Rolling Stone: U2 ignora seus sucessos para ressuscitar suas canções obscuras | U2 Brasil
3 de maio de 2018 · eXPERIENCE + iNNOCENCE Tour
Rolling Stone: U2 ignora seus sucessos para ressuscitar suas canções obscuras
VickyPostado por Vicky

O U2 teve que encarar uma grande decisão quando a The Joshua Tree Tour 2017 terminou no ano passado. O grande espetáculo em estádios – que contou com a execução na íntegra do seu álbum de 1987, e arrecadou 316 milhões de dólares em apenas 51 shows – poderia ter se tornado um modelo muito lucrativo e fácil para projetos futuros. Por que trabalhar no estúdio por anos a fio para produzir um novo álbum, quando a maioria das pessoas só quer ouvir as músicas antigas e lembrar de sua juventude? Por que não se submeter ao mesmo destino de quase todos os outros grupos de rock veteranos da história e simplesmente desistir do movimento para frente?

A noite de abertura para a sua eXPERIENCE + iNNOCENCE no BOK Center em Tulsa foi a prova conclusiva que eles decidiram seguir um caminho muito mais difícil, um que é muito mais difícil de se manobrar, mas é muito mais interessante e menos previsível. O melhor exemplo disso é a lista de músicas que eles não tocaram no show, que inclui: “New Year’s Day”, “Bad”, “Mysterious Ways”, “I Still Haven’t Found What I’m Looking For”, “Bullet The Blue Sky”, “With Or Without You”, e, surpreendentemente, “Where The Streets Have No Name” ou qualquer outra de The Joshua Tree. Essas músicas têm sido a espinha dorsal das suas performances ao vivo por décadas. Algumas delas não chegaram a ser esquecidas nem ao menos uma vez desde as datas nas quais foram lançadas, e agora eles lançam tudo ao mar e constrem um conjunto novo com o que restou.

Paradoxalmente, estes novos shows de diversas formas são a continuação da turnê que aconteceu há três anos, iNNOCENCE + eXPERIENCE, a ponto de até mesmo utilizar o mesmo palco que separa a arena em duas metades, com uma tela imersiva, na qual a banda entra, literalmente. Há também um bloco de sete músicas na primeira metade (“I Will Follow”, “Iris”, “Cedarwood Road”, “Song For Someone”, “Sunday Bloody Sunday”, “Raised By Wolves”, “Until The End Of The World”) que segue praticamente ponto a ponto a mesma ordem da turnê anterior. E embora os fãs mais hardcore possam reclamar dessa repetição, eles devem se lembrar que a turnê atingiu apenas a 10 cidades norte-americanas e muitas pessoas não conseguiram vê-la. Também, é um segmento primordial porque mostra a infância turbulenta de Bono enquanto ele encarava a morte da sua mãe em meio a horrenda violência política em torno da sua cidade natal, Dublin. Removê-lo significaria arrancar o coração do espetáculo.

Antes de tudo isso, a noite começou com Bono parado sozinho no meio de uma parede de vídeo translúcida cantando “Love Is All We Have Left”, a música que abre Songs Of Experience. Esse foi o grande momento no qual os fãs foram convidados a pegar os seus celulares e assistir através do novo aplicativo da banda um momento de realidade aumentada. E enquanto a imagem gigantesca e fantasmagórica de Bono no seu celular parecia bem legal, o mais legal ainda é que ela drenava sua bateria com uma velocidade impressionante, um encorajamento para se afastar do seu celular pelo resto da noite.

O resto da banda então tomou o palco para uma explosiva versão de “The Blackout,” que sempre foi destinada a ser a grande música ao vivo de Songs Of Experience. “Lights Of Home”, Beautiful Day” e “All Because of You” a seguiram, preparando o terreno para a parte da noite dedicada a Songs Of Innocence, onde Bono explora o seu próprio passado, levando o público em sua viagem da inocência à experiência. E mesmo que as pessoas não sigam a intrincada e cuidadosamente coreografada história que ele está contando, ainda funciona como uma fabulosa sequência de músicas.

A história de Jesus e Judas em “Until The End Of The World” encerra o primeiro segmento da noite, e o grupo desaparece enquanto uma gravação de “Hold Me, Thrill Me, Kiss Me, Kill Me” (que ainda é a melhor parte do terrível Batman Forever) torna-se a trilha sonora de uma série de imagens em quadrinho no telão, mostrando a jornada da banda rumo à experiência como se fossem super-heróis. Eles retornam para um golpe de três músicas “Elevation”, “Vertigo” e “Desire”, que deixa a multidão toda ouriçada antes de Bono começar a falar com a voz familiar de Mr. Macphisto, seu alter-ego diabólico da Zoo TV de 1992/1993.

