Especial Boy 40: A banda de cozinha
Especial Boy 40: A banda de cozinha
02 de junho de 2020
Especial Boy 40: A banda de cozinha
Em nosso primeiro post do especial sobre os 40 anos do primeiro trabalho de estúdio do U2, vamos relembrar como a banda se encontrou num sábado de 1976.
Vicky
Editora do U2 Brasil

Há 40 anos um bando de garotos entrou em um estúdio de Dublin para colocar a sua rebeldia adolescente, vontade e medo de crescer, esperanças e medos em 11 faixas.

Não daremos spoiler porque vem por aí material muito mais do que especial sobre o aniversariante. Boy foi lançado em 20 de outubro de 1980. Gravado no lendário – e agora com o seu prédio original demolido – Windmill Lane Studios na capital irlandesa, contou com produção de Steve Lillywhite (que já tivemos a honra de entrevistarmos aqui para o site). Na ocasião do seu lançamento, teve como a mais alta posição nas paradas o número 63, mas depois, quando a banda atingiu sua fama, ele voltou não apenas a figurar nas paradas mas também a ser considerado um dos melhores trabalhos de estreia de uma banda, sendo inclusive considerado um dos 100 melhores em levantamento da revista britânica Uncut.

E para abrir o especial, vamos literalmente para onde tudo começou: a reunião da banda.

Em 1972, surgia em Contarf a Mount Temple Comprehensive School, com uma nova mentalidade dentro da sociedade de Dublin. Vinda da união entre outras instituições: Mountjoy School, Hibernian Marine School, Bertrand e Rutland High School for Girls, o novo espaço educacional chamava a atenção dos jovens da cidade por ter uma atitude mais progressista, que apesar de ter raízes em princípios protestantes visava acolher aos estudantes dentro de uma visão mais inclusiva, unindo garotos e garotas em uma educação focada em incentivar a formação não apenas intelectual mais de caráter com incentivo a artes, leituras diversas dentre outros pontos.

E foi essa escola que acabou por unir quatro jovens vindos de diferentes origens, mas que acabaram por se encontrar por causa de um agora lendário cartaz.

Larry Mullen desde muito jovem teve a música presente na sua educação, tendo sido o piano seu primeiro instrumento, mas logo entediado, migrou para o estudo da bateria, ganhando seu primeiro instrumento como presente da sua irmã Cecília. Após a morte do seu professor de bateria Joe Bonnie e de ter abandonado as aulas por nem se acostumar com o método da filha e sucessora do seu antigo tutor, Larry passou a estudar sozinho até que seu pai permitiu que ele ingressasse na Artane Boys’ Band, uma banda militar. Foi o pai que também decidiu que Larry passaria a frequentar a Mount Temple, já que viu naquela instituição vários cursos diferenciados e que poderiam proporcionar uma profissão ao garoto, que não era um entusiasta dos livros. Como Larry adorava tocar e a escola tinha um curso de música, pensou que seria uma ideia desenvolver essa habilidade.

Larry havia sido incentivado pelo seu tutor Colm McKenzie a montar uma banda, mas como fazer isso? De uma maneira tímida e despretensiosa: um anúncio no mural da escola (será que se fosse nos dias atuais iria rolar uma postagem em alguma rede social?).

Ninguém sabe exatamente o texto colocado no tal anúncio, mas se sabe que num sábado, 25 de setembro, no número 60 Rosemount Avenue, em uma cozinha do bairro de Artane, Paul David Hewson, David e Dick Evans, Adam Charles Clayton, Larry Joseph Mullen, Ivan McCormick e Peter Martin se reuniram.

Peter Martin era amigo de Larry, e aparentemente foi à primeira reunião da banda com o intuito de ser um futuro manager para aquele grupo que viria a se formar, já que pelo que consta não sabia tocar qualquer instrumento ou tinha qualquer pretensão musical. Foi o primeiro a deixar o grupo.

Ivan McCormick tinha apenas 13 anos e estudava em Mount Temple com os seus irmãos: Neil (que era colega de turma de Paul Hewson e David Evans) e Stella (que estava na mesma classe que Adam Clayton). Vendo o anúncio sobre a nova banda que poderia surgir e bem como o seu irmão apaixonado por música, e incentivado pelo personagem citado acima, Peter Martin, pegou a sua guitarra e decidiu que talvez aquele era o momento de seguir o seu sonho de rockstar.

Os irmãos Neil e Ivan McCormick durante a estreia do filme Killing Bono em 2011.

“Provavelmente eu tinha a melhor guitarra naquele lugar, uma cópia de uma Fender Stratocaster que eu tinha comprado no meu aniversário no ano anterior. Custou 55 libras em 1975, o que foi muito [...] A casa dos pais de Larry era uma típica geminada em um bairro residencial, na Rosemount Avenue. Lembro que a cozinha deles era pequena, mas mesmo assim estávamos amontoados em torno da bateria dele. Paul estava lá; Dave, Adam, Larry obviamente, eu e acho que o irmão de Dave também - Dick Evans. Usamos o amplificador Falcon de Peter Martin, que tinha quatro entradas, eu acho. Adam sem dúvida tinha seu próprio amplificador - ele estava muito à nossa frente em saber o que era o que se tratava de rock. Não me lembro do que tocamos - provavelmente o Bay City Rollers, eles eram enormes na época. Talvez um pouco de T-Rex. Talvez o Led. Sinceramente, não me lembro.” - Ivan McCormick

Ivan ficou dois meses apenas na banda, sendo dispensando por telefone por Adam Clayton que disse que ele não teria idade para entrar no pub onde a banda faria um dos seus primeiros shows. Hoje ele é casado, mora na Inglaterra e toca em algumas bandas de festas (com direito a execução de alguns covers do U2). Seu irmão Neil continuou próximo aos garotos de Mount Temple, virou crítico musical, escritor e além de ser um dos grandes nomes do jornalismo musical ainda é coautor da biografia oficial do U2, U2 by U2, lançada em 2005.

