram a turnê em comemoração aos 30 anos de The Joshua Tree, mas eles não tocaram apenas os hits, mas sim todo o álbum.

“Era como se a gente nunca tivesse gravado o álbum. Como se as tivéssemos selecionados naquele ano. Não há problema em reconhecer o trabalho que você fez e respeitar, mas se isso for o melhor que podemos fazer, não seremos uma atração recorrente.”

Ele me disse que um crítico disse “estar em um show dos Stones faz as pessoas se sentirem bem, mas estar em um show do U2 faz as pessoas se sentirem bem com a pessoa que está ao lado delas”.

Eu digo a ele que a alegria de estar em um show do U2 é que isso faz você se sentir quem você é. As músicas e visuais esticam seu intelecto, além de desdobrar suas emoções.

Ele volta ao seu apocalipse pessoal e eu me pergunto se seu eu mais jovem ficaria desapontado com seu eu mais velho.

O seu eu mais novo, teria aprovado que o álbum “Songs Of Innocence” fosse dado de presente a todo mundo no iTunes? Algumas pessoas gostaram mais do que as outras?

“Nós estávamos experimentando. A intenção foi sermos generosos. Eu não tenho certeza se meu eu mais jovem aprovaria onde eu estou. Eu não tenho certeza se meu eu mais jovem aprovaria o que eu tenho, mas eu gosto de pensar que se o meu eu mais jovem parasse de dar um soco no meu rosto, meu eu mais novo veria que eu realmente me mantive fiel a todas as coisas que eu mais jovem acreditava. Eu ainda estou em uma banda que compartilha tudo. Não estou apenas esclarecendo situações problemáticas, mas tentando fazer algo sobre elas. Eu ainda tenho minha fé, eu ainda estou apaixonado, eu ainda estou em uma banda. E quanto ao seu eu mais jovem?”

Meu eu mais jovem diria que você fodeu na vida, você fodeu no amor, você amou todas as pessoas erradas em todos os momentos errados, você foi mal e destrutivo, mas ei, você está em uma cobertura com o Bono. Meu eu mais jovem seria, yah, você fez isso!

Palavra final de Bono: “Você deveria ser a vocalista desta banda.”

Perdeu a primeira parte da entrevista? Leia aqui!

A terceira parte você confere nesta sexta.


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