Sobre a nova versão de "Beautiful Day" - a genialidade de uma banda em constante inovação | U2 Brasil
Sobre a nova versão de “Beautiful Day” – a genialidade de uma banda em constante inovação
Postado por VictorRuyz
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Quando anunciada uma turnê em celebração aos 30 anos de “The Joshua Tree”, muito se falou sobre como seria montado o setlist. Por fim, notou-se que as músicas foram escolhidas em uma forma de cronologia (ok, nem sempre a cronologia é fidedigna). E para “Beautiful Day”, um dos grandes hinos desse século – o início da era da tecnologia –, abusou-se de uma modernidade imensa. À época do álbum que carrega o título da tour, não se usava tantos apetrechos tecnológicos. Um modo simbólico de mostrar que a banda, assim como o mundo ao seu redor, permanece em constante adaptação e, mesmo mudando a textura de suas músicas, mantém sua essência em ser gigante.

A introdução – nesta tour, sendo bastante estendida, soa como um prelúdio para o novo milênio – já é carregada dos mais belos efeitos que seriam possíveis adotar em uma turnê de tão grande porte. São luzes e cores das mais variadas. Um brilho a mais para a “Joshua Tree” (neste momento do show, vemos o telão, assim como a famosa árvore, ganharem novas cores. O U2 muda de ambiente, mas carrega consigo, para novos tempos, o passado). Caminham para o futuro, sem esquecer a história pela qual passaram. Os garotos que uma vez alcançaram o topo do mundo, hoje são homens que se mantiveram no topo – mesmo que hoje o mundo seja domado por outros tantos garotos.

A “Joshua Tree”, por trás do quarteto acima do palco, pode ser uma representação simbólica da passagem entre a inocência e a experiência (iNNOCENCE Tour e a futura eXPERIENCE Tour).

E então, o ato mais surpreendente de todos. Antecedendo a ponte, “See the world in green and blue…”, há um espaço instrumental. Depois do primeiro show em Vancouver não foi possível compreender direito a causa dele. Mas conforme aconteciam os shows posteriores, ficou claro que esse espaço serve para Bono “cantarolar” das mais diversas músicas de diversos artistas – os famosos “snippets” sempre presentes nos espetáculos do U2.

Por ser uma das maiores bandas do planeta, a exigência que o U2 tem para consigo mesmo pode soar estranha. Aliás, quando você é imenso tal qual essa banda, o que é “bom o suficiente”? E como você luta contra a síndrome de dinossauro, que atinge várias bandas (não precisamos citar nomes) – artistas veteranos que sobrevivem com hits do passado, enquanto suas novas canções são ouvidas apenas no intervalo para ir ao banheiro? É uma síndrome da carreira musical com a qual o U2 luta – e sai vencedor – constantemente contra.  O custo é a longa demora para se finalizar novos trabalhos.
Tradução livre de recente publicação do site Variety

A cada show, o vocalista parece escolher um trecho que faça parte do contexto do momento/da cidade.

Por exemplo, no festival Bonnaroo, Bono cantou o refrão de “Under the Bridge”, do Red Hot Chilli Peppers. A banda em questão seria atração principal no dia seguinte do festival.

Em Seattle, cantou um trecho da banda Pearl Jam; em Massachusetts, “Dream On”, do Aerosmith.

Em New Jersey, cidade que ganhou um mural de David Bowie no ano passado, e cuja estrutura externa é ilustrada pelo brasileiro Eduardo Kobra, Bono cantou “Starman”.

No último show dessa leg pela américa do norte, em Ohio, Cleveland, a banda tocou um trecho de canção do The Pretenders. A fundadora, e vocalista da banda, Chrissie Hynde, nasceu em Ohio.

Vale destacar que o tempo deixado antes da ponte começar é perfeito para que seja feito o snippet de qualquer canção que Bono deseje. Para uma banda que usa snippets como artifício para trazer um detalhe a mais para os shows, essa mudança em “Beautiful Day” soa bem atraente.

Talvez a banda tenha a percepção de que simples trechos de outras músicas podem trazer das mais variadas lembranças ao público presente nos espetáculos. Lembranças que podem tornar um dia conturbado em um dia lindo. E é esse o poder da música.  

Mas não é só isso. Após o snippet ser feito, a mudança mais radical. Com efeitos eletrônicos, a ponte é cantada por vozes com efeitos “robóticos”. Nada melhor para celebrar o novo milênio, não?

A intenção, provavelmente, era que essas vozes robóticas cantassem, sozinhas, a ponte durante todos os shows. No primeiro show, Bono só cantou “After the flood, all the colours came out”; no segundo, cantou um pouco antes… a partir do terceiro show, começou a cantar praticamente todos os versos (de modo que esconde um pouco essas vozes especiais) – sabemos que o baixinho é um tanto ansioso!

O fato é que, mais uma vez, como sempre, a banda surpreende e inova o que já achávamos inovador o suficiente.

Por João Victor M. Ruyz.


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