“Eu não vejo esse cara há um bom tempo”, disse Bono. “Eu tenho sido um diabinho ocupado. Mas você tornou tudo muito mais fácil para mim hoje em dia… A verdade está morta e os KKK estão nas ruas de Charlottesville sem suas fantasias bobas. Quem teria pensado? Quando você não acredita que eu existo, é quando eu faço o meu melhor trabalho”.

O que aconteceu depois foi um momento direto dos sonhos mais loucos de incontáveis ​​fãs do U2. Eles finalmente tocaram “Acrobat”, a única música de Achtung Baby que nunca foi tocada em público uma única vez. (Temos que aceitar um pouco de crédito, já que imploramos à banda para fazer isso quase toda vez que falamos com eles nos últimos anos.) “Acrobat” foi escrita na época em que o Muro de Berlim caiu, mas funcionou perfeitamente na era de Trump com linhas como “Nada faz sentido / Nada parece se encaixar” e “Não acredite no que você ouve / Não acredite no que vê.” Pode ter sido uma pausa no banheiro para alguns na platéia, mas para os fãs que passaram dias esperando na fila para o melhor lugar possível no andar da GA, foi um momento de pura exaltação e choque absoluto, presumindo que eles evitassem spoilers da banda durante os ensaios em Montreal.

O show ficou mais interessante e menos previsível a partir daí. A despojada “You’re The Best Thing About Me” (com Larry Mullen Jr. nos bongos) deu lugar a um acústico “Staring At The Sun”, não tocada desde 2001 e um reconhecimento raro no palco que Pop é uma coisa que aconteceu . Foi acompanhado por imagens perturbadoras de neonazistas que agitavam suásticas e bandeiras confederadas em Charlottesville no ano passado. Não mencionado foi Donald Trump e sua afirmação de que havia “algumas pessoas muito boas em ambos os lados” dessa escaramuça, mas não precisava ser dito. A sequência também deu um novo significado a frases como “Deus é bom, mas ele vai ouvir” e “viveremos em paz”.

Os sucessos da década de 1980 definitivamente não eram a pedida da noite, mas a banda ganhou o direito de tocar “Pride (In The Name Of Love)” depois disso. Eles fizeram isso de uma maneira inovadora com todos os quatro membros da banda estacionados nos quatro cantos da arena, enquanto imagens de Martin Luther King Jr. marchando pela paz passavam na tela junto com imagens de ativistas modernos contrariando o ódio em Charlottesville. “Cante conosco, Tulsa”, disse Bono. “Um coração pulsante da América batendo alto hoje à noite com uma força que o resto do mundo pode não entender, mas nós entendemos. Os irlandeses entendem que a divisão é muito mais fácil que a união e que o compromisso é muito mais difícil do que fechar os olhos, então cante com nós garotos irlandeses. Eu soube que o sonho americano é aquele que você não pode ter quando está dormindo, então esta noite estamos sonhando com os olhos bem abertos… O sonho americano ainda está viva aqui esta noite em Tulsa.” É assim que você desenha um significado de uma música antiga que não é apenas uma nostalgia fácil.

O set principal foi embalado com as músicas de Songs Of Experience “Get Out Of Your Own Way” e “American Soul” (ambas muito mais poderosas no palco do que no disco) e “City Of Blinding Lights”, outra música do século 21 em um slot geralmente ocupado por um velho cavalo de guerra. Slogans feministas como “A pobreza é sexista”, “Nós podemos fazer história heróica”, encheram as telas antes que a banda iniciasse a sessão de bis com o corte profundo de Achtung Baby “Who’s Gonna Ride Your Wild Horses”, que eles não tocavam há 12 anos. Ela foi seguido por “One”, “Love Is Bigger Than Anything In Its Way” e “13 (There Is A Light)”, durante o qual Bono encontrou uma mini réplica de sua casa de infância no final do palco B que abriu até revelar uma única lâmpada em uma corda suspensa no teto. É exatamente assim que os shows da iNNOCENCE + eXPERIENCE 2015 começavam, trazendo todo o círculo dos negócios.

É provável que alguns fãs tenham saído da arena reclamando que eles não conseguiram ouvir seus sucessos favoritos, mas é difícil se sentir mal por eles, considerando que a última turnê não era nada além dos clássicos e todas as turnês anteriores a isso estavam cheias deles. Este foi o momento perfeito para fazer isso. Vamos apenas esperar que o grupo tenha coragem de se ater a este plano e não se render a “With Or Without You” ou “Where The Streets Have No Name” em datas futuras. Por melhor que essas músicas sejam, elas foram tocadas muitas vezes e o grupo tem muito mais a oferecer. E agora que finalmente conseguimos “Acrobat”, podemos ousar sonhar em conseguir “Drowning Man” ou “Lady With The Spinning Head”? Ouvir essas mega raridades parecia impossível antes, mas depois desta incrível noite de abertura quase tudo parece possível.

+ Confira o setlist, fotos e vídeos do show

Fonte: Rolling Stone


Compartilhar notícia

  • 664
  •  
  •  
avatar
  Inscrever-se  
Notificar-me de