Paul chegou à reunião incentivado pelo seu amigo Reggie Manuel, Bad Dog, que inclusive o levou na garupa da sua moto para o encontro. “Quando todos diziam que eu devia ser vendedor, ele dizia: ‘Não. Você deve fazer outra coisa e esta pode ser a sua oportunidade.’ E eu disse que não faria aquilo, que não poderia de maneira alguma andar com aquela gente, porque eles não eram legais. E nunca teria ido, pois me encontrava numa fase de autoconsciência na minha adolescência. Tinha perdido toda a confiança em mim mesmo. Mas o Bad Dog disse: ‘acho mesmo que você devia ir. Eu te levo lá’. E assim fez. Apareci na casa do Larry, em Artane, sentado atrás na moto do Reggie. Acho que nem sequer levei a guitarra, porque não conseguia transportá-la na moto. Mas isso não queria dizer, de forma alguma, que eu iria cantar. Naquela altura, eu gostava era de guitarras. Devo ter achado que desenrascava com facilidade, que podia usar a guitarra de outro qualquer. Tinha de me armar em grande estilo e tentar causar boa impressão. Tinha ensaiado um pouco do solo Abraxas, do Santana. Pelo menos, pensava que seria capaz de o tocar até que o Edge o tocou e me soou bem diferente.”

“Durante cerca de dez minutos, foi a banda de Larry Mullen, para proteger meu ego. Além disso, estávamos na minha cozinha. Depois, apareceu o Bono e estragou tudo. Basicamente destruiu a minha oportunidade de ser líder.” - Larry

Dick Evans

Os irmãos Evans chegaram com a sua guitarra que eles mesmo haviam montado usando peças de outros instrumentos, e uma boa bagagem de conhecimento sobre os guitarristas que admiravam naquela época. Dick, ou Richard, era dois anos mais velho do que David. Segundo as lendas e memórias, foi o caçula o primeiro a responder o anúncio colocado por Larry na escola, sendo informado pelo seu professor de música Albert Bradshaw que um outro garoto estava procurando membros para formar um novo grupo. Dick já estava na faculdade, mas praticava constantemente com o seu irmão na guitarra amarela que havia construindo. Eles eram uma espécie de duo, porém o talento do mais novo chamava a atenção. Os dois ficaram na banda até que Richard acabou decidindo se dedicar a vida acadêmica. Hoje em dia ele é Engenheiro da Computação, tendo inclusive um doutorado pelo Imperial College de Londres.

“Não tivemos um começo lá muito promissor. Conversamos muito, éramos um grupo de pessoas tocando músicas que mal conhecíamos para tentar impressionar-nos mutuamente, na tentativa de perceber se tínhamos gostos musicais semelhantes. Era tudo muito primitivo, mas acho que conseguimos encontrar alguns pontos comuns. Todos gostavam do T. Rex e do Bowie. Eu devo ter tocado um tanto mal a música do Rory Gallagher e o Larry não ficou lá muito impressionado [...] Lembro-me de ter pensado que gostava de todos ali, que era o mais importante. Achava que eram todos legais.” - The Edge

Adam tinha algo de lendário já nos corredores de Mount Temple e também no seu visual. Ele ostentava um black power loiro, um interessante casaco, carregava um baixo, mas poucos sabiam se ele realmente sabia o que fazer com o instrumento que tanto gostava de mostrar por aí. Ele havia chegado a Mount Temple após ser expulso de alguns colégios internos e se considerava um garoto bem solitário até então. Ninguém sabe ao certo até hoje se Adam tocava bem ou não, mas ele parecia saber o que estava fazendo, tinha um instrumento ganhou não apenas a vaga na banda, mas também o posto de primeiro manager daquele estranho grupo.

“Não estava habituado a andar de ônibus, por isso, ir à casa de alguém assim foi algo de extraordinário. Lembro-me que os pais do Larry e a irmã, a Cecília, estavam lá e que ele tinha a bateria montada na cozinha. Não percebi se era o Larry ou os pais dele que nos estavam avaliando.” - Adam

E por fim, quem recebia todos esses - e que acabara de perder o papel de líder da banda: Larry Mullen (que até então não precisava ter o Jr. no seu nome). Certamente além de ser o anfitrião daquele encontro, o jovem com os cabelos louros era o que tinha uma exata noção sobre música sentado atrás do seu kit de bateria que soava extremamente bem com a acústica daquela cozinha. “Larry foi incrível, pois sabia tocar bateria muito bem e o som era fantástico. Quer dizer, tocar bateria na cozinha é como cantar no chuveiro", segundo Bono.

Apesar de não conhecer nenhum daqueles garotos, apenas pelos nomes nos corredores – especialmente de Bono – Larry se sentiu satisfeito. Eles funcionavam bem juntos.

“Eu não os conhecia nem eles me conheciam. Nunca me tinha passado pela cabeça enfiar quatro ou cinco estranhos num espaço para tocar música. Agora, tudo parecia possível. Quando terminamos o ensaio, agendamos logo um segundo ensaio.” - Larry

Achamos com certeza que essa foi uma decisão bem acertada, e vocês?

+ Junto a esse especial, temos trazido desde o início do ano entrevistas exclusivas com pessoas que foram importantes para o U2 no início da carreira. Você confere as já publicadas aqui.

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